Campos da gripe espanhola à Covid-19 — Defesa do lockdown da ciência ao Direito

 

 

Médico infectologista Nélio Arties, cientista da biologia Leandro Rabello e promotora de Justiça Maristela Naurath na semana do Folha no Ar (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Mãe de três filhos, Capitulina era ainda moça quando morreu naquele início de século 20. Em sua breve vida, foi uma intelectual que fazia tradução de revistas francesas ao português. Campista da gema, morava no entorno da praça do Santíssimo Salvador, em cima do prédio da Lira de Apolo. Apesar de competente boticário, função que na época equivalia a um misto de clínico geral e laboratório farmacêutico, seu marido, Francisco, não conseguiu salvá-la da gripe espanhola. Hoje mais conhecida por H1N1 e imunizada por vacina, estima-se ter matado até 100 milhões de pessoas no mundo, inclusive em Campos, entre 1918 e 1920. Foi a última pandemia enfrentada pela humanidade até 100 anos depois aparecer o Sars-Cov-2, vírus da Covid-19.

No correr desta semana avançando sobre a segunda quinzena de maio, como o novo coronavírus avançando sobre Campos, região, estado do Rio e Brasil, o programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, teve a chance de entrevistar três pessoas dedicadas, cada qual em sua área, a entender e combater a pandemia da Covid. O primeiro entrevistado sobre o assunto foi o médico infectologista Nélio Artiles. Na terça (12), ele alertou (confira aqui) sobre a necessidade de lockdown, do “fechamento total” em Campos e municípios vizinhos:

 

 

— O lockdown também vai acontecer em Campos. Eu acho que é inevitável. E qual é o critério? É estatístico, você observar a questão da internação, dos leitos que estão sendo utilizados. Isso são decisões que você tem que tomar. No Rio de Janeiro, quando você tem filas para internação, filas esperando a UTI, eu penso sinceramente que a atitude de demorar um pouco, a cada dia que demora, serão mais mortes que acontecerão. O lockdown tem que ser imediato na cidade do Rio de Janeiro. E aí você deve avaliar de acordo com o local, você deve ter a autonomia de cada gestor, a responsabilidade. O problema é que muitos gestores não têm essa responsabilidade, não têm bom senso. E aí a gente fica naquela: quem é que vai tomar a atitude pelo outro?

Adiante na entrevista, feita no sistema de home office pela Folha FM desde 30 de março, o médico infectologista falou da inutilidade de se fazer um lockdown em Campos, enquanto municípios vizinhos, como São Fidélis e São Francisco de Itabapoana, sequer fecham seus comércios. E de como a falta de responsabilidade do gestor contribui para agravar a crise na saúde. Ele citou o exemplo do presidente da República, Jair Bolsonaro, considerado pelo mundo como o pior líder de um país na gestão da pandemia da Covid-19:

 

Bolsonaro foi considerado o pior líder mundial no combate à pandemia da Covid-19 pelo jornal Washington Post e pela revista científica The Lancet (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

— O pior é que casos graves que acontecem em nosso entorno acabam sobrando para Campos. Não adianta. O lockdown da gente vai ficar quebrado pelos municípios vizinhos. Infelizmente, nem todos têm o bom senso de tomar a atitude. O ministério da Saúde vinha com o (Luiz Henrique) Mandetta numa linha. E por incompatibilidade política e de entendimento racional, se muda o ministro e entra o (Nelson) Teich. Que mantém a mesma linha, porque cientificamente ele tem que manter, não pode mudar. Mas aí o exemplo do gestor maior, que é o presidente, acaba atrapalhando muito essa questão dos outros gestores — apontou Nélio, na mesma terça em que foi anunciado que a Justiça havia determinado o fechamento do comércio em São Fidélis, irresponsavelmente mantido aberto pelo prefeito Amarildo Henrique Alcântara. Inspirado pelo presidente que quatro dias depois faria Nelson Teich, na sexta (15), pedir demissão do ministério da Saúde.

 

Até o final da manhã de sábado (16), o placar da disputa de Bolsonaro com seus próprios ministros da Saúde era de 14.817 brasileiros oficialmente mortos pela Covid-19, como os que superlotaram os cemitérios de Manaus (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Na quarta (13), o convidado do Folha no Ar foi (confira aqui) Leandro Rabello Monteiro, professor de biologia evolutiva da Uenf, à qual voltou após lecionar quatro anos na Universidade de Hull, na Inglaterra. Indagado se uma segunda onda da Covid-19 poderia ocorrer, como há suspeita de estar se iniciando na China e na Coréia do Sul, com base no que ocorreu com a gripe espanhola que matou Capitulina no começo do séc. 20, o entrevistado fez ressalvas do ponto de vista da ciência do início do séc. 21:

—  Uma coisa que os coronavírus diferem dos vírus Influenza, que é de uma outra família, é que a taxa de mutação dos coronavírus é menor. O que determina essas ondas de infecção é o parâmetro do R0, a medida de transmissibilidade média. Isso depende muito de quantas pessoas há doentes, quantas saudáveis, suscetíveis e quantas imunizadas. Essa imunização pode ocorrer porque a pessoa teve a doença e se recuperou, ou porque foi vacinada. Então, os epidemiologistas estão tentando fazer medidas para mudar esse parâmetro, para tentar evitar o espalhamento dessa doença, sem você ter a ferramenta da vacina. O número de doentes, suscetíveis e imunizados vai variando ao longo do tempo. É claro que você pode ter uma segunda onda. Mas, por enquanto, não tem nenhuma evidência que essa segunda onda seja de um vírus geneticamente diferente dessa primeira onda que está indo.

Mesmo se o Sars-Cov-2 não sofrer mutação, o que nada até agora indica, a questão do isolamento social ainda vai variar de acordo com a diminuição e o aumento do número de casos, para evitar o colapso dos sistemas de saúde do mundo. Foi o que Leandro explicou:

 

 

— Com o isolamento, as pessoas estão deixando de pegar o vírus agora e vão pegar mais para frente, numa segunda situação. É de se esperar que, com o isolamento sendo relaxado, você vá tendo outras ondas acontecendo. Mas se você não mudar grande coisa no vírus, o que parece ser por enquanto o caso, essas ondas não serão tão grandes assim. Mas vão acontecendo e esse isolamento tem que ser reimposto para você ter certeza de não sobrecarregar o sistema de saúde. Por isso os países estão pensando em relaxar, mas têm que ficar de olho para não sobrecarregar o sistema de saúde. Enquanto você não tiver como mudar a proporção de pessoas imunizadas, por vacinação, você tem que ficar fazendo esse controle para evitar o colapso.

Na sexta (15), a convidada do Folha no Ar foi (confira aqui) a promotora de Justiça Maristela Naurath. Ela é responsável do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) pela fiscalização da saúde em Campos, São João da Barra, São Fidélis e São Francisco. Até a manhã de sexta, dia em que vencia o prazo, nenhum desses governos municipais havia enviado ao MPRJ o estudo técnico pedido uma semana antes para endossar a decisão de cada prefeito em adotar ou não o lockdown. Que, na omissão dos gestores, a promotora planeja pedir na próxima semana para que seja determinado pela Justiça nos quatro municípios:

— Eu vou me basear tanto no estudo da Fiocruz (que, desde o último dia 6, alertou o governador Wilson Wiztel sobre a necessidade de decretar o lockdown em todo o estado do Rio), como outros, que foram disponibilizados pelo nosso centro de apoio operacional, para instruir uma ação solicitando ao Judiciário a adoção do lockdown. Temos recomendações do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e do Conselho Nacional de Saúde (CNS), instruindo para essa demanda. E tentaremos (na Justiça) uma decisão favorável. Vou levar em conta o percentual de ocupação de leitos, tantos ambulatoriais e de UTI, a inércia do poder público, o aumento geométrico do número de casos e a letalidade. Acho que na próxima semana a gente vai entrar num nível bastante crítico. Inevitável que os sistemas de saúde entrem em colapso e o sistema funerário também. A gente vê que as pessoas estão nas ruas, os comércios estão abertos. Então há necessidade de medidas mais drásticas, de fiscalização mais rigorosa. Para ter uma nova abertura, há a necessidade de que os índices de letalidade e de ocupação de leito melhorem. Temos que pensar o contrário: em isolar, em fechar, em lockdown.

Indagada sobre a perspectiva de 20% do total de infectados, que foram e serão obrigados a recorrer à internação, entrando em um hospital sem saber se sairão ou voltarão a ver seus entes queridos, a promotora revelou uma característica que falta a alguns governantes e suas seitas: empatia, capacidade de se colocar no lugar do outro. Assumindo-a, Maristela disse:

 

 

— É assustador! É assustador! Entrar no hospital com uma suspeita de Covid, olhar para os leitos ao lado e ver todas as pessoas sentindo os sintomas, a falta do ar, sendo levado para uma UTI e intubado, é uma perspectiva tão assustadora… É realmente muito complicado!… É difícil!… É difícil! É difícil! Não gostaria de estar no lugar dos médicos que estão ali, os enfermeiros, os técnicos de enfermagem, dentre outros que estão ali na ponta, correndo um sério risco de se contaminar, de estarem no mesmo lugar, ocupando o mesmo leito, passando pelos mesmos problemas… É uma emoção, uma emoção ruim!… Ah, me desculpa, é muito complicado isso — desabafou, visivelmente emocionada.

Capitulina deixou três filhos ao morrer precocemente em Campos. Filho do filho da sua filha mais velha, seu bisneto pensava nela desde que a pandemia da Covid chegou à mesma cidade, 100 anos depois da gripe espanhola. Sempre gostou de história e essa era a sua. Tentou lutar contra as sombras do obscurantismo, esterco em forma de pensamento e caráter de gente, fértil à propagação do novo vírus. E se descobriu também suspeito de o ter contraído. Pelas Capitulinas refletidas em olhos embargados de Maristelas, respirou fundo, deu graças por isso e seguiu em frente.

 

Publicado hoje (16) na Folha da Manhã

 

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Este post tem um comentário

  1. Juliano

    Gostaria de saber o que essas pessoas pensam em fazer para combater o desemprego, que gera fome, depressão, suicídio. Nada contra as medidas de distanciamento social, mas é fácil funcionários públicos concursados que trabalhando ou não vão ter o salário na conta no fim do mês. E nós desempregados? Como ficamos? Os números são confiáveis? Sinceramente, não sei mais o que pensar. As autoridades têm que se colocar no lugar de todos atingidos, sejam os infectados pela doença e os infectados pelo desemprego. Pois ambos matam.

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