“Cruzando Jesus com a deusa Shiva”, de Fernando Baril, uma das obras que geraram mais polêmica da mostra “Queermuseu: Cartografias da diferença na arte brasileira”
Na semana passada, a exposição Querrmuseu foi cancelada, censurada por “conter obras inadequadas”.
Essa semana mais uma bomba: Justiça concede liminar que permite tratar homossexualidade como doença.
Jesus…
Enquanto isso, na micro-esfera da minha humilde vidinha, uma aluna se recusa a ler o livro do semestre, segundo ela “pesado demais”. “Então você leu o livro?”. “Não, estou falando do título”. O livro é Inferno, de Patrícia Melo (prêmio Jabuti).
Fico aqui pensando… “Senhor… Senhor… Por que me abandonaste?…”
Qual é a lógica desse retrocesso conservador generalizado?
Pois então não leram a Bíblia? Lá tem inferno, tem irmão que mata irmão, incesto, genocídio, estupro, traição, assassinato e mais um monte de coisa pesada à beça. Mas oh, vale a pena a leitura! Super indico, apesar das cenas fortes. É que às vezes, no meio do sangue, a moral da história é honesta.
Pois então nunca ouviram falar do Vaticano? Em 2010, a ala de Arte Contemporânea já exibia um enorme Cristo de terno. E tinha um corredor muito assustador, com tapetes bordados contando as passagens de terror do livro sagrado. E tem também a Capela Sistina, com um alvoroço no teto: Deus e Adão retratados do mesmo tamanho, seminus e quase se tocando, pintados por Michelangelo, entre 1508 e 1512.
Mil quinhentos e oito e mil quinhentos e doze e não foram censurados. Nunca antes Deus e Homem haviam sido, publicamente, do mesmo tamanho, retratados. E não é que estão lá até hoje? Uma exuberância inigualável, da arte renascentista.
Por falar em Renascimento, que povo pra frente! O que dizer de François Boucher (1703 – 1770), em Leda y El Cisne?
Ah me poupem!!! Não somos obrigados! Quanta ignorância! Quanta perda de tempo! Quem não quer ser confrontado com arte provocativa não vá à exposição, simples assim. Mas também não liga a televisão não! Nem internet heim! Tem um/uma tal de Pablo Vittar aí ó arrebatando a nação. Eu não curto o som que ele/ela faz, mas diante de tanto conservadorismo e retrocesso, entendo o seu grito! Um grito em falsete mas… honesto.
Também não achei belos os quadros da exposição Queermuseu, que vi pela internet, mas acho ótimo que vivamos em uma época em que essa exposição possa acontecer (Vivemos?). Além disso, nem toda arte é pra ser agradável; se eu me informar um pouco a respeito das obras talvez eu as veja com outros olhos.
Enfim, é aquela velha ignorância, aquele medo da liberdade, aquela força conservadora que, parafraseando (vulgarmente) Freud, deve ter explicação a partir de algum encalacramento sexual.
Diante do apresentador e ex-vereador Alexandre Tadeu (PRB) visivelmente constrangido, sem oportunidade de fazer perguntas, a ex-prefeita Rosinha Garotinho (PR) ecoou hoje, no programa “Balanço Geral”, da Rede Record, seu comício de ontem (aqui), sobre a manutenção por unanimidade (aqui) no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) da prisão domiciliar do ex-governador Anthony Gartinho (PR). Ele está em prisão domiciliar, na famosa “casinha da Lapa que papai deixou”, desde que foi condenado, na última quarta (13), a nove anos e 11 meses de prisão pelos crimes de corrupção eleitoral, associação criminosa, supressão de documentos e coação no curso do processo da Chequinho.
Na tentativa de defender seu marido, Rosinha atacou a todos, da Polícia Federal (PF), ao Ministério Público Eleitoral (MPE), à Justiça Eleitoral, aos adversários políticos de Garotinho. Confira abaixo:
Charge do José Renato publicada hoje (19) na Folha
TRE unânime: Garotinho preso
O juiz da 100ª Zona Eleitoral de Campos, Ralph Manhães, parecia saber o que estava falando quando afirmou (aqui) à revista Veja na última sexta (15): “Tenho mais de cem depoimentos que mostram como a Prefeitura de Campos (na gestão Rosinha Garotinho) usou o programa Cheque Cidadão para comprar votos”. Ontem, por unanimidade, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) negou habeas corpus ao ex-governador Anthony Garotinho (PR), em prisão domiciliar desde quarta (13), quando foi condenado a nove anos e 11 meses por corrupção eleitoral, associação criminosa, supressão de documentos e coação no curso do processo da Chequinho.
“Justiça de Deus” (e de Brasília)
Logo após a decisão unânime do TRE, Rosinha fez (aqui) um pequeno comício na noite de ontem, diante à “casinha na Lapa que papai deixou”, transformada em mantra durante a carreira política de Garotinho, e que agora lhe serve de cárcere. Falando para cerca de 100 militantes, a ex-prefeita tentou manter acesa a esperança de uma decisão favorável, numa mistura entre apelo religioso e fé na instância máxima da Justiça Eleitoral: “Mas a justiça de Deus vai vir. Vamos recorrer em Brasília (ao Tribunal Superior Eleitoral, TSE), aonde sempre se fez justiça nos casos em que o Garotinho vem perdendo em Campos e no TRE”.
Campos vai quebrar?
Rosinha aproveitou a chance para fazer ataques diretos ao juiz Ralph Manhães, ao promotor eleitoral Leandro Manhães e ao delegado federal Paulo Cassiano, que estiveram à frente da Chequinho. Após fazer críticas também ao governo municipal Rafael Diniz (PPS), a esposa de Garotinho chegou a prever o caos à cidade que deixou com uma dívida (aqui) de R$ 2,4 bilhões, após governar por oito anos: “Ele (Rafael), sim, vai quebrar a Prefeitura. Porque na hora que a Caixa (Econômica Federal) assumir, porque ele vai perder a liminar que ele ganhou, e a Caixa vai cobrar os juros dos meses que ele não paga”.
Recordar é viver
O que Rosinha não disse é que sua transação (aqui) com a Caixa, mais conhecida como “venda do futuro”, no apagar das luzes do governo federal Dilma Rousseff (PT), foi feita (aqui) em troca da ausência da deputada federal Clarissa (PR) na votação do impeachment da ex-presidente. Não fosse a liminar favorável a Campos conseguida (aqui) no Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF 2), a Caixa poderia cobrar acima dos 10% de royalties do petróleo, estabelecidos pela lei municipal 8273/2015 e pela Resolução Modificativa 002/2015, do Senado. E se vingassem os termos pactuados pelos Garotinho, a cidade não teria dinheiro nem para pagar o servidor.
A esperança
A ex-prefeita também não explicou porque reside em Brasília a esperança maior do seu marido em conseguir sair da prisão domiciliar, onde é monitorado por tornozeleira eletrônica e está impedido de qualquer contato pessoal além da família e advogados. O relator da Chequinho no TSE é o ministro Tarcísio Vieira de Carvalho Neto. Ele já atuou na defesa de Rosinha, na segunda de suas duas cassações como prefeita, em 2011. Ainda assim, ele já deu decisões contrárias aos interesses dos condenados na Chequinho, inclusive ao julgar incorreta, na última sexta (15), a reclamação feita no TSE contra a prisão de Garotinho.
Dúvida e certeza
O que existe, por enquanto, é a condenação da 100ª ZE de Campos, referendada por unanimidade na segunda instância. “A sentença expõe minuciosamente os motivos concretos do juízo de periculosidade, pelo qual o paciente (Garotinho), caso permaneça em liberdade, poderá cometer novos crimes”, afirmou ontem (aqui) a desembargadora Cristina Feijó, relatora do processo no TRE. Rosinha, no entanto, atribuiu a decisão a “um sujeito todo poderoso da toga preta”. E profetizou: “Uma hora a casa dele vai cair”. Na dúvida se a casa já não caiu, e para que lado, fica a certeza: Garotinho segue confinado à “casinha da Lapa que papai deixou”.
Uenf ainda em greve
A Associação dos Docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Aduenf) anunciou, ontem, que a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) vai realizar uma audiência pública específica para tratar sobre o orçamento destinado à universidade que está em greve há 47 dias. A Aduenf também informou que realizará uma nova assembleia da categoria na quinta-feira (21), às 15h, no auditório P5.
Já escrevi (aqui) sobre o diretor de produção da Conspiração Filmes e articulista de O Globo, Ricardo Rangel: “Não é de hoje, a luz do seu raciocínio tem ajudado a dissipar as sombras na democracia irrefreável das redes sociais”.
Pois o Ricardo fez uma análise lacônica sobre a mensagem de solidariedade (aqui) do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), condenado a nove anos e meio de prisão no caso do triplex do Guarujá, para o ex-governador Anthony Garotinho (PR), em prisão domiciliar após ser condenado a nove anos e 11 meses na Chequinho.
Nos últimos meses frequentei, com muito gosto, este espaço democrático do blog Opiniões, a convite do jornalista Aluysio Abreu Barbosa, trazendo diversos assuntos para discutir com os leitores, num exercício impagável de civilidade, compondo o mosaico de articulistas, todos com talentos singulares, de onde colhi muitas lições de forma e de conteúdo de seus escritos. Mas, o povo, em sua sabedoria simples, já profetizou que “tudo que é bom dura pouco”.
Hoje, venho me despedir de todos aqueles que me honraram com sua leitura e suas observações e dos meus colegas de ofício. Este compromisso, creiam, foi durante um tempo verdadeira terapia, que me obrigava a vencer os monstros de uma depressão cruel e manter meu raciocínio lógico, minha memória ativa e minha sensibilidade incólume. Pude perceber o quanto o blog é influente na opinião pública e o relevante serviço que presta ao inexorável e imprescindível debate social.
As razões que me obrigam a pedir “férias sabáticas” é a necessidade de me dedicar, integralmente, às múltiplas tarefas de entregar pronto, no espaço mais curto de tempo, meu livro “Testamento de vento e outros escritos”, um apanhado de minha produção poética, criações dramatúrgicas e um conto. Aos pequenos escritores suburbanos, como eu, cabe desde a criação ao processo de negociação para feitura própriamente dita do livro. O trabalho é árduo e diuturno.
Registro, desde já e agradeço, à fotógrafa e jornalista Patrícia Bueno, autora das fotografias de capa e das poesias ilustradas, oriundas de um projeto nosso, Foto&Grafia, e ao designer gráfico e artista plástico Genilson Soares, que cuida do lay out e já foi meu parceiro em “Arquitetura da Manhã”, livro de 2003.
Resta-me agradecer ao Aluysio e declarar minha admiração por sua contribuição pessoal e seu apoio na divulgação da literatura regional, especialmente.
Charge do José Renato publicada hoje (15) na Folha
Folha viralizou
Como ilustra a foto publicada abaixo, a edição impressa de ontem da Folha, que dedicou especial atenção à prisão de Anthony Garotinho (PR) no dia anterior, teve uma capacidade de viralização real que nos tempos de hoje costuma se dar apenas com a comunicação digital. Como todos em Campos já sabem, o ex-governador e ex-prefeito foi condenado a nove anos e 11 meses de reclusão, pelos crimes de corrupção eleitoral, associação criminosa, supressão de documentos e coação no curso do processo, que tiveram como origem a troca de Cheque Cidadão por voto, na eleição municipal de 2016.
Sentada na calçada da rua Saturnino Braga, da famosa “casinha da Lapa”, leitora busca na Folha as informaçôes sobre a prisão de Garotinho (Foto: Paulo Pinheiro – Folha da Manhã)
Até que…
Até que a condenação seja julgada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE), ou que a defesa consiga um habeas corpus no mesmo TRE, ou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Garotinho ficará confinado na “casinha na Lapa que papai deixou”, transformada em mantra pelo ex-governador, no decorrer da sua carreira política. Em prisão domiciliar, com uma tornozeleira eletrônica, ele está proibido de manter contato com qualquer pessoa, salvo familiares e advogados, como de fazer uso de qualquer meio de comunicação eletrônico, incluindo celulares e internet. E está sujeito a verificações sem aviso prévio da Polícia Federal (PF).
Rosinha ataca, mas não explica
Diante da impossibilidade do condenado de se comunicar, a ex-prefeita Rosinha Garotinho (PR) assumiu a conhecida metralhadora giratória do marido, que já foi mais temida no passado. Ela questionou o juiz da 100ª Zona Eleitoral de Campos, Ralph Manhães, responsável pela condenação penal na Chequinho, e chegou a chamar o promotor eleitoral Leandro Manhães de “chefe de quadrilha”. Mas não disse porque, nem explicou pontos que levaram à condenação, como o uso a “venda do futuro” para mais que dobrar o Cheque Cidadão em ano eleitoral, ou da “intimidação de testemunhas, inclusive com emprego de arma de fogo”.
O último da fila
Embora talvez o tenha feito melhor e com mais profundidade, a Folha não foi o único veículo que noticiou ontem a prisão de Garotinho. Entre os vários órgãos de imprensa de expressão estadual e nacional que noticiaram o fato, o jornal carioca O Globo lhe deu grande destaque, tanto no noticiário, como em opinião. Na sua capa de ontem, boa parte da dobra superior foi ocupada por uma charge de Chico Caruso. Nela (veja aqui), Garotinho é o último de uma fila de políticos presos em escândalos de corrupção, tendo à frente os ex-ministros Antonio Palocci (PT), José Dirceu (PT) e Geddel Vieira de Lima (PMDB), puxados pelo empresário Joesley Batista.
Da Planície ao Planalto
Na charge, com a fila de Garotinho, Palocci, Dirceu, Geddel e Joesley vestindo uniformes de presidiário, marchando cabisbaixos em frente ao Palácio do Planalto, quem de lá observa aparentemente preocupado, mas de terno, é o presidente Michel Temer (PMDB). A preocupação se justifica porque, no mesmo dia em que Garotinho foi preso no Rio e conduzido a Campos, o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou por unanimidade, até com o voto do insuspeito ministro Gilmar Mendes, a improcedência da acusação de “perseguição” feita pela defesa de Temer contra o procurador-geral da República, Rodrigo Janot.
Propinodutos
Com o sinal verde do STF, Janot ontem apresentou mais uma denúncia contra Temer, baseada na delação do doleiro Lúcio Funaro. Este afirmou que o presidente e seus principais assessores receberam vultuosas propinas da Odebrecht e da JBS. E se já não bastassem os problemas dos Garotinhos com o “escandaloso esquema” de compra de votos em Campos, Funaro também ligou o pagamento de propina ao ex-presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha (PMDB) e ao casal da Lapa. Quando atuava no fundo de pensão da Cedae, entre 2003 e 2006, no governo estadual rosáceo, Cunha receberia e compartilharia propina com Garotinho e Rosinha.
Questão de fé
Ontem, quem mandou mensagem de solidariedade a Garotinho foi o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No dia anterior, Garotinho foi preso, o STF liberou Janot, Funaro abriu o verbo e Lula depôs pela segunda vez ao juiz federal Sérgio Moro, em Curitiba. Condenado a nove anos e meio de prisão no caso do triplex no Guarujá, ele respondeu pelas acusações de ter recebido propina da Odebrecht, numa das seis ações em que é réu, e chamou de “mentiroso” seu ex-homem forte, Antonio Palocci, que o delatou. Temer, Lula e Garotinho sustentam a mesma defesa básica: são alvos de “perseguição”. E há quem creia.
Desde a prisão de Anthony Garotinho, na manhã de ontem, após ser condenado a nove anos e 11 meses de reclusão pelo juízo da 100ª Zona Eleitoral de Campos, os memes gaiatos sobre o caso viralizaram na democracia irrefreável das redes sociais. Confira abaixo alguns deles:
Conheço o repórter-fotográfico Esdras Pereira desde que eu era uma criança e ele, o jovem parceiro de lida do meu pai, Aluysio Barbosa. Nos anos 1970 e 80, como correpondentes do Jornal do Brasil (JB), à época o maior jornal carioca, os dois ficaram conhecidos como “os caçadores de primeira página”, dando destaque nacional à cobertura dos fatos de Campos e Norte Fluminense.
Uma dos maiores furos de reportagem da dupla foi o primeiro carregamento comercial de petróleo na Bacia de Campos, capa do JB de 14 de agosto de 1977 — marco zero dos 40 anos que a Petrobras comomora neste 2017. Marcada pela obsessessão em contar uma história antes de todos, com menos tecnologia e muita adrenalina, o episódio foi rememorado recentemente numa matéria publicada (aqui) na Folha.
Junto de Aluysio, Esdras estava na Folha antes mesmo dela ser fundada, em 8 de janeiro de 1978. No jornal, além de repórter-fotográfico, ele já foi editor de fotografia e colunista social, função que desempenha com destaque há alguns anos.
Pois nesta manhã, Esdras enviou uma arte produzida por ele, parabenizando a redação da Folha pela edição de hoje (14), boa parte dela dedicada à prisão ontem (13) de Anthony Garotinho (PR), setenciado a 9 anos e 11 meses de prisão na ação penal da 100ª Zona Eleitoral (ZE) de Campos. A partir das investigações da troca de Cheque Cidadão por voto na eleição municipal de 2016, o ex-governador foi condenado pelos crimes de corrupção eleitoral, associação criminosa, supressão de documentos e coação no curso do processo.
Detido em prisão domiciliar na sua famosa “casinha na Lapa”, depois de colocar uma tornozeleira eletrônica, Garotinho agora espera o julgamento dos seus recursos nas instâncias superiores da Justiça Eleitoral.
Independente do final dessa história, pelo orgulho de ser Folha expresso por Esdras, agradeço em nome dos responsáveis pela cobertura: os jornalistas Suzy Monteiro, Aldir Sales, Matheus Berriel, Paula Vigneron, Ana Laura Ribeiro, Rodrigo Gonçalves, Joseli Mathias, Mário Sérgio, Verônica Nascimento, Bárbara Cabral, Rodrigo Silveira, Antonio Leudo e Paulo Sérgio, mais o editor de Arte Eliabe de Souza, o Cássio Jr.
Criado no início deste jornal pelo saudoso publicitário Pereira Júnior, seu slogan continua mais vivo do que nunca, sobretudo nestes tempos de tanta oferta de informação: “A diferença está na qualidade”.
Capa e contracapa da edição de hoje (14) da Folha da Manhã
As velhas práticas e o Brasil de 2017
Por Maiá Menezes(*)
Em dia de looping de informações impactantes, mais um em que o noticiário político se confundiu com o policial, um personagem emblemático para os moradores do Rio ressurgiu. Condenado pelo juiz da 100ª Zona Eleitoral de Campos por comandar esquema de fraude eleitoral quando era secretário de Governo do município do Norte Fluminense, o ex-governador e radialista Anthony Garotinho foi detido no ar, no intervalo de seu programa de rádio. Um sinal dos nossos tempos.
Há quase duas décadas, quando chegou ao comando do estado, abrindo as portas do Palácio Guanabara para a população, Garotinho já trazia consigo os vícios da velha política. Foi por meio deles, aliás, que cacifou votos de sua chapa, então um leque amplo de alianças, que chegou a incluir nomes como o do ex-governador Leonel Brizola. Garotinho transitou por legendas de todos os matizes. Denúncias sobre compra de votos e cenas de clientelismo explícito pululavam durante o período em que a família do ex-governador reinou no Rio.
Investido por si mesmo de uma certa aura de heroísmo, ao se intitular representante dos pobres, Garotinho se dizia perseguido, cada vez que era acusado de condutas não republicanas. Escorou sua popularidade em programas assistencialistas, como o Cheque Cidadão — o mesmo que usou no esquema de fraude identificado pela Justiça de Campos —, dos quais lançava mão também nas campanhas, para manter sua clientela de eleitores. Não foram poucos.
Garotinho já teve um patrimônio de 15 milhões de votos pelo país, dilapidado pela descoberta de que usava, na pré-campanha que fez à Presidência, em 2005, recursos desviados do governo do estado, comandado à época por sua mulher, Rosinha.
De volta ao berço, com o poder encolhido, Garotinho não abandonou os hábitos. Os indícios da Polícia Federal apontam para uma sistemática estratégia de burlar a Justiça. Preso pela segunda vez este ano, na primeira, protagonista de cenas de revolta ao ser levado à prisão, o ex-governador é agora um apenado. De tornozeleira, será vigiado dia e noite por policiais. Não escapou do Brasil de 2017.
Na charge do mestre Chico Caruso, na capa de hoje (14) de O Globo, Anthony Garotinho (PR) é o último da fila dos presos por escândalos de corrupção na política brasileira. O ex-governador segue atrás dos ex-ministros José Palocci (PT), José Dirceu (PT) e Geddel Vieira de Lima (PMDB) e do empresário Joesley Batista — todos com uniforme de presidiário.
De terno, no Palácio do Planalto, quem observa preocupado é o presidente Michel Temer (PMDB). Ele ontem (13) teve negado o pedido de suspeição que sua defesa fez contra o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que se prepara para apresentar nova denúncia contra o presidente.
Nanico, rotundo, esquisito, desprovido de noção de ridículo, mendicante de atenção, achacador moral, valente de creche, megalômano, psicótico e ressentido? Pense rápido: Jong ou Jabba?
Jabba the Hut, asqueroso personagem da série “Guerra nas Estrelas”
Charhge do Jose Renato publicada hoje (14) na Folha
Coluna avisou: vai dar “m…”
Em 30 de agosto de 2016, esta coluna fez (aqui) um alerta ao ex-governador Anthony Garotinho (PR) e seu grupo político: “E quem acha que a reversão desse quadro (então já desfavorável à candidatura garotista de Dr. Chicão) é possível com a prática que foi alvo de duas operações da Justiça Eleitoral — (aqui) num galpão da Alberto Lamego, no domingo (28), e (aqui) numa auto escola em Travessão, ontem (29) — talvez valha a pena observar o rigor da lei com Lula (já investigado pela Polícia Federal na Lava Jato) e Dilma (que tinha seu impeachment julgado no Senado) para saber que ‘m…’ muito maior ainda pode estar por vir”.
“Escandaloso esquema”
Em agosto do ano passado, vivia-se a campanha das eleições municipais de Campos. E todos na cidade podiam observar abertamente no dia a dia, nas ruas e em seus bairros, a tentativa desesperada do garotismo de não largar o osso do poder, que então já roía sem intervalo há quase três décadas. Aquela nota de 30 de agosto de 2016 do “Ponto Final” foi feita após operações da Justiça Eleitoral, nos dois dias anteriores (28 e 29). A partir delas e de outras que vieram depois, o Ministério Público Eleitoral (MPE) denunciou (aqui) como “escandaloso esquema” a troca de Cheque Cidadão por voto, com o objetivo de eleger Chicão prefeito e vereadores rosáceos.
O resultado eleitoral
Para se ter uma ideia da dimensão desse esquema, até junho de 2016, havia 14.991 pessoas cadastradas no Cheque Cidadão. E de junho a agosto daquele ano eleitoral, o número chegou a 32.506, aumento cuja falta de critérios foi denunciada pelas próprias assistentes sociais da Prefeitura. Diante desse quadro, o garotismo não precisou nem esperar o 2º turno da eleição para se atolar na própria “m…”. Com o esquema de compra de voto com medo de sair às ruas, após as operações e prisões da Chequinho, Rafael Diniz (PPS) se elegeu prefeito ainda no 1º turno de 3 de outubro, vencendo o pleito em todas as sete Zonas Eleitorais (ZEs) do município.
Primeira prisão
Mas a “m…” não pararia aí. Com o avanço das investigações da Chequinho, Garotinho foi apontado (aqui) como “prefeito de fato” de Campos e líder do “escandaloso esquema”. Preso em seu apartamento no bairro carioca do Flamengo, em 16 de novembro, ele alegou estar passando mal e se internou no Hospital Municipal Souza Aguiar. Como a Justiça entendeu que se tratava de uma manobra, no dia seguinte (17), o ex-governador foi conduzido à força (aqui) ao Complexo Penitenciário de Bangu. A cena de Garotinho se debatendo aos berros, numa maca, passou a integrar o folclore daquilo que de mais patético a política brasileira já foi capaz de produzir.
Passagem em Bangu
Ainda que os exames realizados na UPA de Bangu não tivessem detectado (aqui) qualquer anormalidade no estado de saúde de Garotinho, ele foi beneficiado (aqui) com a prisão domiciliar em 18 de novembro. A decisão foi de Luciana Lóssio, então ministra do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que ficou conhecida entre os campistas por reverter todas as consequências mais duras contra os envolvidos na Chequinho. Posteriormente, no julgamento pelo plenário do TSE, a prisão domiciliar no apartamento do Flamengo acabou revista, mas com restrições: não voltar a Campos, não ter contato com as testemunhas do processo, nem sair do país.
Pena de 9 anos e 11 meses
Beneficiado, Garotinho passou a fazer ataques sistemáticos, em seu blog, nas redes sociais e no programa que comprou na rádio Tupi, contra as autoridades responsáveis pela Chequinho. Paralelamente, promoveu um troca-troca de advogados raras vezes visto, na tentativa de ganhar tempo no seu julgamento criminal pelo juízo da 100ª ZE de Campos — intenção condenada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE). De pouco ou nada adiantou: na manhã de ontem, ele foi condenado (aqui) a 9 anos e 11 meses de prisão, pelos crimes de corrupção eleitoral, associação criminosa, supressão de documentos e coação no curso do processo.
Arma de fogo e “venda do futuro”
A sentença de condenação do juiz Ralph Manhães tem 175 páginas de word. Seus principais trechos estão na página anterior desta edição. Impossível abordar todos aqui. Mas, mesmo para quem conhece o modus operandi de Garotinho, choca saber que se chegou “à prática de coação e intimidação de testemunhas, inclusive com emprego de arma de fogo”. Assim como descobrir que a “venda do futuro” de Campos, fechada (aqui) no apagar das luzes do desastroso governo Dilma Rousseff (PT), em troca (aqui) da abstenção de Clarissa Garotinho (PR) na votação do impeachment da então presidente, “é que custeou todo o esquema criminoso”.
Tamanho da “m…”
O prejuízo que o “escandaloso esquema” deu aos cofres públicos de Campos foi contabilizado em R$ 11 milhões. Se não fosse interrompido, o programa seria expandido com objetivo eleitoral ao custo final de R$ 25,2 milhões. Com a prisão do ex-governador, na manhã de ontem, enquanto fazia seu programa na Tupi, quem o substituiu disse no ar que o titular recebera “orientação médica de parar de falar”. Na verdade, quem não ouviu o alerta desta coluna, nem costuma escutar ninguém, recebia naquele momento voz de prisão. Trazido a Campos, onde ficará confinado na “casinha da Lapa que papai deixou”, Garotinho agora poderá refletir sobre o tamanho da “m…”.
Publicado hoje (14) na Folha da Manhã
Atualização às 9h47 para inclusão abaixo do clipe enviado por uma leitora gaiata: