

Menino calado
Por Lívia Nunes
O céu do meio-dia queimava. Sentada em um dos bancos mais altos e próximos à entrada do ônibus, eu assistia pela janela à vida cotidiana de qualquer pessoa que me entretivesse. Observava trejeitos, conversas e, ouso dizer, escutava até pensamentos.
Do lado de fora, sentados no ponto de ônibus, um casal chamou minha atenção. Jovens, de uniforme escolar. Dezesseis anos, talvez menos. A menina parecia falar mais; o menino apenas ouvia. Cada um olhava para uma direção diferente e, ainda assim, era como se os olhares se cruzassem em X. Como se encontrassem um ponto comum na intersecção dos campos de visão.
O ônibus permanecia parado na estação, marcando os minutos de descanso do motorista, enquanto passageiros entravam apressados desde a abertura das portas, como se ainda houvesse coletes salva-vidas pelos quais lutar. Um assento vazio, um espaço menos abafado, qualquer vantagem para os percursos longos justificava pequenos atos de sobrevivência cotidiana.
Os primeiros a entrar, como eu, ocupavam seus lugares com certa aura de nobreza. Ao meio-dia, eu voltava para casa, assim como estudantes que, menos cansados pela idade, preferiam gastar os últimos minutos do lado de fora antes de correrem para o ônibus no instante derradeiro, pularem pela porta e seguirem viagem pendurados, se fosse preciso. Para eles, dez minutos a mais de conversa valiam mais do que um assento vazio. Eu tinha sido aquela menina um dia.
Mas o menino não falava. Ela dizia alguma coisa, sorria timidamente para o chão, depois o olhava de relance, buscando confirmação de que ainda era escutada. Ele respondia apenas com um movimento lento de cabeça. Preguiçoso. Econômico. Ela falava; ele ouvia. Ela sorria; ele ignorava. Ela procurava seus olhos; ele lhe devolvia somente um aceno breve, símbolo mínimo de presença.
Curiosa, tentei imaginar o assunto. Não escutava sequer resquício da voz deles. O vidro do ônibus, o burburinho de dezenas de conversas e a timidez adolescente — que leva a boca para perto do peito e faz o rosto baixar enquanto se fala — tornavam impossível qualquer tentativa de compreensão. Tentei ler seus lábios. Inútil. Ele não a ouvia e, infelizmente, eu também não.
Sentia o cheiro do sol quente. O ônibus, cheio além do imaginável, transformava todos ali em figuras simples e insignificantes dentro dos próprios rituais diários. Voltar para casa cedo ou chegar ao trabalho sem atraso bastava como recompensa para enfrentar a via crucis cotidiana. Para tantos, o flagelo, os corpos imprensados, os toques detestáveis e o calor não culminavam em redenção depois de um, nem dois ou três dias. Lá fora, porém, a menina ainda falava.
O ônibus ameaçou sair. O rapaz finalmente se agitou. Era ele quem embarcaria; ela apenas o acompanhava. O motorista anunciou a partida em voz estrondosa. O menino pegou rapidamente a mochila e tentou se levantar, mas ela foi mais incisiva: tocou-lhe a perna, impedindo-o de sair ainda.
— Responde!
Entendi perfeitamente.
Dessa vez, ela ergueu o rosto com coragem suficiente para abandonar a timidez:
— Quer namorar comigo?
A frase atravessou nitidamente o vidro, o calor, o ruído e chegou inteira até mim. O menino permaneceu em silêncio por milésimos de segundos incrivelmente longos. Depois balançou a cabeça positivamente antes de deixar escapar, quase constrangido:
— Quero.
Olhou para a mochila em uma das mãos, para menina ao seu lado. Em seguida reparou na lataria decadente do transporte público, percebendo que, realmente, perderia aquela condução.
O ônibus foi embora sem o rapaz.
Mas o menino partia naquele instante.
