
Até a Copa do Mundo de 2022, algum fator clubístico poderia dar azo ao debate entre Lionel Messi e Cristiano Ronaldo. Depois do que fez na Copa do Mundo daquele ano, na qual marcou sete gols, dois deles na final contra a França, e fez a Argentina campeã do mundo 40 anos depois de Maradona em 1986, Messi a este se igualou. E qualquer debate entre ele e qualquer jogador do seu tempo deixou de existir no mundo real.
Ao se eleger ontem presidente da República pela quarta vez, mas pela primeira vez contra a projeção de quase todas as pesquisas e analistas eleitorais, não há debate: Lula é o maior líder popular da História do Brasil. Superou Getúlio Vargas, que ocupou o cargo três vezes, mas apenas uma pelo voto popular, e a Fernando Henrique Cardoso, eleito presidente duas vezes, batendo o próprio Lula nas duas ainda no 1º turno.
Embora a virada histórica de Lula em 2026 posse pouco provável, o caminho que ela percorreu eleitoralmente estava bem definido. Em artigo do dia 24, véspera da eleição, foi possível apontar (confira aqui) não só os caminhos necessários, como as dificuldades do trajeto, que passavam pela virada em Minas Gerais e a redução da abstenção nacional:
“Contra Lula pesam duas escritas. A primeira? Desde que o 2º turno foi instituído, em 1989, quem passa à frente no 1º turno presidencial leva o turno extra. A segunda? Desde Juscelino Kubitschek em 1955, há 71 anos, quem vence a eleição a presidente em Minas Gerais leva o Brasil de brinde.
Quem venceu no 1º turno presidencial nas Minas de Juscelino foi Flávio. Ele teve 48,24% dos votos válidos, contra 43,33% de Lula, 4,91 pontos atrás (…) Para virar o Brasil, na escrita de mais de sete décadas, Lula teria que virar Minas.”
De fato, Lula foi o primeiro presidente do Brasil eleito no turno final após ter ficado atrás no turno inicial. E Minas se revalidou como termômetro da eleição presidencial: Lula teve 50,43% dos votos válidos do estado no 2º turno, contra 49,57% de Flávio, 0,86 ponto atrás. E, como de praxe, quem ganhou em Minas levou de brinde o Brasil.
Noves fora Minas, aquele artigo da véspera da eleição também foi enfático em outra projeção: “A chance real de Lula seria tentar diminuir a abstenção nacional”. E, de fato, dos 21,08% no 1º turno, a abstenção caiu para 19,22% no 2º turno. Daí saiu a virada, sobretudo porque os estados que puxaram a queda de abstenção foram do Nordeste.
Nos três maiores colégios eleitorais nordestinos, por ordem de grandeza, a Bahia teve 19,97% de abstenção no 1º turno e caiu para 16,71% no 2º turno, 3,26 pontos a menos; Pernambuco teve 18,17% de abstenção no 1º turno e caiu para 15,18% no 2º turno, 2,99 pontos a menos; e o Ceará teve 15,52% de abstenção no 1º turno e caiu para 13,89% no 2º turno, 1,63 ponto a menos.
Os seis estados brasileiros com menor abstenção nacional no 2º turno também foram todos do Nordeste. Além de Bahia, Pernambuco e Ceará, a Paraíba teve 15,54% de abstenção, 1,84 ponto a menos que os 17,38% do 1º turno; Sergipe teve 15,71% de abstenção, 1,59 ponto que os 17,30% do 1º turno; e o Rio Grande do Norte teve 16,06% de abstenção, 2,32 pontos a menos que os 18,38% do 1º turno.
Além da queda da abstenção entre os dois turnos, contrariando a tradição histórica, mas repetindo o que já dera em 2022 a vitória a Lula, a vitória deste em 2026 também se deu pela redução dos votos nulos e brancos. No 1º turno, foram 2,93% de votos nulos, que caíram 0,81 pontos aos 2,12% do 2º turno. No 1º turno, foram 1,84% de votos brancos, que caíram 0,72 ponto aos 1,12% do 2º turno.
Além da virada em Minas entre os dois turnos, e da queda da vantagem de Flávio nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, foram essas reduções nacionais em abstenções, votos nulos e brancos que, somadas, deram a Lula uma vitória inquestionável. Com 51,79% dos votos válidos contra 48,21% de Flávio, a quem superou por 3,58 pontos, ou 4,4 milhões de votos a mais dos brasileiros.
Nada disso tende a atenuar as dificuldades que Lula terá pela frente. Além da bomba fiscal por ele mesmo armada e com contagem aberta, agravada pelo pacote de “bondades” eleitorais de mais de R$ 400 bilhões que usou para se reeleger, o Congresso com maiores bancadas do PL e da direita no Senado e na Câmara Federal não projetam vida fácil. Ao Governo Federal e, sobretudo, a um Brasil dividido.
“É possível Lula virar essa pequena vantagem (de Flávio no 1º turno) até que a intenção de voto se concretize em voto na urna no domingo? Sim, é! Seria uma surpresa? Não, não seria!”, concluiu aquele artigo de véspera.
Aos 39 anos, Messi também transformou o improvável em realidade neste ano cheio de 2026. Mas, sem demérito ao gênio do futebol, ele se aposentou da Argentina e das Copas do Mundo sem vencer sua última final. Ao completar nesta terça-feira (27) 81 anos, Lula caminhará ao quarto mandato presidencial após virar sua última final.
Mesmo a quem torce contra, necessário reconhecer: Lula é jogador de jogo grande. E o maior craque eleitoral em meio milênio de História do Brasil.
