O “crime” da mídia brasileira é publicar as maiores barbaridades perpetradas contra o Brasil

Movimento contra a liberdade de imprensa
Por João Ricardo Moderno
O desprezo pela liberdade de imprensa e de expressão cresce nos políticos radicais brasileiros; e, no Facebook, valendo-se da liberdade da internet, militantes engrossam a voz contra a mídia. O sonho totalitário é tornar a grande imprensa brasileira de timbre estatal, buscando a “harmonia” ditatorial. Assim, jamais teríamos reportagens estarrecedoras sobre a progressiva e interminável cultura da corrupção, do furto aberto ao dinheiro público e a desavergonhada sucessão de crimes, em uma escalada reconhecida por especialistas como talvez a maior da história da humanidade.
Contudo, nada parece abalar a convicção que a preservação e a expansão política e demográfica do homo corruptus depende da destruição da liberdade. Em latim, corrumpere significa destruir. Assim, corromper a liberdade é a garantia quase constitucional de expandir a corrupção do dinheiro público. O mantra liberticida faz alusão ao “controle social da mídia” ou “regulação da mídia”, eufemismos para a repressão. Controle social da mídia faz o consumidor, que escolhe livremente seus veículos de comunicação. Os trabalhadores dos meios de comunicação de massa são oriundos dos mais diversos estados da federação, das mais diferentes origens sociais, econômicas, ideológicas, culturais e políticas.
A guerra de posição gramsciana contra a liberdade de imprensa já começou por meios econômicos, políticos, psicossociais e culturais. Quanto mais são divulgados os malfeitos criminosos, maior o movimento contra a imprensa livre. O “crime” da mídia brasileira é publicar as maiores barbaridades perpetradas contra o Brasil. A chamada revolução bolivariana na América Latina tem especial objetivo de calar a liberdade para implantar uma imprensa subserviente, obediente, corrupta, chapa-branca e autoritária. A liberdade de expressão é a pedra no sapato dos totalitarismos. Por isso, todos os países do eixo bolivariano formam um bloco unido contra a crítica da imprensa.
A guerra contra a mídia atinge diretamente a liberdade da arte, da cultura, da ciência, da religião, da economia, da política, do esporte e demais atividades humanas. O fanatismo ideológico associado ao furor da paixão pelo crime financeiro, o materialismo mais hediondo da adoração ao bezerro de ouro e uma vontade patológica de poder se associam para condenar os mais elevados valores e princípios do Estado Democrático de Direito. É nosso dever, pois, defender a liberdade de imprensa e de expressão de toda tentativa de repressão autoritária, e de todas as agressões explícitas ou dissimuladas. Mais vale corrigir alguns excessos inerentes à democracia que aprovar a exceção do fim da liberdade no Brasil. Democracia é contradição.
Publicado aqui, na globo.com
Só falta agora que, abandonada por Lula e odiada pelo povo, Dilma engorde tudo de novo

A bolha assassina
Por Ruy Castro
A presidente Dilma emagreceu 13 quilos em menos de dois meses. Puxados pelos índices econômicos, seu governo, sua força no Congresso e sua popularidade também emagreceram em escala equivalente. Essas quedas bruscas podem ser enganadoras, mas os observadores mais independentes consideram que Dilma já não tem muita gordura para queimar e garantem que seus índices continuarão caindo. Ainda mais agora, por ter contra si um partido capaz de tudo quando se encontra na oposição: o PT.
E é isto que torna a coisa intrigante. Dilma foi criação exclusiva de Lula — fundador, perpétuo inspirador e sinônimo do PT. Feita de barro e posta a andar com um sopro, ocupou cargos-chave nas duas administrações do criador e, por sua identificação com os princípios, programas e posturas do PT, foi duas vezes escolhida candidata à Presidência pelo partido. Em ambas as campanhas, e nos dois turnos de cada, foi solidamente instrumentalizada pelos ideólogos e marquetólogos petistas — nenhuma frase, palavra ou ideia lhe saiu pela boca sem aprovação oficial.
Instrumentalização esta que atravessou seu primeiro governo e se materializou na chuva de benesses populistas, redução de taxas, estímulo ao consumo, vivas ao desperdício e bolsas a cair do céu para tantas categorias. Tudo proposto e aprovado triunfalmente pelo PT, e executado por milhares de militantes ocupando cada espaço da administração e reafirmando ser aquilo apenas uma fiel continuação do governo Lula.
Se, de repente, descobre-se que tal triunfalismo não passava de uma bolha, que a bolha estourou e é preciso conter o pus, por que espremer somente Dilma se, em quatro anos, ela só fez o que os companheiros achavam justo e certo?
Só falta agora que, abandonada por Lula, desprezada pelos companheiros e odiada pelo povo, Dilma engorde tudo de volta.
Publicado aqui, na folhadesaopaulo.com
Inflação — Dilma recebeu de Dilma uma herança pesada. E o público pagante somos nós

Público pagante
Por Miriam Leitão
A inflação chegou a 7,36% com a economia estagnada. Foi o dado do IPCA-15 divulgado ontem. Em dois meses, a taxa acumulada é metade da meta do ano. O aumento da energia elétrica em 12 meses é de quase 30%. Dez de 11 capitais pesquisadas pelo IBGE têm inflação acima do teto da meta. O IPCA-15 de 1,33% deve ser confirmado no IPCA do mês de fevereiro.
Até recentemente os economistas brasileiros achavam muito altas as taxas de inflação da Índia, que oscilaram de 7% a 11% entre 2006 e 2012. Os indianos eram o patinho feio inflacionário dos Brics, ao lado da Rússia, pois tinham taxas mais altas quando comparadas às da China, Brasil, e África do Sul. Hoje, a inflação no Brasil é maior que a da Índia, que tem se beneficiado muito da queda dos preços do petróleo, dos alimentos e da energia. O BC indiano está cortando juros.
Nas 11 capitais pesquisadas, apenas Salvador não está com a inflação acima do teto da meta, com 6,19%. As outras 10 estão com índices acima de 6,5%. O Rio de Janeiro é quem sofre mais com a alta dos preços, que dispararam 8,84% em um ano. O Rio passou quase todo 2014 com a inflação acima do teto, e agora se aproxima de 9%. Goiânia e Porto Alegre também têm índices na casa dos 8%. Recife, Brasília, Belém, Curitiba e São Paulo marcam inflação na casa de 7%.
A inflação é mais um caso de Dilma versus Dilma. Ela errou no governo passado, e a conta chegou no atual mandato. Os preços administrados foram contidos artificialmente e agora estão sendo corrigidos. Têm subido muito os grupos transporte e habitação.
Nos transportes, é o efeito da alta da gasolina e da volta da Cide, mas, em fevereiro, foi principalmente aumento de ônibus em todas as cidades pesquisadas. Há dois anos, o então ministro da Fazenda Guido Mantega ligou para prefeitos e governadores pedindo para que eles não reajustassem as tarifas de transporte público. Queria evitar que a inflação do mês de janeiro fosse alta demais. Em junho de 2013, no meio dos protestos, o governo segurou os pedágios nas rodovias federais.
Preço que é contido em um momento aparece em outro. A gasolina e o diesel foram mantidos com preços abaixo do que a Petrobras pagava no mercado internacional. Agora, quando cai a cotação lá fora, os combustíveis sobem aqui dentro. A consequência se viu ontem nas estradas: os caminhoneiros pararam rodovias em oito estados protestando contra o aumento do diesel e a alta dos pedágios. Além disso, o frete, o que eles recebem, não subiu. A paralisação em si já provoca efeitos econômicos. Há cidades desabastecidas e preços subindo. Isso produzirá mais inflação.
Há aumentos que acontecem num período do ano, como o do item educação, o que mais subiu no IPCA-15 de fevereiro. Há outros que vão incomodar o ano inteiro, como a energia. Além dos 29,5% de alta nos últimos 12 meses, o item vai continuar subindo pelos reajustes nas datas de cada concessionária e elevações extraordinárias que estão previstas. Vão subir porque o governo derrubou o preço artificialmente, desequilibrou as empresas financeiramente, deixou que elas pegassem empréstimos para serem cobrados do consumidor. É isso que fará o item habitação ficar alto o ano inteiro.
As projeções para a inflação de 2015 estão se distanciando do teto da meta de 6,5%. O economista chefe do Banco ABC Brasil, Luis Otávio Leal, estima que a inflação vá terminar o ano entre 7,5% e8%. O Itaú Unibanco estima alta de 7,4%, a mesma projeção da consultoria Rosenberg Associados.
O IPCA-15 é uma espécie de prévia. Pega a metade de um mês e a metade do outro. E subiu em relação ao IPCA de janeiro, que deu 1,24%. Mesmo se essa aceleração não continuar, o IPCA do mês de janeiro deve ficar acima de 1%, o que elevaria a taxa em 12 meses para 7,6%.
O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, já havia avisado que esse seria o pior bimestre do ano e que em março a inflação em 12 meses começaria a cair. Tomara que seja só um momento ruim. Há muita pressão de alta. Uma delas é a do dólar. Há dias de queda, como ontem, mas a tendência tem sido de fortalecimento da moeda americana. O aumento do dólar tem efeito em vários produtos, inclusive a tarifa da energia de Itaipu. Dilma recebeu de Dilma uma pesada herança. E o público pagante somos todos nós.
Publicado hoje na Folha da Manhã
Facebook e tweets são muito mais usados para ofender e ridicularizar do que trocar ideias

O Desafio da Geração @: como transformar indignação em mudança?
Por Marisa von Büllow
Da Turquia aos Estados Unidos, do Chile ao Brasil, nos últimos anos temos visto a intensa presença da juventude nas ruas, mobilizada para pedir mudanças que buscam diminuir a desigualdade econômica e melhorar o funcionamento da democracia.
O discurso homogeneizador e simplista (tão comum há pouco tempo) de que a juventude é apática, egoísta e desinteressada da política não soa mais verdadeiro. Pelo menos não para a juventude que aprendeu a usar as plataformas da Internet para o ativismo político, e que em junho de 2013 viu como essas mídias sociais podem ser utilizadas, com muito sucesso, para organizar protestos.
A questão é que desde então parece haver uma percepção de que a Internet basta. Não são mais necessárias organizações da sociedade civil. Não são mais necessárias assembleias longas e nem a eleição de líderes. Esvaziam-se as organizações estudantis, mas não tem problema. Porque temos a Internet.
Com efeito, as mídias sociais são excelentes para juntar pessoas que pensam de forma similar sobre algum tema, ou que estão interessadas em uma mesma atividade, mas que não se conhecem. Sem a criação de comunidades virtuais, por meio de páginas de eventos do Facebook ou do uso de hashtags do Twitter, seria impossível imaginar as massivas explosões de mobilização que vivemos em 2013.
No entanto, esses espaços são muito menos eficientes quando trata-se de dar o salto das grandes consignas — como “o gigante acordou” — a demandas específicas sobre o quê mudar. As páginas no Facebook e os tweets têm sido usados mais para ofender, ridicularizar e denunciar do que para persuadir, trocar ideias ou informar. Além disso, é preciso considerar as próprias limitações dessas plataformas, que na verdade não foram pensadas para o debate informado de ideias.
A questão é que ir para as ruas a partir de um chamado (geral e vago) veiculado nas mídias sociais não é apenas ineficiente. O paradoxal é que, em vez de abrir as portas para a democratização da política, pode aprofundar o autoritarismo.
O salto qualitativo que possibilita realmente construir movimento social (e mudar a realidade) requer debate, confrontação de ideias, definição de estratégias, construção de acordos. Em outras palavras, requer organização.
Sem representantes eleitos, os oportunistas, aqueles que têm maior número de seguidores no Twitter, ou os que criam a página de algum evento no Facebook, acabam se posiconando de forma privilegiada frente aos demais. Algumas demandas e consignas ganham as primeiras páginas dos jornais, sem que tenha havido qualquer tipo de discussão sobre o que se quer dizer ou sobre quem pode dizer o quê.
Ações de protesto baseadas na Internet podem ser importantes e são sem dúvida legítimas, mas não estão imunes à hierarquia, ao individualismo, ao autoritarismo. Pelo contrário.
Publicado aqui, no Blog do Noblat
Junto e misturado com Collor, não se sabe se Lula escapará da lama mais uma vez

Collor e Lula, mais próximos do que parecia possível
Por Ricardo Noblat
Quem diria que Fernando Collor, um dia, seria apontado como suspeito de ter se beneficiado de dinheiro sujo da Petrobras no governo do seu ex-desafeto Luiz Inácio Lula da Silva?
Quem viu não esquece. Em 1989, na primeira eleição presidencial pelo voto direto depois do fim da ditadura de 64, Collor derrotou Lula jogando sujo. Jogando sujo, não. Jogando muito, muito sujo.
Pagou a Míriam Cordeiro, mãe de Lúrian, filha de Lula, para que dissesse na televisão que Lula a pressionou para que abortasse. E para que acusasse Lula de ser racista.
Na reta final do segundo turno, inventou que Lula garfaria a caderneta de poupança dos mais pobres. E que desapropriaria grandes imóveis para abrigar famílias sem teto.
A combinação de mentiras tão poderosas e destrutivas deu a Collor uma vitória apertada sobre Lula. (Isso lembra alguma coisa?). Mais tarde, Lula seria uma das cabeças do impeachment de Collor.
Quem imaginaria ver Lula e Collor de mãos dadas e, depois, eventualmente sujeitos às consequências do maior escândalo da história do Brasil?
O doleiro Yousseff já meteu Collor na lama. Disse que ele recebeu grana.
Não se sabe se Lula escapará da lama mais uma vez.
Publicado aqui, no Blog do Noblat
Show do Bolinha na Câmara — Meias-verdades, eufemismos, ironias e provocações

Quase um Brasil x Alemanha
Por Ricardo André Vasconcelos, em 24-02-2015 – 20h37
Menos pela atuação da oposição e bem mais pelo contorcionismo verbal do secretário Garotinho, o placar do debate que acabou agora há pouco na Câmara, pode ser comparado ao 7 x 1 de Alemanha e Brasil na Copa de 2014.
O encontro que começou com a esperança de ser histórico, terminou numa espécie de programa de auditório, onde o convidado animou a platéia com um show de meias-verdades, eufemismos, ironias e provocações. Não foi surpresa. Garotinho tem a capacidade de reescrever a própria biografia e a dos outros ao sabor de sua bipolaridade. Ofende “sem querer querendo”, para depois, com uma compungida dignidade, jurar que respeita a todos. Foi assim ao trazer ao debate o nome do ex-prefeito Zezé Barbosa para atacar o neto, vereador Rafael Diniz. Ou então criticar o PT para atingir ao vereador Marcão para, logo em seguida, fazer reverências à Dilma e Lula. Com o vereador Fred Machado, chegou a ser cruel: lembrou da prisão da irmã dele, a ex-aliada e ex-prefeita de São João da Barra, Carla Machado, apesar do pretexto diverso.
Dos cinco vereadores da oposição, Nildo Cardoso não participou e José Carlos, neófito na bancada minoritária, chegou a ser repreendido pelo convidado por se referir à platéia como de pessoas querendo emprego. Mais: indiscreto, se fez portador de um “abraço saudoso” da prefeita que estaria esperando o vereador de volta à bancada do governo, como o mesmo teria prometido um constrangido José Carlos, já desconfortável em terno apertado.
Explicações mesmo, nenhuma. Sobre a gastança de shows, disse que patrocinadores custearam 70% dos cachês, mas nenhum contrato ainda foi publicado. Obra cara e inacabável como a “Cidade da Criança”, foi justificada como “tombada pelo patrimônio histórico”. Negou até que a PMCG tenha recebido cerca de R$ 30 milhões de IPVA em 2014, como este Blog mostrou aqui, os repasses mês a mês. Pelo menos reconheceu que os semáforos comprados e pagos com o imposto do contribuinte são inadequados para a cidade.
A nota mais triste ficou para o presidente da Câmara, Edson Batista, que parecia desconhecer que ali estava um servidor público nomeado para representar o governo que, por dever constitucional , deveria prestar contas e não se portar como um bedel a distribuir admoestações a aliados e adversários. Batista não parecia presidente de um poder independente, mas chefe de um puxadinho do Cesec. O combinado era três minutos para a cada vereador perguntar, cinco minutos para resposta e outros três minutos para cada parte replicar e treplicar. Mas o tempo do convidado não foi cronometrado, só o dos vereadores.
Da bancada governista não se poderia esperar nada diferente da tietagem explícita e que dispensa comentários. E o secretário, que teria recusado um assento na esplanada do ministério Dilma para ajudar o governo de sua família a enfrentar a crise, gostou tanto do auditório que se convidou a voltar, uma vez por mês, para outras palestras. Uma espécie de escolinha do professor Garotinho?
De bom, ficou o que poderia ter sido e não foi. Mas pode vir a ser.
Publicado aqui, no blog Eu penso que…
Da ditadura bolivariana à defesa petista de empresários corruptos, só rindo
E, na democracia irrefreável das redes sociais, mais uma no cravo (aqui) e outra também (aqui) do portenho goitacá Gustavo Alejandro Oviedo. Para tratar de dois assuntos dos mais sérios, mas sem perder o humor, nem que seja para rir da cara de quem não o possui, confira:
Amigos, lamento que o Estado de Direito seja burguês, mas é o único estado com regras concretas.
O resto é assim:
Alguma vez você pensou que ia ver a esquerda defendendo empreiteiras e empresários corruptos?
Admirável progressismo novo.
“Fora FHC” não colou, mas deu para eleger Lula, que iria acabar com a corrupção no Brasil

Pequena história do combate à corrupção no Brasil
Por Tânia Fusco
Duas coisas são repetidas na nossa história política — sempre da M quando a campanha política não acaba na eleição e é o “combate a corrupção” que leva o povo para rua e derruba presidentes.
Numa historinha pra lá de simplificada, vamos começar por Getúlio Vargas, que enterrou a República Velha. Embora tenha vencido a presidencial de 1950, com 48% dos votos e na maioria dos estados — em São Paulo inclusive —, não teve trégua da oposição até seu suicídio em agosto de 1954, três anos e oito meses depois de ter assumido a presidência.
Defeitos mis. Qualidades também. Mas qual foi a tecla batida e rebatida que derrubou Getúlio? Denúncias de desmandos e corrupção que, junto com a carestia, sempre horrorizam e mobilizam nós cidadãos com ou sem ideologia, filiação partidária ou crença.
O difuso macro poder, naquele momento e em outros tantos, queria outro rumo. Manobrou e derrubou. Vamos para o próximo.
De Getulio para cá, só JK e Lula escaparam da armadilha de campanhas que não acabam com a eleição, quando há divisão clara de posições e disputa acirrada. Com diferenças de estilo e valores, ambos tiveram apontados desmandos, compadrio e corrupção. Lula escapou da inflação. JK não.
Não fosse o legalista Marechal Lott, Juscelino nem tomaria posse. Estreou no governo encarando rebeliões militares, greves e carestia. Habilidoso, salvou-se na artimanha desenvolvimentista que lhe garantiu parceria forte do business — banqueiros, empreiteiros, comerciantes e grandes indústrias — a automobilística como carro chefe.
Levantou Brasília, rasgou estradas para rodar os novos carros nacionais e segurou a onda até o fim do governo, mas não fez o sucessor. Foi derrotado por Jânio Quadros, um outsider histriônico, que venceu com o recorrente mote de varrer do mapa o que, o que? A “corrupção desenfreada” do governo JK. (Ó ela ai de novo!)
Nós, os de mais de 50, temos lembrança do “Varre, varre vassourinha…”, jingle da campanha de Jânio que, claro, tinha a vassoura como símbolo.
Jânio cabia no modelão populista. Sozinho, carregava caspas nos ombros e um partideco, o PTN, sinalizava seguir cartilha da velha UDN – diligente e eterno combate à corrupção! Mesmo carecendo de apoio político, botou fé nos votos e tentou voo solo. Acabou aterrado por umas tais “forças ocultas e terríveis”. Vazou da presidência seis meses e 27 dias depois de empossado.
Dessa vez, não deu nem tempo do povo pegar o terço e ir para rua num Fora Jânio! Mas, em páginas, corações e mentes de brasileiros vigilantes, já havia certo ensaio contra o bicho papão da ameaça comunista — condecorou Che Guevara, o ícone guerrilheiro! —, a carestia/inflação e a corrupção.
Além de proibir biquine e briga de galo, Jânio, sem nunca ter explicado sua renúncia, foi quem começou a contagem regressiva para uma “tenebrosa” ditadura, que durou 20 anos e — lembram? — teve como principal motivação o que? O que? O combate à corrupção!
Entre o Jânio desvairado e o golpe militar de 1964, houve o Jango, o vice, trabalhista e nacionalista, que, sob permanente crise, segurou-se dois anos e 23 dias no governo.
Dessa vez deu tempo do povo a-me-a-ça-do, terço em punho, ir pra rua defender a pátria do populismo e do comunismo, dos desmandos, do aparelhamento do estado, e da corrupção. Fora Jango!
Eita! De novo a saúva maldita e resistente da corrupção, que derruba governos, mas não cai em desuso, seja como prática, seja como mote para defenestrar presidentes/grupos de poder.
Dizem que a História só se repete como farsa e Collor repetiu Jânio. Não empunhou vassoura, mas prometeu caça aos marajás municipais, estaduais e federais. Corrupção nunca mais!
Confiscou dinheiro, desdenhou a oposição — “forças ocultas”? — e descuidou dos cofres. Povo na rua. Da noite pro dia, não era mais o verde-amarelo namoradinho do Brasil, mas refém da ira popular: abaixo a corrupção, o desmando e a inflação, que galopava, ameaçando a República desde o governo anterior – do presidente Sarney. Rolou.
FH que, dizem, nasceu virado pra lua, ganhou-ganhando embalado no Real e na bendita estabilidade econômica. Não balançou nem na má lição do ministro: o que é bom a gente mostra, o que é ruim esconde.
Dois mandatos. Até que a economia vacilou, a privatização prevaricou, faltou luz .O tal do mote da corrupção bateu na porta. “Fora FHC!” não colou, mas deu gás para a eleger muito bem o Lula, que iria acabar com a corrupção no Brasil.
Agora vai! A oposição barbuda e comunista (!) chegou ao poder. Imperdoável e até dolorido para uns tantos, mas esperança para outros milhares.
Lula precisou suar a camisa, mas passou pelo mensalão. Só que deu motivo. Deixou rastro. Petrobrás bichada? Como assim? Lá vem a velha ladainha e cai pesada no colo da tia Dilma: contra a corrupção, aparelhamento do Estado, os desmandos!
A coisa anda tão brava, que até o medo do comunismo estão ressuscitando. Diz que por esses dias o povo vai para rua de novo contra o que já derrubou o Getúlio, o Jango e o Collor, ameaçou JK e Lula, bordeou o FHC. (Repetirão o modelo do terço em punho?).
Diz aí: quem é o ovo, quem é a galinha? Renitente é a corrupção ou o modelo de, prometendo acabar com ela, ganhar o poder? As duas coisas? Mocinhos amanhã serão bandidos e vice-versa?
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Dilma e o PT parecem esquecidos que quase metade do PMDB apoiou Aécio a presidente

Dilma e o PT têm vergonha de depender do PMDB para governar
Por Ricardo Noblat
Pergunta incômoda que teima em ser feita: por que não há um só ministro do PMDB no chamado “núcleo duro” do governo?
Por “núcleo duro” entenda-se o grupo de ministros com os quais a presidente Dilma Rousseff de fato governa o país.
Fazem parte do grupo: Aloizio Mercadante, chefe da Casa Civil; Pepe Vargas, ministro das Relações Institucionais; Jaques Wagner, ministro da Defesa; Miguel Rosseto, Secretário-Geral da presidência; José Eduardo Cardoso, ministro da Justiça, e Ricardo Berzoini, ministro das Comunicações. Todos do PT.
O PMDB é o sócio preferencial do PT no apoio a Dilma. Manda no Congresso por meio dos presidentes do Senado (Renan Calheiros) e da Câmara dos Deputados (Eduardo Cunha).
No primeiro mandato de Dilma, o PMDB teve cinco ministérios. No mandato atual, seis. Mas os cinco eram mais importantes do que os seis de agora. Tinham mais poder.
Sempre se pode alegar que o vice-presidente da República é do PMDB – Michel Temer. Mas, e daí?
Dilma não ouve Temer para quase nada. Este ano, por exemplo, ainda não conversou com ele.
Joaquim Levy, ministro da Fazenda, reuniu-se ontem à noite com Temer, ministros e principais líderes do PMDB para pedir apoio às medidas antipopulares do ajuste fiscal.
Dilma ficou de conversar sobre isso com Temer, Renan e Eduardo. O PT quer deixar para o PMDB o encargo de publicamente se responsabilizar pela aprovação do ajuste.
Assim não dará certo.
Dilma, a turma dela e o PT têm vergonha de ser vistos na companhia do PMDB. Como se o distinto eleitorado não soubesse que é do PMDB que eles dependem. Como se eles fossem melhores do que o PMDB.
O mais forte sinal de que o PMDB arrebitou o nariz e não quer se manter a reboque do PT será dado amanhã em programa de propaganda do partido no rádio e na televisão.
Dilma e o PT parecem esquecidos que foi por poucos votos que o PMDB manteve o apoio à reeleição de Dilma. Quase metade dele apoiou a eleição de Aécio Neves (PSDB) a presidente.
Estejam certos: haverão de beijar a cruz quantas vezes sejam necessárias se quiserem contar com a ajuda do PMDB.
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