“Ainda Estou Aqui” — “A sociedade foi Rubens Paiva”

 

 

Assisti “Ainda Estou Aqui” em Campos no último domingo (10), no Cineflix do Shopping 28. Foi na última sessão de um dia particularmente feliz aos rubro-negros, com o 5º título da Copa do Brasil conquistado pelo Flamengo. Contra um Atlético Mineiro que tem por grande rival, desde o Brasileiro de 1980, o clube da Gávea. Mesmo que este, por ganhar quase sempre os jogos decisivos contra o time das Minas Gerais nos últimos 44 anos, ignore essa rivalidade.

Do futebol ao cinema e à política, da vida à arte que a imita, o perdedor pode ser mesquinho. O vencedor, para ser completo, tem que ser generoso. Vencedores ressentidos tendem a ser breves.

É da mesquinhez homicida de vencedores breves que trata o novo filme de Walter Salles. Considerado por muita gente o melhor diretor do Brasil no que ficou conhecido como “retomada” do cinema nacional, a partir de “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil” (1995), de Carla Camurati.

Também de 1995 é o primeiro grande filme de Walter, co-dirigido por Daniela Thomas: “Terra Estrangeira”, produção luso-brasileira e primeira parceria do diretor com a atriz Fernanda Torres. Com a mãe homônima desta, Fernanda Montenegro, Salles faria aquele tido como seu melhor filme: “Central do Brasil” (1998). Pelo qual a grande diva brasileira concorreu ao Oscar de melhor atriz, falando em português. Ela também está em “Ainda Estou Aqui”.

O filme começa numa cidade do Rio de Janeiro ainda idílica, boiando como Fernanda Torres na pele de Eunice Paiva no mar da praia do Leblon, no início dos anos 1970. Momento para si mesma, na emersão da dona de casa, mãe de cinco filhos e esposa do ex-deputado federal (cassado pelos militares em 1964) e engenheiro Rubens Paiva. Interpretado por Selton Mello, ele é o protagonista do primeiro terço do filme.

Naquele começo dos anos 1970, no entanto, o Rio como síntese do Brasil não era mais o da felicidade cantado na Bossa Nova, entre o final dos anos 1950 e início dos 1960. Que ainda parece ecoar na casa dos Paiva. Onde se canta e dança, sempre aberta aos amigos e à troca de influências entre pais e filhos.

Como corpo boiando na superfície aparentemente calma do mar, tudo acaba arrastado pela corrente da mesquinhez dos vencedores do golpe civil-militar de 1964. Que, num tsunami, invade a casa com agentes da repressão da ditadura. Para levar primeiro Rubens Paiva, depois Eunice e a filha de 15 anos do casal, a Eliana interpretada por Luiza Kosovski.

Após acalmar a família e seus captores, vestir terno e gravata e sair guiando o próprio carro sob escolta armada, não sabemos mais de Rubens Paiva. A partir dali, também presa e interrogada por 12 dias nos porões de um quartel militar, onde o som dos torturados ao fundo lembra muito o que vem do outro lado do muro de Auschwitz em “Zona de Interesse” (2023, de Jonathan Glazer), quem assume o protagonismo do filme brasileiro é Eunice.

A envergadura moral que a personagem revela é equilibrada pela composição de contenção de Fernanda Torres. Que assim tem que ser para assumir o leme da família, da criação dos cinco filhos, da reconstrução da sua própria vida e da cobrança corajosa pelo destino do marido, mesmo após sabê-lo morto. Ainda acossada pela mesquinhez covarde dos seus algozes, Eunice não boia mais à deriva. Ela navega!

Baseado no livro homônimo de 2015 de Marcelo Rubens Paiva, único homem entre os cinco filhos e interpretado criança por Guilherme Silveira, a história real da sua família não é sua primeira adaptação ao cinema. Seu primeiro livro, “Feliz Ano Velho”, também autobiográfico e sucesso editorial desde o lançamento em 1982, gerou filme homônimo em 1987, dirigido por Roberto Gervitz. No qual o narrador e personagem central é vivido por Marcos Breda.

Pelos olhos do filho, a saga dos Paiva em “Ainda Estou Aqui” é refletida na retina da mãe, de Fernanda Torres a Montenegro, Eunice da velhice. Além de ter sido indicado a uma vaga na disputa ao Oscar de melhor filme estrangeiro, tem expectativa de concorrer em outras categorias, inclusive, a de melhor atriz com a filha xará da Fernandona. Em 17 de janeiro de 2025, quando forem reveladas as indicações ao maior prêmio de Hollywood, saberemos.

Com a vitória esmagadora da direita nas eleições municipais do Brasil em outubro (confira aqui) e da extrema-direita nas eleições presidenciais dos EUA em novembro (confira aqui e aqui), a despeito da classe artística dos dois países militar majoritariamente no campo político progressista, o filme parece ter vindo errado no tempo. Ou, talvez, o tempo seja errado ao filme.

Certeza, só duas. A primeira, é do jornal satírico Sensacionalista: “‘Ainda Estou Aqui’ faz R$ 8 mi e prova que boicote da direita é a melhor política de incentivo à cultura”. A segunda é um pouco mais antiga. Foi ecoada na parte final do discurso de Ulysses Guimarães, ao promulgar a Constituição de 1988: “A sociedade foi Rubens Paiva, não os facínoras que o mataram”.

 

Confira o trailer do filme:

 

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