Miguel Fernández y Fernández — Rio Paraíba do Sul: um bem de interesses múltiplos


Rio Paraíba do Sul: um bem de interesses múltiplos
Por Miguel Alvarenga Fernández y Fernández
A necessidade da água para abastecimento é inerente à história da civilização humana. A disponibilidade de mananciais determinava a própria localização das comunidades. A urbanização tornou o assunto mais complexo, pois os mananciais iniciais tornavam-se escassos e, para equacionar o problema, passou-se a incluir o seu transporte (transposição) para o abastecimento das populações desses aglomerados.
Vários registros de intervenções para transposição de água são encontrados. O primeiro sistema público de abastecimento noticiado é uma transposição através do canal Atrush, identificado pelo Aqueduto de Jerwan. Ele teria sido construído pelos Assírios entre os anos de 703-690 a.C., como parte de um sistema de captação e condução de água do rio Khenis por mais de 50km.
No Brasil, a primeira grande transposição de água foi iniciada na década de 1930, através de um empreendimento hidrelétrico conhecido como Sistema Gerador Light “Santa Cecília”, que transpõem as águas do rio Paraíba do Sul, na altura do município de Piraí, por um complexo conjunto de barragens, reservatórios, túneis, tubulações, estações de bombeamento e turbinas. O rio Guandu foi a calha utilizada pela Light para o escoamento das águas transpostas do rio Paraíba do Sul.
Na década de 1950, iniciou-se um planejamento para suprir as crescentes necessidades de água do então Distrito Federal (atual município do Rio de Janeiro), e o manancial escolhido foi esse rio Guandu, “engordado” pela transposição da Rio-Light. Uma transposição que orginalmente foi implantada para gerar energia, hoje é responsável por garantir a fonte de água para mais de 80% dos 10 milhões de habitantes da “Grande Rio”.
Os interesses pelos usos das águas de um rio são múltiplos: geração de energia, abastecimento humano, deságue de esgotos, abastecimento industrial, irrigação agrícola, vias de navegação, etc. Muitas das vezes, esses interesses são conflitantes e no principal rio da região mais populosa do Brasil, não poderia ser diferente principalmente em períodos de escassez hídrica.
Em virtude destes conflitos, em 1997 o congresso federal aprovou a Lei das Águas que prevê que os usos prioritários da água são para abastecimento humano e dessedentação animal. Em tempos de escassez hídrica, estes devem ser os usos garantidos.
Claro que nem sempre essa condição é tão simples. Transposições para sistemas de abastecimento de água urbano com grande ineficiência por perdas devem ser priorizados em detrimento da irrigação agrícola que gera alimentos para a mesma região? É um questionamento razoável. Porém, questionar uma transposição que é fonte de água e energia para milhões de pessoas, porque a morfologia da foz do rio está se modificando, foge da razoabilidade.
Alterações da foz de rios são fenômenos naturais de difícil determinação do como e porque ocorrem. Além disso, em termos de prioridades para o uso da água de um rio essa deveria estar entre as últimas.
No Paraíba do Sul, as alterações de sua linha de costa na foz, onde se instalou a comunidade de Atafona, podem estar ocorrendo pelos mais diversos motivos. Áreas costeiras como essa, de idade geológica recente, sofrem modificações pelas mais diversas ações como: correntes marítimas, ventos, chuvas, chegada de material sedimentável, etc.
Indagações sobre erosão/assoreamento de uma pequena área de restinga na foz (delta) de um rio culpando uma transposição, seja pela questão física que gera o fenômeno, seja pela questão social de garantir a segurança hídrica de milhões de pessoas, não são corretas e não ajudam a resolver a questão.
Um rio não sangra quando é transposto. Um rio transposto compartilha oportunidade, desenvolvimento e igualdade a uma nova região através de suas águas.
Publicado hoje (26) na Folha da Manhã
















“1917”
Motivo de crítica por Luiz Fernando Veríssimo em “Dunkirk” (
Ganhador dos Oscar de melhor diretor e melhor filme por “Beleza Americana” (2009), filme de estreia de Sam Mendes e clássico recente do cinema, o diretor inglês traz em “1917” uma comentada novidade estética: seu novo filme é todo em plano-sequência, sem cortes. Outro inglês, o mestre Alfred Hitchcock já havia feito isso em “Festim Diabólico” (1948), todo filmado dentro de um apartamento. Ao levar a ousadia técnica a campo aberto, Mendes foi agraciado com o Globo de Ouro de melhor diretor em 5 janeiro. É sempre um forte indicativo ao Oscar, que será entregue em 9 de fevereiro.
“PARASITA”
Questão emblemática desde sempre no conceito marxista da “luta de classes” — que o excelente roteiro sul-coreano não busca nivelar no proletariado, apenas tomar o lugar do patrão —, o “cheiro do povo” tem sua universalidade independente de Ocidente e Oriente, hemisférios Norte ou Sul. É ele que ativa o turning point contundente da história, ao transformar uma comédia na mais extremada tragédia. Tragédia no sentido grego do termo, que não serve de base ao Extremo Oriente, não de fazer tragédia. De fato, esse “cheiro do povo” evoca uma frase marcante de um bom filme brasileiro, “Linha de Passe” (2008), dirigido por Walter Salles Júnior e Daniela Thomas, sobre desigualdades sociais muito semelhantes: “Olha pra minha cara, porra!”.
Com suas surpresas subterrâneas, “Parasita” talvez seja um filme ainda mais revolucionário e marcante do que o frenético “Oldboy” (2003), de Park Chan-wook. Foi com ele, numa leitura oriental de Tarantino em suas bases no cinema de kung-fu de Hong Kong, que a Coréia do Sul impactou o mundo do cinema no novo milênio. Se não dedicado à violência estilizada de “Oldboy”, o sangue derramado em “Parasita” pode chocar ainda mais. Tanto quanto a antológica cena da jovem e bela mulher sentada sobre a privada que regurgita esgoto durante uma inundação no porão onde habita, enquanto fuma seu cigarro “mentolado” de fezes. E é choque necessário para tirar o espectador de classe média da sua zona de conforto, em qualquer parte do mundo.