A Petrobras não está ameaçada pelos trustes internacionais; seus algozes são gente nossa!

Petrobras devorada

 

 

Jornalista Alberto Dines
Jornalista Alberto Dines

Esperando Janot

Por Alberto Dines

 

No país da piada pronta, angústias e aflições são crimes de lesa-pátria, daí as gozações em torno do suspense armado antes da divulgação da lista de parlamentares e políticos citados na Operação Lava Jato e prometida há semanas por Rodrigo Janot, procurador-geral da República.

Paráfrase óbvia, quase obrigatória e quase homônima, relaciona-se com o título da peça Esperando Godot (1952), do irlandês francófono Samuel Beckett, marco do teatro do absurdo que poucos viram, menos ainda entenderam e todos usam abundantemente.

Godot promete e não chega, a espera é, em si, o não evento central, acionador de contrassensos, ilógica e disparates. Janot, ao contrário, está sempre presente, atento, figura de proa na arquitetura republicana, cargo máximo do Ministério Público, hoje considerado em muitas partes do mundo como o verdadeiro Quarto Poder.

Justifica-se a demora: denota cuidado, zelo, senso de responsabilidade. A lista é transcendental mesmo antes de conhecidos os nomes que a integram, todos aptos a serem denunciados e depois julgados pelo STF. As pressões são enormes; apesar do segredo que envolve a seleção dos implicados nos processos investigados pela Polícia Federal, alguns nomes escaparam para o noticiário.

A nominata é naturalmente explosiva: pode alterar a composição do governo, seu esquema de apoio, a escolha dos candidatos à sucessão presidencial e, sobretudo, inúmeras biografias. Algumas armazenadas em sites de busca, outras já publicadas.

A residência de Janot foi arrombada em janeiro, o governo preocupa-se com a sua segurança e a tensão da campanha eleitoral, longe de arrefecer com a posse dos eleitos, aumentou assustadoramente. Sucedem-se brigas entre militantes, o jogo sujo oriundo das torcidas organizadas começa a comprometer o sagrado direito de expressão, a convivência entre contrários e a paz social.

Em represália a um estúpido ato de hostilidade contra o ex-ministro Guido Mantega no lobby de um hospital paulistano onde a sua mulher se trata de um câncer, o ex-presidente Lula convocou a militância a reagir às provocações: pretendia baixar a fervura, só a aumentou. Essa fervura não baixará com veemências dirigidas a ativistas políticos; o momento pede atos de estadistas voltados para sossegar uma sociedade ressentida e perplexa.

A espera por Janot serve para desativar animosidades num ambiente perigosamente volátil, onde tudo funciona como pretexto para radicalizações. Mas serve igualmente para exacerbá-las. Não foi prudente a ideia de convocar um grandioso ato público em defesa da Petrobras para a sexta-feira, 13 de março – exatos 51 anos depois do comício na Central do Brasil, fatídico gatilho para a quartelada que empurrou o país para a trágica ditadura militar.

A estatal brasileira não está ameaçada pelos trustes internacionais nem pelo imperialismo ianque; seus algozes são gente nossa, partidos e prepostos brasileiros que “tascaram” (para usar a linguagem de João Pedro Stédile) um patrimônio nacional que conseguiu sobreviver e prosperar ao longo de 63 anos a despeito das drásticas mudanças de governo.

Esperando Godot é uma vivência pessimista sobre impasses, dolorosas expectativas, desesperança, filha dos horrores da 2.ª Guerra Mundial e da pérfida Guerra Fria que a sucedeu.

Esperando Janot pode ser uma aposta no aperfeiçoamento das instituições democráticas. Sobretudo, na nossa capacidade de julgar e punir com isenção.

 

Publicado aqui, na gazetadopovo.com

 

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Um germe em desenvolvimento nas tais “ruas”

brotado da rua

 

 

Jornalista Igor Gielow
Jornalista Igor Gielow

Uma longa Quaresma

Por Igor Gielow

 

Nos tempos de outrora, católicos observavam a Quaresma na qual estamos com sentido de penitência pelos pecados cometidos, visando a redenção na Páscoa.

Hoje o governo Dilma passa por algo semelhante, coincidentemente no mesmo período de vigília religiosa. Tenta purgar seu pecados, mais ou menos admitidos em forma de um arrocho fiscal, embora sempre haja na praça um bufão de um Carnaval que teima em não acabar.

Hoje esta figura atende pelo nome de Lula, ao incitar as células dormentes do MST e da CUT a ir às ruas contra a “elite golpista” que, claro, inventou o formidável esquema de drenagem financeira da Petrobras em favor de partidos e empreiteiros.

Tudo o que o governo não precisa agora é disso. Se é do jogo e algo vazio ver a presidente criticar a mesma agência de classificação de risco que antes causava sorrisos ao conceder graus de investimento, a cada vociferação de Lula sobre o “exército do Stédile” ou para “irmos à guerra” o Planalto é pressionado ainda mais sobre o fio de uma lâmina.

Doze anos de guerra cultural promovida pelo petismo cobram um preço. Os espectros aparecem de lado a lado, como o ruinoso Guido Mantega percebeu no triste episódio em que foi hostilizado em um hospital.

Em princípio, os protestos contra Dilma em 15 de março se mostravam mais como um espasmo da rejeição ao PT em São Paulo e outros centros. A greve de caminhoneiros e a crise tucana no Paraná mostram, porém, que talvez haja um germe em desenvolvimento nas tais “ruas”.

A conjuntura econômica tenebrosa, com o aumento do desemprego minando o último bastião do governo na área, insinua fermento para uma reação em cadeia que ainda não foi detectada — com um cenário institucional desfavorável, vide o Congresso sob o PMDB. Neste caso, a Quaresma que o governo espera ver superada em 2016 ou 2017 poderá mostrar-se ainda mais prolongada.

 

Publicado aqui, na folhadesaopaulo.com

 

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Pega ladrão! — De Lênin a Lula: “Acuse-os do que você fez, xingue-os do que você é”

Petrobras invertido

 

 

Jornalista e escritor Ruy Fabiano
Jornalista e escritor Ruy Fabiano

Lula, Lênin e a Petrobras

Por Ruy Fabiano

 

Até aqui, quando se aborda o escândalo da Petrobras, pergunta-se quem a roubou, quanto e como o fez. A resposta é parcialmente conhecida: o achaque teve o PT no comando, coadjuvado por seus aliados PMDB e PP, e a quantia chegou à estratosférica casa das dezenas de bilhões.

Conhecem-se alguns operadores, empresários cúmplices e os nomes de agentes públicos (parlamentares, governadores, ministros etc.) citados nas delações premiadas. A lista oficial, a ser divulgada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, está sendo aguardada para os próximos dias.

Não se sabe se virá como denúncia ou pedido de abertura de inquérito, o que fará toda a diferença. Se denúncia ao STF e STJ (para o caso de governadores), os citados viram réus; se inquérito, o rito pode ser longo e diluir-se no tempo.

O prejuízo, no balanço não auditado da empresa, tem cifras oficiais: R$ 88,6 bilhões. A ex-presidente Graça Foster disse que foi o que se pôde apurar, mas, aprofundando-se as investigações, “certamente é mais”. Alguns argumentam: mas nem tudo aí é roubo; há também o fator incompetência, incluso na mesma rubrica. Tudo bem. Digamos, então, num raciocínio pra lá de moderado, que o fator roubo seja um quarto daquele valor: R$ 22,1 bilhões. Ainda assim, é dinheiro demais, que excede enormemente ambições pessoais e necessidades partidárias.

E aí entra em cena a pergunta que ainda não se fez, mas que inevitavelmente se fará: para onde foi essa grana? Escondê-la é impossível; fragmentá-la de modo a diluir sua rota parece além do talento mesmo de doleiros experimentados.

Outra coisa: como recuperá-la? O ex-gerente Pedro Barusco se dispôs a devolver a parte que lhe coube: US$ 100 milhões (R$ 280,8 milhões ao câmbio de hoje). Considerando-se o seu grau hierárquico, é possível especular quanto coube aos de cima.

E quem são os de cima? Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento — que detalhou os percentuais que cada partido da base recebia —, disse que se situava no nível médio. E que respondia a gente bem mais graúda. Alberto Youssef garantiu que Lula e Dilma eram os graúdos maiores: sabiam de tudo.

Lula e Dilma negaram a acusação, mas, por ato falho, já a confirmaram. Dilma, ao comentar o rebaixamento da empresa pela consultoria Moody’s, considerou-a “desinformada”, o que sugere que ela, presidente — e ex-ministra das Minas e Energia, ex-presidente do Conselho Administrativo e ex-chefe da Casa Civil —, tem informações que aqueles consultores não têm. Lula, no espantoso ato de “defesa da Petrobras”, na sede da ABI, no Rio, na terça passada, se disse informadíssimo, o que ninguém duvida.

Palavras suas: “Fui o presidente que mais visitou a Petrobras; tenho mais camisas da Petrobras que o mais velho funcionário da empresa. Fui o presidente que mais inaugurou plataformas”. Ora, com tamanha intimidade com a estatal, e tendo nomeado toda a sua diretoria, seria surpreendente que não estivesse a par de tudo o que lá se passava. Tudo.

Não há como sumirem bilhões e bilhões sem que sejam percebidos, sem que uma rede ampla e sofisticada estivesse em ação. E como uma rede dessa, montada pelo presidente da República — e que incluía aquela que viria a sucedê-lo —, passaria despercebida a ambos? A resposta é desnecessária.

A metáfora do queijo, que ele evocou diante de uma militância entusiasmada (“se o rato está acostumado a roubar um pedaço de queijo, que fará diante de um queijo inteiro?”), equivale a uma confissão. E ainda: roubava-se menos porque havia menos dinheiro; como entrou mais dinheiro na Era PT, roubou-se mais.

Resta saber para onde foi esse dinheiro. Há especulações, que, de tão inusitadas, evocam a clássica teoria da conspiração. Mas a própria cifra envolvida, não constasse ela do próprio balanço da empresa, provocaria o mesmo ceticismo. Ocorre que tudo nesse escândalo é inusitado, embora real. Fala-se, por exemplo — e isso acabará tendo que ser apurado —, que parte dessa fortuna teria abastecido os aliados do Foro de São Paulo, coadjuvantes do projeto da Grande Pátria Socialista.

A Venezuela, por exemplo, sem dinheiro até para comprar papel higiênico, renovou a frota de sua Força Aérea; a mesma Venezuela que, no final do ano passado, por meio de seu ministro para Comunas e Movimentos sociais, Elias Jaua, firmou convênio para treinar a militância do MST — “o exército do Stédile”, que Lula quer ver nas ruas contra os “golpistas”.

Não se sabe se Lula conhece a palavra de ordem com que Lênin impulsionava sua militância: “Acuse-os do que você faz, xingue-os do que você é”. Como não é exatamente um estudioso de História — e acha que, por aqui, o PT a inaugurou — é possível que compense a ignorância com seu poderoso instinto político. O certo é que, no ato da ABI, seguiu fielmente a lição de Lênin.

Acusou seus opositores de ter feito com a Petrobras tudo o que de fato ele e o PT fizeram. E os xingou de golpistas. Nada menos. FHC comparou o truque à ação de um punguista que, após bater a carteira da vítima, sai gritando “pega ladrão!”. É por aí.

 

Publicado aqui, no Blog do Noblat

 

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Greve dos caminhoneiros esquenta o clima pelo impeachment de Dilma

Greve caminhoneiros

 

 

Jornalista e blogueiro Ricardo Noblat
Jornalista e blogueiro Ricardo Noblat

Greve dos caminhoneiros esquenta o clima para as manifestações pelo impeachment de Dilma

Por Ricardo Noblat

 

Qual foi a inteligência rara que aconselhou a presidente Dilma Rousseff a chamar a polícia ao invés de negociadores para tentar acabar com a greve dos caminhoneiros?

O pior: a ideia pode ter partido da própria Dilma, uma pessoa de formação áspera, encrespada, violenta no trato com seus subordinados.

O que Dilma não parece entender é que subordinados nada têm a ver com governados. Subordinados são obrigados a obedecer a ela — ou a se demitirem. Governados podem dispensá-la.

A greve dos caminhoneiros serve a um propósito não previsto  — o de aumentar o mau humor de um setor importante da economia às vésperas de manifestações marcadas para o próximo dia 15.

Tais manifestações pedirão o impeachment de Dilma. O governo receia que elas sejam bem sucedidas principalmente em São Paulo e em alguns Estados do Sul. Ali é reduto do PSDB.

Reunido ontem em São Paulo, o alto comando do PSDB decidiu que o partido não participará das manifestações – mas nada impede que vários dos seus líderes saíam às ruas por sua conta e risco.

O eventual impeachment de Dilma só beneficiaria o PMDB do vice Michel Temer. E o PSDB acabaria obrigado a se compor com o PMDB para juntos governarem.

É mais cômodo para o PSDB esperar que o segundo mandato de Dilma seja um fracasso para que ele tente derrotar o PT daqui a quatro anos.

Quando era oposição, o PT cobrava negociação para superar impasses trabalhistas — jamais a polícia. No governo, Dilma preferiu chamar a polícia para reprimir grevistas.

 

Publicado aqui, no Blog do Noblat

 

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Apertem os cintos — Presidente e vice da Camargo Corrêa assinam delação premiada

Por Jailton de Carvalho

Presidente da Camargo Corrêa, Dalton dos Santos Avancini
Presidente da Camargo Corrêa, Dalton dos Santos Avancini

Brasília – A onda de delações de réus da Operação Lava-Jato, que vem alimentando as investigações desde o ano passado, ainda não terminou. Dois executivos da construtora Camargo Corrêa — o presidente Dalton dos Santos Avancini e o vice-presidente Eduardo Leite — fecharam, na noite desta sexta-feira, acordos de colaboração com a força-tarefa que investiga fraudes em contratos de empreiteiras com a Petrobras. Já João Ribeiro Auler, presidente do Conselho Administrativo da construtora, ainda está negociando com os procuradores.

As delações podem tornar as investigações ainda mais explosivas. A Camargo Corrêa foi uma das primeiras empresas flagradas em transações financeiras com o doleiro Alberto Youssef, operador do pagamento da propina no esquema de desvios da Petrobras. A Camargo também é uma das empresas com mais doações para campanhas políticas. Os executivos teriam decidido colaborar por três motivos: prisão prolongada, dificuldade para enfrentar as investigações e risco de condenação à prisão em regime fechado.

Está sendo negociada a possibilidade de revelações de fraudes não só na Petrobras, mas também em outras áreas de atuação da Camargo Corrêa. Na mira dos procuradores estão obras e serviços em hidrelétricas, rodovias e ferrovias. Os executivos da empreiteira resistiam à ideia de falar sobre outros assuntos fora do tema principal da Lava-Jato.

Mas, nos últimos dias, o ambiente mudou e as partes já se entenderam sobre os pontos principais do acordo.

Vice-presidente da Camargo Corrêa, Eduardo Leite
Vice-presidente da Camargo Corrêa, Eduardo Leite

Benefícios são discutidos

Estão sendo preparados acordos individuais. Os benefícios para os delatores deverão ser estabelecidos em função da importância das informações a serem fornecidas por eles. Nesta sexta-feira, as negociações giravam em torno dos benefícios, que vão da redução de penas até a não aplicação do regime fechado.

Nesta sexta-feira, o juiz Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, ouviu funcionários da Camargo Corrêa arrolados como testemunhas de defesa dos executivos Dalton dos Santos Avancini e João Ricardo Auler. Os depoimentos de Alessandra Mendes da Silva, Eduardo Maghidman, Jorge Yasbek, Enes Faria e Rodoal Schlemm foram feitos por videoconferência. Segunda-feira, serão ouvidas as testemunhas de Eduardo Leite, outro executivo da Camargo Corrêa.

Até o momento, a força-tarefa da Lava-Jato fechou 13 acordos de delação premiada, entre eles as confissões do ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef. Os executivos das empreiteiras estão presos desde a nona fase da Lava Jato, deflagrada em 14 de novembro passado.

 

Publicado aqui, na globo.com

 

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Os filhos da puta por si próprios

O blog já havia publicado aqui a foto das agressões covardes, a socos e pontapés, dos militantes do PT, CUT e MST contra cidadãos que ousaram questionar nas ruas do Centro do Rio a ladroagem desenfreada do desgoverno petista no Brasil, assim como o “mimo” da convocação de Washington Quaquá, presidente fluminense do PT, chamando seus militantes literalmente à porrada. Mas nunca é demais complementá-las com o pronunciamento irresponsável que as gerou, na sede da Associação Brasileira de Imprensa, onde Lula falou em paz e democracia antes de ameaçar colocar o “exército” do João Pedro Stédile, líder do MST, nas ruas, gerando aqui a manifestação política mais dura das Forças Armadas do Brasil desde o fim da Ditadura Militar, em 1985. Até porque, os filhos da puta que realmente interessam nunca precisaram de porta-voz esquizofrênico diagnosticado, invejoso patológico, megalomaníaco, prolixo, de pouco talento e nenhum caráter, para falarem por si mesmos.

Quem alguma dúvida ainda tiver, que veja, leia e ouça por conta própria…

 

 

Agressão covarde de petistas contra cidadãos na ruas do Rio, na última quarta, dia 26, enquanto Lula ameaçava dentro da ABI colocar o “exército” do MST de Stédile nas ruas (foto de Marcos Paulo - Estadão)
Agressão covarde de petistas contra cidadãos na ruas do Rio, na última quarta, dia 26, enquanto Lula ameaçava dentro da ABI colocar o “exército” do MST de Stédile nas ruas (foto de Marcos Paulo – Estadão)

 

 

Quaquá

 

 

 

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Do meu amor

Poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto (1920/99)
Poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto (1920/99)

Os três mal amados

Por João Cabral de Melo Neto

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

Ícaro na ágora
Ícaro Abreu Barbosa, em julho de 2009, na ágora de Atenas

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.  Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

 

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Porque há coisas que não podem ser só comentários

 

  • RICARDO OLIVEIRA

    A PM E POLÍCIA CIVIL PRENDEM OS LADRÕES COMUNS, A POLÍCIA FEDERAL PRENDE OS LADRÕES DE GRAVATA E LADRÕES INTERNACIONAIS, E QUEM PRENDE OS LADRÕES (OS PIORES) QUE CONTROLAM O GOVERNO CENTRAL DO BRASIL. SÓ A FORÇA MÁXIMA DO BRASIL, AS FORÇAS ARMADAS, SALVEM MEU BRASIL PELO AMOR DE DEUS EXÉRCITO, AERONÁUTICA E MARINHA!! PRECISAMOS DE VOCÊS!!!! SABEM QUAL É A DIFERENÇA ENTRE UM GOVERNANTE CIVIL E MILITAR? A DIFERENÇA É QUE O CIVIL É 100% CORRUPTO E O MILITAR POR CAUSA DE JURAMENTO A BANDEIRA E COISA E TAL, SÃO PATRIOTAS DE VERDADE!!!

     

     

    • Frederico

      Pois está demorando muito para os militares agirem nos estamos sofrendo com corrupção em todas esferas dos governos federal estadual municipal vem para ruas por favor

       

       

      • Aluysio

        Caros Ricardo Oliveira e Frederico,

        Tenho evitado responder comentários, atendo minha lida blogueira à reprodução dos textos de opinião que julgo mais relevantes à compreensão da cada vez mais preocupante realidade nacional. Não por outro motivo, tudo que creio vai de encontro, de cara no muro em caso de necessidade, ao retorno à ditadura militar que vcs parecem pregar. Na democracia, não há alternativa, a não ser a tentativa de convencimento, a Justiça e o voto. E embora não disposto a matar, estaria a morrer para que meu filho permaneça vivendo num estado democrático de direito.

        Grato pela chance da reafirmação!

        Aluysio

         

         

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Contra os débeis mentais, só o riso (da cara deles) salva!

E como rir da cara dos débeis mentais cada vez mais alienados pela realidade é sempre um prazer, segue outra garimpagem do publicitário e advogado argentino caído em Campos, Gustavo Alejandro Oviedo, e sua ferina verve portenha destilada (aqui) na democracia irrefreável das redes sociais, jogando luz sobre o que já devia ser ridículo desde quando os dinossauros andavam pela Terra.

 

Porra, FHC

 

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Ex-presidente ironiza obsessão petista por sua figura

Jornalista Lauro Jardim
Jornalista Lauro Jardim

“Foi FHC”

Por Lauro Jardim

 

Depois de Dilma Rousseff se basear na delação premiada de Pedro Barusco para atribuir o início da corrupção na Petrobras ao governo de FHC, as redes sociais não perdoaram a presidente.

As piadas diziam que a culpa pela extinção dos dinossauros caberia a FHC, assim como os atentados ao World Trade Center, a morte de Ayrton Senna, a derrota na Copa de 1950, a Gripe Espanhola, entre outros.

Além de responder Dilma dizendo que a atitude dela era a de quem “bate a carteira e grita ‘pega ladrão”, FHC resolveu entrar na brincadeira. Com uma cédula de dois reais à mão, o ex-presidente foi fotografado pelo senador Cássio Cunha Lima fazendo referência ao Plano Real e ironizando: “Foi FHC”. A letra no cartaz, a propósito, é de Aécio Neves.

 

 

Publicado aqui, no Radar on-line

 

Atualização à 0h42 de 28/07: Aqui, o “Ponto de vista” do Christiano Abreu Barbosa foi o primeiro na blogosfera goitacá a repercutir a nota do Lauro Jardim sobre a irônica resposta do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao fetichismo petista sobre sua pessoa

 

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O que está por trás do anúncio só agora da invasão da casa do procurador-geral?

Jornalista e blogueiro Reinaldo Azevedo
Jornalista e blogueiro Reinaldo Azevedo

Então procurador-geral anuncia no dia 27 de fevereiro que sua casa foi arrombada e invadida no fim de janeiro? E o que quer dizer, Cardoso: “radicais se avolumando em vários segmentos”?

Por Reinaldo Azevedo

 

Autoridades têm de ter responsabilidade.

Autoridades são autoridades porque a função institucional que ocupam os torna… autoridades!

Autoridades são donas do seu corpo, mas não são donas do seu cargo.

Autoridades têm o direito à vida privada desde que a vida privada não comprometa a sua função pública.

Rodrigo Janot, procurador-geral da República, anunciou hoje, dia 27 de fevereiro, que sua casa em Brasília foi arrombada e invadida no “fim de janeiro”. Não sei o que quer dizer “fim de janeiro”, mas suspeito que haja algum registro da ocorrência em alguma instância. Acabo de me informar e asseguro que a casa do procurador-geral é guardada, desde sempre, por uma esquema oficial de segurança. Os agentes federais estavam dormindo nesse dia?

Inspetor CloseauComo o procurador-geral da República é procurador-geral da República, não procurador-geral de si mesmo, nós deveríamos ter sabido dessa ocorrência, não? A informação deveria ter vindo a público imediatamente. Janot faz de si mesmo o que quiser; é problema dele. A segurança do chefe do Ministério Público Federal é problema nosso.

Estou desconfiando de que a invasão não tenha acontecido? Não! Se estivesse, diria. Detesto o estilo oblíquo, que sugere, que infere, que se acovarda no estilo, geralmente ruim. Estou dando fé. Se ele diz que foi, então foi. Quero saber a razão de anunciar isso um mês depois.

Ele próprio sugere algo de estranho, não um simples assalto. Afinal, os invasores deixaram de levar uma pistola com três carregadores — e assaltantes gostam de pistolas, certo? —, máquina fotográfica e outros objetos de valor. Tudo ficou onde estava. Só levaram o controle remoto do portão. Mesmo assim, Janot diz não acreditar que o evento tenha alguma relação com a Operação Lava Jato. Então tá bom.

Na conversa fora da agenda que Janot manteve com José Eduardo Cardozo, o ministro da Justiça o teria alertado sobre o aumento do risco à sua segurança. Por essa razão, nada menos de 80 agentes federais faziam o protegiam nesta sexta, num evento do MP em Uberlândia, de solidariedade a um promotor que sofreu um atentado. A Polícia Federal, que guarda o procurador-geral, informa que o tal alerta, vocalizado por Cardozo, não partiu dela. Então partiu de quem?

Cardozo, esta figura exótica da República, disse a Janot que o aumento do risco se deve a “radicais se avolumando em vários segmentos”. Radicais se avolumando em vários segmentos? Em quais segmentos? Gente de extrema direita? Gente de extrema esquerda? Gente da extrema-central? Gente de extremo saco cheio? Quais segmentos?

Eu não gosto dessa história de autoridades virem a público para anunciar conspirações em marcha — ou sugerir alguma. Ou espalhar, de forma solerte, que elas existam. Sempre acho que quem apela a esse expediente está em busca de pedir à sociedade uma licença especial para comportamentos heterodoxos.

Por exemplo: é bastante heterodoxo que o procurador-geral se reúna com o ministro da Justiça e com o vice-presidente da república — e chefe inconteste do PMDB — pouco antes de tomar uma decisão importante. Se Geraldo Brindeiro tivesse feito isso no governo FHC, teria sido chamado de “estuprador-geral da República”.

Tendo havido a invasão — e a minha ressalva apenas faz parte da retórica decorosa, que procura chegar ao cento da questão —, eu me solidarizo com o homem Janot. Mas aponto, então, o erro brutal cometido pelo procurador-geral, que só agora informa a ocorrência. Quanto a José Eduardo Cardozo, dizer o quê? Eu nunca tenho nada de diferente a recomendar a este senhor: sempre é a demissão.

 

Publicado aqui, no Blog do Reinaldo Azevedo

 

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