William Passos — Pesquisas projetam lulismo de Pirro a 2026?

 

Lula e o general grego Pirro, que se opôs aos romanos na Itália, onde batizaria o termo “vitória de Pirro”, triunfo momentâno que causa perdas insustentáveis

 

 

William Passos, geógrafo com especialização doutoral em estatística no IBGE

Lulismo de Pirro?

Por William Passos

 

Na semana passada, o IBGE e o ministério do Trabalho divulgaram os números do mercado de trabalho. Os resultados são ótimos. Ao todo, o país gerou 576.082 empregos com carteira assinada somando janeiro e fevereiro. Nesse momento, o Brasil registra máxima histórica de trabalhadores com CLT, a renda média dos trabalhadores ocupados bate recorde, a informalidade recuou e o desemprego, em 6,8%, foi o menor para fevereiro em toda a história do país, desde que a taxa de desocupação começou a ser monitorada.

Entretanto, esses resultados não têm se refletido em melhoria da aprovação do governo Lula. Que, na medição (confira aqui) de terça-feira (01) da Latam Pulse, Bloomberg e AtlasIntel, com margem de erro de 1 ponto percentual para mais ou menos, caiu para 44,9% em março de 2025. É sua menor aprovação desde o início da medição em janeiro de 2024, quando a aprovação foi apurada em 51,2%.

Com alta confiabilidade e testada em diferentes países, esta metodologia inovadora, que coleta o humor do eleitorado através de técnicas estatísticas sofisticadíssimas, com tecnologia de ponta e baseada em big data, aferiu 53,6% de desaprovação ao terceiro mandato do sindicalista e metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva. Que é um dos símbolos da luta em favor da democracia e contra o Regime Militar do país, num contexto ainda de Guerra Fria, que dividia o mundo entre a influência ideológica e militar dos EUA e URSS.

A alta da desaprovação de um dos principais líderes populares da história recente da democracia da América Latina, politicamente forjado no ABC Paulista, uma das veias do coração da indústria de substituição de importações brasileira, também foi captada pela Genial/Quaest (confira aqui) de quarta-feira (02). Que, com entrevistas presenciais, o padrão-ouro das pesquisas de opinião, e margem de erro de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, dimensionou em 56% a insatisfação do eleitorado brasileiro.

Dessa reprovação, são 46% no Nordeste e 45% entre aqueles que ganham até dois salários mínimos, justamente as duas bases de sustentação da vitória apertada de Lula em 2022. Contra um capitão reformado do Exército simpatizante de autocratas e regimes de exceção.

Com o salário-mínimo necessário calculado pelo Dieese em R$ 7.229,32 (direito, em tese, assegurado pelo Artigo 7° da Constituição Federal de 1988), exatos R$ 5.711,32 a mais que os R$ 1.518,00 do salário-mínimo federal, o terceiro mandato de Lula é marcado por um carrinho de supermercado mais vazio para a classe trabalhadora. O café, item elementar da nutrição do brasileiro, acumula alta de 66,57% entre fevereiro de 2024 e fevereiro de 2025, em números corrigidos pelo INPC, do IBGE. O óleo de soja, outro item indispensável na cozinha, alcança 23,61% de aumento no mesmo período.

A despeito da promessa, na última campanha eleitoral, do acesso a picanha com cerveja, o preço médio das carnes foi a 21,52%, no acumulado dos últimos 12 meses medidos pelo IBGE, com os valores do sal e condimentos acumulando alta média de 12,04%. Ainda na cozinha, os mais pobres viram as aves e os ovos subirem 10,23%, com o preço do leite e derivados aumentando em 9,10%.

Outro item com impacto dramático no orçamento das famílias mais pobres com acesso a automóvel, o combustível acumulou alta de 11,26%, com o preço da gasolina elevando a 10,59%. O etanol, por sua vez, cada vez mais proibitivo, viu seu preço subir a 20,36%, enquanto o transporte por aplicativo, uma alternativa emergencial ao transporte público, viu seu preço acrescer em 17,77%.

Num país com uma classe trabalhadora geracionalmente diferente daquela dos anos 1980, muito menos sindicalizada, sonhando menos com os direitos da CLT e muito mais aberta ao trabalho por conta própria e ao microempreendedorismo individual, a inflação dos alimentos e o tamanho do carrinho dos supermercados continuam sendo fatores decisivos para a reeleição (ou não) de presidentes. Sejam eles de esquerda ou de direita.

O fenômeno, no entanto, ganha contornos internacionais quando são observadas outras democracias liberais organizadas em torno de economias de mercado pelo mundo. No epicentro do capitalismo, Joe Biden enfrentou um pico de inflação de 9,1% em junho de 2022, com a inflação dos alimentos ultrapassando os 25%, segundo o Bureau of Labor Statistics (BLS), secretaria de Estatísticas do Trabalho dos EUA.

A situação nos EUA levou muitos trabalhadores a se endividarem para comprar comida, inclusive democratas de longa data de estados importantes como a Pensilvânia. Como sabemos, aliada a outras razões, a pressão inflacionária levou a desistência de Biden no meio da campanha eleitoral, em favor de sua vice, Kamala Harris. Que sofreu uma dura derrota nas urnas para o ex (e agora também atual) presidente Donald Trump.

No Brasil, num contexto de desaprovação crescente do Lula 3, a inelegibilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro cacifa o governador Tarcísio de Freitas ao Palácio do Planalto. Diretor-geral do Dnit no governo Dilma (2011 a 2015) e ministro da Infraestrutura de Bolsonaro (2019 a 2022), o perfil pró-entregas do carioca Tarcísio agrada às elites de São Paulo. Que anseiam pela retomada da agenda neoliberal interrompida desde o Lula I, mas ensaiada por Temer e Paulo Guedes, o ministro da economia de Bolsonaro.

A cerca de um ano e oito meses do fim do Lula 3, em sobrevoo raso, dois olhares de diferentes origens se alinham em voo de cruzeiro. Sob o olhar europeu do jornalista Philipp Lichterbeck, correspondente da DW radicado no Rio de Janeiro, o Brasil de Lula está (confira aqui) preso ao passado, travado por abordagens nostálgicas e ultrapassadas.

Sob os olhos do paulista de nascimento André Singer, filho de pai austríaco, o “sonho rooseveltiano” de erradicação da miséria e diminuição das desigualdades sociais, inspirado no 32º presidente dos EUA e que deu sentido ao “lulismo” — isto é, a criação, no curto espaço de alguns anos, de um país onde as maiorias pudessem levar uma “vida material reconhecidamente decente e similar” — pode não ter passado, na verdade, como o título do quinto capítulo do último livro da trilogia do autor, de “Uma vitória de Pirro”.

 

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