Crônica — Sem debate, Brasil de Lula e Flávio entre STF e Trump

 

 

— E aí? Vamos dar um tempo e tomar uma para afinar o sangue, como disse o Ciro depois de ficar no primeiro turno a presidente de 2018? — indagou Aníbal a Rosa Maria, os dois na cozinha do apartamento, onde ela estava em seus afazeres e ele entrou com uma lata de Spaten gelada. Como criança que busca a superfície em meio a um caldo no mar, seu corpo demandava pausa no trabalho diuturno de jornalismo político em semana de eleição, diante do laptop.

— Vamos! — respondeu ela com um sorriso, como se também buscasse a superfície, antes de enxugar as mãos com a tolha de prato e pegar duas tulipas na despensa.

— E o debate da Globo de ontem, que não teve, o que achou? — puxou assunto Aníbal, enquanto enchia as duas tulipas. Inclinadas, para fazer menos espuma.

— Um absurdo! O povo do ônibus só falava disso!

— Do que o povo falava?

— Que o país parece que não tem presidente. Que o Supremo só faz o que quer. Que esse velho, que fica tremendo o papo como sapo quando caça mosquito à beira do brejo, manda e desmanda no Brasil.

— Tem uma frase atribuída a Rui Barbosa: “Os canalhas também envelhecem”. Gilmar determinou que o maluco do Renan Santos fosse só para atacar Flávio no debate, já sem Lula. Os Bolsonaro não merecem defesa ou voto. Mas a turma do STF de Gilmar e Dino, mais Moraes e Zanin, perdeu a vergonha de agir como cabo eleitoral de Lula.

— Perderam a vergonha mesmo. Parece marido ou mulher que trai na frente do outro, na cama do casal.

— Gilmar usou um dos prepostos do seu grupo do STF na Câmara dos Deputados, o manjadíssimo Paulinho da Força, para se escolher como juiz numa ação que não tinha nada a ver com a questão, impor a ida de Renan e acabar de melar o debate.

— É isso que o povo falava no ônibus. Que estava todo mundo esperando pra ver o debate depois da novela da Globo e ficou com cara de tacho. Como em jogo do Brasil em Copa do Mundo quando falta luz. As pessoas falavam com muita raiva.

— É pra ter mesmo! Mas não foi só Gilmar. Apadrinhada de Dino e indicada do TSE por Lula, depois de trabalhar pra ele, a tal ministra Estela Aranha já tinha proibido a Globo de mostrar a cadeira vazia de Lula e que outros candidatos presentes fizessem a ele perguntas. Condições que o representante do PT aceitou e assinou em documento. E depois quiseram mudar só porque Lula decidiu não ir.

— Pois é, Aníbal. Que doideira, né?! Que Justiça é essa que não vale nem documento assinado de vontade?

— É a Justiça que tem Dino como líder político da bancada de Lula no STF. E olhe que eu gostava dele. Juiz federal de carreira, deputado federal, senador e governador bem avaliado do Maranhão. Achava um cara que poderia assumir o lugar de Lula como nova liderança da esquerda brasileira. Até que a máscara caiu no STF.

— É aquela história: quer conhecer alguém, dê poder a ele.

— Antes e depois do STF, Dino lembra a frase de Nelson Piquet sobre Rubinho Barrichello: “Até entrar na Fórmula 1, fez tudo certo. Depois fez tudo errado”.

— E o que você acha que vai dar no domingo, depois disso tudo?

— Ainda não temos pesquisas depois dos fatos de ontem. E já estamos a dois dias do 1º turno. O mais provável é que tenhamos segundo turno, disputado voto a voto. Mas e você, o que acha, Rosa Maria?

— Acho que o negócio do debate pegou muito mal pra Lula. Não voto mais nele.

— Pegou mal pra Lula, sim. Mas pra Flávio também. Votei em Lula duas vezes e não me arrependo. Se pudesse voltar no tempo, votaria de novo. Votei no segundo turno de 1989, contra Collor. E no segundo turno de 2022, contra Bolsonaro. Mas também não voto mais.

— Vi muita gente no ônibus dizendo a mesma coisa. Os bolsonaristas, então, diziam muito pior.

— Lula é refém dessa turma do STF. Não governa ou se reelege sem esses ministros que brigam pra sobreviver, pra não sofrer impeachment. É o que rola dentro da regra com ministros da Suprema Corte corruptos do nosso vizinho Chile. Aqui, ainda querem  botar mais quatro ministros para estrangular de vez a República. Difícil saber o que é pior: viver sob o tacão de quem manda no STF ou dos EUA de Trump.

— O Brasil está entre o fogo e a frigideira.

— Com tudo que está havendo, à luz do dia e com a falta de vergonha de quem trai na frente do parceiro, como você disse, só não dá pra torcer pra Lula e sua bancada no STF e no TSE arrebentem a cara no chapisco da urna porque do outro lado tem… Flávio Bolsonaro! — lamentou Aníbal como num samba-canção. Tomou o último gole de Spaten da tulipa com desesperança, lavou o rosto na pia e voltou ao trabalho.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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