

A humanidade e o desconhecido
Por Felipe Fernandes
Embora tenha dirigido obras de diversos gêneros, a ficção científica parece ser o porto seguro de Steven Spielberg. Para onde ele frequentemente retorna a fim de realizar filmes bastante distintos, que lhe permitem explorar temas recorrentes em sua filmografia, como o fascínio pelo desconhecido, a infância, a família, a tecnologia e a condição humana.
Seu novo filme, “Dia D”, parte de uma história criada pelo próprio diretor, que constrói um thriller inspirado na lenda da aparição de alienígenas no Novo México, na década de 1940, incidente considerado o marco inicial da ufologia moderna e alvo de décadas de teorias conspiratórias sobre o acobertamento da existência de vida extraterrestre. Trata-se de uma história já enraizada no imaginário popular estadunidense, embora hoje menos presente na cultura pop.
O filme brinca com as teorias da conspiração e com o estranhamento em situações bizarras. Que acontecem sem muitas explicações, enquanto dois grupos correm contra o tempo para lidar com a informação e com a exposição das provas de vida extraterrestre.
A obra dialoga com um mundo polarizado e com a forma como essa descoberta poderia impactar uma sociedade em permanente estado de emergência. O filme gira em torno dessas questões, ao mostrar como tal revelação poderia afetar aspectos morais, religiosos e sociais, além de resgatar um tom de esperança e fé na humanidade, elemento mais presente nos filmes mais antigos do diretor.
Dentro dessa atmosfera de estranheza, Spielberg trabalha um tom cômico, quase juvenil, sobretudo por meio da protagonista. Essa comicidade recebe o reforço da trilha sonora do genial John Williams, que aqui entrega uma de suas composições mais esquecíveis.
O filme possui um ritmo urgente, uma correria incessante, com pessoas se deslocando de um lado para o outro, mas essa urgência pouco se justifica narrativamente. O artefato alienígena, que permite aos indivíduos adquirir certas habilidades, acaba funcionando como uma muleta para criar tensão e oferecer ao vilão algum recurso, já que sua organização é formada por incompetentes nos mais diversos níveis.
Toda essa questão do diálogo entre espécies é interessante, mas é impossível não traçar um paralelo com “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, clássico grandioso do diretor que aborda tema semelhante de forma muito mais original e inventiva. Nesse sentido, o longa parece quase uma atualização daquele filme, ao refletir as ansiedades do século XXI: o medo da desinformação, das teorias conspiratórias e da fragmentação social.
O roteiro do experiente David Koepp, parceiro habitual do diretor, é inteligente ao reunir uma dupla principal formada por um hacker, responsável por decifrar códigos, e uma jornalista, encarregada de comunicar. Essas características são essenciais para o andamento da trama. Ainda assim, o filme carece de bons personagens. Em meio a tanta correria e estranheza, é difícil criar uma conexão com qualquer um deles.
Isso se torna mais evidente no terço final da obra, quando Koepp e Spielberg abandonam a ambiguidade que havia tornado a jornada intrigante e passam a explicar a origem dos fenômenos, os segredos governamentais e as motivações por trás da “Grande Revelação” por meio de diálogos e longas cenas expositivas. Soma-se a isso uma aceitação quase imediata por parte da população, numa ingenuidade digna de filmes infantis.
“Dia D” é menos um filme sobre extraterrestres e mais uma reflexão sobre a humanidade diante do desconhecido. Spielberg demonstra, mais uma vez, que a ficção científica é um gênero poderoso para discutir a condição humana e o desejo universal de encontrar algo maior do que nós mesmos.
A sensação é a de assistir a um cineasta outrora fascinado pelo desconhecido que tenta racionalizar o mistério até esvaziá-lo. Em vez do sucessor espiritual de “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” que prometia ser, “Dia D” acaba se aproximando de um exercício incapaz de recuperar a magia, a ambiguidade e a capacidade de assombro que fizeram de Spielberg um dos grandes mestres da ficção científica.
Publicado na Folha da Manhã:
Confira o trailer do filme:
