Alternativas em debate para a eleição a prefeito de Campos em 2020

 

 

Do IFF a 2020?

Desde antes das eleições nacionais e estaduais de outubro deste anos, o prefeito Rafael Diniz (PPS) e o agora deputado federal eleitor Wladimir Garotinho (PRP) já eram considerados nomes certos à disputa do governo de Campos em 2020.  Na edição de domingo (16), em artigo nesta página de opinião, o diretor de redação da Folha, Aluysio Abreu Barbosa, lembrou que pode haver espaço a nomes alternativos na disputa de daqui a dois anos. Em sua coluna na página 6 da mesma edição da Folha, o jornalista Saulo Pessanha citou um desses nomes: o do reitor do Instituto Federal Fluminense (IFF), professor Jefferson Manhães de Azevedo.

 

Reeleição em 2019

Procurado pela coluna, Jefferson não negou, nem confirmou a possibilidade. Mas revelou que a única coisa que existe neste sentido são conversas informais. Ele admitiu, no entanto, que foi procurado por um importante parlamentar fluminense para se lançar a deputado estadual em 2018. Mas declinou da sondagem e afirmou que seu único objetivo eleitoral agora é consolidar seu nome no IFF, instituição de ensino mais importante da região, para tentar se reeleger como reitor. A eleição na escola deve ocorrer no segundo semestre de 2019. Antes de ocupar a reitoria, Jefferson já tinha sido eleito e reeleito diretor do campus Campos-Centro.

 

Ao lado de Haddad

No segundo turno da eleição presidencial, o nome de Jefferson ganhou certa projeção nacional. Em 19 de outubro, em evento no Clube de Engenharia do Rio de Janeiro, ele representava o Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação (Conif), quando foi filmado ao lado do então candidato do PT a presidente, Fernando Haddad. As imagens foram veiculadas em telejornais do país. Apesar de admitir ter votado em Haddad nos dois turnos, Jefferson garantiu que sua presença ali foi meramente institucional. E que Jair Bolsonaro (PSL) também foi convidado ao evento, mas não aceitou por motivos de saúde.

 

Governo Rafael

Além dos votos em Haddad, o reitor do IFF teve no PT sua única militância partidária, ao qual se filiou em 1993. Mas disse não participar de atividades partidárias há 12 anos. Jefferson reconhece que Rafael herdou dos Garotinho uma Prefeitura em estado falimentar, mas acredita que o atual governo peca na comunicação destes problemas à população. Ele também fez críticas a remédios amargos, sobretudo o corte de programas sociais como a passagem a R$ 1,00 e o Restaurante Popular. E lembrou que o substituto deste, o Centro de Segurança Alimentar e Nutricional (Cesan), nome infeliz na criatividade, ainda não está funcionando.

 

Outros nomes

Além de admitir que sua lembrança para 2020 é informal, a ligação do reitor do IFF com o PT não ajuda no tempo em que o antipetismo acabou de eleger Bolsonaro presidente. Ademais, outros dirigentes do que hoje é o IFF colheram experiências eleitorais fracassadas na política partidária. Mas o nome de Jefferson não é o único a ser hoje lembrado. Os deputados estaduais eleitos Gil Vianna (PSL, legenda de Bolsonaro) e Rodrigo Bacellar, que acabou de assumir a presidência municipal do SD em evento prestigiado, também são aventados. Como Saulo escreveu: “Política é assim, acaba uma eleição e já começa a se discutir a seguinte”.

 

Cruel

Crueldade sem limites. Talvez assim possa ser definido o caso da cadelinha Lili, espancada e morta na frente de uma família em São Francisco de Itabapoana. Como não podia deixar de ser, pela violência e pela dor da senhora, que chorava desesperadamente com o corpinho do animal no colo, o caso gerou revolta. No último dia 28 de novembro, outro caso grave ganhou repercussão nacional, quando um segurança espancou um cachorrinho, que acabou morrendo. O Senado já aprovou a alteração da lei que pune com mais rigor autores de maus tratos a animais. A bola, agora, foi passada para a Câmara Federal.

 

Festa de Natal

Mais de 200 crianças acolhidas em abrigos fiscalizados pelo Tribunal de Justiça (TJ) do Rio participaram, ontem, de uma grande festa de Natal na Vara da Infância, da Juventude e do Idoso da capital. As crianças acompanharam apresentações de dança e receberam presentes do Papai Noel. A comemoração foi possível, após a união da 1ª e da 2ª Vara da Infância, como destacou a juíza Glória Heloíza. No comando da organização da festa, o juiz campista Pedro Henrique Alves, titular da 1ª Vara de Infância, Juventude e Idoso da Capital.

 

Com Suzy Monteiro

 

Publicado hoje (18) na Folha da Manhã

 

0

Artigo do domingo — Tão longe, tão perto: 2020 além de Rafael e Wladimir

 

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Muita gente em Campos se surpreendeu com o resultado das eleições municipais de 2016. Não por um jovem vereador de oposição de único mandato, Rafael Diniz (PPS), ter vencido a eleição a prefeito. Mas por tê-lo feito ainda no primeiro turno, em todas as zonas eleitorais do município.

 

Comemoração da vitória de Rafael no primeiro turno de 2016

 

Mas se o inesperado fez uma surpresa em 2016, o que dizer das eleições de 2018? Após chegar perto de também vencer o pleito presidencial no primeiro turno, Jair Bolsonaro (PSL) derrotou Fernando Haddad (PT) por mais de 10 milhões de votos de diferença no segundo. Bateu a maior força eleitoral do país nos 14 anos anteriores.

 

Antes da conclusão do segundo turno, em 2018, Bolsonaro estava certo da vitória

 

A vitória final do capitão sobre o professor era prevista em todas as pesquisas. Só que elas foram solenemente ignoradas pela arrogância de quem votou em Haddad no primeiro turno, tirou do segundo Ciro Gomes (PDT) e, com ele, a única chance real da esquerda em eleger o presidente. Da cadeia, Lula sabotou o cearense, ungiu Haddad seu poste da vez e, mãos entrelaçadas com o antipetismo, determinou a eleição de Bolsonaro.

Se esse roteiro estava escrito de antemão, a surpresa foi como o tsunami do anti-establishment se espraiou também nas eleições ao Congresso Nacional. Sua renovação foi a maior na história da Nova República (1985/2018). Na Câmara Federal, 52,54% dos deputados eleitos foram caras novas. No Senado o número chegou a 81,19%.

O PSL tinha eleito apenas um deputado federal em 2014. Em 2018, ano que passou a servir de legenda à candidatura presidencial vitoriosa de Bolsonaro, o partido elegeu 52 deputados e a segunda maior bancada da Câmara.

Do Planalto Central à planície goitacá, os reflexos foram sentidos. A acachapante votação de Bolsonaro no Estado do Rio puxou os candidatos do seu partido, que conquistou 12 mandatos de deputado federal, o último com 31.788 votos. Candidato do governo Rafael Diniz ao mesmo cargo, o vereador Marcão Gomes (PR) acabou ficando de fora, mesmo com quase 41 mil votos.

Mas nenhuma eleição abriu precedente tão inesperado quanto a de Wilson Witzel a governador. Concorrendo pelo PSC, legenda anterior de Bolsonaro, o desconhecido ex-juiz federal saiu de um quinto lugar nas pesquisas da semana do primeiro turno, para nele terminar em primeiro, com mais do dobro da votação do segundo, Eduardo Paes (DEM). A quem venceu no turno final com a expressiva diferença de quase 20%.

 

 

Baseado nesse histórico recente, quem achava conhecer algo de eleição, deve colocar as barbas de molho para 2020. Se vivêssemos em condições normais de temperatura e pressão, Rafael Diniz e Wladimir Garotinho (PRP) sairiam na frente.

Rafael sempre contará com o “peso da máquina”. Mas ele tende a importar cada vez menos, sobretudo com o rigor que a Justiça Eleitoral demonstrou, em 2016, em operações como a Chequinho. Mesmo que esta, mais os sucessivos problemas jurídicos de Anthony Garotinho (PRP), tenham deixado o prefeito governar Campos praticamente sem oposição, não há indício de que sua aprovação seja boa.

Sem nenhuma pesquisa de opinião divulgada para dar critério estatístico ao sentimento popular do campista, a impressão que parece dominante é a da frustração — talvez até por conta da enorme expectativa gerada pela eleição consagradora de dois anos atrás.

Nos dois anos que ainda terá pela frente, uma mudança de 180º é necessária para dar uma cara à gestão Diniz. Se esta permanecer apenas a do ajuste das finanças municipais arrasadas pelos Garotinho, é pouco. E ficaria à mercê de qualquer parecer desfavorável de um Tribunal de Contas do Estado saneado. Cujas análises serão votadas, em 2019, por uma Câmara Municipal que poderia contar com edis insatisfeitos, na exata proporção dos secretários municipais assanhados com a possibilidade da vereança em 2020.

 

Ocupa TB sob vigilância da Guarda Municipal do governo Rosinha em 2016

 

Por sua vez, principal nome da oposição à Prefeitura daqui a dois anos, Wladimir vem tentando, junto ao pai, se aproximar de Witzel. Até emplacaram nomes do seu grupo no novo governo estadual, como Patrícia Cordeiro. Sua desastrosa passagem na presidência da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), no governo Rosinha Garotinho (hoje, Patri), levou os artistas de Campos a ocuparem o Teatro de Bolso em 2016, acintosamente fechado desde 2014.

Ao contrário de Marcão, Wladimir se elegeu deputado federal. Graças à proporcionalidade, não aos votos de cada um. O filho do casal Garotinho teve menos eleitores em 2018 do que o ainda presidente da Câmara Municipal: 39.398 a 40.901. Ainda que, em Campos, tenha ficado um pouco na frente: 30.795 a 29.044. Mas se tudo indica que há insatisfação popular com o governo Rafael, nada mostra que tenha diminuído a imensa rejeição aos Garotinho entre os campistas.

Mesmo ao eleitor hoje mais arrependido por ter votado em Rafael em 2016, está também cristalizado o arrependimento pelo desperdício do auge do recebimento dos royalties do petróleo. Foram 28 anos que Garotinho e seu grupo comandaram o município. Quase três décadas em que a cidade e seu futuro foram usados, sem pudor, como trampolim para um projeto personalista de poder. O resultado foi a decadência do personagem. E a de Campos.

Olhado deste final de 2018, o pleito a prefeito de 2020 parece aberto a alternativas. Mas isso está tão longe quanto um filme de Wim Wenders. E é papo para outro texto.

 

Publicado hoje (16) na Folha da Manhã

 

0

Prêmio mais importante da cultura de Campos sem a devida importância

 

 

Gigante de Campos

Alberto Ribeiro Lamego (1896/1986) foi um gigante cultural que Campos produziu ao Brasil e ao mundo. Geógrafo e geólogo, ele produziu quatro livros sem os quais não se entende a formação do homem e da região: “O homem e o brejo”, “O homem e a restinga”, “O homem e Guanabara” e “O homem e a serra”. No ano seguinte à morte do autor, em 1987, o então prefeito Zezé Barbosa instituiu o prêmio Alberto Lamego. Desde então, é o mais importante da cultura de Campos. Para se ter uma ideia, seus três primeiros ganhadores foram os escritores José Cândido de Carvalho e Osório Peixoto, e o jornalista Hervé Salgado Rodrigues.

 

Obras de Alberto Ribeiro Lamego reeditadas pelo IBGE

 

Sem prêmio

No correr do tempo, o prêmio Alberto Lamego passou a ser entregue a uma personalidade viva e outra, em homenagem póstuma, entre os vultos da cultura campista. Mas desde 2014, durante o último governo Rosinha Garotinho, ele deixou de ser entregue sem satisfação à sociedade. Na atual formação do Conselho Municipal de Cultura (Comcultura), se descobriu neste ano que os ganhadores de 2014, 2015 e 2016 haviam sido escolhidos. Os nomes, no entanto, não foram divulgados, nem os prêmios entregues. O Comcultura também escolheu os vencedores pelos anos de 2017 e 2018.

 

Sem nomes

Presidente do Comcultura, Rafael Damasceno informou ontem à coluna que a lista dos últimos 10 vencedores do Alberto Lamego, para sanar a omissão dos últimos cinco anos, foi repassada entre setembro e outubro. A entrega do prêmio será na próxima quarta (19), às 19h, no Museu Histórico de Campos, na praça São Salvador. Todavia, a lista dos dois vencedores por cada ano, de 2014 a 2018, só foi divulgada ontem (aqui) no blog Opiniões, hospedado no Folha 1. Até o fechamento desta edição, a única matéria da Secom tocando de passagem no assunto, havia sido publicada (aqui) em 30 de novembro, sem informar o nome de nenhum dos ganhadores.

 

Lamego agradece!

Por 2014, o maior prêmio da cultura de Campos ficou para o maestro Anoeli Maciel (in memorian) e a professora Arlete Sendra. Por 2015, o carnavalesco Jorge da Paz Almeida (in memorian) e o jornalista Herbson Freitas. Por 2016, o diretor teatral e poeta Antonio Roberto de Góis Cavalcante, o Kapi (in memorian), e o radialista José Sales. Por 2017, o professor Luiz Magalhães (in memorian) e a jongueira Geneci Norinha. Por 2018, a atriz Maria Helena Gomes (in memorian) e o maestro Ricardo Azevedo. Entre vivos e mortos, são todos nomes que não podem ser esquecidos. Tampouco omitidos. Alberto Ribeiro Lamego agradece!

 

Em dia

Manter a folha de pagamento em dia é obrigação, mas muito servidor público está respirando aliviado no fim de 2018. É que, desta vez, a Prefeitura de Campos e o Governo do Estado vão conseguir fechar o ano sem a necessidade de parcelar 13º, tampouco com folha em atraso — cenário bem diferente do fim de 2017. O anúncio do prefeito Rafael Diniz (PPS), feito na noite de ontem, coloca em dia, também, a folha de pagamento dos trabalhadores que são pagos por Recibo de Pagamento Autônomo (RPA).

 

Reparos na cidade

A Prefeitura de Campos, por meio da secretaria de Infraestrutura e Mobilidade Urbana, conclui ontem os trabalhos da operação tapa-buracos e as obras civis em diversos pontos na cidade. Uma das principais ações desta semana foi a recuperação da rede de drenagem e pavimentação pela recomposição do paralelepípedo, na localidade Giró Faísca, em Travessão. A equipe do “tapa-buraco” trabalhou, ainda, em Farol de São Thomé. Já a equipe civil, com reparo de drenagem, na avenida Pelinca e no distrito de Santo Amaro.

 

Milionário

Já tem muita gente criando expectativa pelo premio da Mega da Virada, que pode pagar mais de R$ 200 milhões na virada do ano. Mas as lotéricas também estão cheias nesta semana porque o prêmio da Mega-Sena está alto. O prêmio estimado para hoje é de R$ 42 milhões. As seis dezenas do concurso 2.107 serão sorteadas às 20h, no Caminhão da Sorte estacionado na cidade de Criciúma, em Santa Catarina. Segundo a Caixa, caso aplicado na poupança o valor do prêmio principal renderia quase R$ 156 mil por mês. O dinheiro também seria suficiente para adquirir 20 apartamentos, com carro na garagem.

 

Com Arnaldo Neto

 

Publicado hoje (15) na Folha da Manhã

0

Maior prêmio da cultura de Campos 5 anos atrasado e sem divulgação

 

Alberto Ribeiro Lamego (1896/1985), geógrafo, geólogo e um dos escritores mais importantes da história de Campos

Concedido anualmente a um vivo e outro em homenagem póstuma, o prêmio Alberto Ribeiro Lamego é o mais importante da cultura do município de Campos. E estava sem ser entregue desde 2014. Ainda no governo Rosinha Garotinho, os vencedores de 2014, 15 e 16 foram escolhidos. Mas os seis nomes não foram divulgados, ou os prêmios entregues. Apenas no segundo ano da gestão Rafael Diniz, os eleitos pela gestão anterior foram decobertos. Assim como foram escolhidos os quatro vencedores de 2017 e 2018.

Embora a entrega do prêmio vá acontecer na próxima quarta, a partir das 19h, no Museu Histórico de Campos, a divulgação dos nomes não aconteceu até agora. Após uma inexplicável demora de cinco anos, conheça os vencedores:

2014 – o maestro Anoeli Maciel (in memorian) e a professora de Letras Arlete Sendra

2015 – o carnavalesco Jorge da Paz Almeida (in memorian) e o jornalista Herbson Freitas

2016 – o diretor teatral e poeta Antonio Roberto de Góis Cavalcante, o Kapi (in memorian) e o radialista José Sales

2017 – o professor Luiz Magalhães (in memorian) e a jongueira Geneci Norinha

2018 – a atriz e professora Maria Helena Gomes (in memorian) e o maestro Ricardo Azevedo

No site da Secom, a única menção à entrega cinco anos atrasada do prêmio Alberto Lamego, sem citar nenhum dos nomes dos seus 10 últimos ganhadores, pode ser vista aqui.

 

0

Câmeras registram brigas e homem armado na saída de boate

 

A briga generalizada na saída da boate Luxx, no Parque Tamandaré, durante a madrugada de sábado (01) foi relatada no mesmo dia, em reportagem (aqui) da Folha. E, depois, em duas edições da coluna Ponto Final (aqui e aqui), com suas consequências na superintendência municipal de Postura. Na confusão, dois homens sacaram armas e três tiros foram disparados. Hoje, o blog teve acesso a flagrentes do episódio filmados por câmeras de segurança de um prédio na rua Pero de Góis.

Entre 3h e 4h da manhã, cerca de 10 pessoas se engalfinharam numa briga. Um dos envolvidos saiu em um carro guiado por outro homem, fez o retorno e disparou os três tiros. Outro envolvido na confusão parou seu carro em frente à garagem do prédio. Após os tiros, ele também pegou uma pistola, se agachou com duas mulheres atrás de um carro parado e acompanhou o veículo em movimento de onde saíram os disparos.

Depois do sol nascer, as câmeras flagraram mais uma briga na saída da boate. Sem aúdio, não é registrado o som alto dos carros parados irregularmente dos dois lados da pista, que também permaneceu até o início da manhã.

O vídeo se inicia da câmera direita do prédio. Entre o centro e a esquerda do canto superior da tela, se pode observar a briga. Até que aos 4’50” o carro de um dos envolvidos estaciona em frente à garagem do edifício. Aos 7’10”, após os três disparos, o motorista corre e se agacha atrás de outro carro estacionado. E dali observam passar o carro de onde saíram os tiros.

A partir dos 7’57” a imagem é da câmara esquerda, que melhor evidencia um dos homens armados. É ele que, aos 9’38”, para seu carro em frente à garagem do prédio. Aos 11’08”, corre de arma em punho e se abaixa atrás de outro carro estacionado, junto às duas mulheres, antes de acompanhar o carro de onde saíram os disparos.

A partir dos 11’58”, já de manhã, mais uma briga é registrada pela câmera esquerda do prédio. Confira o que passou a ocorrer nas madrugadas da rua Pero de Góis nos últimos seis meses, desde que a boate iniciou suas atividades no bairro residencial:

 

 

0

Boate enquadrada e fiscalização intensificada sobre casas noturnas

 

 

Boate enquadrada

Como adiantado na terça (04) pela coluna, ontem ocorreu uma reunião entre a superintendência municipal de Postura, a Guarda Civil Municipal (GCM) e o comando do 8º Batalhão de Polícia Militar (BPM). Na pauta, o ocorrido na madrugada de sábado (01) na saída da boate Luxx, no Parque Tamandaré, onde uma briga generalizada acabou com fuga de carro, armas sacadas e três tiros disparados. Pelo som alto da casa noturna e dos carros da sua clientela parados em fila dupla na rua, ontem a boate também foi notificada pela Postura: só poderá reabrir após apresentarem projeto de vedamento acústico.

 

Problema generalizado

Não é a primeira notificação à boate que tem levado o caos às madrugadas de um bairro residencial. Pela reincidência nas irregularidades, que já haviam gerado notificação anterior da Postura, a Luxx também recebeu ontem duas multas. No valor total de R$ 1,8 mil, elas serão publicadas em Diário Oficial (DO) amanhã (07) ou segunda (10). O problema com o desrespeito à vizinhança residencial das casas noturnas não é exclusividade do Parque Tamandaré. Em comentário na coluna de terça, um leitor reclamou dos problemas criados por um estabelecimento na rua da Barão da Lagoa Dourada, quase esquina com av. Pelinca.

 

Direitos

Ciente da dimensão do problema, coube ao superintendente da Postura, Victor Montalvão, aproveitar a reunião de ontem para tratar do assunto. Inicialmente, a pauta conjunta com a GCM e a PM era a organização da segurança na praia do Farol para o verão. Ficou acertado que a fiscalização das eventuais irregularidades das casas noturnas na cidade de Campos será intensificada. Em tempo de crise, não pode ser negado o direito de estabelecimentos comerciais de lucrarem, bem como aos seus clientes de se divertirem. Mas desde que o direito do contribuinte que dorme para trabalhar, dentro da própria casa, seja respeitado.

 

Retórica

O problema da Saúde no Brasil, comprovado está, não se resolve com retórica. O preenchimento de vagas no Mais Médicos revela que a falta de profissionais em municípios do interior não será equacionado tão facilmente. Soltaram fogos para comemorar a rápida ocupação das vagas. Então, daí houve quem dissesse que nunca faltaram médicos e que o programa era um embuste para financiar a ditadura cubana. Concluiu-se, infelizmente, que o problema é bem maior que as intrigas ideológicas. O que fica claro é que muita gente está se inscrevendo e deixando o programa Saúde da Família.

 

Impasse

Neste impasse estão escancarados os vários e (velhos) dilemas da saúde. Como se diz na Baixada Campista, é cobrir um santo para descobrir o outro. Uma pergunta que se impõe: por que esses profissionais preferem o Mais Médicos? Ora, por se tratar de um programa federal com dinheiro e férias garantidas. O Saúde da Família está é gerenciado pelas prefeituras. Muitas vezes, o pagamento atrasa. Quem não se recorda do argumento de que o Mais Médicos “escravizaria” os cubanos?

 

Rincões

Claro está que são situações por demais absurdas. Os profissionais precisam receber em dia e ter direito a férias. Mas há muitos problemas a serem atacados. O mais grave deles é que a população dos menores e mais pobres municípios precisa de médicos. São municípios de 5, 10 mil habitantes, de difícil acesso, sem internet, bar, restaurante, boate… Muita gente não quer trabalhar nestes rincões do Norte ou Nordeste do país. Onde os cubanos iam.

 

Flexibilizou

O plenário da Câmara dos Deputados aprovou ontem projeto que flexibiliza a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) ao permitir que municípios ultrapassem o limite de gastos com despesa de pessoal sem sofrer punições. O texto segue para sanção presidencial. Pela proposta, originada no Senado, a medida alcançará apenas os municípios cuja receita tenha queda maior que 10% em decorrência da diminuição das transferências recebidas do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) oriundas de concessão de isenções tributárias pela União e devido à diminuição das receitas recebidas de royalties e participações especiais.

 

Publicado hoje (06) na Folha da Manhã

 

0

Hamilton Garcia — A democracia da furna da onça

 

 

O risco à democracia num país é comumente atribuído ao comportamento dos agentes políticos e seu grau de comprometimento com suas práticas e instituições, e à resistência delas às crises. Por este prisma, os riscos podem ser bem menores do que realmente são, sobretudo quando não se tem em conta a natureza das crises que ela enfrenta.

Em nosso caso, as crises vividas desde 1988 (impeachments, megaesquemas de corrupção, etc.), foram todas contornadas, mas seu legado foi, até aqui, irrelevante em termos de modificações institucionais/culturais efetivas, capazes de evitar a repetição dos problemas.

De outro lado, tanto o extremismo petista, quanto o bolsonarista, foram tolhidos, até aqui, pelo resultado das urnas: no primeiro caso, por uma derrota que isolou a esquerda nas regiões periféricas do país, enquanto, no segundo, a vitória obrigou à formação de uma coalizão de governo com forças não extremistas.

Não obstante estes sinais positivos, o problema das interpretações funcionalistas, seja de viés voluntarista ou institucionalista, é que elas não costumam dar conta dos problemas estruturais de nossa dinâmica política, em especial aqueles que historicamente vinculam a modernização a uma ação política por cima, por meio de um Estado de compromisso que articula e seleciona interesses presentes na sociedade, quer do capital ou do trabalho, em benefício de elites neopatrimonialmente orientadas — cuja degradação evolutiva desembocou na “furna da onça”, paradigma cabralino (1995-2018) do uso da corrupção como instrumento de emulação da harmonia de poderes.

À partir desta perspectiva histórico-estrutural, podemos entender melhor como nossa República foi a expressão de um pacto de poder onde o “estamento burocrático” (Faoro) — quer sob a hegemonia agrarista (República Velha, 1889-1930), quer industrialista (República Nova em diante, 1930-1989) e financista (Nova República, 1990-2018[i]) — comprimia e arbitrava a disputa política em prol de seus interesses vitais, como elite político-burocrática, e de suas conexões com as classes fundamentais (dominantes e dominadas), de modo tal que nem as semirrupturas do Estado Novo e da Contrarrevolução de 1964 foram capazes de superá-la, em meio à conformação de novos blocos históricos, depois de esgotados os instrumentos de subordinação explicitamente autoritária da sociedade civil ao Estado.

Desnecessário dizer que tal presidencialismo de cooptação, de inspiração liberal, foi, desde sempre, responsável tanto pela manutenção do déficit crônico de democracia e estabilidade ao longo da República (vide, A democratização do Estado), como de racionalidade burocrática — à exceção dos períodos de semirrupturas mencionados —, visto seu compromisso figadal com os privilégios corporativos encerrados em sua própria constituição de classe e o modo como tendia, e tende, a traduzir o interesse como privilégio— o posto do imperativo funcional de qualquer sociedade moderna.

Por isso, ela foi e segue sendo fator de instabilidade política, não só por tirar proveito das distorções institucionais que dificultam a representação política (vide, Reforma Política e Governo Representativo), mas porque administra seu domínio do Estado e, através dele, sobre a sociedade, por meio do uso abusivo de recursos públicos (orçamentários e institucionais) — seja pela corrupção, pelo desvio de função ou perversão das políticas públicas — que produzem falsos consensos ao custo do desperdício do crescimento econômico, obstaculizando o verdadeiro desenvolvimento.

Não foi por outro motivo que o modelo neopatrimonial de dominação entrou em crise seguidamente quando diante de crises recessivo-inflacionárias, levando à radicalizações políticas, como em 1930 e 1964, quando a capacidade estatal de amortecimento dos conflitos sociais, via cooptação, diminuiu drasticamente.

É precisamente isto que vivenciamos agora, com o colapso da direção social-patrimonial sobre o bloco histórico (vide, Os perigos que se avizinham e o antídoto e O Brasil que emerge das urnas), quando a brutal recessão do período petista (Dilma) se encontra com o esgotamento ético e fiscal do modelo de inclusão social-financista, com níveis inéditos de consciência política advindos da escolarização associada aos novos meios de mobilização/informação — que a direita soube utilizar de maneira eficiente a partir de 2015 (movimento pró-impeachment).

A resistência da ordem patrimonialista à mudança apontada pelas urnas, que se ensaia pela aliança do lulopetismo com o emedebismo-centrismo, já começou bem antes da posse do novo governo, na forma de medidas legislativas (“pautas-bomba”), como os aumentos salariais das corporações estatais — com apoio maciço dos tucanos — ao arrepio da situação financeira do Estado, e a volta da ameaça de indulto natalino aos corruptos, acrescida da proposta legislativa de abrandamento das penalidades judiciais.

Tais medidas mostram o potencial explosivo da relação entre um presidente eleito por uma pauta de ruptura com tal modelo e a capacidade deste de reagir, inclusive se travestindo de oposição legítima, ameaçando bloquear o exercício do governo eleito caso este impeça a apropriação espúria do Estado federal por seus interesses particularistas.

O imbroglio, que pode ser evitado pelo isolamento, no novo Congresso, destes segmentos presentes na situação e na oposição, tende a se defrontar com uma situação inédita, extremamente desvantajosa para a tradição derrotada: a de ter que enfrentar um presidente que dispõe não apenas de apoio parlamentar, mas, sobretudo, de uma sociedade civil renovada à direita, com potencial para expressar a vontade geral recém-saída das urnas, além de uma ligação inédita e orgânica com as forças militares — fortemente representadas no novo governo.

A possibilidade de embates radicais, verticais e horizontais, não podendo ser descartada, deve culminar em algum pacto de governabilidade que incluiria a reforma política em troca de espaços de poder. Todavia, não se pode desprezar a ocorrência de um impasse que force a reforma política por meio de referendo ou plebiscito — cuja convocação é privativa do Congresso e depende de maioria simples, presente mais da metade dos parlamentares — e, no interregno, abra caminho à governabilidade por meio de outras medidas excepcionais com o apoio das bancadas parlamentares, contra as lideranças da Câmara e do Senado, a partir da pressão social.

A desarticulação de um eventual bloqueio espúrio da bancada neopatrimonial, no Congresso, contra o Executivo, é decisivo não só para a solução democrática do governo recém-eleito, mas para o enfrentamento dos gargalos que impedem o desenvolvimento econômico-social e o próprio aperfeiçoamento do sistema representativo, sem a qual a reiterada vontade de respeito à Constituição corre o risco de virar letra-morta.

Nenhuma constituição, em abstrato, pode garantir o bom resultado de um sistema democrático. Como alertava Max Weber[ii], ainda antes do fim da I Guerra (1914-1918), somente a articulação efetiva entre Estado e sociedade, por meio de partidos socialmente sustentáveis que disputem sua direção de modo a produzir consenso verdadeiro, por meio de interesses bem constituídos — derivação autêntica de organizações livres — e seus respectivos programas, com as mais diversas inspirações ideológicas — mas jamais reduzidos a anteparo de práticas fraudulentas e exclusivistas —, pode garantir a sustentação de governos legítimos, capazes de absorver os inevitáveis choques provenientes das contradições existentes nas sociedades modernas.

Nosso caminho até lá poderá ser tortuoso, como atesta a eleição do capitão, mas é preciso que seja efetivo em seu objetivo primordial, independentemente das conotações ideológicas em disputa — cujos corolários indesejáveis poderão ser purgados por um sistema efetivamente representativo.

 

 

[i] Que se inaugura politicamente com a volta dos civis ao poder (Tancredo-Sarney) em 1985, mas cuja expressão acabada é o Bloco Histórico liberal-financista inaugurado por Collor (1990-1992), e depois estabilizado por FHC (1995-2002) e alargado por LILS (2003-2016).

[ii] Vide, Parlamentarismo e Governo numa Alemanha Reconstruída (uma contribuição à crítica política do funcionalismo e da política partidária), in. Os Pensadores, ed. Nova Abril/SP, 1985, passim.

 

0

Áreas nobres, Tamandaré e Pelinca viram reféns de empreendimentos

 

 

Briga e tiros na madrugada

Uma briga generalizada entre mais de 10 pessoas durante a madrugada, com direito a pedradas, fecha as duas pistas de uma rua residencial. Um dos envolvidos sai de carro, faz a volta e efetua três disparos com arma de fogo. Outro envolvido na briga acompanha o retorno agachado da calçada, atrás de um carro parado, também empunhando uma pistola. Por sorte a confusão na saída da boate Luxx, na rua Pero de Góis, não acabou em tragédia na madrugada do último sábado (01). Para não contar só com a sorte, a superintendência de Postura, a Polícia Militar (PM) e a Guarda Civil Municipal (GCM) discutem o caso na próxima quarta (05).

 

Versão x fato

A dinâmica foi toda testemunhada de cima, de um edifício vizinho à boate. No próprio sábado, o fato foi denunciado (aqui) na Folha 1. Um dos proprietários da boate, o advogado Amaro Galaxe disse na matéria: “Na rua, pós-evento, a gente não tem como acompanhar. Mas, mesmo assim, nossos seguranças, quando saem, ficam em volta para evitar confusão ao redor. Mas não aconteceu, graças a Deus”. Não só aconteceu, com os tiros ouvidos por pessoas distantes do local, como os seguranças não são capazes nem de controlar o som alto dos carros parados em frente à boate, interrompendo o sono da vizinhança em todas as madrugadas de evento.

 

O rastro

O desrespeito não é só à Lei do Silêncio, que impede o sono durante a madrugada em todo o Parque Tamandaré — área nobre com um dos IPTUs mais caros do município. A rua Pero de Góis foi projetada ainda nos anos 1920 pelo arquiteto francês Alfred Agache (1875/1959). A manutenção das suas duas vias largas, separadas por canteiros arborizados, é um refúgio a quem busca espaços para caminhar ou correr numa cidade que não tem um parque público. Com o rastro de lixo e garrafas quebradas deixados pelos frequentadores da boate, a prática de esporte pela manhã se tornou uma atividade de risco no local antes limpo e tranquilo.

 

Postura

A boate Luxx já tinha sido notificada e, pela reincidência, agora receberá duas multas no valor total de R$ 1,8 mil. Foi o que informou ontem à coluna o superintendente da Postura, Victor Montalvão. Por iniciativa dele, a reunião desta quarta entre Postura, GCM e PM, para tratar da questão da segurança na praia do Farol durante o verão, abordará também a fiscalização aos problemas gerados pela boate e os ambulantes que se reúnem no local. Montalvão informou que a autorização era apenas para venda em carrinhos, não às barracas metálicas montadas no meio da rua, desde à tarde, antes das madrugadas de evento.

 

Guarda

A coluna também falou com o comandante da GCM, Fabiano de Araújo Mariano. Ele destacou que são várias irregularidades denunciadas: som alto, barracas de ambulantes não autorizadas, lixo, estacionamento em fila dupla e até tripla, e questões de segurança — como brigas, agressões a mulheres e, agora, até tiros. Mariano garantiu que na questão das filas duplas, que chegam a interromper o tráfego nas madrugadas, a GCM atua quando solicitada. Moradores do local, no entanto, disseram que isso não acontece. E que, apesar do constante transtorno à ordem pública, nunca viram um carro parado irregularmente ser rebocado do local.

 

PM

Subcomandante do 8º BPM, o tenente coronel Robson também falou com a coluna. Ele confirmou a reunião de quarta, com a Postura e a GCM para tratar das irregularidades na Pero de Góis. Quanto à questão do som alto, moradores garantem que é a PM, não a GCM, que atua para resolver o problema. Robson lembrou que a atuação tem que envolver outros órgãos de fiscalização, não só do município, como os Bombeiros. A PM costuma ter problemas em áreas de comunidades. O Parque Tamandaré sempre conviveu bem com a da Tamarindo. Ironicamente, a “favelização” da área ocorre por conta de um estabelecimento comercial.

 

E na Pelinca…

Em outra área nobre, na av. Pelinca, o condomínio do edifício Vollare respondeu, no domingo (02), à empreiteira DAC Construções e Pavimentações — que construiu o prédio interditado há nove dias por problemas estruturais. À frente do caso, o blog Ponto de Vista, do diretor da Folha Christiano Abreu Barbosa, reproduziu (aqui) a nota que representa as 28 famílias desalojadas: “Não há que se falar que a construtora atendera aos parâmetros de segurança (…) quando esta se recusou a proceder as intervenções necessárias desde o primeiro sinal do vício construtivo, protelando uma solução definitiva, obrigando o condomínio a socorrer-se do Judiciário”.

 

Publicado hoje (04) na Folha da Manhã

 

0

Artigo do domingo — Do meu tio e filho mais velho do meu pai

 

“Hoje executarei meus versos

na flauta de minhas próprias vértebras”

(Vladímir Maiakóvski)

 

Luiz Edmundo Barbosa

Vértebras

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Era um fim de tarde no verão de 2011, em Atafona. Eu e Neivaldo Paes Soares estávamos bebendo e conversando em seu bar e residência, na antiga casa de barco da família Aquino. Ficava diante da foz do rio Paraíba do Sul, numa faixa de areia que hoje é fundo de mar. Não lembro muito bem como o papo evoluiu ao questionamento dele: eu não conseguiria ir e voltar nadando do Pontal à ilha da Convivência.

No escambo entre provocações, propus:

— E se eu for e voltar a nado? Vale aquela vértebra de baleia? — disse, apontando para um dos tantos objetos de decoração do seu bar e residência, entre boias de embarcações, cascos de tartaruga marinha e arcadas de tubarão crispadas de dentes.

Com o sol se pondo, a água estava ainda mais fria. E a maré vazante puxava ao oceano quem ignorasse os caminhos líquidos para contornar a boca da barra. Diante dos desafios vencidos em braçadas lentas, antes mesmo de chegar à Convivência, os efeitos do álcool foram suplantados pela adrenalina que agora corria no sangue — como o rio ao mar.

Da ilha, no Pontal deixado do outro lado da foz do rio, Neivaldo em pé e agora distante me olhava. Acenei e descansei um pouco, antes de mergulhar nas águas para iniciar o caminho de volta. Ao chegar, noite quase caída, a vértebra de baleia era minha. Antes de conquistá-la, já tinha lhe dado destino: presentearia meu tio Luiz Edmundo Barbosa, irmão caçula do meu pai, que viria se hospedar na minha casa em Atafona, dali a alguns dias, durante o carnaval.

Tio Luiz gostou do presente. E creio que ainda mais da história em que aquela vértebra gigante se encaixava. Demonstrações de coragem física eram admiradas entre os Barbosa. Acho que era assim desde que o primeiro deles, na virada entre os sécs. XIX e XX, decidiu sair do vilarejo de Paredes de Coura, no norte de Portugal, para fincar raízes no Norte Fluminense.

Meu bisavô paterno, Dionísio Barbosa era um português de dois metros de altura, que gostava de misturar feijão à sopa e de dizer: “calma que o Brasil é nosso”. Seu filho e meu avô, Domingos Barbosa, o Capitão, batizou de Dionísio seu primeiro filho, irmão mais velho de Aluysio e Luiz Edmundo.

Apesar de filho temporão, foi Luiz quem assumiu o papel de referência patriarcal da família, após a morte de Capitão. Desde quando seus irmãos mais velhos, Aluysio e Dionísio, ainda eram vivos. Como estes permaneceram em Campos, enquanto o resto da família migrou a Niterói, foi lá que o caçula cuidou zelosamente das suas irmãs, Anna Maria e Heloísa, assim como da mãe, Myrthes, a Binuca, minha avó.

Independente do gênero e da cidade, os cinco filhos de Binuca e Capitão foram protagonistas em suas áreas. Dionísio e Aluysio, respectivamente, no comércio e no jornalismo de Campos. Assim como Anna Maria e Heloísa, ou Dudu e Isinha, no magistério. A primeira educou gerações no Abel, colégio mais tradicional de Niterói, enquanto a segunda teve uma brilhante carreira docente na UFRJ. Por sua vez, atravessando a Baía de Guanaraba diariamente para trabalhar no Rio, Luiz se tornaria um dos principais advogados tributaristas do país.

Cercado das mulheres da família, Luiz teria outras. Suas filhas Fernando e Manuela nasceram do primeiro casamento com Maria Alice. Contrairia matrimônio mais duas vezes, primeiro com Cristina e depois com Regina, paixão de adolescência em Campos que o destino uniu décadas depois em Niterói. Todas, assim como as suas irmãs, minhas tias, estavam no seu velório e enterro, na última quinta.

Como seu irmão, Aluysio, Luiz demonstrou grande coragem física na luta contra o câncer.

Naquele último verão que ele passou na minha casa em Atafona, caminhávamos juntos pela praia numa manhã. Ao passarmos pelo Pontal, apresentei Luiz a Neivaldo. Este disse não conhecê-lo, mas após eu informar se tratar do irmão do meu pai, complementou:

— Agora eu sei quem é você!

Ao que tio Luiz emendou de bate pronto:

— Agora eu também sei quem é você! — disse ele a Neivaldo, enquanto eu ria e pensava como aqueles dois homens, mesmo tão diferentes, eram tão semelhantes na marra.

Lembro de uma noite de carnaval em que estávamos na casa de amigos. Eu e Luiz nos distanciamos do grupo na sala e conversávamos na varanda, ao sopro suave do vento nordeste. De repente, entra um sujeito solitário e cambaleante de bebida pelo portão.

Com um copo de cerveja na mão, servi outro e disse a tio Luiz: “vou resolver”.

Caminhei até o homem, o cumprimentei e lhe ofereci o copo extra de cerveja. Ele aceitou com uma expressão de gratidão que nunca esquecerei. Brindamos, bebemos e o anônimo se despediu, levando o copo e saindo da casa com a mesma naturalidade com que tinha entrado.

Após o vulto do visitante desaparecer trôpego e feliz pela noite, voltei a Luiz Edmundo, que observava tudo da varanda, e lhe disse: “ele só queria um pouco de carinho”.

No brilho de orgulho nos olhos dele, pude testemunhar que, acima da coragem física, os Barbosa admiravam a humanidade de todos nós.

Com o endosso do meu tio, espécie de filho mais velho do meu pai, a quem ele só chamava de Azinho, concluí naquela noite de carnaval em Atafona: a fraternidade são nossas vértebras.

 

Publicado hoje (02) na Folha da Manhã

 

0

Paula Vigneron — O sorriso do camaleão

 

Atafona, agosto de 2014 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

“E casamento é isso. Cada dia, uma merdinha.”

Achei a frase em, pelo menos, 50 das quase 100 páginas de um diário amarelado de minha mãe. Não sabia ao certo quanto tempo aquelas folhas estiveram entre os meus cadernos. Ela deixara o objeto, de capa dura e contornos azuis, em minha caixa de correio pouco antes de ir embora, há, no mínimo, vinte anos. Ainda me lembro do quão revoltada fiquei com seu gesto à época.

“Eu não devo ter sido boa filha”, dizia em determinados momentos. Em outros, xingava-a de todas as formas possíveis. Em sonhos, em noites, em dias, em gritos. Mas ela já estava longe para me ouvir. Hoje, tantos e tantos anos depois de sua partida, consigo entendê-la melhor. Talvez seja na leitura de sua vida que eu peça desculpas diárias a ela e seus motivos.

Recordo-me, com poucos detalhes, do dia em que ela comprou o diário. Eu era adolescente e tinha acompanhado minha mãe em suas compras de Natal. Eram horas e horas a pé pelas ruas. Calor, ombradas, tropeços, vozes em debate e uma menina de 17 anos com humor de cão. E ela aguentava pacientemente, sempre com um sorriso. Eu tentava, mas não conseguia compreender como ela levava sua feliz infelicidade estampada no rosto. Nenhuma das constantes desavenças com meu pai era capaz de mudar sua forma de lidar com o mundo. Era lindo. No fundo, eu a invejava. E ela sabia.

Entramos em uma papelaria. Não havia entendido o motivo da entrada no estabelecimento incomum em compras de Natal. Ela caminhou em direção a um vendedor, que a entregou uma encomenda. Mesmo curiosa, preferi não perguntar. Em seus sorrisos, para mim, minha mãe era um mistério. Após pagar a compra, ela saiu da loja. Passou a mão em meu rosto. “Vamos?” Concordei e a segui. Dias depois, encontrei o diário em cima de sua cama. Sem buscar as páginas, entendi a ida à papelaria. Olhei, pensando no que poderia estar por dentro da capa dura, mas não me atreveria a invadir sua solidão.

As folhas encardidas roçavam em meus dedos. Uns cabelos brancos a mais me fizeram ter coragem, pela primeira vez, de descobrir o que minha mãe quis dizer em seu bilhete de despedida. “Para todas as suas dúvidas”, escrevera em letras tremidas. Ela sabia que eu a observava e tentava entender quem era. Ou quem éramos. Há mais dela em mim do que fui capaz de enxergar em toda a minha vida.

Chovia no dia em que vi minha mãe chorar pela única vez. Era um sábado. Meu pai gritara com ela de forma estúpida. Mais estúpida, aliás. Eu não conheci a voz dele. Somente os gritos. “Quando eu for embora, você vai se lamentar. Vai minguar. Vai se destruir ainda mais. Vai mostrar o nada que você é.” A frase foi seguida de um tapa dela, um grito dele e batida de porta. Nunca mais o vi, assim como nunca mais ouvi minha mãe falar seu nome. Só via o sorriso.

Eu a conheci depois de lê-la nas páginas do diário. Era uma mulher sofrida. Carregava um peso que considerava além do suportável. A primeira linha de seu caderno era sobre o pacto que fizera em um momento de tristeza: “custe o que custar, você me verá sorrindo”. E assim foi. Todos os sorrisos apareciam em suas narrativas. Ela sempre tratava a si como camaleão. Engraçado ver esse termo traçado pelas letras dela. Quando saí de casa e me vi fora daquela realidade, era exatamente assim que eu a imaginava.

Ler a primeira página foi doído. Era como se rasgassem um véu e desnudassem uma vida desconhecida.

Por trás dos sorrisos, ela acumulava uma quase amargura. Sabia se afastar dela quando queria, mas a vivia de forma intensa em seu interior. Pela garganta, por vezes, parecia escorrer um fel inexplicável. Mas ela nunca daria a meu pai a satisfação de vê-la dessa maneira. Como não consegui enxergar enquanto vivia sob o teto dela?

Em um trecho do seu diário, minha mãe contou que o casamento foi o calvário de sua vida, salvo somente pela minha existência. Eu não notei o quanto ela me amava. Parecia sempre tão distante que eu me sentia apenas uma parte da casa, e não dela. “Essa menina, minha menina, foi capaz de tirar o melhor sorriso do camaleão. Pena que ela não sabe que esse, somente esse, foi sincero. Pena, pequena”, escreveu. Eu não tinha como saber. Para mim, era só mais um sorriso.

Deixei o diário descansar por alguns anos até ter coragem de tocá-lo de novo. Desvendar minha mãe era desnudar a mim mesma. Era como tirar toda a minha roupa em uma praça. Era quase violento. Mas eu precisava voltar a ele para entender. Eu só queria entender. Aquela mulher de olhar sereno era capaz de desejar coisas terríveis em momentos de ódio, embora eu nunca tenha visto um deles. Ao mesmo tempo, uma palavra grosseira de meu pai era o começo de uma dor lancinante contada em detalhes, por dias a fio, em seus escritos.

A última página vinha diferente. Não tinha desabafos ou dores. Era para mim. Eu sabia que era. Havia uma foto envelhecida. Estávamos em um quintal, não me lembro de onde, com flores. Minha mãe estava de mãos dadas comigo. Nossos sorrisos eram o mesmo. Nossos olhares também. Talvez ela nunca entenda. Talvez eu também não. Pena. Pena, pequena.

 

0

Pontal de Atafona em poesia, teatro e música nesta quinta na Villa Maria

 

Com as bençãos de Kapi, Yve e Neivaldo, às 20h desta quinta (29), o ator e músico Saullo Oliveira estará apresentando na Casa de Cultura Villa Maria alguns poemas meus sobre Atafona, que integraram a peça “Pontal”.

A apresentação fará parte da exposição “Erosões Visuais”, do coletivo Casa Duna de Atafona. Os curadores do evento são Fernando Codeço, Julia Naidin e Andrés Hernández.

Depois da apresentação dos poemas, Saullo e eu vamos fazer um bate papo com o público sobre poesia e Atafona, bem como sobre a história da peça “Pontal”.

 

 

Abaixo, um dos poemas que será apresentado, “muda” foi o vencedor do FestCampos de Poesia de 2007:

 

muda

 

a memória sai da toca

sobe pela palafita

ainda escorrendo lama

e me fita

com olhos de caranguejo

entre as tábuas do piso

do bar do espanhol

quando o pontal era ponta

tinha fé de igreja

e luz de farol

 

na boca do mangue

passei minha rede de arrasto

mas só peguei filhotes de bagre

que me ferraram o pé

ao chutá-los de volta à água

até que pedro me ensinou

a pegar pitu de mão

entre raízes do mato

na beira do alagadiço

 

hoje passo no mangue

e não piso na lama

mas na asfixia lenta

dos aterros do homem

e do avanço do mar

perto das ilhas da convivência e pessanha

siamesas da mesma terra

onde ficou minha casca da muda

de caranguejo a espera-maré

 

atafona, 06/2000

 

 

0

Bertolucci é “O céu que nos protege” nesta quarta no Cineclube Goitacá

 

Bernardo Berttolucci (1941/2018)

 

“As bruxas de Salém”, de Nicholas Hytner,  com Daniel Day-Lewis e Wynona Rider

Afastado do Cineclube Goitacá por motivos profissionais desde a Copa do Mundo de futebol, tinha programado meu retorno nesta quarta com o filme “As bruxas de Salém” (1996), de Nicholas Hytner. É uma adpatação cinematográfica da instigante peça de Arthur Miller, que usou fatos históricos do séc. XVII para falar de outra caça às bruxas nos EUA: a do macartismo aos comunistas na década de 50 do séc. 20.

Além do costumeiro show de interpretação de Daniel Day-Lewis na pele do colono puritano adúltero, a exibição e debate sobre o filme seria pertinente com o tempo de intolerância em que vive hoje o Brasil. Sobretudo depois de ter participado do debate “Fake News: Mentiras Verdadeiras” na última sexta (23), durante a Bienal do Livro de Campos, ao lado do artista plástico Wagner Schwartz e dos jornalistas Artur Xexéo, Cláudia Eleonora e Ocinei Trindade.

Mas depois do falecimento do cineasta italiano Bernardo Bertolucci na segunda (27), não tinha como não mudar o programado. Na minha opinião, era um dos últimos grandes mestres vivos do cinema no mundo, ao lado dos estadunidenses Martin Scorsese e Quentin Tarantino, e do chinês Zhang Yimou.

 

Em “O último imperador”, que lhe deu o Oscar de melhor diretor, Bertolucci foi o primeiro cineasta ocidental a filmar dentro da Cidade Proibida

 

 

A dúvida foi: qual filme de Bertolucci escolher? “O último tango em Paris” (1972), com atuação antalógica de Marlon Brando em polêmicas cenas de estupro, que depois se soube real, e sodomia, tornando Bertolucci conhecido no mundo? “Novecento” (1976), reunindo os jovens Robert De Niro e Gérard Depardieu como protagonistas, épico da luta de classes e última obra da fase marxista do cineasta? “O último imperador” (1987), com o qual ele conquistou Hollywood, levando nove estatuetas do Oscar, incluindo melhor filme e diretor? “Beleza Roubada” (1996), entre poesia e descoberta na beleza da Toscana, lançando a da jovem atriz Liv Tyler ao mundo? “Os sonhadores” (2003), onde a musa revelada foi Eva Green, uma dos três jovens que discutem cinema e vida real em um apartamento de Paris, enquanto lá fora explodem os protestos estudantis de 1968?

 

Na fotografia de Vittorio Storaro, “O céu que nos protege”

 

Mas a escolha acabou sendo pessoal. Como é o sentimento de orfandade pela morte do seu realizador. Não por outro motivo, às 19h desta quarta (28), na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento das ruas Conselheiro Otaviano e 13 de Maio, o Cineclube Goitacá exibirá “O céu que nos protege” (1990). Expostos numa resenha crítica escrita (aqui) de fevereiro de 2011, os motivos seguem transcristos abaixo:

 

Sob a proteção do céu, Bertoclucci orienta seus protagonistas Debra Winger e John Malkovich

 

Casal burguês de Nova York, a escritora Kit (Debra Winger) e o compositor Port Moresby (John Malkovich), acompanhados do amigo playboy George Tunner (Campbell Scott), partem num navio rumo ao Norte da África. É 1948, três anos após o fim da II Guerra, da qual a região foi um dos palcos da batalha, saindo do conflito para iniciar seu processo de descolonização de uma Europa devastada.

A diferença no caráter da viagem para o casal e o amigo fica estabelecida logo ao desembarque:

Turner: “Somos os primeiros turistas desde a guerra”.

Kit: “Somos viajantes, não turistas”.

Turner: “Qual a diferença?”.

Port: “O turista pensa em voltar para casa assim que chega”.

Kit: “E o viajante pode nem voltar”.

Na verdade, o único retorno planejado pelos Moresby é à paixão que esfriou em ambos no ócio de Nova York. Ao perceber que a atração (correspondida) de Turner por Kit pode ser um empecilho ao seu objetivo, bem como à fuga do conformismo opulento que o amigo representa, Port o deixa para trás em sua jornada cada vez mais para dentro da África e fora do mundo moderno.

 

 

Na busca do amor, da música e, mesmo, da humanidade (da qual a África é o berço) em seus estágios mais primitivos, Port encontra o tifo, num forte da Legião Estrangeira, em pleno deserto do Saara. Nele, a vida abandona seu corpo em contraponto à areia que entra com o vento por todas as frestas do aposento. Antes, confessa à esposa que amá-la foi toda a razão da sua vida. E que tudo que fez foi por ela.

Atônita pela morte do marido, Kit simplesmente segue uma caravana que passa, tornando-se amante de um nômade bérbere. Ela mergulha naquele mundo árido, miserável, tribal e repleto de moscas, onde o dinheiro não tem serventia e a língua estranha só se torna íntima ao traduzir desejo e prazer. Como Ofélia, que enlouquece de verdade, enquanto Hamlet apenas simula, é Kit quem completa a busca de Port.

Escritor Paul Bowles, quando viveu o que narra no filme

Embora os transgressores “O Último Tango em Paris” (1973) e “Os Sonhadores” (2003) também sejam filmes de Bernardo Bertolucci que poderiam integrar qualquer lista de melhores filmes de “romance”, a opção se dá por essa solar transposição às telas do livro homônimo e autobiográfico — adaptado em roteiro pelo próprio diretor italiano e pelo queniano Mark Peploe — do escritor estadunidense Paul Bowles. É dele a voz da narração em off. E é o próprio que surge, já idoso, encarando Kit, ao final do filme.

Além da direção e das atuações de Winger e Malkovich, o destaque fica por conta das envolventes melodias compostas na parceria entre o japonês Ryuichi Sakamoto e o estadunidense Richard Horowtiz, ganhadores do Globo de Ouro de melhor trilha. Assim como para a belíssima fotografia em planos amplos do gênio italiano Vittorio Storaro, conhecido como “mago das luzes” e discípulo assumido do pintor renascentista Caravaggio.

À luz do sol real, é fato: no deserto ou no amor, só o céu nos protege.

 

Confira o trailer do filme:

 

 

0