Ponto final — A arte do possível entre Crivella e Garotinho, Pezão e Romário
O fato de Marcelo Crivella (PRB) ter dito, no momento da sua votação no domingo, que “Garotinho é passado” (aqui), não deve ser levado em conta. Tampouco ter sido chamado na campanha, pelo mesmo Garotinho, de “mentiroso, ingrato, fariseu e encantador de serpentes”, na mistura sempre indesejável de política e religião. Nem insinuar que a ficha do ex-governador é “mais suja do que a do Fernandinho Beira-Mar”, como Crivella fez em Campos e Macaé a 30 de agosto, gerando a manchete de capa do dia seguinte da Folha, que hoje ilustra matéria da sua página 2.
O que importa, como noticia a reportagem do jornalista Arnaldo Neto, é que Crivella volta hoje a Campos, não para ofender Garotinho, mas para se encontrar com ele, como o próprio político da Lapa anunciou ontem em seu blog (aqui). Da fundação da democracia na Antiguidade, o filósofo grego Aristóteles (384 a.C./322 a.C.) ressalvou: “Política é a arte do possível”. Na busca do que é possível, fingir esquecimento das ofensas mais vis faz parte desse jogo.
Para Crivella, só é possível vencer o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) no segundo turno se somar apoios. Nada mais natural do que buscá-lo no terceiro colocado do primeiro turno, muito embora a enorme rejeição do eleitor fluminense a Garotinho (47% pelo Datafolha) tenha que ser também considerada. Hoje governador de São Paulo reeleito, Geraldo Alckmin (PSDB), por exemplo, chegou ao segundo turno presidencial contra Lula (PT) em 2006, aceitou o apoio de Garotinho e conseguiu diminuir sua votação.
Mas se não é difícil saber o que Crivella busca nesse “pacto” com Garotinho, o que este entende ser possível ter em troca? Em primeiro lugar, conter a debandada dos dois vereadores do PRB, Alexandre Tadeu e Dayvison Miranda, que andaram cantando de galo oposicionista durante a campanha do primeiro turno. E fora o óbvio paroquial, pactuar com o sobrinho de Edir Macedo pode ser atender também à presidente Dilma Rousseff (PT), contrariada pelo apoio já declarado do senador Francisco Dornelles (PP), vice de Pezão, à candidatura do sobrinho Aécio Neves (PSDB).
Num dos piores momentos da sua carreira política, desde que se elegeu governador em 1998, seu último cargo no Executivo, a votação de Garotinho no domingo revela uma acentuada decadência eleitoral não só no Estado, mas em todos os municípios do Norte Fluminense, seu reduto. É o que fica claro à compreensão de qualquer garotinho real, no contraste dos números lembrados pelo Murillo Dieguez em sua coluna na página 6, ou no infográfico na capa desta edição, comparando os percentuais das votações de 1998, 2002 e do último domingo.
À beira de perder a imunidade de deputado federal e sem perspectiva de candidatura em 2016, fazer um favor à presidente, no sentido de pressionar o PMDB fluminense, não faria mal nenhum a Garotinho. E ainda pode render vaga numa comissão importante na Câmara Federal para sua filha Clarissa (PR), caso Dilma se reeleja. Enquanto isso, Pezão promete uma surpresa no anúncio de reforços (aqui). A coluna não é dada a palpites, mas tudo leva a crer que se trata do senador eleito Romário (PSB), craque nos votos como foi nos campos. Se for, tudo parecerá mais possível ao governador.
Publicado hoje na Folha










