Fernando, Gabriel e Amanda — Cinema, Norte e Noroeste Fluminense

 

 

Fernando Sousa, cineasta, diretor da Quiprocó Filmes e do Festival Internacional Goitacá de Cinema; Gabriel Barbosa, cineasta, diretor do Festival Internacional Goitacá de Cinema e secretário de Cultura e Audiovisual de Barra do Piraí (RJ); e Amanda Amaral, produtora cultural, analista de mobilização e captação de recursos da Quiprocó Filmes

Cinema brasileiro como soft power: conexões com o Norte e o Noroeste Fluminense

Por Fernando Sousa, Gabriel Barbosa e Amanda Amaral

 

O cinema brasileiro segue acumulando reconhecimentos internacionais, impulsionado por uma safra recente de obras que despertam atenção e admiração no circuito global de eventos e festivais. O filme “Manas”, de Marianna Brennand, estrelado por Dira Paes e ambientado na Ilha do Marajó, no Pará, já soma mais de 20 premiações ao redor do mundo e acaba de receber indicação ao Prêmio Goya 2026, na categoria de Melhor Filme Ibero-Americano, uma das mais relevantes do cinema espanhol.

Nesse mesmo movimento, destaca-se o novo longa-metragem “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”, escrito e dirigido por André Novais de Oliveira, realizado pela produtora mineira Filmes de Plástico, em coprodução com o Canal Brasil, e que representará o país no 76º Festival de Berlim. A produção se soma ao longa cearense “Feito Pipa”, que fará sua estreia mundial no festival. Dirigido por Allan Deberton, o filme conta com Lázaro Ramos no elenco, ao lado de Yuri Gomes e Teca Pereira, reforçando a presença do cinema brasileiro em uma das principais vitrines do circuito internacional de festivais. E não para por aí, outra longa cearense também vai pousar em terras germânicas, o filme “Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha”, da cineasta Janaína Marques.

O documentário “Apocalipse nos Trópicos”, de Petra Costa, também integra a lista de possíveis indicados ao Oscar. A diretora já havia sido indicada anteriormente pela obra “Democracia em Vertigem”, consolidando sua trajetória de reconhecimento internacional.

As premiações dos filmes “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, e “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, figuram entre as mais recentes demonstrações do reconhecimento global da diversidade e da vitalidade do cinema brasileiro. “Ainda Estou Aqui” conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional, além do Globo de Ouro de melhor Atriz em Filme Dramático para Fernanda Torres, com inúmeras outras premiações ao longo de 2025. Já “O Agente Secreto” recebeu os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Ator no Festival de Cannes 2025, além dos títulos de Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator de Drama para Wagner Moura, mantendo uma trajetória consistente de reconhecimento internacional.

O cinema brasileiro respira e colhe frutos expressivos, resultado de um conjunto articulado de investimentos públicos e privados. O orçamento de “O Agente Secreto” foi de R$ 28 milhões, divididos entre Brasil, França, Holanda e Alemanha. Segundo dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine), a participação brasileira foi de R$ 13,5 milhões, dos quais R$ 7,5 milhões oriundos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), complementados por aportes privados. A etapa de comercialização do filme contou com R$ 4 milhões em investimentos, sendo R$ 750 mil provenientes do FSA e os demais R$ 3 milhões viabilizados por meio da Lei do Audiovisual, que permite a pessoas físicas e jurídicas destinar parte do imposto de renda a obras aprovadas para captação junto à Ancine.

O bom momento vivido pelo cinema brasileiro é reflexo direto desses investimentos, que ampliam a produção e possibilitam que cheguem às telas do cinema e da televisão as riquezas, contradições, tensões e a diversidade cultural que compõem o território nacional. O filme “O Agente Secreto” é uma produção pernambucana, resultado de políticas públicas consistentes de regulação e fomento, por meio de editais e investimentos estruturantes anuais, especialmente via Funcultura, que permitiram a construção de uma cinematografia sólida e autoral na trajetória de Kleber Mendonça Filho.

Essas políticas públicas viabilizaram a consolidação da produção local e ampliaram significativamente a visibilidade do cinema pernambucano nos cenários nacional e internacional. A consagração de cineastas como Kleber Mendonça Filho, Cláudio Assis, Lírio Ferreira, Marcelo Gomes, Gabriel Mascaro, Heitor Dhalia, Hilton Lacerda, Renata Pinheiro e Eda Ferraz é fruto de um ecossistema favorável, que também possibilitou o surgimento de inúmeros jovens talentos e profissionais atuantes em diferentes setores do audiovisual e da economia criativa.

Por outro lado, diferente do que acontece entre as diferentes esferas do poder público, a existência de um calendário público e previsível de lançamentos de editais — sejam municipais, estaduais ou federal — na área do cinema é fundamental para o fortalecimento estrutural do setor audiovisual. Ao garantir previsibilidade, esse instrumento permite que produtoras, realizadores e demais agentes culturais planejem seus projetos com maior consistência técnica, financeira e artística, reduzindo a informalidade e a descontinuidade das políticas públicas. Além disso, um calendário transparente contribui para a democratização do acesso aos recursos, amplia a participação de diferentes territórios e perfis de proponentes e favorece a profissionalização do campo, estimulando a inovação, a diversidade de narrativas e a sustentabilidade da cadeia produtiva do cinema.

A indústria audiovisual compõe uma cadeia produtiva dinâmica e complexa, que exige previsibilidade, investimentos contínuos, ajustes e regulamentações permanentes. Atualmente, a principal lacuna regulatória diz respeito aos serviços de streaming no Brasil, cuja regulamentação precisa avançar com urgência em bases mais equilibradas e justas para produtores, artistas e trabalhadores do audiovisual. Para que o cinema brasileiro mantenha seu vigor, é fundamental o comprometimento articulado das diferentes esferas federativas — governos federal, estaduais e municipais —, do setor privado, das universidades, das organizações da sociedade civil e da própria sociedade. A cultura e o cinema são expressões centrais do que somos e do projeto de país que desejamos construir.

Nesse contexto, insere-se a nossa aposta nos territórios do Norte e do Noroeste Fluminense, materializada na realização do Festival Internacional Goitacá de Cinema, que chega à sua segunda edição em 2026. Iniciativas como essa operam não apenas como espaços de exibição, mas como dispositivos de formação, articulação profissional e circulação de saberes, capazes de ampliar a presença desses territórios nos processos de produção, formação e difusão do audiovisual brasileiro.

Como no futebol, para que o Brasil se torne o país do cinema, é preciso investimentos na base, ‘disputando’ a vida e a formação de meninas e meninos por meio da arte e do fazer cinematográfico nos diferentes interiores e rincões do país. Acreditamos que o cinema e o audiovisual podem e devem constituir uma nova vocação produtiva e criativa para a região, abrindo campos de trabalho mais amplos e qualificados para os jovens, atraindo produções cinematográficas e consolidando esses territórios como referência na formação de mão de obra especializada para o setor. Isso requer investimentos e estratégia.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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