Brasil titular com Neymar encara Coreia do Sul no contra-ataque

 

Neymar volta com titulares ao Brasil, que pega a Coreia do Sul do atacante Son (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Como adiantado na manhã de ontem pela Folha, para encarar a Coreia do Sul pelas oitavas da Copa do Mundo do Qatar, o Brasil entra em campo às 16h de hoje, no 974 Stadium, com: Alisson; Éder Militão, Thiago Silva, Marquinhos e Danilo; Casemiro, Lucas Paquetá e Neymar; Raphinha, Richalison e Vini Jr. No último confronto entre as duas seleções, no amistoso em 2 de junho deste ano preparatório ao Qatar, o Brasil deu uma goleada de 5 a 1 nos sul-coreanos.

Além da volta dos titulares, após a derrota dos reservas por 0 a 1 contra Camarões, no último jogo da fase de grupos, a grande novidade é o retorno ao time de Neymar e do lateral-direito Danilo. Os dois se contundiram no jogo de estreia do Brasil na Copa, na vitória de 2 a 0 sobre a Sérvia. A contusão também do lateral-esquerdo titular Alex Sandro na vitória de 1 a 0 sobre a Suíça, e do reserva Alex Telles na derrota para Camarões, fez com que Danilo volte ao time adaptado à lateral-esquerda. Na direita, o técnico Tite vai manter o zagueiro Militão, também adaptado. Com contusões mais graves, Alex Telles e o atacante Gabriel Jesus não jogam mais no Qatar.

Antes da goleada brasileira no amistoso de junho, o técnico português da Coreia do Sul, Paulo Bento, declarou que iria jogar com o Brasil de igual para igual. Eel bem que tentou, mas abriu espaços para levar os cinco gols e só marcar um. Hoje, em jogo oficial e elimintório de Copa do Mundo, não cometerá o mesmo erro. Armará seu time fechado na defesa, tentando explorar os contra-ataques, sobretudo com seu hábil e veloz atacante Son.

Destaque do inglês Tottenham na Premier League, no mais disputado campeonato nacional de clubes do mundo, Son é parceiro de ataque de outras estrelas, como o centroavante Harry Kane, centroavante e líder da Inglaterra, e do centroavante brasileiro Richarlison. Ele é considerado o maior jogador da Ásia em todos os tempos. E fez uma jogada de craque selar a virada de 2 a 1 sobre Portugal, que deu a vaga nas oitavas à Coreia do Sul. Que, como Thiago Silva bem observou na coletiva de ontem, tem também como destaque o volante Hwang. Jogador do Olimpiacos, da Grécia, ele é o maestro da sua seleção no meio de campo.

Por sua vez, vindo de contusão, Neymar não volta ao time com 100% das sua condições físicas. E não deve jogar todos os 90 minutos da partida, que pode ir à prorrogação e disputa de pênaltis, em caso de empate. Com a ajuda da arbitragem, que não deve se repetir hoje, a Coreia do Sul foi a 4ª colocada na Copa do Mundo de 2002, que sediou junto com o Japão. E, há 20 anos, teve o Brasil dos craques Ronaldo Fenômeno e Rivaldo como campeão.

 

Brasil titular de volta contra Coreia do Sul no Folha no Ar desta 2ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A empresária e atleta de futevôlei Bianca Inojosa e o radialista José Vitor Silva são os convidados para abrir a semana do Folha no Ar nesta segunda (5), ao vivo a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Será algumas horas antes da Seleção Brasileira entrar em campo, no 974 Stadium do Qatar, na disputa das oitavas de final da Copa do Mundo contra a Coreia do Sul.

Os dois convidados analisarão como o Brasil estreará contra a seleção asiática na fase eliminatória do Mundial, com o retorno anunciado hoje do atacante Neymar e do lateral-direito titular Danilo (que deve voltar adaptado à lateral-esquerda), ausentes por contusão na derrota por 0 a 1 do time brasileiro reserva para Camarões, no terceiro e último jogo da fase de grupos.

Bianca e José Vitor também avaliarão os principais favoritos e zebras até aqui da Copa do Mundo no Qatar, assim como os jogos das oitavas concluídos e ainda à frente. Também projetarão os confrontos da fase seguinte, nas quartas de final.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta segunda poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Neymar e Danilo de volta ao Brasil contra a Coreia do Sul

 

Tite e Thiago Silva na coletiva do Qatar nesta manhã brasileira

 

Neymar de volta ao time nesta segunda, no jogo eliminatório das oitavas da Copa do Mundo contra a Coreia do Sul. Foi o que o técnico Tite adiantou agora, em coletiva no Qatar ao lado do zagueiro e capitão Thiago Silva. Ele também revelou que o lateral-direito titular Danilo retorna ao time. Ele e Neymar se contundiram na vitória de estreia de 2 a 0 contra a Sérvia. E ficaram de fora dos jogos seguintes: 1 a 0 contra a Suíça e a derrota por 0 a 1 para Camarões. O treinador brasileiro só ressalvou que Neymar terá que treinar na tarde hoje sem sentir nada, para entrar jogando na segunda.

Embora Tite não tenha dado a escalação, o Brasil deve entrar em campo nesta segunda com Alisson no gol, o zagueiro Éder Militão mais uma vez na lateral-direita, Thiago Silva e Marquinhos na zaga, e Danilo adaptado à lateral-esquerda; o titular indiscutível Casemiro como primeiro volante, Lucas Paquetá como segundo volante e Neymar como meia de ligação; com Raphinha como extrema na direita, Richarlison de centroavante e Vini Jr na esquerda ataque.

Além de Neymar e Danilo, aparentemente recuperados fisicamente, pelo menos de maneira parcial, outras contusões têm assombrado a Seleção Brasileira. Titular da lateral-esquerda, Alex Sandro ainda não voltará contra a Coreia do Sul, como Tite também adiantou hoje. Seu reserva, Alex Telles se machucou contra Camarões, assim como o atacante Gabriel Jesus. Os dois jogadores não voltarão a jogar nesta Copa do Mundo e já foram liberados a regressar aos seus clubes.

 

Antes da Coreia do Sul, Brasil engasga com Camarões

 

Aboubakar corre após vencer o goleiro Ederson, a quem deslocou cabeceando em seu contrapé, e a marcação de Militão para escrever a primeira vitória de uma seleção africana sobe o Brasil na história das Copas (Foto: Fifa/Divulgação)

 

“Fica a lição”. Foi o que disse o veterano lateral-direito Daniel Alves, o mais velho jogador a atuar pela Seleção Brasileira em um Mundial de futebol, aos 39 anos, ao final do jogo de ontem no Lusail Stadium, vencido por 1 a 0 por Camarões, gol do atacante Aboubakar nos acréscimos. Concluída a fase de grupos da Copa do Mundo do Qatar, apesar da derrota, o Brasil ficou em primeiro lugar no Grupo G. Agora na fase de matar ou morrer, tem encontro marcado às 16h de Brasília desta segunda (5). Encara nas oitavas a Coreia do Sul, segunda colocada do Grupo H, após vencer ontem de virada por 2 a 1 a Portugal. Que, como o time de Tite, a França na quarta (30) e a Espanha na quinta (1), escalaram reservas no último jogo da fase de grupos. A lição? Todos perderam para seleções consideradas tecnicamente inferiores.

PAREDÃO AFRICANO — No primeiro tempo do jogo de ontem, o Brasil teve duas claras chances de gol, ambas com o atacante Gabriel Martinelli. Aos 13 minutos, ele recebeu o bom cruzamento da direita do volante Fred, que cabeceou com perigo perto da trave oposta e obrigou o goleiro Epassy a fazer grande defesa. Seria a primeira de outras. Aos 45, após uma bola alta rebatida de cabeça pela zaga africana, Martinelli pegou a sobra, driblou um marcador e passou por outros dois, em linha horizontal diante da área, até achar ângulo para o chute forte de perna direita. Que parou em outra defesa salvadora do goleiro de Camarões.

PRIMEIRA DEFESA DE GOLEIRO DO BRASIL NO QATAR — Dois minutos depois, aos 47 da primeira etapa, o atacante Choupo-Moting driblou Daniel Alves e cruzou da esquerda uma bola que passou pela defesa brasileira, para encontrar o atacante Mbeumo na trave oposta. Sem marcação, ele cabeceou para o chão, como manda o figurino. Após ela quicar e subir, só não entrou por conta da intervenção de grande reflexo de Ederson. Coube ao reserva de um Alisson pouco acionado nas vitórias sobre a Sérvia e a Suíça fazer contra Camarões a primeira defesa difícil de um goleiro do Brasil na Copa do Mundo do Qatar. Mas ele também teria que fazer outras.

CARTÃO DE VISITAS — No segundo tempo, logo aos 5 minutos, Aboubakar apresentaria seu cartão de visitas. Numa bola cruzada da esquerda do ataque e rebatida pela zaga brasileira, ele recebeu o passe na direita da área e chutou cruzado. Ederson pulou, mas não tocou na bola, que saiu pela linha de fundo rente à trave oposta.

SEM LATERAL ESQUERDO CONTRA A COREIA — Dois minutos depois, aos 7, a maior preocupação do Brasil para o jogo contra a Coréia do Sul: o lateral esquerdo Alex Telles saiu de campo chorando. Ele havia caído em lance anterior de mau jeito e sentiu uma contusão no joelho direito. Como havia substituído o titular Alex Sandro, que teve lesão no quadril no jogo contra a Suíça, se nenhum dos dois tiver condições físicas de retornar até segunda, o Brasil terá que adaptar alguém na posição. Contra Camarões, a solução foi colocar o zagueiro Marquinhos, zagueiro titular que seria poupado.

 

O lateral esquerdo Alex Telles, que tinha substituído o titular Alex Sandro após contusão no quadril contra a Suíça, sai de campo chorando contra Camarões, sentindo contusão no joelho direito (Foto: Julian Finney/Getty Images)

 

EPASSY É O NOME — Dentro do campo, o jogo continuou. Aos 10 minutos, após receber uma bola enfiada pela esquerda, em contra-ataque, Martinelli entrou pela área, fintou o marcador e bateu de perna direita, obrigando Epassy a outra grande defesa, espalmando por cima do travessão. Um minuto depois, aos 11, após cobrança de escanteio da direita, a bola foi rebatida e novamente cruzada à área por Everton Ribeiro, que havia entrado na segunda etapa. E encontrou o volante Bruno Guimarães, outro que tinha entrado fresco, para chutar dentro da área à defesa em dois tempos de Epassy.

ABOUBAKAR É O NOME — Após o Brasil pôr o goleiro de Camarões para trabalhar, foi a vez de Ederson. Aos 32 minutos, ele caiu para defender um chute do meia Ntcham, de fora da área. No primeiro minuto dos descontos, num contra-ataque africano, em bola cruzada da direita para a área, Aboubakar apareceu em penetração pela área para marcar de cabeça. Se já tinha cartão amarelo e tomou outro por tirar a camisa na comemoração, sendo expulso, ele impôs o único gol tomado pela Seleção Brasileira e sua primeira derrota neste Mundial, primeira também para uma seleção africana na história das Copas.

A REGRA DO QATAR — Até a última rodada da fase de grupos, apenas França, Portugal e Brasil tinham vencido seus dois primeiros jogos na Copa do Mundo. E, após colocarem reservas no lugar dos titulares, todos perderam o terceiro confronto e ganharam de brinde a lição. Assim como Tite, que colocou em campo 25 dos 26 jogadores que levou ao Qatar. Incluído o centroavante Pedro, tão pedido pela torcida do Flamengo, que ontem entrou e não alterou o placar.

PAIXÃO, RAZÃO E JUSTIÇA — Numa partida em que a Seleção Brasileira concluiu 21 vezes a gol, contra sete de Camarões, o torcedor mais apaixonado pode alegar que a primeira mereceu vencer. Tanto que o goleiro Epassy foi eleito ontem o melhor em campo. Antes das oitavas na segunda, quando o Brasil encara a Coreia do Sul do habilidoso atacante Son (Tottenham), o torcedor mais pragmático só faria a ressalva: o futebol, como a vida, não é um ato de justiça. E por isso gera tanta paixão.

SALTO ALTO NO DESERTO DAS ZEBRAS — Com a Alemanha e Bélgica já a caminho de casa em 2022, após terem eliminado o Brasil, respectivamente, em 2014 e 2018, o único país pentacampeão mundial de futebol segue entre os favoritos ao título. Assim como França, Inglaterra, Espanha e Argentina. Mas para uma seleção que não vence uma europeia em jogo eliminatório de Copa do Mundo há 20 anos, a lição do Qatar é didática: o salto alto tende a afundar no deserto das zebras.

 

Página 12 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

Adriano Moura — “atafona/convivência” no sábado da ACL

 

A nova Revista da Academia Campista de Letras (ACL) foi lançada em 8 de novembro na 11ª Bienal do Livro de Campos. Que traz o poema “atafona/convivência”, escolhido após convite do presidente da ACL, Christiano Freitas, para honrosamente colaborar na publicação. Impossibilitado de estar no lançamento, escrevo para convidar ao seu relançamento, às 17h deste sábado (3), na sede da ACL no Jardim São Benedito.

Como a mesma ACL terá às 19h desta terça (6) a posse do seu novo membro eleito, Adriano Moura, poeta, dramaturgo e professor de Língua Portuguesa e Literatura do IFF. A quem pedi uma análise do poema. Que segue abaixo, entre o testemunho da gênese de “atafona/convivência” e do próprio:

 

Homem e cães na ponto da antiga ilha da Convivência, na foz que sobrou ao rio Paraíba do Sul, em 6 de junho de 2020 (Foto: Ícaro Barbosa)

 

Atafona é a praia da minha primeira infância, nos anos 1970. Essa convivência se espraiaria por adolescência, juventude e idade madura. Nesta última transição, seria seu morador por uma década, entre meados dos anos 1990 e 2000, em tempos ainda pré-Porto do Açu. Aquela mutável faixa de areia entre o Paraíba do Sul e Atlântico, com mar castanho nos meus olhos e muxuangos de olhos azuis, de tempo regido por ventos e marés, foi lar após sair da casa dos pais. E, como esta, a primeira casa de suserania própria ninguém esquece.

Para quem vinha de vida urbana até os 22 anos, Atafona seria também escola empírica. De como o passar do tempo geológico, geralmente lento à brevidade de uma vida humana, pode ser acelerado à percepção do passar de meses. Em cada novo avanço do mar, casa derrubada, memória submersa, com a perda da força do rio e seus tendões cortados pela ação do homem. Transformada em cotidiano, a observação da natureza e seus sinais, para neles antever dias de sol ou chuva, passaria a ser tão acessível quanto o boletim meteorológico do IPhone — antes que este existisse.

Após voltar a morar em Campos, esse cordão umbilical com Atafona não foi cortado. Final de semana sim, final de semana não e às vezes também, o pouso ali permeneceu certo. Como as férias, que passaram a ser tiradas em março, mês ainda de sol forte e praia já estiada de veranistas. Foi assim naquele verão de 2021, quando a boca da barra do Paraíba fechada alongou a caminhada à beira-mar, até a antiga ilha da Convivência. E sua repetição diária, sempre à maré baixa e à companhia de um cão, gerou versos. Feitos para registrar visões e visagens de um cenário cuja metamorfose era a única certeza.

Um ano depois do poema, veio o convite para colaborar como confrade à Revista da ACL, na forma de livro, em comemoração aos 83 anos da instituição. Seu presidente, Christiano Freitas estava animado com a participação também do poeta carioca Antonio Carlos Secchin, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL). E considerado grande especialista na obra de João Cabral de Melo Neto, poeta maior de Pernambuco. O que, de certa maneira, determinou a escolha de “atafona/convivência”.

Dois foram os motivos. O primeiro, resumido numa das sentenças mais conhecidas de Tolstói véio de guerra — e paz: “Se queres ser universal, canta a tua aldeia”. O segundo? Por ser todo o poema composto em quadras e linguagem seca, como o rio da aldeia asfixiado com areia na boca, o contexto da assumida influência cabralina seria melhor traduzida em versos posteriores: “capibaribe ao paraíba do sul/ canavial de vidas/ severinas sob céu azul/ dois rios a caminho do mesmo mar”.

Abaixo, antes do poema, sua análise pelo Adriano Moura:

 

Rio Paraíba do Sul, que formou e abastace de água toda a planície goitacá, com sua foz fechada entre o Pontal de Atafona e a antiga ilha da Convivência (Foto: Divulgação)

  

Adriano Moura, poeta, dramaturgo, professor de Literatura do IFF e novo membro da ACL

Nos intertextos da memória em “atafona/convivência” de Aluysio Abreu Barbosa

Por Adriano Moura

 

Segundo a poética clássica, a literatura se dividia em três gêneros: lírico, dramático e épico, todos escritos em versos. O primeiro marcado por uma poesia na qual prevalecia a subjetividade de um eu cujos sentimentos e o mundo a sua volta fundiam-se. O segundo era o texto escrito para a encenação eternizando clássicos como Édipo Rei e Antígona; o terceiro, uma poesia narrativa, em torno da figura de um herói capaz de feitos extraordinários, sendo epopeias como Ilíada e Odisseia as principais representantes do gênero no Ocidente. O romance, no entanto, tirou das epopeias o protagonismo da arte de narrar, tornando-se o recurso principal dos que pretendiam, em prosa, contar histórias em vez de expressar sentimentos e visões pessoais acerca do mundo em versos. O conto, outro texto originário do épico, também se popularizou na propagação de pequenas narrativas. Porém a literatura contemporânea há muito desafia a fronteira dos gêneros e tipologias textuais, hibridizando estilos, formas e linguagens.

“atafona/convivência”, de Aluysio Abreu Barbosa, é um poema narrativo que, embora não se possa chamar de epopeia, assume em versos a arte narrar, levando o leitor a uma viagem entre a praia de Atafona e a ilha da Convivência (em São João da Barra, cidade litorânea do interior do Rio de Janeiro) sob o olhar de um narrador, “escravo da maré vazante”,  poeta que, acompanhado de um cão, fotografa em palavras seu percurso em meio a memórias que emergem das imagens evocadas pelas ruínas de prédios, vítimas do mar, que avança sobre o território que sempre lhe pertencera, mas ocupado pelos seres humanos, desconhecedores da necessidade que a natureza tem de tomar o que é seu.

Leio o poema de Aluysio a partir de suas perspectivas intertextuais e memorialísticas. Alusivo, o texto remete a figuras da literatura, do cinema e de moradores conhecidos do cenário da praia, cujas ruas e construções mais próximas do mar foram reduzidas a ruínas. O poeta constrói sua pequena “epopeia” com uma sucessão de trinta e três quadras independentes entre si, mas integradas à unidade temática conferida pela habilidade do autor em tecer seu painel de imagens no decorrer da viagem:

 

“escravo da maré vazante

saía desta uma hora antes

de atafona à convivência

na areia entre rio e oceano

 

noite ainda quando partiu

negro como o dorso do cão

mar enrubescia a cada onda

sol que paria em contração

 

tijolos redivivos no caminho

não levavam ao mágico de oz

mas às visões hoje submersas

do paraíba caolho de foz”

 

O rio Paraíba do Sul é o poeta caolho, alusão a Luís de Camões, autor de Os lusíadas, epopeia que narra a viagem portuguesa a caminho das Índias liderada por Vasco da Gama. No poema épico, o oceano não assistiu impassível à aventura humana, assim como não o fizeram o rio e o mar na praia sanjoanense.  O efeito madeleine, como se pode definir o elemento catalizador de signos escondidos nos escombros da memória, metáfora eternizada por Marcel Proust no primeiro volume de “Em busca do tempo perdido”, se manifesta no poema pelas carcaças de bichos e concretos que permitem ao narrador poeta pôr em desfile as imagens de uma Atafona cada vez mais sucumbida à memória. “No caminho de Swan”, do clássico francês, evoca-se a memória da infância do narrador, que percebe a inutilidade de recuperação do passado, sendo possível no máximo captá-lo nos vestígios de objetos do presente, como ocorre na estrofe seguinte do poema:

 

“dos fundos do clube demolido

fugiam os carnavais passados

mergulho sem tirar a fantasia

de cara na piscina partida”

 

A memória evoca, portanto, desde o prédio do clube que abrigou bailes de carnaval frequentados por veranistas à figura de Neivaldo, morador e dono de um bar que se situava à beira mar, tragado pelas ondas assim como talvez tenha sido, possivelmente, seu habitante, cujo desaparecimento é ainda um mistério, alçando-o à categoria de lenda contemporânea:

 

“refluxo natural dos destroços

ou entidade tentando contato?

com um pouco de sorte, iemanjá

menos, o lamparão do neivaldo”

 

O narrador poeta assume sua condição de testemunha do passado que vai se deslindando enquanto caminha pelos escombros, “na areia entre rio e oceano” e como ele se presentifica, já que o presente pode ser, às vezes, o futuro de um pretérito. O crítico literário e teórico Márcio Seligman-Silva nos escreve que “a memória é uma arte do presente, mas também a relação entre memória e a catástrofe, entre memória e morte, desabamento”, e que a arte da memória é também uma leitura de cicatrizes. Quase morador de Atafona, pode-se afirmar que Aluysio testemunhou as mudanças sofridas na paisagem natural e humana, desde os tempos em que a praia era referência para o turismo da região até o momento em que suas casas, bares e hotéis começaram a ser tragados pelos olhos de ressaca dessa Capitu oceânica que é o mar:

 

“testemunho dessas histórias

de atafona à convivência

na areia entre rio e oceano

onde homem deságua cão”

 

A natureza se manifesta no poema de forma viva, não moldura para as ações ou sentimentos humanos típicos de uma lírica romântica. O peso da barra fechada que, mesmo “sem ser cristo”, o poeta atravessa em “cruzada a pé”, o conduz ao vislumbre do anum galego que “levou o camaleão pelo gogó/suspenso no ar em rapina”, além de peixes pequenos que “exibiam vida aos passantes”, numa demonstração de como a existência dos seres não humanos pode prosseguir à revelia de suas emoções e pensamentos.

O poema constrói uma geografia e uma antropologia do espaço, que desafiam o leitor desconhecedor dos fenômenos que impactam a região com o avanço do mar sobre o continente e dos personagens que habitaram e habitam o imaginário regional de Campos dos Goytacazes e São João da Barra:

 

“diante da ilha do pessanha

após, o bracutaia em gargaú

o paraíba morria à míngua

para dar de beber no guandu”

 

“Bracutaia” é uma figura lendária de Gargaú, distrito de São Francisco, onde se pode chegar atravessando o rio, em alguns trechos moribundos. Outros nomes próprios permeiam o poema, demandando conhecimento biográfico para que suas significações sejam mais acessíveis, embora a escrita de Aluysio, construída de signos da localidade, se projete pra além das fronteiras do espaço em que se circunscreve. A leitura intertextual e memorialística do poema o enriquece, porém não o limita, permitindo inferências possibilitadas por outras imagens que o poeta cria.

O poema traz algumas marcas da poética do autor, como o uso exclusivo de letras minúsculas, inclusive em nomes próprios, o verso objetivo, seco, com adjetivação somente necessária, quase cabralino, como predomina nos demais poemas de sua autoria. O narrador poeta vive, nessa “pequena epopeia”, uma travessia testemunhada por fauna, flora e ruínas entre Atafona e Convivência, onde o “homem deságua cão”. “atafona/convivência” é, portanto, um condomínio de gentes, bichos, plantas, concretos e histórias editados nessa ilha que é a memória do poeta.

 

 

atafona/convivência

 

escravo da maré vazante

saía desta uma hora antes

de atafona à convivência

na areia entre rio e oceano

 

noite ainda quando partiu

negro como o dorso do cão

mar enrubescia a cada onda

sol que paria em contração

 

tijolos redivivos no caminho

não levavam ao mágico de oz

mas às visões hoje submersas

do paraíba caolho de foz

 

cruzado entre duas cisternas

perto era o primeiro portal

da caixa d’água seca de torre

e vísceras minando do sal

 

dos fundos do clube demolido

fugiam os carnavais passados

mergulho sem tirar a fantasia

de cara na piscina partida

 

o homem notou redemoinhos

que pareciam seguir ele e o cão

na escalada de outras ruínas

açoitadas pela arrebentação

 

refluxo natural dos destroços

ou entidade tentando contato?

com um pouco de sorte, iemanjá

menos, o lamparão do neivaldo

 

adiante era o segundo portal

entre as fundações e os muros

maciços e quebrados ao meio

da casa de ailton damas

 

dali se abria a enseada

até o prédio do julinho

quatro andares desabados

lar de corujas e mariscos

 

damas e julinho eram ilhas

do que restou dos seus planos

no último, o terceiro portal

ao gume de adaga das conchas

 

depois eram vultos inertes

cemitério triste na areia

troncos por corpos e cruzes

do mangue do antigo pontal

 

crianças com fome de praia

fisgava pela entranha o anzol

cação frito, arroz e salada

palafita do bar do espanhol

 

jusante entre vida e morte

urubus em carcaça de bagre

a lágrima pelo rio na barra

caía do olho ruim de camões

 

ilha que não era mais ilha

com atafona, a convivência

aterrou a aventura do nado

aos rastros das patas e pés

 

na busca da boca de cécias

que sopra o vento nordeste

a língua à direita descia

com todo cuspido à canhota

 

foi lá que o homem e o cão

assistiram ao sol nascer

do mar em que pescadores

limpavam do mato as redes

 

três cargueiros do mundo

eram reis magos no horizonte

no oposto o imbé era fundo

aos cataventos sem quixote

 

quina de água doce e salgada

canto da boca do moribundo

são paulo, as gerais e o rio

corriam sob cada traineira

 

diante da ilha do pessanha

após, o bracutaia em gargaú

o paraíba morria à míngua

para dar de beber no guandu

 

beira-mar ao fim do caminho

até a última artéria aberta

mangue ao de osório vizinho

atalho tomado à tornada

 

do alto da árvore, o carcará

observou o homem e o cão

pelos maruins feitos caça

agonia em nuvem, aguilhão

 

corridos do mangue ao rio

e até nele seguidos de perto

a nado deram ambos na praia

mais secreta da convivência

 

com bem-te-vis à vanguarda

galho após galho da restinga

escalaram as dunas de areia

ao tapete da mata nativa

 

chegaram ao casario recente

onde o cão não era temido

por gatos com dorso em arco

eriçados pelos, garras e dentes

 

novos muxuangos de lamego

olhos azuis dos holandeses

náufragos no rio castanho

já não raptavam mulheres

 

sem inseguranças adrianas

paixão por si em verso vão

vanessa caranguejeira fazia

o melhor pastel de camarão

 

após palhoças ribeirinhas

e a curva à esquerda dali

extinta, a foz repetia lagoas

do açu, iquipari, grussaí

 

nos sulcos da sua margem

crosta da terra em maquete

enquanto pequenos peixes

exibiam vida aos passantes

 

cruzada a pé, sem ser cristo

a barra fechada era peso

muito além da areia fofa

ao ruído e milagre das ondas

 

após voltar julinho e damas

cume do píer de raoul thuin

emergia do mar na vazante

ressurreto no plano sem fim

 

perto dele o anum galego

voo de mergulho em ruínas

levou o camaleão pelo gogó

suspenso no ar em rapina

 

de andar e voo desajeitado

a ave venceu o lagarto ágil

que debatia cabeça ao rabo

do quanto virtude era fútil

 

testemunho dessas histórias

de atafona à convivência

na areia entre rio e oceano

onde homem deságua cão

 

campos, 12/03/21

 

O time reserva do Brasil contra Camarões nesta sexta

 

O técnico Tite e Daniel Alves, titular e capitão do Brasil nesta sexta, falaram em coletiva do jogo contra Camarões

 

Ederson; Daniel Alves, Militão, Bremer e Alex Telles; Fabinho, Fred e Rodrygo; Gabriel Martinelli, Antony e Gabriel Jesus. Este é o time que Tite levará a campo às 16h de Brasília nesta sexta (2) contra Camarões, no Lusail Stadium, pela terceira e última rodada do Grupo G. Já classificado para as oitavas de final, o Brasil repete a atual campeão, França, que também levou um time reserva a campo na quarta (30). E perdeu de 1 a 0 para sua ex-colônia Tunísia.

Também africano e colonizado pelos franceses, Camarões precisa ganhar para sobreviver no Qatar. Sua seleção vem do empate de 3 a 3 com a Sérvia e, na estreia, da derrota de 0 a 1 para a Suíça. Em situação oposta, o Brasil pode empatar a até perder — caso a Suíça não vença a Sérvia e, assim mesmo, a depender dos placares — para manter a liderança do grupo. Para pegar às 16h de segunda (5) o segundo colocado do Grupo H. Quando será matar ou morrer.

O veterano lateral-direito Daniel Alves, de 39 anos, será não só o capitão contra Camarões, como o mais velho jogador a atuar pelo Brasil numa Copa do Mundo. Até o Qatar, o mais velho tinha sido outro lateral-direito, o bicampeão Djalma Santos, que jogou na Copa de 1966, aos 37 anos. A marca foi superada nas vitórias brasileiras sobre a Sérvia e a Suíça, pelo zagueiro Thiago Silva. Aos 38 anos, ele será um dos muitos titulares poupados por Tite no último jogo da fase de grupos.

Os outros titulares da Seleção Brasileira que começarão assistindo ao jogo contra Camarões do banco são o goleiro Alisson, o zagueiro Marquinhos, o volante Casemiro, o meia Lucas Paquetá, e os atacantes Raphinha, Richarlison e Vini Jr. Contundidos, o atacante Neymar, o lateral-direito Danilo e o esquerdo, Alex Sandro, só são esperados para voltar a partir das oitavas. Ou, se o Brasil delas passar, nas quartas de final.

O volante Bruno Guimarães, que entrou e jogou bem contra a Suíça, será uma outra opção no banco. Já entre os que ainda não entraram em campo pelo Brasil no Qatar, também esperarão uma chance o goleiro Weverton, o meia de ligação Everton Ribeiro e o atacante Pedro. Coincidência ou não, os três são os únicos entre os 26 convocados que atuam no futebol de clubes do Brasil.

Camarões aposta na sua força ofensiva para tentar surpreender o Brasil. Do meio para frente, tem jogadores de bom nível, como os meias Pierre Kunde (Olympiakos) e Frank Anguissa (Napoli), e os atacantes Toko-Ekambi (Lyon), Bryan Mbeumo (Brentford) e Choupo-Moting (Bayern de Munique). Eles têm, ainda, o experiente atacante Vincent Aboubakar (Al-Nassr), que entrou e mudou jogo contra Sérvia. Mas o teste deles não será fácil. Entre as 32 seleções no Qatar, a do Brasil foi a única que até aqui não tomou nenhum gol.

 

Brasil reserva contra Camarões no Folha no Ar desta 6ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

O radialista Arnaldo Garcia e a jornalista Viviane Siqueira são os convidados para encerrar a semana do Folha no Ar nesta sexta (2), ao vivo a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. É o mesmo dia em que, às 16h de Brasília, o Brasil entrará em campo contra Camarões para encerrar a fase de grupos na Copa do Mundo do Qatar, com classificação já assegurada às oitavas de final.

Arnaldo e Viviane analisarão a opção de Tite em escalar um time reserva no Brasil para encarar a seleção africana, que precisa vencer para passar à próxima fase. Eles também apontarão os maiores favoritos e zebras, além de analisarem os cruzamentos das seleções classificadas à fase do mata/mata da primeira Copa do Mundo sediada em uma teocracia islâmica do Oriente Médio, considerada misógina e homofóbica pelos padrões ocidentais.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.