
De Trump a Michelle, imponderável a presidente do Brasil
O que dizer do vídeo da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) no dia 24, antes do Brasil 3 e 0 Escócia, último jogo da fase de grupos da Copa do Mundo? Dos seus efeitos sobre a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) a presidente, só as pesquisas dirão. Antes delas, dá para dizer: foi mais um imponderável.
Imponderável é algo que nenhuma pesquisa ou ninguém pode prever. Em 2014, foi o avião que caiu e matou o ex-governador de Pernambuco e presidenciável Eduardo Campos. E quase elegeu presidente sua vice, a hoje deputada federal Marina Silva (Rede). Teria sido, se aquela campanha eleitoral fosse mais curta como a atual.
Parece haver uma esquadrilha de aviões de Eduardo Campos pairando no céu do Brasil. Em 2025, Lula (PT) vinha mal nas pesquisas até 9 de julho. Quando o presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou tarifar o Brasil se o Supremo Tribunal Federal (STF) condenasse Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado.
Lula soube surfar bem aquele imponderável de soberania nacional, cuja crista da onda veio com outro. Em 23 de setembro de 2025, Trump abriu a Assembleia Geral da ONU. E, falando ao mundo antes do presidente do Brasil, surpreendeu ao dizer que tinha rolado com este uma “química”.
A onda favorável a Lula quebrou ainda em 2025, na operação policial no complexo de favelas cariocas do Alemão e Penha, em 28 de outubro. Com 122 mortos e ampla aprovação popular, esta foi ignorada por Lula. Que chamou a ação de “matança” e “desastrosa”. Para colher esse desastre na sua nova queda nas pesquisas.
A fase ruim de Lula chegou a 2026 acentuada no domingo de Carnaval de 15 de fevereiro. Quando, em plena Sapucaí, o desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem ao presidente trouxe críticas abertas à família e aos cristãos. Sua ala “famílias em conserva” foi de um grau imponderável de estupidez eleitoral.
A reação ao radicalismo identitário, além da dita “família conservadora”, alcançou até mulheres de esquerda. Que também se sentiram ofendidas pelo tratamento misógino como “pessoas que gestam”. Dado, aos berros, pela deputada federal trans Erika Hilton (Psol) ao ser eleita presidente da Comissão da Mulher em 11 de março.
Com o histrionismo de Erika Hilton por cabo eleitoral, Flávio cresceu rapidamente nas pesquisas desde que foi lançado pré-candidato a presidente pelo pai, ainda preso na carceragem da Papudinha, em 5 de dezembro. O filho 01 de Jair chegou a superar Lula numericamente nas simulações de segundo turno em pesquisas de março e abril.
Já nas pesquisas do final de abril, Flávio aparentava ter batido o teto de transferência do seu pai em intenções de voto. Até que, em 13 de maio, o site Intercept revelou o áudio e mensagens de Flávio pedindo dinheiro ao hoje ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master, para o filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair.
Nas pesquisas da segunda quinzena de maio a junho, Vorcaro acentuou o recuo de Flávio, após este bater seu teto em abril. Mas nada que afetasse sua larga vantagem sobre qualquer outro presidenciável de oposição. Ou sua perspectiva de disputar o segundo turno em 25 de outubro, daqui a exatos três meses e 27 dias, com Lula.
Na verdade, após o efeito Vorcaro em Flávio ser medido nas pesquisas, o que se esperava era uma que medisse o envolvimento do petista Jaques Wagner, líder governista no Senado e amigo próximo de Lula, com o escândalo do Master. Que foi revelado em operação da Polícia Federal (PF) em 18 de junho. Mas não deu tempo.
Desde 2025, a sucessão de imponderáveis para essa eleição presidencial de 2026 é tanta que, na mesma quarta de 24 de junho em que Wagner renunciou à liderança do Lula 3 no Senado, Michelle divulgou seu vídeo. Em que acusou o enteado e presidenciável, Flávio, de tê-la “desrespeitado”, “maltratado” e “humilhado”.
O racha familiar do bolsonarismo se deu por motivo aparentemente menor: o apoio ou não à candidatura do ex-ministro Ciro Gomes (PSDB) a governador do Ceará, com chance real em todas as pesquisas de impedir a reeleição do petista Elmano Reis ao cargo. E a definição das candidaturas do PL ao Senado no estado nordestino.
“Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política”, disse Michelle do que Flávio lhe teria dito. Na verdade, o Ceará parece ter sido a gota d’água pela disputa pelo espólio eleitoral de Jair. Que “está sabendo de tudo”, garantiu a esposa sobre o vídeo e sua divulgação.
Em vídeo lendo teleprompter e cuidadosamente elaborado, Michelle claramente falou a dois eleitores que ela representa e são fundamentais ao bolsonarismo: os evangélicos e a mulher conservadora. Se, com eles, as pesquisas já davam algum favoritismo a Lula, sem eles a eleição de qualquer nome da oposição a presidente seria inviável.
Só as próximas pesquisas dirão o tamanho do estrago da madrasta na pré-candidatura presidencial do enteado 01. Na dúvida diante de mais esse imponderável, a certeza sobre a qual o antipetismo precisa ponderar: o presidenciável Flávio precisa muito mais de Michelle do que ela, virtualmente eleita senadora por Brasília, precisa dele.
Publicado hoje na Folha da Manhã.
