Irã interessa a Israel, não aos EUA, onde pode sair pela culatra em novembro

Iranianos não são ou falam árabe
Em 1935, a Pérsia virou Irã, para marcar sua origem étnica ariana, indo-europeia, branca, não árabe como a maioria dos ocidentais imagina. À exceção da prática religiosa islâmica, os iranianos não falam árabe, mas farsi, língua fundamentada no séc. 13 pelo poeta Rumi. Como foi o italiano pelo poeta Dante Alighieri no séc. 14, ou o português por Luís de Camões, no séc. 16.
Origens do Irã
A Pérsia se tornou muçulmana no século 7, logo após o profeta Muhammad (Maomé) fundar a nova religião. Mas tem História muito anterior a isso. Mais de mil anos antes, no séc. 6 a.C., coube a Ciro, o Grande, unificar os povos medos e persas. Sob a religião criada pelo profeta Zaratustra no século anterior, primeira fundamentada entre os conceitos de bem e mal.
Primeiro império da História
Meio milênio antes de Cristo, Ciro e seus sucessores fizeram da Pérsia o primeiro império digno do nome na História. Através da ligação comercial, viária e cultural entre o Mar Mediterrâneo, o Oceano Índico e o Golfo Pérsico. De onde, hoje, ataca o Irã o império da vez do séc. 21. Mas com este, os EUA, a serviço de uma potência regional do Oriente Médio: Israel.
Herói persa de judeus e cristãos
Israel é uma nação judia e os EUA têm maioria cristã. No livro sagrado de ambos, o Tanakh judeu, Velho Testamento cristão, o persa Ciro é enaltecido: Isaías (44:28; 45:1), Esdras (1:1-8; 3:7; 4:3-5; 5:13-17; 6:3-14), 2 Crônicas (36:22-23) e Daniel (1:21; 6:28; 10:1). Base moral que, no dia 28, não impediu o bombardeio de uma escola de meninas no sul do Irã, matando 175 inocentes.
Poder militar dos EUA
A morte no mesmo dia 28, primeiro dos ataques dos EUA e Israel, do aiatolá Ali Khamenei, ex-líder supremo do Irã, na capital Teerã, demonstra um poder e uma precisão militar talvez nunca antes vista na História. Como foi a captura — ou entrega? — de Nicolás Maduro dentro de Caracas em 3 de janeiro. Foi no primeiro dia das ações militares dos EUA na Venezuela.
Khamenei e Maduro são indefensáveis
Não há defesa ou relativização possíveis às ditaduras homicidas que Khamenei e Maduro comandavam em seus respectivos países. Como não há defesa, dentro do direito internacional, ao sequestro ou assassinato do líder de um país, em sua capital, por um poder estrangeiro. Dito isso, parece haver entre a submissão da Venezuela e a resistência do Irã uma diferença.
Comparação com a Rússia
A Rússia de Vladimir Putin está há mais de 4 anos numa guerra fraticida com a Ucrânia. E, a despeito de todo o grande poder militar russo, este jamais conseguiu tocar no presidente ucraniano Volodymyr Zelensky. O que, em contraste com os destinos fulminantes de Khamenei e Maduro, dá a dimensão do poder de Donald Trump à frente da máquina de guerra dos EUA.
Interessa a Israel, não aos EUA
Neutralizar o Irã, pela rivalidade e alcance regional, interessa a Israel e sua população. Mas não aos EUA e seu povo. Primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu estava com o cargo a perigo nas eleições parlamentares de 27 de outubro. Mas pode sair fortalecido se a teocracia dos aiatolás for substituída por um governo títere como o da venezuelana Delcy Rodríguez.
Israel primeiro racha o Maga
Trump foi eleito à Casa Branca pela 2ª vez prometendo ao eleitor deixar os EUA fora de guerras desnecessárias. E com o lema “America First” (“América Primeiro”), não “Israel First”. O que já é questionado abertamente dentro do seu movimento Maga (“Make America Great Again”, “Faça a América Grande de Novo”). Hoje, conjugado como Miga (“Make Israel Great Again”).
Intenção x realidade
Se já estava em crise de popularidade pelo envolvimento com a rede de pedofilia do ex-amigo Jeffrey Epstein e os assassinatos de cidadãos dos EUA pela milícia do ICE, Trump supôs que teria outra Venezuela. Mas, até aqui, o Irã levou a guerra a vários outros países do Oriente Médio e fechou o Estreito de Ormuz, onde passam 20% do petróleo consumido no mundo.
O tamanho e o custo do Irã
Maior que o estado do Amazonas, com mais de 1,6 milhão km2, o Irã é o 18º país do mundo em extensão, com 93 milhões de habitantes. Muitos analistas militares afirmam que não tem como ser submetido sem a invasão também por tropas terrestres. O que custaria vidas dos EUA. E votos em suas midterms, eleições parlamentares de meio de mandato presidencial.
Eleição pela culatra?
Em 3 de novembro, os estadunidenses elegerão todas as 435 cadeiras da Câmara de Representantes (deputados federais) e 35 das 100 cadeiras do Senado. Se perder a maioria legislativa, após já ter sido barrado em seu tarifaço pela Suprema Corte conservadora dos EUA, o poder militar ostentado por Trump no Irã, sob a mira de Israel, pode sair pela culatra. A ver.
Publicado hoje na Folha da Manhã.


































