Wellington Cordeiro — João, o caramelo de Lagoa de Cima

 

Os grafiteiros Vander Xchex, Ares Pillas e Nando Pontes com sua criação em homenagem a João, o vira-lara caramelo de Lagoa de Cima (Foto: Wellington Cordeiro)

 

Wellington Cordeiro, jornalista, repórter-fotográfico, presidente da Associação de Imprensa Campista (AIC) e membro da Academia Campista de Letras (ACL)

João, o caramelo que virou arte às margens da Lagoa de Cima

Por Wellington Cordeiro

 

Três artistas visuais, de passagem por Lagoa de Cima, balneário de Campos dos Goytacazes, decidiram transformar em arte a lembrança de um morador muito especial. O homenageado, porém, não era uma personalidade do município, tampouco alguém conhecido nacionalmente. Era João, um cachorro vira-lata, típico caramelo, que durante cerca de 17 anos conquistou o carinho de toda a comunidade.

João morreu há aproximadamente três meses e deixou uma espécie de vazio entre aqueles que se acostumaram com sua presença tranquila pelas ruas e pelas margens da lagoa. Para eternizar sua imagem, os grafiteiros Nando Pontes, Vander Xchex e Ares Pillas escolheram um trailer localizado à beira da Lagoa de Cima como tela para uma homenagem que mistura memória, natureza e afeto.

Nascido em Itaperuna e radicado no Rio de Janeiro, Nando Pontes já conhecia o lugar, por manter laços familiares com um dos moradores. Já o paulista Xchex e o paraguaio Ares Pillas estavam conhecendo Lagoa de Cima pela primeira vez. Os três, acostumados a realizar grandes trabalhos de arte urbana em diferentes partes do país, haviam chegado a Campos com a intenção de descansar depois de concluírem um projeto em Itaperuna. Mas a história de João mudou os planos.

O encontro com os moradores e o relato sobre o cachorro despertaram nos artistas a vontade de fazer algo que fosse além de um simples grafite. A ideia foi eternizar João no lugar onde ele viveu boa parte de sua história. Nas paredes, João tem a companhia de uma garça e uma flor de Hibiscus.

Para construir a imagem do cachorro, Nando utilizou recursos tecnológicos, entre eles óculos 3D, para elaborar os traços e proporções do desenho. Depois, os três artistas entraram em ação com suas latas de spray, dando cores e vida à composição.

“João era um cão que toda a comunidade se acostumou a amar e proteger, apesar de ele preferir não ser de ninguém”, conta Afonso Celso, um dos moradores. Segundo ele, João tinha seu próprio jeito de se relacionar com as pessoas. “Ele visitava a todos a seu próprio tempo. Mas, nesses momentos de contato, existia uma intensa troca de carinho, na mais pura amizade canina com as pessoas.”

Para Nando Pontes, transformar essa história em arte foi também uma maneira de reconhecer esse vínculo. “É muito prazeroso registrar com arte um animal que tinha uma relação tão especial com as pessoas”, afirma o artista.

A história de João remete, guardadas as proporções, à trajetória de Hachiko, o famoso cão japonês que se tornou símbolo mundial de lealdade e ganhou uma estátua em uma estação de trem, além de ter sua história levada ao cinema. Hachiko ficou conhecido pela relação de fidelidade com seu tutor. João construiu uma história diferente: não pertencia a uma única pessoa. Pertencia, de certa forma, ao lugar.

Durante sua longa vida, a Lagoa de Cima foi sua casa. lá ele se banhava em suas águas, circulava pela comunidade e até se aventurava a pescar. Não tinha dono, mas tinha muitos amigos. Não obedecia a uma rotina imposta, mas fazia parte da rotina de todos.

Agora, sua presença ganhou outra forma. Está estampada para a admiração de todos, até de quem não teve a sorte de conhecê-lo. Mostrando que algumas presenças, mesmo depois da partida, nunca deixam de existir.

 

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