
Falecida hoje, aos 90 anos, Marluce Guimarães Silva foi minha professora de História na antiga 5ª série, hoje 6º ano do ensino fundamental, no Liceu de Humanidades de Campos. Era um tempo em que a escola pública era referência de excelência.
Sair do antigo primário, cursado na Escola Santo Antônio, onde hoje funciona o Hortifruti da Formosa, para ingressar no Liceu era um rito de passagem da infância à adolescência, naquele hoje distante ano de 1983. Quando dona Marluce talvez tenha sido a mestra que mais estimulou e reforçou minha paixão pela História.
Excelente professora, tanto em conteúdo quanto no didatismo, era capaz de capturar o interesse mesmos dos alunos que não gostavam tanto da matéria. As suas sacadas em analogias entre eventos do passado e fatos do presente cotidiano eram perceptíveis mesmo a pré-adolescentes de 11 anos.
Naqueles tempos ainda de ditadura militar (1964/1985), em que o cidadão brasileiro ainda não podia votar a presidente da República, ela estimulava consciência crítica, mas sem proselitismo político. Mais adepta da maiêutica socrática, fazia o aluno se indagar para tentar parir suas lições da História, sem imposição à fórceps pelo dogma.
Um pouco mais tarde, ainda nos anos 1980, dona Marluce trabalhou junto à sua colega e minha mãe, Diva Abreu Barbosa, no antigo departamento de Cultura de Campos, no último governo municipal Zezé Barbosa. Em que as duas, mais os também professores de História Conceição Sardinha e Arthur Soffiati, fizeram um grande trabalho, inclusive na reaproximação do grande escritor campista José Cândido de Carvalho com Campos.
Também nos anos 1980, dona Marluce e a também professora Maria Nilza Gonçalves Patrão Dias lançariam o livro “Gente da Terra”. Destinado a adotado à época pelo ensino fundamental de Campos, contava sua História com texto, ilustrações e mapas, a partir da perspectiva de quatro crianças: Laura, Carla, Cíntia e Sérgio.
O processo didático daquele livro sobre a História de Campos era uma reprodução da mesma maiêutica que testemunhei aplicada por dona Marluce numa sala de aula do Liceu. E lá descobri anos antes de ler “Apologia de Sócrates” e “Fédon”, de Platão sobre seu mestre.

No início de 2023, ao fazer uma viagem longa por Holanda, Egito, Israel, Palestina e França com meu único filho, Ícaro, morto precocemente naquele mesmo ano, abrimos juntos um grupo de WhatsApp que batizamos “Diário de viagem”. E nele colocamos algumas pessoas que, além de amigas, julgávamos ter noção do roteiro mais histórico que turístico por quase dois meses no Velho Mundo. Entre eles, estava dona Marluce.
Em 3 de janeiro daquele ano, entre os vários quadros de Van Gogh que visitamos no seu museu homônimo em Amsterdã, estava “Lírios”. É uma natureza morta do mestre holandês, em óleo sobre tela de 1890, com o buquê de lírios azuis num vaso, sobre fundo amarelo.

Em 11 de janeiro do mesmo mês e ano, já no Egito, ao visitarmos o Museu do Cairo, Ícaro e eu dedicamos especial atenção à sala que reúne os achados arqueológicos do período do faraó Akhenaton. Primeiro a historicamente fundar a crença num Deus único, como única foi a revolução por ele promovida nas artes visuais do Egito Antigo.
Conhecido por estilo armaniano, batizado pela cidade de Tell el-Amarna, construída como capital do Egito e cujas ruínas hoje pouco visitadas Ícaro e eu também conhecemos, a nova arte só durou os 17 anos de reinado de Akhenaton, no séc. XIV a.C. Mas foi única nos mais de 3 mil anos de História do Egito Antigo, sendo varrido violentamente pela contrarreforma politeísta após a morte do faraó “herético”.

Entre o que sobreviveu da arte armaniana, naquela sala do museu do Cairo, além do sarcófago quase psicodélico do faraó que promoveu sua breve, mas profunda revolução religiosa e cultural no Egito, Ícaro e eu vimos afrescos de parede com cores ainda preservadas de lírios azuis. No dia 12, postei as fotos dos lírios de Van Gogh e de Akhenaton no grupo, especulando sobre uma improvável ligação histórica entre eles.
Com generosidade materna, Diva comentou no grupo: “Realmente, faz sentido a sua observação”. Ao que dona Marluce também comentou: “Estamos tendo aula de arte, que beleza”. E, na nossa última interlocução, virtual e fisicamente separados por um oceano, um mar e um hemisfério, disse que eram apenas impressões, sempre relativas, filtradas pela sensibilidade pessoal.
Essa necessidade de buscar pontes do presente com a História, de Van Gogh com Akhenaton, comungada com meu único filho na nossa última viagem, entre três continentes, foi lecionada numa sala de aula do Liceu por dona Marluce. Que, antes de mim, soube a indizível dor de sobreviver à morte também precoce da sua única filha.
Sua influência na minha paixão pessoal pela História, legada a Ícaro, não foi inferior à que depois teriam Heródoto, Tucídides, Plutarco, Júlio César, Suetônio, Josefo, Gibbon, Colombo, Caminha, Staden, Pigafetta, Cortéz, Euclides, Rondon, Lamego, Toynbee, Tchuman, Hourani, Hobsbawn, Braudel, Faoro, Golbery, Darcy, Leick, Doratioto, Gaspari e Harari.
Vá em paz, professora! Muito obrigado!
