Triste e dura realidade — Homeschooling na casa de Noca

 

 

Quinta-feira, noite de 26 de abril. Já se encaminhando para dormir, o moderador de um grupo de WhatsApp conceituado em sua cidade, por manter sua diversidade em tempos em que uma simples discordância é encarada como declaração de guerra, esta parece se formar. O assunto é educação das crianças em casa — homeschooling na casa de Noca:

Segue link para votação de Consulta Pública do Senado sobre o projeto que busca regulamentar a educação domiciliar. Vamos votar NÃO. A educação escolar é direito constitucional inalienável de crianças e adolescentes — encaminhou o link convocatório no grupo, às 21h57, a produtora cultural Eliana Montinho, de formação marxista.

— VOTANDO SIM DEZ VEZES E COMPARTILHANDO! — respondeu a jornalista Anita Ohl, assessora da secretaria de educação da cidade, reenviando outra mensagem pronta de WhatsApp em que formou sua opinião.

— Sem querer ofender… quem for não? Blz. Quem for sim? Blz. Não acho legal impor uma ideia! SOCORRO MODERADOR!!! KKK — opinou o advogado conservador Adriano Saraiva, presidente de um tradicional clube social da região.

— @Adriano Saraiva, penso que esse tipo de postagem não deveria estar aqui. Difícil ignorar — entrou na discussão a professora e sindicalista Eliete Matos, cuja foto no WhatsApp é uma foice cruzada com um martelo.

— Qual? A minha? — arguiu o conservador Adriano.

— Estou me referindo ao compartilhamento da proposta, ao meu ver, indecente —carregou no adjetivo a comunista Eliete.

— @Adriano Saraiva e @Eliete Matos, temperança — pediu um moderador convocado e sonolento.

— Essa é a questão! Dar o direito de quem deseja fazer, decidir por suas escolhas — concordou a jornalista Anita com o advogado Adriano.

— Lugar de criança é na escola. Somente isso — sentenciou a professora e sindicalista Eliete.

— Mas a escola não é onde a criança estiver? — filosofou a jornalista Anita.

— Censura? E se a educação familiar for suficiente? Discriminação? — entrou no papo o deputado estadual e delegado da Polícia Civil Hermínio Labruna, em questionamento a Eliete, já na madrugada de sexta.

— Posso fazer uma enquete? Quem é favorável é descriminalização da maconha? Vou votar contra! Vote NÃO! Posso compartilhar aqui? Só uma pergunta! — forçou na analogia o advogado conservador Adriano. Já se faziam avançados 7 minutos da meia-noite.

ZZZZZZZZZZZ…

— No reservado, @Hermínio Labruna teve a deferência de me informar que sua acusação de censura se deu ao comentário da @Eliete Matos, em debate com o @Adriano Saraiva. Aos quais, como moderador e já indo dormir, me ative a pedir moderação. Mas que trouxeram à tona, neles e em outros, opiniões reveladoras, da educação das crianças à… descriminação da maconha. Nos poucos mais de quatro meses que temos até o primeiro turno de 2 de outubro, os debates políticos se acirrarão ainda mais. Tento ter e manter neste grupo um termômetro da sociedade. Com todos os seus delírios e idiossincrasias, de lado a lado. Espero que, pelo menos neste nosso aquário virtual, não cozinhemos na ebulição — voltou o moderador ao grupo, às 10h22 da manhã de sexta, após ter dormido, acordado e indagado o deputado/delegado sobre sua acusação de censura.

— Sou totalmente a favor da regulamentação, e não da proibição, do homeschooling. Ao invés de tentarmos impor o proibicionismo absoluto, típico de um Estado altamente interventor inchado e autoritário, deveríamos pensar em critérios mínimos necessários e obrigatórios ao homeschooling e maneiras efetivas de se fiscalizar — entrou no debate o advogado criminalista Fábio Armond.

— Para começar qualquer discussão a respeito, um pouco de informação — entrou também no debate o ondontólogo conservador Alessandro Abud, postando link de matéria do G1 sobre o projeto de lei aprovado na Câmara Federal sobre a educação em casa.

— Decisão do STF a respeito do tema — postou abaixo do print dela o advogado da UFF Glauber Trindade.

— As exigências a serem cumpridas pelas famílias, dentro do projeto de lei, me parecem justamente atender a posição do STF — disse o odontólogo André, postando link de outra matéria do G1, tratando de uma estudante de homeschooling que foi aprovada na USP e entrou na Justiça para tentar fazer matrícula.

— O Brasil com a maior inflação em 26 anos, com um sem número de semelhantes catando no lixo para ter o que comer, com nossa democracia sob ameaça à luz do sol real, e estamos discutindo a questão “nórdica” da educação das crianças em casa, homeschooling na casa de Noca? É isso mesmo? Independente do resultado das urnas, o diversionismo é o grande vencedor em seus danos talvez irreparáveis ao pensamento nacional. Como disse antes, este grupo é revelador. Mas, como seu moderador, peço licença para sair um pouco dele para passear com meu cachorro. Até para observar nele um pouco de racionalidade — disse um moderador já na tampa de uma função por vezes penosa.

— Fascismo em Marcha! — advertiu o jornalista João Cláudio Azevedo, de sólida formação marxista e articulista do jornal gaúcho Zero Hora, postando no grupo o link de um vídeo no YouTube, com o título autoexplicativo: “Milícia Nacional: exército de civis que tornaria o Brasil inconquistável à (sic) qualquer potência militar”.

— Sugiro o filme “Um dia muito especial” (1977), de Ettore Scola, mostrando como o fascismo (na Itália de Benito Mussolini) entendia cada homem e mulher destinados a casar e ter filhos para contar com soldados, mesmo sem farda. Uma espécie de milícia preparada para a guerra. E como um celibatário deveria pagar uma taxa por não se casar e ter geração — indicou o historiador e ambientalista Athos Garibaldi.

— Exatamente. É uma discussão nórdica na casa de Noca. Temos muitas outras questões anteriores que precisam ser colocadas em pautas e resolvidas antes dessa. Sugere, neste momento, ser um tema que poderá encobrir outros muito mais urgentes e necessários. Democracia exige, entre tantas outras coisas, que saibamos identificar as questões mais urgentes e necessárias — dialogou com o moderador a médica Vânia Mendes. Era exatamente o meio-dia de sexta.

— O homeschooling não é uma questão de somenos importância, conecta-se com as questões da violência, da igualdade, da cidadania e da democracia, tanto que mereceu a atenção da Unicef, que vem trabalhando pela garantia dos direitos de cada criança e adolescente, concentrando seus esforços naqueles mais vulneráveis, com foco especial nos que são vítimas de formas extremas de violência — reforçou seu ponto de vista o advogado Glauber Trindade, postando no grupo um link da Unicef alertando sobre o tema.

— Mas aqui no Brasil ameaçado pelo fascismo é mais um passo na escalada de desobrigar o Estado das suas obrigações mínimas. Creio que como bem assinalou @Moderador e em posterior assunto do @João Cláudio Azevedo, o amplo diversionismo toma conta das atenções, do tempo e da energia das instituições e da sociedade. Enquanto o fundamental dos direitos dos jovens, adolescentes, idosos não está assegurado. No rumo que vamos, não haverá futuro civilizatório — projetou a produtora cultural Eliana Montinho, voltando na tarde de sexta ao grupo e ao debate que havia aberto na noite de quinta.

— No passeio breve pelas ruas da cidade, homem e cão observaram duas pessoas, em pontos diferentes, catando o que comer no lixo de condomínios de classe média alta. Creio que até ao cão ficou nítido que o Brasil tem problemas mais urgentes do que a educação das crianças em casa, homeschooling na casa de Noca — testemunhou um moderador de volta à casa e ao debate virtual.

— Triste e dura realidade — endossou o historiador e museólogo Cláudio Farias, dando ponto final ao debate com um emoji de choro. Eram 14h54 de sexta.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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