Rombo na Prefeitura já teria passado por auditoria desde 2013

Prefeitura Campos

 

 

Jornais, sites, blogs, perfis de Facebook e até comentaristas ameaçados de processo judiciais em Campos, por ousarem questionar o óbvio: como pode uma Prefeitura com orçamento anual de R$ 2,5 bilhões ser obrigada a empenhar até 2016 sua principal receita, os royalties do petróleo, numa manobra feita a toque de caixa junto a instituições bancárias, para ter como pagar as contas do município?

Bem, as verdadeiras causas da penúria que o governo Rosinha Garotinho (PR) parece ter conduzido não a si, mas todos os 477 mil campistas, devem começar a vir a furo amanhã, ainda pela manhã, na sessão da Câmara Municipal. Se quase nenhum ser pensante e sério da cidade parece ter dúvida que tudo indica haver um rombo nas contas da Prefeitura, segundo documentos que chegaram às mãos da oposição, o tal rombo não só existe de fato, como é antigo, remonta à primeira administração de Rosinha, e já teria sido inclusive alvo de uma auditoria interna realizada por determinação da própria prefeita.

Não se sabe se Rosinha teria pedido a auditoria para se resguardar de possíveis consequências, ou tampouco se chegou a adotar as recomendações do relatório final, visando determinar responsabilidades, mas a investigação interna para se “apurar a regularidade das operações financeiras e contábeis procedidas pelos órgãos da Administração Direta e Indireta da Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes, nos exercícios de 2009 a 2012”, teria apontado um rombo de R$ 109.819.539,37. Esta foi a soma de dinheiro que simplesmente teria desaparecido dos cofres públicos de Campos, ou, no pleonasmo técnico dos auditores: “ficaram evidenciados os indícios da não existência física”.

Todavia, como entre esses recursos supostamente condenados à inexistência no governo Rosinha, estariam incluídas também verbas federais, tanto dos polpudos royalties do petróleo, quanto do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e a Justiça Federal podem se ver obrigados a atuar no caso.

Se os documentos da auditoria e suas detalhadas informações forem verdadeiras, duas perguntas parecem óbvias. A primeira: por que Rosinha, sabendo de tudo, não fez nada? Ademais, se o rombo chegou a quase R$ 110 milhões até 2012, em quanto estaria agora, dois anos e um custoso fracasso eleitoral depois?

 

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Queda dos royalties alegada para vendê-los até 2016 foi de apenas 1% em 2014

Eu penso que
Por Ricardo André Vasconcelos, em 24-11-2014 – 19h33
Orçada em R$ 10 milhões (aqui) as obras da Cidade da Criança receberam acréscimo de mais R$ 6 milhões (aqui) . Investimento só nesta obra é maior que a queda de arrecadação de royalties do petróleo durante todo o ano de 2014.
Orçada em R$ 10 milhões as obras da Cidade da Criança receberam acréscimo de mais R$ 6 milhões. Investimento só nesta obra é maior que a queda de arrecadação de royalties do petróleo durante todo o ano de 2014.
O município de Campos recebeu, até o último dia 21 de novembro, menos R$ 15 milhões em royalties e Participação Especial (PE), comparando com o mesmo período do ano passado. Portanto, não é verdadeiro o argumento de “substancial queda de receita” que embasou o projeto de lei aprovado pela Câmara Municipal dando à prefeita Rosinha autorização para contrair empréstimo bancário mediante antecipação das receitas futuras de royalties e PE até 31/12/2016.
Com base em informações disponíveis no portal da Agência Nacional do Petróleo (ANP), o Blog detalhou comparativamente, mês a mês e trimestre a trimestre, todos os repasses realizados de janeiro a novembro de 2013 e de janeiro a novembro de 2014. O resultado, conforme quadro abaixo, mostrou que a queda de arrecadação foi de R$ 15.551.830,98 e só registrada agora no último dia 21, quando o pagamento de Participação Especial foi menor cerca de R$ 26 milhões em comparação a o igual período do ano anterior. Nos demais repasses, praticamente em todos, houve ganho de receita no atual exercício.
Num total de R$ 1.2 bilhão que entraram nos cofres municipais este ano, a queda de arrecadação pouco passa de 1%, ou menos que o custo da obra da Cidade da Criança (R$ 16 milhões), no antigo Parque Alzira Vargas,  ou bem menos que o mais recente aditivo à necessária e interminável obra de duplicação de um trecho da RJ 216 (Campos-Goitacazes), ou seja, R$ 23, 5 milhões).
Veja os quadros detalhados.
Valores em amarelo  – recebidos em 2013
Valores em verde     – recebidos em 2014
Valores em azul        – diferença a maior na comparação 2014/2013
Valores em vermelho- diferença a menor na comparação 2014/2013
quadro 1
quadro 2
quadro 3
quadro 4
Atualização às 1h03 de 25/11: Ainda que sem os quadros demonstrativos, o texto da postagem de Ricardo já havia sido republicado aqui, no Blog do Bastos
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O Brasil dilmático do lulopetismo é uma guinada ao retrocesso

 

 

Nelson Paes Leme
Cientista político Nelson Paes Leme

Em direção ao atraso

Por Nelson Paes Leme

 

A ordem mundial se encontra diante de enormes e crescentes desafios neste nosso século decisivo. O maior deles é a crise da dificuldade de compreensão da chamada nova economia de mercado, catapultada pela revolução técnico-científica e pela ecologia em desagregação crescente a novos patamares conceituais. Há também necessidade de adaptação a um novo conceito de distributivismo. A crise do capitalismo tardio, tão bem retratada por Habermas, é tão evidente quanto foi detectada, no fim do século passado, a crise do socialismo real, prenunciada por Weber e Gramsci. Essa detecção acabou por dar origem às transformações ocorridas no Leste da Europa que puseram fim ao socialismo real e viraram o timão da história nos países de bloco soviético e na própria China na direção da economia de mercado e das liberdades democráticas. A ascensão da democracia política chinesa é iminente e fatal como exigência intrínseca da opção pelo livre mercado. Não tarda e teremos eleições livres e gerais na China, possivelmente na próxima década ou nesta ainda. Economia de mercado e democracia sempre andaram juntas, desde o Século de Péricles, passando pelas praças medievais da Europa Central e da Península Itálica. Os conceitos originais e tradicionais de esquerda e direita, fundados na Revolução Burguesa, por outro lado, como já denunciara Hayek, sofreram transformações decisivas a partir dessas importantes ocorrências da virada do milênio que estamos vivendo. Assim também os conceitos de burguesia e proletariado; elites e massas; moeda e crédito; imperialismo e subdesenvolvimento etc.

O que se vê, hoje, no entanto, no Brasil dilmático do lulopetismo é uma guinada perigosamente sectária e absurda em direção ao retrocesso e ao atraso. Estamos na total contramão da História. Talvez por isso o governo do PT esteja apresentando índices tão pífios na economia continental e mundial e enveredando perigosamente, na política, pelos descaminhos sem volta do castrismo e do bolivarianismo jurássicos. A visão dos estrategistas internos e externos desse desgoverno é a mais primitiva possível: eleger os EUA como inimigo das massas trabalhadoras, fortalecendo alianças continentais “anti-ianques” como tentativa de estabelecer uma delirante correlação de forças; garrotear a “imprensa burguesa” por via de mecanismos que remontam ao medievo das ditaduras mais sangrentas, implantando “um jornal de massas” e o “controle social da mídia”; justificar a roubalheira generalizada no seio do governo e das estatais como “meio inerente ao ‘sistema’ para atingir o fim do ‘socialismo’”; “instituir os ‘conselhos populares’” para acabar de desmoralizar de vez a representação democrática e o Legislativo; tentar bolivarianizar o Judiciário, como denunciou o ministro Gilmar Mendes à “Folha de S.Paulo”, na edição histórica de 03/11/14. Outro dado desse retrocesso, como resultado da reação irracional, é o cartaz brandido numa passeata em São Paulo: “S.O.S. Forças Armadas”. Já não bastasse o exagero da generalização da tortura às nossas Forças Armadas, na tentativa vã de desmoralizar as guardiãs de nossa soberania, promovida pelo sectarismo da Comissão da Verdade, agora a reação despolitizada deseja trazê-las de volta ao obscurantismo golpista. Pior: atreladas a um projeto revanchista que começa por pedir o impeachment da presidente da República recém-eleita em pleito aberto e democraticamente. Até as palavras de Aécio vêm sendo distorcidas, quando este, em debate acirrado com Dilma, disse, na coxia, mas ouvido por toda a audiência que “o melhor modo de se acabar com a corrupção é tirar o PT do poder”. Isso não significa tirá-lo através de um golpe militar. Mas pelo voto, pelo convencimento e por dentro da democracia.

Vejamos como irá se comportar a oposição na reabertura dos trabalhos no Legislativo. E se teremos um soberano, altivo e independente STF, na punição dos corruptos e dos corruptores do assédio ao butim das estatais. O que se espera da oposição é retirar o PT do governo dentro das regras democráticas e pelo voto, e não pelo golpe e pelo retrocesso. Há um dado dialético precioso no exercício democrático: a oposição existe em função do governo. Ou seja, se funciona mal, a governabilidade capenga. Ela é o contraponto. E quem sofre é a nação como um todo. No Brasil, parece que a oposição está fora dessa estrutura básica das democracias mais consolidadas. Aqui, gira em torno de si própria e quem tem exercido esse papel é a parcela da sociedade organizada e mobilizada pelos meios de comunicação e pelas redes sociais. Entre nós, parece que esse dado precioso se esvanece num processo semicaótico: a oposição, em consequência ou como causa, parece ter perdido a clareza de suas estratégias. E isso desestabiliza não o governo, como parece ser a única tática explícita dos que nela militam, mas desestabiliza, sobretudo, a própria democracia. Para se tirar o PT do poder pelo voto, é necessário explicitar enfaticamente um sólido programa alternativo de governo e debatê-lo permanente e abertamente com a sociedade em todos os fóruns imagináveis. A começar por incisivos e consistentes discursos no Parlamento da República. Não se viu isso nos 12 anos de lulopetismo até agora. Quem sabe acontecerá com a subida de Aécio à tribuna do Senado. A esperança é a última que morre. E quando morre, já se conhece o final.

 

Publicado aqui, na globo.com

 

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Dilma e o PT não perceberam que estão no fim da linha. E acabaram de ganhar as eleições

Macunaíma1

 

 

Jornalista Fernando Gabeira
Jornalista Fernando Gabeira

Macunadilma

Por Fernando Gabeira

 

Dois dias depois do Juízo Final, fui nadar como de costume. Um grupo de torcedores do Flamengo desceu do ônibus e bloqueou o passeio. Eram do Espírito Santo, vieram num ônibus especial. Um deles me olhou com raiva e disse que eu tinha cara de vascaíno. Ele vestia uma camisa vermelha e preta com o símbolo da Alemanha. Um alemão me aporrinhando, pensei, e deixei para cuidar disso, como faço com toda irritação matinal, depois dos 400 metros na água.

A ideia da divisão emergiu na minha cabeça. Estamos divididos. O olhar que me lançou era um olhar de desdém ao vascaíno. O outro dele era o vascaíno com uma série de defeitos que se atribui a ele. Eu mesmo, ao pensar num alemão, no sentido em que se usa nos morros do Rio, fortalecia a ideia de divisão, entre mim e o outro, nós e eles. Passamos por uma campanha eleitoral pesada. O outro do petista era o tucano e vice-versa. Todos falamos em superar a divisão, depois de outubro, e achar saídas para os grandes problemas nacionais.

Entre o lugar onde estamos agora e a ilha onde nos reconciliaremos há um oceano de petróleo, na verdade um petrolão, o maior escândalo de nossa História.

Dilma afirmou na Austrália que seu governo foi o primeiro a combater a corrupção. Jogou o Lula na fogueira, tentando, como um canguru, driblar a tempestade que a ameaça.

Dilma não quis investigar. O que apareceu no escândalo surgiu de um trabalho autônomo da polícia e da Justiça.

Nesse período, Dilma brincou de esconde-esconde. Orientou sua base a boicotar a CPI. Abriu-se um inquérito na Petrobras para apurar denúncias de suborno na compra de plataformas, e constatou-se que nada houve de errado. Inocentes. Na Holanda, a empresa SBM confessou ao governo de seu país que pagou US$ 139 milhões a diretores da Petrobras.

Milhões pra cá, milhões pra lá, um diretor indicado pelo partido na cadeia, o tesoureiro do partido denunciado na delação premiada, a cunhada do tesoureiro levada à PF, tudo isso acontecendo, Dilma e o PT fazem cara de paisagem, como se não fosse com eles.

Nos depoimentos até agora, mais de R$ 200 milhões foram entregues ao homem do PT na Petrobras. O homem é amigo do tesoureiro. Talvez Dilma acredite que esse dinheiro todo foi doado à Africa para combater o surto do ebola. Mas a lógica indica que tenha sido usado nas campanhas políticas. Campanhas caras, de líderes e postes, estes mais caros ainda, porque demandam profissionais para redesenhá-los da cabeça aos pés, passando, naturalmente, pelo cérebro.

Estamos entrando numa tempestade, e a única forma de atravessá-la é admitir as evidências e aceitar que o bloco no poder assaltou a Petrobras.

Isto vale também para as empresas. Os advogados vão orientá-las a negar, embora já existam tantos depoimentos incisivos. No exterior, o conselho óbvio seria admitir o erro, pagar por ele, reformular sua estratégia. A visão macunaímica de que não importam os fatos, mas sim as versões, certamente será superada pelo realismo.

O bloco no poder pensou que isso poderia ser apenas do tamanho do mensalão. Ignorou que estava assaltando uma empresa com vínculos internacionais. Investigam na Holanda, nos Estados Unidos: o cerco está fechado. Dilma e o PT não perceberam que estão no fim da linha. E acabaram de ganhar as eleições. Será preciso muita humildade para sobreviver.

E isso não é o forte de quem quer dobrar a aritmética nas contas públicas, esconde o salto de 122% no desmatamento da Amazônia, põe para baixo do tapete números da redução da miséria.

Tudo por um modelo que preserva o emprego, dizia Dilma. Enquanto isso, 30.283 pessoas perderam seus postos de trabalho no mês em que ela se reelegeu. E como não bastasse o domínio dos números, querem o domínio das mentes: o ministro da Justiça diz à oposição como ela deve se comportar diante do escândalo. Todo um complexo político-empresarial que atrasa o Brasil foi por terra no dia do Juízo Final. Nem precisava de um impulso tão grande: estava podre.

Quando Dilma se distanciou, olimpicamente, do escândalo da Petrobras, lembrei-me do primeiro artigo que escrevi sobre o tema: “Passa passa Pasadena, quero ver passar”. Era o seu título. E veio o petrolão como uma onda gigantesca.

Dilma aprovou a compra de Pasadena “sem ter os dados”. Isso cola no Brasil. Nos Estados Unidos, onde a negociata está sendo investigada, a responsabilidade alcança também os dirigentes. Ao se distanciar do escândalo da Petrobras, Dilma parece acreditar que nasceu de novo nas eleições e vai enfrentar a tempestade com guarda-chuva e galochas do marketing.

Vai se molhar. Há uma crise econômica pela frente. Investidores estrangeiros observam cautelosos. Precisamos deles, inclusive no pré-sal. Não dá para enganar mais e erguer o punho cerrado entrando na cadeia. Já era patética a performance de José Dirceu no mensalão. No petrolão, seria um gesto, num certo sentido, libertador: sair dali para uma clínica psiquiátrica.

 

Publicado aqui, no Blog do Gabeira

 

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Artigo do domingo — Cheque em branco e, talvez, sem fundos

cheque em branco

 

 

Ricardo André
Jornalista Ricardo André Vasconcelos

Por Ricardo André Vasconcelos

Que o grupo político dominante na cidade despreza qualquer forma de diálogo com a sociedade, não há dúvidas. A novidade é que estão esticando os limites como se depositassem na omissão das instituições a garantia da impunidade, independente de quais e quantos desmandos patrocinem.

A mais recente afronta é o velho expediente de antecipar arrecadação de anos futuros e deixar a conta para as próximas administrações. Na semana passada, a Câmara Municipal, com a notória maioria subserviente, aprovou uma lei que permite à prefeita Rosinha Garotinho, na prática, antecipar recebimento dos royalties. O texto da lei (6.598, de 18/11/2014, publicada na página 1 do D.O. de 19/11/2014), é um monumento à desfaçatez. Usa e abusa de eufemismos para esconder o propósito de tomar empréstimo bancário dando como garantia de pagamento a receita futura dos royalties do petróleo (incluindo Participação Especial) até 31 de dezembro de 2016. O Poder Legislativo Municipal autorizou a prefeita Rosinha a “ceder a instituições financeiras públicas créditos decorrentes de royalties…”.Traduzindo: por “instituições financeiras públicas” entenda-se Banco do Brasil e Caixa Econômica, e “ceder” neste texto é um verbo injustificável, porque ao antecipar a receita junto a uma instituição financeira, que não vive de benemerência, os valores deverão ser pagos com juros de mercado. É empréstimo, não cessão!

A lei também é imperdoavelmente omissa quanto ao limite de valores, tornando-se um cheque em branco para a prefeita gastar como quiser, empenhando todas as receitas do petróleo até seu último dia de mandato e deixando a conta, repito, para os sucessores…

E mais: além de branco, o cheque pode não ter fundos!!!!!

Sim, mesmo com a previsão que em 2015 a Prefeitura de Campos receba valores semelhantes aos anos de 2013 e 2014 (cerca de R$ 1,3 bilhão), não podemos esquecer que ainda tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) uma Ação Direta de Inconstitucionalidade, a ADI 4197, que tenta anular a lei 12.734/2012. Para os que se esqueceram, foi a lei aprovada no Congresso Nacional que estendeu a distribuição dos royalties do petróleo para todo o país e, se vigorar, reduz em 60% os repasses para o município de Campos. A distribuição só continua mantida pela lei anterior por força de uma liminar da ministra Carmen Lúcia, que em 18/03/2013, suspendeu os efeitos da nova lei até que o assunto seja decidido pelo Plenário da Corte.

A própria prefeita Rosinha Garotinho fez várias incursões ao STF para acompanhar a tramitação da ADI,  preocupada com a possibilidade da drástica redução de repasses, mas agora ganhou da Câmara Municipal o direito de dispor antecipadamente de uma receita ainda incerta, como se vendesse os ovos antes da galinha trazê-los aos mundo. Aos demais Estados interessa que a lei seja declarada constitucional porque beneficia todos, com exceção do Rio de Janeiro, Espírito Santo e, de maneira bem menos impactante, São Paulo. Tanto que, assim como a Organização dos Municípios produtores de Petróleo (Ompetro), que a prefeita de Campos preside, praticamente todos os Estados são parte da Ação Direta de Inconstitucionalidade na condição de “amicus curae”, todos trabalhando incessantemente para que os royalties sejam distribuídos por todos os municípios brasileiros e não entre os localizados nos Estados produtores.

Portanto, é um assunto que precisa ser explicado e debatido com a sociedade com franqueza, sem eufemismos e argumentos falaciosos, porque a forma como está sendo conduzida a questão, além de demonstrar desprezo pela opinião pública, abre margem para as mais diversas interpretações. A mais corrente? Há um rombo nas contas municipais! Seus motivos mais “nobres”? Má gestão, falta de planejamento e gastança irresponsável!

 

Publicado hoje na Folha

 

Atualização às 18h55: Republicado aqui, no blog “Eu penso que…”, e aqui, no “Estou procurando o que fazer”

 

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Adeus desinventado a Manoel

Último domingo de nuvens em Atafona
Último domingo de nuvens em Atafona

 

 

desinvenção do adeus

divinado ao reino da despalavra

manoel traduziu no éter seu barro

pra voar passarinho em gorjeio

na mudez chapéu coco de chaplin.

a borboleta que soluçava cores no espaço

lembrou-se lagarta de comer o verde

e alforriou do girino uma rã.

entre as ruínas do pontal de atafona

com paraíba torcido de pantanal

o imbé punha rego de seios no horizonte

do lado oposto ao liso do mar.

notei na vereda ainda úmida da lesma,

quando topei o dedão numa pedra

e dei seu limo à luz da manhã:

em estado de orvalho, o poeta estava lá.

atafona, 16/11/14

 

Manoel de Barros

 

 

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Artigo do domingo — Quatro poemas e um funeral

Manoel de Barros - desenho
Desenho de Manoel de Barros

 

O georgiano naturalizado russo Vladímir Maiakóvski (aqui) se matou com um tiro no peito em 1930, aos 37 anos, 42 antes que eu desse início aos 42 que tenho de vida. O pantaneiro Manoel de Barros voou passarinho aos 97, na última quinta, levando no papo muito da saliva desta nossa língua de Luís de Camões. Os poetas italvense Sthevo Damasceno e paranaense Marcelo Garcia, que estão vivos e, sempre espero, bem, não vejo há alguns anos, nestes vôos distintos que a existência nos determina, no mais das vezes alheios à vontade.

Meu pai, que durante anos ocupou este espaço de prosa em dias de mais sorte, dizia que jornal, sobretudo primeiro caderno, não é lugar de poesia. Pois peço licença a ele e a você, leitor, para abrir neste uma exceção, na homenagem que um poeta de província junto a dois pares podem fazer a dois outros tão universais, a ponto de se permitirem prazenteiras intersecções vicinais. Não por outro motivo, seguem abaixo:

 

A flauta-vértebra

(Prólogo de poema de Vladímir Maiakóvski, na tradução de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)

A todas vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.

Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
Esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.

Moscou, 1915

 

O fotógrafo

(Poema de Manoel de Barros)

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim num beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada mais na existência do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Vi uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim cheguei a Nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakóvski — seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.

Campo Grande, 2000

 

“Fotografei o perdão”
(Manoel de Barros)

Negativos

(Em parceria com Sthevo Damaceno)

Os olhos de esferas e vitrais;
De natureza morta, verde musgo
Com brilho de primaveras e cristais,
Da pincelada de Goya no escuro
(Com toda força de um muro)
Resiste a visão mecânica, futuro
Que devora o próprio filho,
Com a saliva de um louco,
Entre os dentes de Saturno.

Num gemido mudo,
O sol semeia o ventre dos vitrais:
Que mergulha nesse verde flóreo,
Parecendo corte de faca ao caule.

E como na pintura
O verde e o amarelo geram o azul
Como um céu de sertão,
Os caminhos de Ulisses,
Ou o perdão nos olhos de um mendigo
— Pincéis de uma só tintura.

Nesse momento, não lúcido,
Os olhos de esferas e vitrais esgarçam o azul
Até que as lágrimas brotem, como ondas,
Umedecendo a realidade que apavora

E quando o sol se esvai
A natureza morta renasce de um cais,
Mas fica o corte do caule, na pele e na alma;

o resto é imagem.

Campos, 01/12/06

 

Viúva de Maiakóvski

(Em parceria com Marcelo Garcia e Sthevo Damaceno)

Em certos dias,
a saudade rasga as paredes da casa
e o outono nos olhos espreita as portas abertas
— cato todas as paixões vitimadas
pela gravidade das folhas.

Em dias certos,
não consigo me manter só,
vendo você entre os cômodos
e as gavetas vazias
da intimidade que nos vestia.

Essas miragens entre espelhos
do alguém que já não temos
com um outro que já não somos
me lembram: não apreendo ainda
[as coisas por dentro
condenado à espuma das ondas,
ao afogamento de quem temeu mergulhar.

Desafivelo o cinto da nuvem de calças
e quando roço meu sexo no seu
abate-me a impotência do suicida triste.

Ser imagem
e estar sempre do lado de fora.

Cascavel/Campos, 21/12/06

 

Desenho de Maiakóvski
Desenho de Maiakóvski

 

 

Publicado hoje na Folha

 

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Manoel de Barros voou passarinho ao reino da despalavra

 

Poeta Manoel de Barros (1916/2014)

 

 

O fotógrafo

 

Difícil fotografar o silêncio.

Entretanto tentei. Eu conto:

Madrugada a minha aldeia estava morta.

Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.

Eu estava saindo de uma festa.

Eram quase quatro da manhã.

Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.

Preparei minha máquina.

O silêncio era um carregador?

Fotografei esse carregador.

Tive outras visões naquela madrugada.

Preparei minha máquina de novo.

Tinha um perfume de jasmim num beiral de um sobrado.

Fotografei o perfume.

Vi uma lesma pregada mais na existência do que na pedra.

Fotografei a existência dela.

Vi ainda azul-perdão no olho de um mendigo.

Fotografei o perdão.

Vi um paisagem velha a desabar sobre uma casa.

Fotografei o sobre.

Foi difícil fotografar o sobre.

Por fim cheguei a Nuvem de calça.

Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakóvski — seu criador.

Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.

Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa mais justa para cobrir sua noiva.

A foto saiu legal.

 

Este foi o primeiro poema de Manoel de Barros que li, pertencente ao livro que de certa forma batizou, “Ensaios fotográficos”, de 2000. E é até hoje o que mais gosto, considerando-o entre os mais belos já produzidos por qualquer língua que, no eco a Caetano, já tenha roçado à de Luís de Camões. A de Manoel deixou de bater-lhe ao palato na manhã de hoje, aos 97 anos, em Campo Grande, capital do seu Mato Grosso do Sul. Mas como observou outro poeta, o campista Adriano Moura: “nossa sorte é que voz poética não se cala”.

De qualquer maneira, é curiosa essa sensação doída de perda, como de um amigo ou parente, esses olhos infiltrados e a garganta árida pela perda de alguém cujo conhecimento pessoal nunca excedeu a leitura dos versos. Uso a inutilidade dos meus para me despedir de quem tanto os influenciou e que agora, finalmente, atingiu apenas o “reino das imagens, o reino da despalavra”. Vá com Deus, em seu sopro no vento, poeta! Muito obrigado por tudo!

 

ladrões

 

o vento entrou pela janela

parecia ladrão o vento

trazia os cheiros roubados de outro lugar

de um tempo que já não existia

dissimulado, ele assobiava

 

flagrei o vento, que se assustou

quis reagir, bateu a porta

mas roubei para mim seus cheiros

que guardei entre duas folhas de um livro

e a chuva que caiu benzeu perdão

 

cambuci, 28/05/2000

 

Para quem já conhece a obra manoelina, mas pode sabê-la melhor, ou para quem não conhece, mas deveria, invista uma hora e 21 minutos da sua vida no excelente documentário “Só dez por cento é mentira”, com direção e roteiro do Paulo Cezar, a quem devemos essa necessária desbiografia oficial do poeta, exibida e debatida em Campos pela jornalista e produtora cultural Luciana Portinho, no Cineclube Goitacá, em 14 de maio deste ano (aqui):

 

 

Amanhã, confira a matéria sobre a vida e a obra de Manoel, na visão de poetas e literatos campistas, na Folha imprensa e online, em matéria da jornalista e também escritora Paula Vigneron.

 

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De férias

Caros leitores, estou saindo para gozar de merecidas férias, do mesmo modo que o meu parceiro de blog, Aluysio, que também saiu para descansar, depois de muita dedicação as eleições 2014. Se Deus quiser e permitir, em breve estaremos de volta! Abraços!

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Após Copa e eleições, sua licença para descansar

pausa

 

 

Ano de Copa do Mundo no Brasil, seguida das eleições mais disputadas na história do país, enquanto o rio Paraíba definha diante dos nossos olhos e da nossa impotência, para não dizer cumplicidade. Os últimos cinco meses foram de muito, muito trabalho. Mas o resultado está aí, em tempo real, na sua tela, e preto no branco nas cores impressas todos os dias nas páginas da Folha. A todos da sua redação  e demais setores do jornal, responsáveis pela logística sem a qual nenhum bom jornalismo é possível, bem como aos blogueiros hospedados na Folha Online e aos seus colaboradores em versão impressa, e sobretudo a você, leitor, início, meio e fim de todos nós, meu muito obrigado. Do coração do meu coração, como diria o príncipe da Dinamarca, obrigado a todos pela chance de manter vivo o legado do meu pai.

Para onde quer que eu vá, levarei esses momentos guardados num estojo. Mas agora peço licença para descansar.

 

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Ponto final — Em reunião tensa, vereadores pressionam e Garotinho ganha tempo

Ponto final

 

 

Vacas no mesmo brejo

Que a vaca de Anthony Garotinho (PR) foi para o brejo, todos no Brasil ficaram sabendo desde 5 de outubro, quando o deputado federal não conseguiu sequer chegar ao segundo turno de uma eleição a governador do Rio que chegou a liderar nas pesquisas na maior parte da campanha. Isso foi antes dele ajudar a conduzir ao mesmo destino brejal, no último domingo, a vaca de presépio do senador Marcelo Crivella (PRB), a quem deu seu apoio no segundo turno.

 

Rejeição no RJ e Campos

Bem verdade que, na disputa final com o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB), Crivella não foi prejudicado só pela enorme rejeição de Garotinho, talvez a maior entre os políticos fluminenses, mas também por aquela provocada pela Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), da qual o senador é bispo licenciado, e pelo seu tio Edir Macedo. Todavia, ao perder feio o segundo turno em Campos, onde Pezão ganhou em cinco das sete zonas eleitorais, Crivella revelou por tabela como hoje também é grande a rejeição ao próprio Garotinho dentro da cidade deste.

 

Os “independentes”

Como não há nada que não possa piorar, ontem, ao lado do filho Wladimir, Garotinho teve uma reunião muito tensa, na sede da Prefeitura de Campos, de quatro horas, das 16h às 20h, com 11 vereadores que se intitulam “independentes”: Genásio (PSC), Jorge Magal (PR), Gil Vianna (PR), Albertinho (Pros), Alexandre Tadeu (PRB), Dayvison Miranda (PRB), Thiago Virgílio (PTC), Neném (PTB), José Carlos (PSDC) e Miguelito (PP) e Álvaro César (PMN). Para se manterem governistas, os 11 reivindicaram que o próximo presidente da Câmara seja Genásio, Magal ou Gil.

 

Reunião na lama

Acuado, Garotinho reagiu da única maneira que sabe: atacando. Ele centrou fogo em Magal, Gil e Albertinho, que concorreram às eleições legislativas de 5 de outubro contra a vontade do líder. Exaltado, Garotinho teria cobrado na frente de todos:  “E seus 300 cargos na Prefeitura, Gil? E o convênio do município com sua escola Santana de Azeredo, Magal”. Mas foi com o terceiro que o (ainda) deputado federal de direito e prefeito de fato teria batido mais pesado: “Eu tirei você da lama, Albertinho!”.

 

Tadeu reagiu

Depois de cobrá-los duramente, por julgar que os três, entre os 11 descontentes, são os que mais recebem vantagens do governo municipal, Garotinho os teria ameaçado: “Magal, Gil e Albertinho podem sair daqui, entregar tudo que têm na Prefeitura e ir para oposição”. Os três se levantaram e saíram, quando Tadeu reagiu e disse na cara de Garotinho: “Se eles saírem e forem para a oposição, vamos todos os 11”. Enquanto isso, Álvaro César saiu da sala para chamar os três de volta e Wladimir tentava negociar em separado com Genásio, oferecendo-lhe uma secretaria para abandonar o grupo.

 

PRB ajuda Rosinha?

Quando Magal, Gil e Albertinho voltaram, Wladimir tentou repreendê-los, fazendo com que todos os vereadores questionassem sua presença. Diante de todos, Garotinho teria mandado o filho “calar a boca” e ligado para Crivella, numa tentativa de enquadrar Tadeu. O sobrinho de Edir Macedo se limitou a enviar uma mensagem de WhatsApp por celular para Dayvison, pedindo para os seus dois vereadores “ajudarem Rosinha”. Não custa lembrar que Crivella aceitou o apoio de Garotinho no segundo turno estadual contra o conselho pessoal do mesmo Tadeu.

 

Oposição banida

Resumo da ópera bufa: hoje, antes da sessão marcada para às 10h da manhã, os 11 “independentes” se reúnem com os outros 10 vereadores ainda governistas. Garotinho, que até então pretendia reeleger Edson Batista (PTB) a presidente da Câmara, ou alterná-lo no posto com Paulo Hirano (PR), cobrou ao final da reunião de ontem que os dissidentes escolham um dos três nomes apresentados por eles para presidir o Legislativo, impondo a condição de que não haja ninguém da oposição na mesa diretora.

 

O tempo e a hipocrisia

Enfraquecido politicamente, com uma Prefeitura inexplicavelmente quebrada, apesar do seu orçamento de R$ 2,5 bilhões, mas ainda bom enxadrista, Garotinho ganhou o tempo necessário para negociar separadamente com cada um dos 11 e tentar enfraquecer o grupo. O primeiro alvo (e mais fácil) é Miguelito. Se o Brasil revelado nas urnas do último domingo se mostrou dividido como “nunca antes na História deste país”, em Campos as coisas não parecem diferentes. Diante dos métodos muito semelhantes de se governar, a mudança fica na conta da hipocrisia de quem apoia uma prática em Brasília e condena os males da sua clonagem só na própria terra.

 

 

Publicado hoje na Folha

 

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