Lula favorito à reeleição?
Em queda de aprovação em todas as pesquisas, o presidente Lula (PT) permanece favorito à reeleição em 6 de outubro de 2026? No resumo de uma análise superficial da pesquisa Quaest divulgada em duas partes, quarta (aqui) e quinta (aqui), pode parecer que sim. Mas, em análise detida e na comparação com pesquisas anteriores, a projeção sem paixões pode ser diferente.
Governo em queda livre de aprovação
Feita entre 27 e 31 de março, a pesquisa Quaest foi a primeira após o Supremo Tribunal Federal (STF) considerar, no dia 26, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) réu por tentativa de golpe de Estado. A despeito disso, a desaprovação ao governo Lula cresceu 7 pontos: de 49% em janeiro à atual maioria de 56% em março. Como a aprovação caiu 6 pontos: de 47% a 41%.
AtlasIntel confirma Quaest (I)
Os dados da Quaest revelados na quarta foram relativos à avaliação de governo. Que confirmaram as tendências de todas as outras pesquisas nacionais. No dia anterior, a AtlasIntel revelou na terça (aqui) que a reprovação ao governo Lula cresceu 2,2 pontos de janeiro a março: de 51,4% a 53,6% dos brasileiros — só 2,4 pontos menor que os 56% da Quaest.
AtlasIntel confirma Quaest (II)
Ainda na AtlasIntel, a aprovação ao governo Lula caiu 1 ponto de janeiro a março: dos 45,9% aos 44,9% — 3,9 pontos maior que os 41% da Quaest. Na comparação entre as duas pesquisas, com metodologias distintas, são números muito próximos. E colhidos com diferença de poucos dias. O que confirma os dados de uma e da outra.
Lula atrás de Bolsonaro, Tarcísio e Marçal (I)
Ocorre que, além de avaliação de governo, a AtlasIntel divulgou junto, na mesma terça, também seu levantamento eleitoral. No qual Lula ficou à frente na consulta estimulada ao 1º turno. Mas, nas projeções de 2º turno, ficou numericamente atrás de Bolsonaro, do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (REP), e até do influencer Pablo Marçal (PRTB).
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Lula atrás de Bolsonaro, Tarcísio e Marçal (II)
Pela AtlasIntel, Lula teria no 1º turno 41,7% de intenção de voto, contra 33,9% de Tarcísio, enquanto nenhum dos outros presidenciáveis alcançou dois dígitos. Mas, nas simulações de 2º turno, o petista ficou atrás não só do mesmo Tarcísio (46% a 47%), como de um Bolsonaro inelegível (46% a 48%) e de Marçal (46% a 51%).
Quaest difere da AtlasIntel (I)
Mas, após trazer na quarta números muito próximos aos da AtlasIntel na avaliação de governo, na quinta a Quaest divulgou a 2ª parte da sua pesquisa. Que, focada só na eleição, trouxe uma perspectiva bem diferente: mesmo em queda de aprovação, Lula liderou as simulações de 2º turno não só com Bolsonaro, mas com os 7 outros nomes da oposição testados.
Quaest difere da AtlasIntel (II)
Na projeção de 2º turno da Quaest, Lula ficou à frente numericamente de Bolsonaro, por 44% a 40%, mas ainda no empate técnico. E, fora da margem de erro da pesquisa, bateria no 2º turno a Tarcísio (43% a 37%), a Marçal (44% a 35%), à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL, 44% a 38%) e ao deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL, 45% a 34%).
Projeção eleitoral x avaliação de governo?
A disparidade na projeção eleitoral da Quaest não só com a AtlasIntel, como com a avaliação de governo da própria Quaest, gerou questionamentos. Entre bolsonaristas e lulopetistas, já é até normal. Questionam pesquisas para depois chorarem no quente da cama com o resultado da urna. Como os lulopetistas no 2º turno de 2018. Ou os bolsonaristas no 2º turno de 2022.
O piso de Lula
Do tamanho real de um e outro lado, a Quaest trouxe números elucidativos. Para 62% dos brasileiros, Lula não deveria se candidatar à reeleição. O que poderia gerar a pergunta: como, então, liderou todas as projeções no 2º turno à reeleição? Na dúvida, os 35% que acham que ele deve tentar parecem ser o piso de Lula. Que ainda não foi batido pela queda de aprovação.
Bem maior que o PT
A Quaest também perguntou com que partido o eleitor mais se identifica. E 17% responderam que com o PT. É mais de duas vezes menos do que os 35% identificados com a reeleição de Lula. O que evidencia que este, como há muito se fala abertamente, é bem maior que o PT.
O tamanho da direita
Com o PL, se identificam 8% dos eleitores. É um terço a menos do que os 12% que se encaixam como bolsonaristas. Enquanto estes, na mesma medição, são pouco mais da metade dos 21% que dizem não ser bolsonaristas, mas de direita. Ou seja, bolsonaristas e não bolsonaristas somam 33% à direita. São quase os mesmos 30% dos que se assumem como antipetistas.
Brasil dividido em terços
Com questionamentos válidos à diferença que trouxe entre avaliação de governo e projeção eleitoral numa mesma pesquisa, a Quaest também confirmou que o Brasil continua dividido em terços praticamente iguais: 33% de direita (12% bolsonaristas + 21% não bolsonaristas), 31% de esquerda (19% de lulopetistas + 12% não lulopetistas) e 33% ao centro.
Centro definiu em 2018 e 2022
Em 2018, a direita só venceu com Bolsonaro porque ele conseguiu atrair mais os eleitores do centro, por conta do grande desgaste do PT, após 13 anos no poder. Em 2022, a esquerda só venceu com Lula porque ele conseguiu atrair mais os mesmos eleitores do centro, por conta do grande desgaste de Bolsonaro, após 4 anos no poder.
Tarcísio antes do boné de Trump
Nomes radicalizados como Michelle, Eduardo e Marçal teriam pouca chance de atrair o centro. Dificuldade que, entre os nomes da oposição mais bem cotados nas intenções de voto, pode ser menor a Tarcísio. Que, antes de ser ministro da Infraestrutura de Bolsonaro e de vestir o boné de Donald Trump em 2025, foi diretor-geral do Dnit no governo Dilma Rousseff (PT).
Espaço para crescer
Numericamente à frente de Lula no 2º turno da AtlasIntel, Tarcísio tem uma potencial vantagem na Quaest: 42% dos brasileiros não o conhecem. É mais espaço para crescer do que os 33% de Marçal, os 22% de Michelle, os 21% de Eduardo e os 6% de um Bolsonaro inelegível. Ou os 4% que disseram ainda desconhecer um Lula em queda de aprovação.
Publicado hoje na Folha da Manhã.