Rodrigo Bacellar e Jair Bolsonaro, Eduardo Paes e Lula (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Bacellar com Bolsonaro
Se quer mesmo ser candidato a governador do RJ contra o prefeito carioca Eduardo Paes (PSD) em 2026, o deputado estadual campista Rodrigo Bacellar (União), presidente da Alerj, deu um passo significativo na Quarta-Feira de Cinzas. Quando foi (confira aquie aqui) a Angra dos Reis se encontrar com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em busca do seu apoio.
Paes favorito a governador
A 1 ano e 7 meses da urna de 6 de outubro de 2026, Paes é favorito em todas as pesquisas até aqui a governador. Na última, divulgada no dia 27 e feita pelo instituto Quaest, entre os mais conceituados do país, o prefeito do Rio liderou a governador com 29% de intenção de voto.
(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Os demais na corrida
Fora da margem de erro de 3 pontos para mais ou menos, o senador Flávio Bolsonaro (PL) ficou em 2º a governador, com 20%. Foi seguido da deputada federal Benedita da Silva (PT), com 7%; do secretário estadual de Transporte e ex-prefeito de Caxias, Washington Reis (MDB), com 5%; e de Bacellar, com 2%. À frente da vereadora carioca Monica Benicio (Psol), com 1%.
Bolsonaro x Lula no RJ
A distância entre Paes e Bacellar a governador, hoje, é imensa: 27 pontos. Para tentar diminuí-la, o apoio de Bolsonaro seria fundamental ao político de Campos. Não só pelo que poderia herdar dos 20% de intenção de Flávio, filho do capitão. Mas porque o prefeito do Rio é aliado do presidente Lula (PT), em queda livre em todas as pesquisas nacionais.
Lula mal no RJ (I)
Lula teve 43,47% dos votos válidos do Estado do Rio no 2º turno presidencial de 2022, contra 56,53% de Bolsonaro. Dois anos e dois meses depois, Lula ampliou essa desvantagem regional. Na mesma Quaest de fevereiro, o atual Governo Federal teve entre os fluminenses apenas 35% de aprovação, contra expressivos 64% de desaprovação.
(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Lula mal no RJ (II)
Comparado o resultado eleitoral de outubro de 2022 no RJ com a pesquisa Quaest de fevereiro de 2025, Lula caiu 8,47 pontos entre voto e aprovação de governo. Como cresceu 7,47 pontos de rejeição entre o eleitor fluminense. Para cima e para baixo, são quase os mesmos números.
Esconde e mostra
Se essa tendência se mantiver ou agravar, a despeito dos 7% na Quaest que poderia herdar da petista Benedita, Paes precisará esconder Lula na sua campanha a governador. Enquanto Bacellar teria no possível apoio de Bolsonaro, e na tentativa de espelhar a polarização política nacional no RJ de 2026, seu maior cabo eleitoral.
Bolsonaro preso?
Inelegível, se Bolsonaro for condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e preso por tentativa de golpe de Estado, isso pode tirar o peso eleitoral do seu apoio em 2026? Pode! Como pode, a exemplo de Lula preso em 2018 para se eleger presidente em 2024, aumentar a popularidade pela martirização.
Castro mal no RJ
Conhecido pela capacidade de articulação, Bacellar precisará de todo apoio que conseguir. Não só para tentar tirar a grande vantagem de Paes, como para superar outro obstáculo apontado na Quaest: 52% dos fluminenses acham que o governador Cláudio Castro (PL), aliado do presidente da Alerj, não merece eleger seu sucessor. Apenas 39% acham que merece.
O historiador e crítico de cinema Arthur Soffiati, o cineasta e crítico Felipe Fernandes e o cineasta Carlos Alberto Bisogno são os convidados do Folha no Ar desta segunda (3), após a entrega do Oscar na noite de hoje (2), no domingo de carnaval.
Eles falarão sobre o projeto do Festival Internacional de Cinema de Campos (confira aqui) programado para agosto e a possibilidade (confira aqui) da criação de um curso de cinema na Uenf, que constava do projeto inicial da universidade nos anos 1990 e foi depois abandonado.
Soffiati, Felipe e Bisogno também analisarão os resultados do Oscar nas principais categorias. Sobretudo as três que o longa brasileiro “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, concorrem: filme, filme internacional e Fernanda Torres como atriz principal.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.
Filme de Walter Salles baseado em romance homônimo de Marcelo Rubens Paiva, “Ainda Estou Aqui” disputa neste domingo o Oscar de filme, filme internacional e atriz, com Fernanda Torres
Desde 23 de janeiro, quando foram divulgados os indicados ao Oscar, com “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, concorrendo a filme, filme internacional e atriz com Fernanda Torres, o clima no Brasil é de Copa do Mundo. A indicação a melhor filme, junto aos de língua inglesa, é a primeira do cinema da América do Sul nos 96 anos de história do Oscar. Mas onde “Ainda Estou Aqui”, que tem como produtora a campista Maria Carlota Fernandes Bruno, estará na entrega do maior prêmio de Hollywood, na noite deste domingo (2) de carnaval?
A maior chance do longa brasileiro, baseado em uma história real que revela a crueldade homicida da nossa última ditadura militar (1964/1985), é na categoria de filme internacional. Onde seu principal concorrente, o filme francês “Emilia Pérez”, em ambientação no México bastante criticada pelos mexicanos, tem sofrido reveses com declarações xenófobas do seu diretor, Jacques Audiard, e da sua protagonista, a atriz espanhola trans Karla Sofía Gáscon. Que também concorre com Fernanda Torres como atriz, categoria que tem a estadunidense Demi Moore, por sua atuação em “A Substância”, de Coralie Fargeat, apontada como favorita.
Fernanda Torres com seu Globo de Ouro de melhor atriz dramática
Entre torcida e projeções realistas, com base em todas as premiações mais importantes anteriores ao Oscar, incluindo o Globo de Ouro de Fernanda como atriz dramática, o que se pode esperar da premiação na noite de amanhã? No maior prêmio da indústria cinematográfica que tem como característica a surpresa, com injustiças históricas entre vencedores e perdedores?
Para tentar responder a essas perguntas, o programa Folha no Ar de ontem (28), na Folha FM 98,3, ouviu o cineasta, produtor e doutorando em sociologia da Uenf, Fernando Sousa; a médica e cinéfila Bárbara Gazineu; e o estudante de letras e crítico de cinema Lucas Barbosa. Como entrevistará no programa de segunda (3), já com os resultados do Oscar, o historiador e crítico de cinema Arthur Soffiati, o cineasta e crítico de cinema Felipe Fernandes e o cineasta Carlos Alberto Bisogno. À Folha Dois, estes três últimos anteciparam seus palpites:
Arthur Soffiati
— Como os festivais dos Estados Unidos são muito contaminados por formas de compensação e de ficar bem com todos, temo que se entenda Fernanda Torres como já contemplada como melhor atriz (dramática) no Globo de Ouro. Chance real, ela tem, mas, pelo sistema de compensação, o Oscar de melhor atriz pode ir para Karla Sofía Gáscon, de “Emilia Pérez”, ou para Demi Moore, de “A Substância”. “Ainda Estou Aqui” pode ser compensado como o melhor filme internacional — projetou Arthur Soffiati.
Felipe Fernandes
— Com suas 13 indicações ao Oscar e prêmios em outras competições importantes, era esperado que “Emilia Pérez” fosse o grande favorito na categoria filme internacional, situação que vem caindo pelas polêmicas envolvendo alguns de seus realizadores. Com seu lançamento em diversos mercados ao redor do mundo, obtendo números excelentes, “Ainda Estou Aqui” chega forte na briga e para muitos, inclusive, para mim, se tornou o favorito da categoria. O Brasil nunca esteve tão perto do seu primeiro Oscar. Na categoria de atriz, a movimentação pelo prêmio de Fernanda Torres é imensa. Elogiada mundo afora, sua impressionante atuação chega com justiça entre as indicadas, mas não deve levar o prêmio. Hollywood adora histórias de atores/atrizes que passam anos no segundo escalão e ressurgem em alguma obra com destaque no Oscar. Foi assim com Brendan Fraser em 2023 e muito provavelmente será com Demi Moore em 2025 — comparou Felipe Fernandes.
Carlos Alberto Bisogno
— “Ainda Estou Aqui” tem boas chances na categoria filme internacional, mas enfrenta forte concorrência, especialmente do francês “Emilia Pérez”, que venceu o Globo de Ouro e outros prêmios importantes. No entanto, as controvérsias em torno desse filme podem favorecer o longa brasileiro. Outros concorrentes, como “Flow”, da Letônia, e “A Semente do Fruto Sagrado”, da Alemanha, também são bem cotados. Para atriz, Fernanda Torres é uma das favoritas. Sua performance foi amplamente elogiada, e ela já venceu o Globo de Ouro e o Satellite Award. No entanto, enfrenta forte concorrência de Demi Moore, por “A Substância”, cuja atuação também tem sido muito destacada — antecipou Carlos Alberto Bisogno.
Lucas Barbosa
— Estou otimista em relação ao Brasil no Oscar. Nas três categorias (em que “Ainda Estou Aqui” foi indicado), a mais provável de ganhar é filme internacional. Eu boto minha mão no fogo que a gente vai levar esse Oscar. O outro grande candidato, que era “Emilia Pérez”, perdeu muita força. Não só por conta dos tuítes da Karla Sofía Gáscon sobre questões delicadas (islamofobia, xenofobia e racismo), mas pelos tuítes que ela fez sobre a Academia, sobre a própria premiação do Oscar (criticando sua diversidade). Isso pegou mal entre os votantes. Quando “Ainda Estou Aqui” foi indicado a melhor filme, acendeu uma luz: o Brasil vai levar o prêmio de melhor filme internacional. O prêmio de melhor atriz, realmente, é mais difícil. Demi Moore é a franca favorita — disse Lucas Barbosa ontem no Folha no Ar.
Bárbara Gazineu
— Assisto ao Oscar há muitos anos e ele é sempre imprevisível, mas este de 2025 é especial. A Academia, depois de muita crítica, ampliou muito o quadro de votantes e a ala internacional desses votantes. Acho que o Brasil já fez história. A última indicação (a filme internacional) do país foi em “Central do Brasil”, em 1999. E nunca um filme brasileiro (e sul-americano) foi indicado a melhor filme. Das três indicações (de “Ainda Estou Aqui”), acho que a mais provável é filme internacional. Embora esses incêndios em Los Angeles tenham ampliado o tempo de votação e a Fernanda Torres apareceu. Até dezembro, ela não era nem conhecida. E ela foi aparecendo, ganhou o Globo de Ouro (de atriz dramática), que deu muita visibilidade. Ela tem dado muita entrevista, é muito carismática. Mas acho que este é o ano da Demi Moore, ela é a superfavorita, ganhou a maior parte dos prêmios — lembrou Bárbara Gazineu na Folha FM.
Fernando Sousa
— Sou otimista e acredito na força de Fernanda Torres, na força dela no filme. Essa cena da sorveteria (sem diálogos, só com a expressão facial e corporal da atriz, após a personagem saber que seu marido foi assassinado pela ditadura), ela pega. É a câmera, a narrativa está na câmera, na fotografia, no olhar, nas sutilezas dos gestos; está tudo ali. Por essa cena “Ainda Estou Aqui” já merece o prêmio. O filme tem um apelo muito contemporâneo, é um drama que não é somente brasileiro, é o drama das eleições da Alemanha (do último da 23, onde a extrema direita teve sua maior votação naquele país desde as eleições de 1932, que levaram os nazistas e Adolf Hitler ao poder), do recrudescimento desse autoritarismo. E “Ainda Estou Aqui” tem uma sacada sobre isso com a história de uma família. Que é uma família brasileira, mas poderia ser de qualquer outro lugar sob regime autoritário. Acredito muito no (Oscar de) filme internacional. E acho que Fernanda Torres pode surpreender muito positivamente. Estamos na briga. Estamos muito bem na briga — apostou Fernando Sousa no Folha no Ar.
Capa da Folha Dois da edição de hoje da Folha da Manhã
Cartaz do partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AFD), que tem 20% de neonazistas entre seus filiados, pichado pelo movimento que gerou o “cordão sanitário” parlamentar antifacista (Foto: Kirill Kudryavtsev/AFP)
Carlos Augusto Souto de Alencar, professor de geografia, escritor e acadêmico de letras
Como as Democracias se defendem (ou sobrevivem)?
Por Carlos Augusto Souto de Alencar
Ao ler a análise intitulada “Com o avanço da extrema direita, o que esperar da Alemanha?”, assinada pelo jornalista Aluysio Abreu Barbosa e publicada no blog Opiniões, no último dia 24, me veio a reflexão. Há um livro chamado “Como as Democracias morrem”, muito importante para se entender o que ocorre no mundo atual, de autoria de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, lançado no Brasil pela editora Zahar. Talvez seja o caso de pensarmos como elas se defendem.
O sistema de governo é um dos fatores mais importantes para se avaliar as formas como as Democracias podem se proteger dos ataques que hoje partem, quase exclusivamente, de um movimento internacionalizado de extrema direita. E, como bem sabemos, os dois sistemas de governo existentes nas Democracias são, basicamente, o parlamentarismo e o presidencialismo.
O parlamentarismo parece funcionar melhor que o presidencialismo. Claro, os nazistas chegaram ao poder e a Alemanha já era parlamentarista. Porém, creio que, ao menos hoje, ele parece resistir bem com a tática dos “cordões sanitários”. Que, na Alemanha e na França, por exemplo, estão conseguindo isolar e conter os extremistas. Mesmo que as votações na extrema direita só cresçam a cada eleição. Mas quero acreditar que elas, em determinado momento, atinjam seu teto entre 30% e 35%.
O fato é que, no parlamentarismo, será preciso sempre negociar para se governar e isso parece conter o extremismo. Tanto que Giorgia Meloni, por mais que seja claramente extremista, não conseguiu implementar um regime ditatorial na Itália. Pode-se argumentar que isso é uma tática para fazer com que as pessoas se acostumem com o extremismo e aceitem um futuro governo radicalizado. Sugiro uma pesquisa sobre a chamada “Janela de Overton”, que descreve o conjunto de ideias suportadas pela população no discurso público.
Por outro lado, também se pode alegar que o poder desgasta. O que pode fazer com que, no futuro, os extremistas caiam na vala comum e percam a força de seu discurso. “O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente”, como preconizou o historiador britânico John Emerich Edward Dalberg-Acton, mais conhecido como Lord Acton, (1834/1902).
E o presidencialismo? Nessa hora eu olho para o Brasil e para os Estados Unidos. Como tivemos ditaduras em períodos lamentavelmente longos em nossa História, fizemos a Constituição de 1988 com instrumentos legais de proteção à Democracia. Os Estados Unidos, por não terem conhecido ditaduras, não têm dispositivos constitucionais semelhantes. Então acontece uma coisa interessante.
O Brasil defende bem a Democracia, com problemas, porém consegue, no que se refere ao arcabouço legal. Já os Estados Unidos têm uma Democracia avançada em várias outras esferas, mas peca justamente nesse item.
Se pensarmos em uma armadura completa, o Brasil usa um elmo que protege a cabeça enquanto o resto do corpo apanha sem proteção. Já os Estados Unidos têm a armadura quase completa. Mas falta proteger a cabeça.
O fato é que, no presidencialismo, é muito mais fácil implementar a tão danosa polarização, tão conveniente para os extremistas. Implementar o parlamentarismo no Brasil resolveria a questão? Bom, se os partidos fossem fortes, sim. O certo seria fortalecer os partidos primeiro. O problema é que implementar parlamentarismo, com partidos sem compromisso ideológico ou programático, seria abrir caminho para uma desestabilização que interessaria muito aos extremistas.
Isso deveria ter sido feito lá, na promulgação da Constituição de 1988, de forte teor parlamentarista. Só que no plebiscito de 1993, entre presidencialismo e parlamentarismo, o primeiro venceu por larga margem de voto popular. No futuro, o tema pode ser revisitado, quando o risco à Democracia tiver diminuído. Isso, claro, se diminuir — quero acreditar nisso.
O que se faz hoje, não pelos motivos certos, é diminuir o poder do Executivo e aumentar o do Legislativo. Não só para aumentar o controle deste sobre verbas públicas, mas, também, para enfrentar o Judiciário. Que teve seu poder aumentado, pela própria omissão do Legislativo. Por este, ironicamente, se preocupar muito mais com o controle orçamentário do que com sua função precípua que é, vejam só, legislar.
Existem críticas à atuação do Poder Judiciário, algumas até bem embasadas, outras apenas manifestações de ódio com base apenas em fanatismo. Mas não se pode negar que, ao defender a Constituição Cidadã, o Judiciário tem sido fundamental à manutenção da Democracia no Brasil. E que, por isso, é alvo de ataques incessantes de extremistas, principalmente nos meios digitais. Onde, por falta de regulação que deveria vir, vejam só, do Legislativo, prosperam crimes e ilegalidades. Que, no mundo real, gerariam prisões e outras punições.
Na verdade, se pensarmos mais a fundo, quem está se defendendo é a própria Constituição Cidadã. Através do Judiciário e das demais instituições e indivíduos que a prezam e que reconhecem seu caráter humanista.
A verdade é que só os pouco informados ou os que praticam desonestidade intelectual negam: a luta do mundo hoje não é sobre direita e esquerda. E os parlamentares europeus, em geral, parecem ter percebido isso claramente. A luta hoje é entre os que defendem a Democracia e os que defendem ditaduras.
Se assim não fosse, como explicar que países governados por “comunistas” estejam associados geopoliticamente a países governados por oligarcas e por outros governados de forma teocrática. Todos estes contra países governados por conservadores, liberais ou progressistas que são democráticos?
“A Democracia é o pior dos regimes, excetuando-se todos os outros”. É a definição de um grande defensor da Democracia mundial, Sir Winston Churchill (1874/1965). Sim, ele era de direita…
O cineasta e produtor Fernando Sousa, a cinéfila e médica Bárbara Gazineu e o crítico de cinema e estudante de Letras Lucas Barbosa são os convidados para o Folha no Ar desta sexta (28), último antes da noite de entrega das estatuetas do Oscar neste domingo (2) de carnaval. Eles falarão sobre o projeto do Festival Internacional de Cinema de Campos (confira aqui) programado para agosto e a possibilidade (confira aqui) da criação de um curso de cinema na Uenf, que constava do projeto inicial da universidade.
Fernando, Bárbara e Lucas também analisarão, entre torcida e perspectiva real, as chances do longa brasileiro “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, para o Oscar de filme e filme internacional, além de Fernanda Torres como atriz principal. Como os demais principais prêmios do maior festival de cinema de Hollywood.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.
Jornalista e ex-colega do curso de jornalismo na Fafic, a Silvana Venâncio, de Bom Jesus do Itabapoana, me pediu uma análise das eleições parlamentares ontem (23) da Alemanha, locomotiva econômica (patinando sobre os próprios trilhos em dois anos de recessão) da União Europeia. O que só me arrisquei a fazer após trocar algumas impressões com o campista Roberto Dutra, sociólogo e professor da Uenf que cursa pós-doutorado na Alemanha, país onde já tinha residido. E domina seu idioma, política, economia e cultura.
Na expectativa da eleição germânica do último domingo e seus desafios, num mundo em que o equilíbrio ocidental do pós-II Guerra tem sido entortado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, Roberto já havia publicado, em seu blog no Folha1 e na edição de sábado (22) da Folha da Manhã, o artigo “Pra onde vai a Alemanha?”. Cuja leitura, aqui e aqui, recomendo.
Encerrado o pleito e contabilizados seus votos, dentro do sistema parlamentar em que a Alemanha é referência ao mundo, vamos, por partes, a alguns pontos. Com lições didáticas à revisão aos dogmas de fé de “esquerda” ou “direita” nesta nossa zona periférica do “Extremo Ocidente” — como o ex-presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso, outro sociólogo, classificou um dia a América do Sul.
Bundestag, Parlamento da Alemanha
1 – O chanceler da Alemanha egresso das urnas será o conservador Friedrich Merz. Líder da aliança União Democrata Cristã (CDU) e União Social Cristã (CSU), que cresceu 4,4 pontos da eleição anterior de 2021 para fazer em 2025 28,60% dos votos, ou 208 das 630 cadeiras que compõem o Bundestag, Parlamento alemão. No qual Merz terá que compor com outros partidos para formar maioria. Até que o faça, Ofaf Scholz deve se manter interinamente no poder, abreviado com a eleição de ontem após perder a maioria.
2 – Com a má avaliação à gestão Scholz, seu Partido Social Democrata (SPD) perdeu 9,3 pontos entre 2021 e 2025. E conquistou no domingo 16,40% dos votos, ou 120 cadeiras, passando de 1ª à 3ª força do Bundestag. É a maior derrota socialdemocrata da história eleitoral alemã. Ainda assim, o SPD deve ser o fiel da balança para o CDU de Merz conseguir maioria.
3 – Isolado pelo chamado “cordão sanitário” dos partidos convencionais nas alianças parlamentares, o Alternativa para a Alemanha (AfD) cresceu impressionantes 10,4 pontos entre as eleições de 2021 e 2025. Literalmente, dobrou de tamanho e, com 20,8% dos votos populares, fez 152 cadeiras no Bundestag, onde terá a 2ª maior bancada. É o mais perto que a extrema direita chegou do poder na Alemanha em quase 93 anos. Desde que as eleições parlamentares de julho de 1932 deram ao Partido Nacional-Socialista (Nazista, na corruptela) de Adolf Hitler a maior bancada do Reichstag (Bundestag, a partir de 1945), com 230 cadeiras. Em 2025, o Departamento Federal de Proteção da Constituição (BfV), serviço de inteligência doméstica da Alemanha, estima que 20% dos membros da AfD são neonazistas.
4 – É consensual entre historiadores e militares que foi o esforço combinado dos EUA e da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS, cuja grande herdeira atual é a Rússia), em duas frentes, que derrotou por esgotamento a Alemanha Nazista na II Guerra Mundial (1939/1945). Oitenta anos depois, as coisas parecem ter se invertido na eleição de ontem. Na qual a AfD contou com o apoio declarado dos EUA de Donald Trump — do seu vice, J.D. Vance, e do dublê de bilionário sul-africano e seu chefe do Departamento de Eficiência Governamental, Elon Musk — e da Rússia de Vladimir Putin.
5 – As aparentes ironias do destino a erodir estereótipos entre esquerda e direita não param no apoio dos EUA e da Rússia de hoje a quem se uniram para derrotar na II Guerra. Se a eleição de domingo fosse só na antiga Alemanha Oriental, ditadura comunista tutelada pela URSS que durou de 1949 até a reunificação do país em 1990, após a queda do Muro de Berlim em 1989, a AfD sairia vencedora das urnas de 2025. Foram os eleitores da capital Berlim e, sobretudo, da antiga (e capitalista) Alemanha Ocidental que ontem impediram a vitória eleitoral da extrema direita.
6 – A inversão dos estereótipos vai além. No lugar de um artista plástico frustrado por ter sido rejeitado duas vezes na Academia de Belas Artes de Viena, que declarou guerra ao modernismo e considerava as mulheres alemães como úteros de produção à raça ariana, como foi Hitler, a AfD é comandada por uma analista de investimentos com PhD em economia na China: Alice Weidel, neta de um juiz nazista. Apesar de o seu partido celebrar a família tradicional, ser radicalmente contra a imigração e nacionalista, Weidel é lésbica assumida e casada com uma imigrante do Sri Lanka, produtora de cinema. Com quem tem dois filhos e vive a maior parte do tempo na Suíça.
7 – Os desafios do novo governo Merz, assim que for formado, não serão poucos.“Os temas principais serão imigração, decadência econômica do modelo fordista exportador de máquinas e segurança externa, com o realinhamento geopolítico (na aliança entre os EUA de Trump e a Rússia de Putin para isolar a Europa e tentar resolver a Guerra da Ucrânia em termos favoráveis ao país invasor). É muita coisa para um governo fazer. Pior ainda seria o cenário se o governo começasse e não acabasse, como foi o caso agora de Scholz. Eu diria que (o futuro governo Merz) é a última chance que o establishment político alemão, CDU e SPD, tem. Governar de uma maneira surpreendente, assumir riscos que nunca foram necessários desde o pós-II Guerra, para frear o crescimento da extrema direita, da AfD, à condição de 1º partido”, ponderou Roberto Dutra após o resultado das urnas alemãs.
8 – Merz sucederá a Scholz, provavelmente com seu apoio parlamentar e que, por sua vez, sucedeu a Angela Merkel, após esta comandar a Alemanha por 16 anos. Socialdemocrata do SPD, Scholz está à esquerda de Merkel e Merz, que disputaram o poder no conservador CDU e na sucessão da liderança de Helmut Khol, chanceler da Alemanha em sua reunificação. Foi a vitória interna no controle do partido, de Merkel sobre Merz, que afastou este temporariamente da vida política em 2009, até regressar em 2021. Advogado com experiência na iniciativa privada, não na administração pública, é mais conservador que Merkel. Tanto no controle da imigração quanto no abandono da energia nuclear por um país que ficou mais dependente do gás da Rússia.
9 – Ontem, antes mesmo dos resultados finais da eleição, o virtual novo comandante da Alemanha falou grosso ao responder à ameaça dos EUA de Trump deixarem a Europa e a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) entregues à própria sorte com a Rússia de Putin: “Minha prioridade absoluta será fortalecer a Europa o mais rápido possível para que, passo a passo, possamos realmente alcançar a independência dos EUA. Pelo menos desde as declarações de Donald Trump na semana passada, está claro que os americanos, ou pelo menos parte deles, neste governo, são amplamente indiferentes ao destino da Europa”.
10 – Conhecido também em português, há um provérbio alemão que diz: “Leichter gesagt als getan” (“Falar é uma coisa, fazer é outra”). A ver.
O jornalismo tem algo em comum com a democracia: só se faz com contraditório. Temporariamente afastado do jornalismo, abri ontem (19) uma exceção sazonal. Para tentar analisar, em seus aspectos jurídicos, éticos, políticos e eleitorais reunidos em 6 pontos, a denúncia da Procuradoria-Geral da República contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e outros 33 suspeitos de envolvimento na suposta tentativa de golpe de Estado no Brasil.
Neste blog e nas redes sociais, o texto gerou (confira aqui, aqui e aqui) bom engajamento e comentários. Alguns, de simples manifestação descerebrada e passional de torcida. Que caracteriza a esquizofrenia da bipolaridade política brasileira e tanto aproxima o que de pior há no bolsonarismo e no lulopetismo. Outros, no entanto, de acréscimo dialético ao debate, sobretudo quando em contraditório.
Abaixo, em nome do bom debate sobre um tema grave, complexo e que ainda renderá bastante nos próximos meses, algumas dessas opiniões. Emitidas pela professora e ex-vereadora Odisséia Carvalho, presidente do PT de Campos; pelo advogado, ex-prefeito e ex-presidente da Câmara Municipal de Campos, Nelson Nahim; e pelo jornalista Sebastião Carlos Freitas, ex-editor-geral da Folha da Manhã:
Ex-presidente Jair Bolsonaro, procurador-geral Paulo Gonet, ministro Alexandre de Moraes, presidente Lula e o Supremo Tribunal Federal (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Odisséia Carvalho, professora, ex-vereadora e presidente do PT de Campos
Odisséia Carvalho — “O procurador-geral da República, Paulo Gonet, denunciou Bolsonaro e mais 33 aliados ao Supremo Tribunal Federal (STF) na noite de terça-feira (18), pelos crimes de organização criminosa, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado. Essa denúncia histórica leva o Partido dos Trabalhadores a fazer, mais uma vez, a defesa enfática da democracia, do Estado Democrático de Direito e a colocar um ponto final em qualquer tentativa de anistia aos golpistas.
A denúncia apresentada por Gonet mostra com muita habilidade como o golpe começou a ser tramado desde 2021, quando Bolsonaro ameaça não reconhecer os resultados eleitorais de 2022 e usa o desfile de 7 de setembro para atacar o STF. Além do já conhecido plano que envolveria o assassinato de Alexandre de Moraes, Geraldo Alckmin e do presidente Lula.
O nosso país não pode ser refém do golpismo que já desrespeitou resultados eleitorais tantas vezes ao longo da nossa história. Esse é um passo importante e didático para todos aqueles que ousarem desafiar a democracia brasileira. Sem anistia! Cadeia já!”
Nelson Nahim, advogado, ex-prefeito e ex-presidente da Câmara Municipal de Campos
Nelson Nahim — ”Como advogado e político não tenho dúvida que se o Bolsonaro quisesse de fato dar um golpe de Estado teria feito com a caneta na mão enquanto estava presidente. E mais, os atos de 8 de janeiro (de 2023) não podem ser considerados como tentativa de golpe contra o Estado de Direito; mas sim uma baderna, por sinal muito mal feita.
Condenar pessoas a 17 anos de prisão com esse argumento, aí, sim, fere de morte a nossa combalida democracia e tudo que estudei na nossa Faculdade de Direito de Campos 42 anos atrás”.
Sebastião Carlos Freitas, jornalista e ex-editor-geral da Folha da Manhã
Sebastião Carlos Freitas — “Infelizmente, nosso Brasil continua sendo de poucos.
Brigas pelo poder, povo sendo usado e nada de positivo.
Triste ver um Congresso tão ruim, parcialidade no Judiciário e Executivo na mão de deputados que fazem bem somente para seus próprios bolsos.
Acredito que este momento passa também pela educação sucateada de um país onde governantes querem o povo cada vez com menos conhecimentos, para assim não serem contestados diante de suas ações absurdas.
Qual o número de brasileiros deve saber o que é orçamento secreto?
Como lulista, eu talvez deveria estar feliz em saber que o golpista, aquele mesmo que debochou de pessoas que morriam de Covid. Mas o momento do Brasil não é de felicidade.
Como Kakay (advogado aliado de Lula que divulgou carta pública com críticas ao isolamento do presidente e ao seu atual governo), também não posso fechar os olhos para o momento vivido pelo governo Lula, mas ver políticos como o senador Cleitinho (Azevedo, REP) e o deputado Nikolas (Ferreira, PL), conterrâneos de minha querida Minas Gerais, representando o povo no Congresso Nacional, é algo que me envergonha como mineiro!”
Passei boa parte da madrugada lendo as 272 páginas da denúncia da Procuradoria-Geral da República contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e outros 33 suspeitos de envolvimento na tentativa de golpe de Estado no Brasil, a partir da vitória eleitoral apertada de Lula (PT) no 2º turno presidencial de 2022. Como passei parte da manhã e início da tarde de hoje conversando sobre ela com juristas independentes e capacitados.
É certo que muita água ainda passará sob a ponte. Mas, sobre as denúncias da PGR dos crimes de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, formação de organização criminosa armada, dano qualificado sobre o patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado, o que dá para dizer desde já:
Ex-presidente Jair Bolsonaro, procurador-geral da República Paulo Gonet, ministro do STF Alexandre de Moraes e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
1 – O procurador-geral da República, Paulo Gonet, fez uma costura eficiente entre os fatos a partir de julho de 2021, dentro da perspectiva de planejamento e execução da tentativa de golpe. Que veio sustentada em evidências aparentemente robustas, colhidas no inquérito da Polícia Federal e muito além da mera delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro.
2 – Cumprido todo o processo legal, tudo até aqui parece indicar que Bolsonaro será julgado, condenado e, se não fugir do país, preso. Se o mesmo acontecer também com os generais Walter Braga Netto, Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira, Mário Fernandes, Estevam Theophilo e Nilton Diniz Rodrigues, além do almirante Almir Garnier, será algo inédito e didaticamente necessário aos golpistas que se sucedem, geração após geração, na mais alta cúpula militar do Brasil. Pelo menos desde 1889, no primeiro golpe de Estado no país promovido pelos militares, quando derrubaram o Império para inaugurar a República. E nela se arvoraram, numa pretensiosa exceção da nossa caserna à tripartição de Poderes preconizada por Montesquieu, em assumir o antigo Poder Moderador dos imperadores.
3 – Alvo de um plano de sequestro, assassinato e até exposição pública do seu corpo, no qual chegou a ter sua rotina pessoal campanada, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes não tem impessoalidade para ser relator do caso ou julgar Bolsonaro e seus supostos cúmplices. Em qualquer Estado Democrático de Direito do mundo, Moraes deveria se considerar impedido de julgar Bolsonaro. Como Sergio Moro deveria ter se declarado suspeito para julgar Lula. Os dois magistrados se transformaram em parte nos casos. E perderam qualquer capacidade de isenção para julgar. Essa corrupção passional do juízo tende a cobrar o mesmo preço: corromper a condenação.
4 – Lula vive o pior momento de aprovação popular dos seus três governos. Que é atestado pelas mesmas pesquisas que anteciparam sua eleição em 2022. Como o jornalista Elio Gaspari registrou hoje em sua coluna: “um conhecedor de Brasília e de Lula dizia: ‘ele não sabe governar com pouco dinheiro’. Na sexta veio o Datafolha com o tombo de sua popularidade. Em seguida, chegou o Ipec informando que 62% dos entrevistados preferem que ele não dispute a reeleição. A erosão da popularidade do governo deu-se até mesmo no segmento de seus eleitores. Desde os tempos da Lava Jato, Lula não tinha uma semana tão amarga”.
5 – O péssimo momento político de Lula, a menos de 1 ano e 8 meses das urnas presidenciais de 2026, é melhor definido até por aliados históricos. Como o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay. Que revelou em carta aberta: “o Lula do 3° mandato, por circunstâncias diversas, políticas e principalmente pessoais, é outro. Não faz política. Está isolado. Capturado. Não tem, ao seu lado, pessoas com capacidade de falar o que ele teria que ouvir. Não recebe mais os velhos amigos políticos e perdeu o que tinha de melhor: sua inigualável capacidade de seduzir, de ouvir, de olhar a cena política”.
6 – Lula foi condenado e preso em 2018 por uma Lava Jato com amplo apoio popular. Bolsonaro pode ser condenado e preso, ainda em 2025, por um STF com ampla reprovação popular. Noves fora as questões jurídicas e éticas, como a parcialidade autoevidente de Moraes e Moro, há a questão política: o espantalho do capitão pode só não bastar, como atirar pela culatra. A partir do entendimento popular de um conluio entre Judiciário e Executivo “progressistas” para contornar um Legislativo tão conservador quanto parte considerável do eleitorado. Sobretudo se a carestia dos alimentos, com um governo que prometeu picanha para entregar pé de galinha, não for revertida no carrinho de compras. A ver.
Além da indicação a melhor atriz, com Fernanda Torres, e a filme internacional, “Ainda Estou Aqui” é a primeira obra cinematográfica do Brasil e da América do Sul a concorrer ao Oscar de melhor filme, cujo vencedor será anunciado no domingo de carnaval
O Brasil amanheceu na quinta (23) em clima de final de Copa do Mundo, com as três indicações ao Oscar ao filme “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles. Não só a filme internacional e atriz, categorias a que já tinha sido indicado no Globo de Ouro. Que deu prêmio inédito a um(a) brasileiro(a) com Fernanda Torres como atriz dramática. Em outro ineditismo histórico: nos 96 anos do Oscar, foi a primeira vez que uma obra do Brasil e da América do Sul foi indicada ao Oscar de melhor filme — maior prêmio da indústria do cinema de Hollywood.
Brasil a filme estrangeiro — A primeira edição do Oscar é de 1929. Mas a categoria de filme estrangeiro (depois internacional) só passou a ser entregue regularmente em 1957. Desde então, quatro filmes brasileiros foram indicados à categoria: “O Pagador de Promessas” (1962), de Anselmo Duarte; “O Quatrilho” (1995), de Fábio Barreto; “O Que é isso, Companheiro?” (1997), de Bruno Barreto; e “Central do Brasil” (1998), outro de Walter Salles.
Os brasileiros “O Pagador de Promessas”, “O Quatrilho”, “O Que É Isso, Companheiro?” e “Central do Brasil” concorreram ao Oscar de melhor filme estrangeiro (hoje, internacional), mas não levaram (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Fernanda Torres levou o Globo de Ouro de melhor atriz dramática na madrugada brasileira de 6 de janeiro
Fernandas, a revanche — Nenhum desses quatro filmes brasileiros levou o Oscar. Mas, em outra coincidência histórica, no último, Fernanda Montenegro, mãe de Fernanda Torres, foi indicada ao Oscar de melhor atriz. Dirigida pelo mesmo Walter em “Central”, Fernandona também havia sido indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz dramática. Se não ganhou, viu a filha disputar e conquistar, 26 anos depois, o mesmo prêmio. E dedicá-lo, emocionada, à mãe.
Melhor atriz no Globo de Ouro de 1999 — Muito se tem falado em reparação histórica de Fernandona por Fernandinha. Mas, nacionalismo e torcida à parte, de direita ou esquerda, a questão é sempre mais complexa. Fernanda Montenegro perdeu o Globo de Ouro de 1999 para a australiana Cate Blanchett. É atriz do nível da brasileira que vinha de atuação igualmente irretocável em “Elizabeth” (1998), de Shekhar Kapur.
Walter Salles, Vinívius Oliveira e Fernanda Montenegro com o Globo de Ouro que “Central do Brasil” levou como filme de língua não inglesa em 1999
Melhor atriz no Oscar de 1999 — No Oscar daquele mesmo ano, sim, é que as craques Montenegro e Blanchett perderiam a estatueta dourada para uma estadunidense nada mais que regular: Gwyneth Paltrow. Por sua atuação açucarada na comédia romântica “Shakespeare Apaixonado” (1998), de John Madden.
Injustiças históricas — Não foi, no entanto, a maior injustiça do Oscar. O irlandês Peter O’Toole e o ítalo-estadunidense Robert De Niro não levaram o prêmio de melhor ator por suas atuações, respectivamente, em “Lawrence da Arábia” (1962), de David Lean; e “Taxi Driver” (1976), de Martin Scorsese. E ambas estão entre as maiores da história do cinema. Como a do suíço Bruno Ganz em “A Queda — As Últimas Horas de Hitler” (2004), de Oliver Hirschbiegel, que sequer foi indicado ao Oscar de ator. A personagem contou mais que sua visceral interpretação.
Peter O’Toole, em “Lawrence da Arábia”; e Robert De Niro, em “Taxi Driver”, não levaram o Oscar de melhor ator. Bruno Ganz, por “A Queda — As Últimas Horas de Hitler”, sequer foi indicado (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
O lobby e a desgraça da Miramax — Em 1999, o que definiu o Oscar de melhor atriz a Paltrow foi o lobby financeiro da então toda poderosa produtora estadunidense Miramax. Como o de filme estrangeiro ao italiano “A Vida é Bela” (1997), de Roberto Benigni, que bateu o brasileiro “Central”. Foi antes de o fundador da Miramax Harvey Weinstein cair em desgraça em 2017, com denúncias de assédio sexual a mais de 80 mulheres na indústria cinematográfica.
O lobby e o paradoxo do “politicamente correto” — Em 2025, o lobby que prevalece há alguns anos em Hollywood é oposto: o “politicamente correto” da esquerda identitária. Que foi exportado dos EUA ao mundo, a partir dos anos 1990, com o mesmo sucesso do seu cinema. E é, paradoxalmente, a maior virtude e dificuldade a “Ainda Estou Aqui” na premiação do Oscar na noite do próximo dia 2 de março, num domingo de carnaval.
Hollywood contra Trump — Por denunciar os crimes da última ditadura militar do Brasil (1964/1985), o filme de Walter e Fernandinha, além das suas inegáveis virtudes artísticas, ganha força política. Numa Hollywood que tem se colocado, pelo menos desde 2016, como trincheira de resistência cultural à extrema direita. Que, neste 2025, inicia o ano mais empoderada do que nunca com Donald Trump de volta à presidência dos EUA.
A extrema direita de volta ao poder nos EUA com Donald Trump tem em Hollywood uma trincheira de resistência cultural
Produção da França ambientada no México, com atores espanhóis e estadunidenses de ascendência latina, “Emilia Pérez” tem sido bastante criticado pelos mexicanos, que consideram o filme esteriotipado, mas levanta a bandeira LGBTQIA+ no Oscar
México sem mexicanos — Pelo mesmo motivo político, também ganha força o, talvez, mais forte adversário do filme brasileiro: “Emília Pérez”, de Jacques Audiard. Produção francesa ambientada no México, o musical de comédia criminal traz atores espanhóis e estadunidenses de ascendência latina. Que, por isso, tem sido considerado estereotipado e bastante criticado pelos mexicanos. Mas colhe sucesso em festivais internacionais com sua história de um chefe do narcotráfico em sua afirmação como mulher trans, que leva a bandeira LGBTQIA+ ao Oscar.
Recordista — Além de também concorrer, como “Ainda Estou Aqui”, nas categorias de filme, filme internacional e atriz — com a espanhola Karla Sofía Gascón —, “Emilia Pérez” foi indicado em outras 10 categorias. No total de 13, foi não só o recordista da atual edição do Oscar, como o filme em língua não inglesa que até hoje recebeu mais indicações ao maior prêmio de Hollywood.
Chances a atriz — No Globo de Ouro de janeiro, que divide suas categorias entre comédia/musical e drama, quem levou como melhor atriz na primeira, por sua atuação em “A Substância”, de Coralie Fargeat, foi Demi Moore. Ela, Gáscon e a inglesa Cynthia Erivo — por “Wicked”, de Jon M. Chu — são as três mais fortes adversárias de Fernanda Torres em 2025. Ao Oscar que Fernanda Montenegro não levou em 1999.
Demi Moore, por “A Substância”; Karla Sofía Gascón, por “Emilia Pérez”; e Cythia Erivo, por “Wicked”, são as competidoras mais fortes de Fernanda Torres ao Oscar de melhor atriz (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Chances a filme e filme internacional — A inédita indicação de um filme brasileiro e sul-americano ao Oscar de melhor filme já pode ser considerada um prêmio a “Ainda Estou Aqui”. Como a toda a cultura do país e sua resistência democrática ao autoritarismo do passado mais distante e recente. Para filme estrangeiro, há chance ao Brasil. Mas o favorito político parece ser o francês trans de mexicano “Emilia Pérez”. A ver.
“Ainda Estou Aqui” e seus competidores ao Oscar nas categorias filme, atriz e filme internacional (Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Capa da Folha Dois da edição de hoje da Folha da Manhã
Indicações do Brasil ao Oscar por cineastas, atrizes e críticos de Campos
Por Joseli Matias
As três indicações do filme “Ainda estou aqui” ao Oscar também repercutiram em Campos. Profissionais ligados ao cinema avaliaram o desempenho da obra e da atriz Fernanda Torres e os reflexos para a arte brasileira e de Campos.
Fernando Souza, cineasta e produtor
— A premiação já recebida no Globo de Ouro, a sua aclamação em Veneza e essas três indicações do filme, em diferentes categorias do Oscar, reafirmam internacionalmente a força artística da cinematografia brasileira. Como cineasta e produtor, destacaria em primeiro lugar que tudo isso reaproxima de forma muito afetuosa a sociedade do nosso cinema, com os nossos artistas e o fazer cinematográfico. É uma enorme alegria a gente ter como principal pauta do dia o feito internacional de um filme brasileiro. E isso é feito extraordinário, que nos enche de orgulho, afirma a nossa brasilidade e que precisa ser celebrado. A gente espera que o filme impulsione e desperte ainda mais a audiência do público com filmes brasileiros, com a nossa literatura, o teatro e as nossas artes em geral. Viva o Cinema Brasileiro! — destacou o cineasta e produtor Fernando Sousa.
Fernando espera que esse prêmio e indicações abram reflexão sobre a necessidade de ser criada uma secretaria de Cultura que se dedique ao tema da cultura, do audiovisual e da economia criativa em geral na cidade. “Contar com uma secretaria de Cultura é fundamental para que se tenha políticas públicas consistentes, estratégias articuladas de investimento público na área e para que se possa atrair novos recursos e investimentos, públicos e privados. Campos e o Norte Fluminense possuem uma diversidade potente de desenvolvimento e criações artísticas, que precisam de investimentos e reconhecimento. Para que isso aconteça precisamos de uma atuação mais articulada do poder público local. Além disso, é muito significativo que essa premiação aconteça no contexto em que estamos trabalhando na realização do Festival Internacional Goitacá de Cinema, que abrigará o Seminário de Cinema e Audiovisual do Norte e Noroeste Fluminense, o Cine Market Goitacá e um programa de formação. Essas iniciativas acontecem junto com a retomada do novo projeto da Escola de Cinema e Audiovisual, que volta a ganhar corpo na Uenf e na cidade”.
Adriana Madeiros, atriz
— Acordar com essa notícia foi emocionante! Foi uma surpresa sermos indicados para três categorias. Fernanda é um acontecimento. Não só pela indicação de melhor atriz, mas por sua escrita e postura como mulher humanamente engajada nas questões culturais e políticas. Fernanda entregou uma performance emocionante, cheia de silêncios e adornos que só grandes artistas sabem entregar. Depois de vivermos anos tão obscuros, assistindo ao quanto a arte e a cultura estavam fragilizadas, saber dessas indicações é um prêmio. Sinto uma festa dentro de mim quando sei que temos um filme, nosso primeiro, concorrendo ao maior prêmio da indústria cinematográfica. Isso é de extrema riqueza para o cinema nacional que bravamente resiste aos arrogantes e ignorantes que permeiam a política do nosso país. Não é apenas um filme político, mas é também. Todas as conquistas desse filme trazem à tona a importância de se investir, aqui, na nossa Campos, no audiovisual, algo tão sonhado por Darcy Ribeiro — ressaltou a atriz Adriana Medeiros.
Felipe Fernandes, cineasta e crítico de cinema
— Hoje, o cinema brasileiro vive um momento histórico. As três indicações ao Oscar de “Ainda Estou Aqui” representam um marco, principalmente pela indicação inédita na categoria de melhor filme. Independentemente das indicações, o filme já vem sendo um marco por outros motivos, como o fato de atrair o público brasileiro para as salas de cinema e resgatar o orgulho da população pelo nosso cinema. Esse, tantas vezes criticado pelo grande público. Junto a “O Auto da Compadecida 2”, “Ainda Estou Aqui” tem sido um dos responsáveis pelo retorno do público às salas de cinema. Essas indicações reforçam esse movimento, não só pela expansão do número de salas exibindo essas produções, mas também pelo crescente interesse de um público mais engajado com as obras nacionais. O Oscar ainda exerce esse poder. Todos os anos, vários filmes brasileiros concorrem a diferentes prêmios nos maiores festivais do mundo. O Oscar talvez seja a última barreira a ser superada. Esse reconhecimento e, especialmente, o interesse renovado do público são fundamentais para o fortalecimento do cinema brasileiro como indústria. Essas indicações são uma vitória para nossa cultura e nosso cinema, que, certamente, a longo prazo, refletirão em um desenvolvimento significativo da produção nacional. Este momento de crescimento é propício para a formação de novos públicos, para o fortalecimento da indústria e, principalmente, para a criação de novas escolas de cinema e a possibilidade de inserção de disciplinas sobre a sétima arte no currículo escolar. Lembrando que a exibição de filmes nacionais agora é obrigatória em escolas da educação básica. Este momento de resgate do orgulho pelo cinema nacional, aliado ao forte engajamento na internet, demonstra que os efeitos vão além das indicações — afirmou o cineasta e crítico de cinema Felipe Fernandes.
Lúcia Talabi, atriz
— Inegável a importância das indicações recebidas por este filme. Além do reconhecimento da potência da arte brasileira, abrindo possibilidades para o nosso mercado de audiovisual, a seleção oportuniza também o não apagamento da memória dolorosa da ditadura do Brasil, que não pode ser esquecida. Negar a existência desses anos de torturas física e psicológica é aceitar os comportamentos indignos de grupos que querem, ainda hoje, a qualquer custo, manter seus privilégios e a impunidade para seus agentes — destacou a atriz Lúcia Talabi.
A atriz, entretanto, diz ter dúvidas se essas indicações são incentivos para que a Escola de Cinema de Campos saia do papel: “Tivemos oportunidade concreta de ter essa Escola trazida por Darcy Ribeiro através da Uenf. A ideia foi abortada e perdemos toda estrutura, inclusive os equipamentos já comprados. Até o momento, nenhuma gestão local demonstrou sensibilidade e vontade política de valorizar e fortalecer o fazer cultural de grupos, que durante muitos anos vêm trabalhando pela construção da linguagem cinematográfica na cidade”.
Arthur Soffiati, historiador e crítico de cinema
— Filme premiado no Globo de Ouro é indicação quase segura de que ele concorrerá ao Oscar. Por mais que Fernanda Montenegro afirme que a arte brasileira não precisa de reconhecimento acima da linha do Equador, nunca se falou tanto em “Ainda Estou Aqui” depois do prêmio nos Estados Unidos. Ele não mereceu tanto destaque com os prêmios anteriores. “Ainda estou aqui” tem qualidades indiscutíveis, mesmo que não ganhe um Oscar sequer. Mas não vejo reflexos para Campos. A Escola de Cinema da Uenf, por exemplo, não depende de Hollywood, mas de verbas e de empenho dos seus professores — ressaltou o historiador e crítico de cinema Arthur Soffiati.
Página 2 da Folha Dois da edição de hoje da Folha da Manhã
Fernanda Torres foi a primeira atriz brasileira a ganhar o Globo de Ouro (Foto: Robyn Beck/AFP)
O Brasil acordou feliz na segunda (6) com a notícia da vitória de Fernanda Torres ao Globo de Ouro de melhor atriz dramática. Em meio a grandes atrizes de Hollywood como as britânicas Kate Winslet e Tilda Swinton, ou a estadunidense Angelina Jolie, todas de língua inglesa, ela levou falando português. Como tinha levado a Palma de Ouro de melhor atriz no Frestival de Cannes, com apenas 20 anos, por sua atuação em “Eu Sei Que Vou Te Amar” (1986), de Arnaldo Jabor.
Em 19 de maio de 1986, aos 20 anos, Fernanda Torres levou a Palma de Ouro de Cannes como melhor atriz, por seu desempenho em “Eu Sei Que Vou Te Amar”, de Arnaldo Jabor
Em 2024, na pele de Eunice Paiva, contida, sem exageros, como era personagem da vida real, Fernanda encarnou a viúva do engenheiro e ex-deputado federal Rubens Paiva. Que foi levado de casa por agentes armados do Estado para ser covardemente torturado e assassinado em 1971. E ter seu corpo, até hoje, desaparecido pela ditadura militar (1964/1985) que parte relevante dos brasileiros dos anos 2020 diz querer de volta.
“Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles (Foto: Divulgação)
Se o filme “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Walter Salles e baseado no livro homônimo do escritor Marcelo Rubens Paiva, filho de Eunice, não levou o prêmio de melhor filme de língua não inglesa na madrugada de segunda, o Globo de Ouro de Fernanda lavou a alma do país. De uma maneira que só a arte e o esporte são capazes de fazer. E, de quebra, no sucesso de público e crítica nacional e internacional do filme, ajuda a passar a História do Brasil a limpo.
Filho de Eunice e Rubens Paiva, e autor do livro “Ainda Estou Aqui”, que deu base ao filme homônimo, Marcelo Rubens Paiva com Fernanda Torres, Selton Mello, Walter Salles, a campista Maria Carlota Fernandes Bruno e o também produtor Rodrigo Teixeira, no Festival de Veneza (Foto: Divulgação)
A vitória de Fernandinha foi também uma “revanche” do Globo de Ouro que sua mãe, Fernanda Montenegro, concorreu na mesma categoria em 1999, por “Central do Brasil”, outro filme de Walter. Mas acabou perdendo para outra craque, a australiana Cate Blanchet. Ambas perderiam depois o Oscar para a nada mais que correta estadunidense Gwyneth Paltrow, no auge do poder de lobby da então toda poderosa produtora Miramax.
Walter Salles, o ator então infantil Vinícius Oliveira e Fernanda Montenegro com o Globo de Ouro que “Central do Brasil” levou como filme de língua não inglesa em 1999
Fernanda Torres e a produtora campista Maria Carlota Fernandes Bruno (Foto: Divulgação)
Agora, um quartel de século depois, Fernandona teve o Globo de Ouro dedicado pela filha a ela. Parece até história de Hollywood. Mas é brasileiríssima! Tanto quanto Machado de Assis, Nelson Rodrigues, Tom Jobim, Cartola, Elis Regina ou Clarice Lispector.
No próximo dia 17, saem as indicações ao Oscar. A vitória da atriz brasileira no Globo de Ouro não é garantia de nada. Mas certamente aumenta sua visibilidade. Como a necessidade dos membros da Academia do Oscar de assistir a “Ainda Estou Aqui”, que tem como produtora a campista Maria Carlota Fernandes Bruno, entrevistada pela Folha (confira aqui) em 30 de novembro.
Pelo que o filme e sua protagonista já fizeram até aqui, não há exagero em afirmar: a tricolor Fernanda Torres alcançou, no pódio das artes, altura semelhante à da ginasta do Flamengo Rebeca Andrade na história olímpica do Brasil.
Capa da Folha Dois publicada hoje na Folha da Manhã
Atriz Lúcia Talabi e os críticos de cinema Felipe Fernandes e Arthur Soffiati (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Brasil em Hollywood por atriz e críticos de Campos
Com Éder Souza
“Esse prêmio reconhece a nível global a grande atriz Fernanda Torres, como a grandiosidade da arte brasileira. ‘Ainda Estou Aqui’ traz a memória de um tempo que não pode ser esquecido. Negar a existência dos anos de ditadura é perdurar comportamentos indignos de grupos que querem, a qualquer custo, manter seus privilégios e poder de opressão. O Brasil não ter julgado e condenado os responsáveis por anos de torturas físicas e psicológicas realça a certeza de impunidade”, cobrou a atriz campista Lúcia Talabi, a partir da vitória de Fernanda Torres no Globo de Ouro de melhor atriz, pelo desempenho no filme do diretor Walter Salles.
— ‘Ainda estou aqui’ é um filme que apresenta uma família de classe média alta carioca, tentando levar uma vida leve em paralelo com toda a questão da ditadura que assolava o país. O primeiro ato revela a natureza daquela família, principalmente na construção da figura de Rubens Paiva, o patriarca. É a partir de seu desaparecimento que a verdadeira protagonista assume as rédeas da família e da narrativa. Não é um longa sobre quem é levado, mas sobre quem fica — definiu o cineasta publicitário e crítico de cinema Felipe Fernandes.
— A força do filme reside na atuação de Fernanda Torres. Com um trabalho repleto de sutilezas, em que expressão facial e corporal revela mais que os diálogos, ela entrega um trabalho em diferentes camadas. Sua personagem precisa lidar com um turbilhão de sentimentos, escondendo alguns dos filhos. A atriz tem um desempenho inesquecível — disse Felipe sobre a atuação vencedora do Globo de Ouro de melhor atriz. E projetou as chances do filme e sua protagonista ao Oscar:
— O filme chega forte na briga por pelo menos duas indicações ao Oscar: filme internacional e atriz. Na primeira, o filme vem numa crescente, com forte campanha de marketing, essencial nessa corrida. A indicação de Fernanda Torres ganhou força com sua vitória no Globo de Ouro. Ainda que a premiação não seja um forte parâmetro para o Oscar, em uma temporada com grandes atuações femininas, sua vitória põe seu trabalho e todo o filme em evidência, podendo render à atriz uma indicação — apostou o cineasta e crítico.
— As pedras no sapato do filme brasileiro são a representante da França, “Emilia Pérez”, o vencedor do Prêmio do Júri e de melhor atriz em Cannes. E Demi Moore, que chega forte pelo aclamado “A Substância” (venceu o Globo de Ouro de melhor atriz na categoria comédia, distinção que não existe no Oscar). Uma das atrizes queridinhas de Hollywood, que nunca teve muito destaque, chega com uma grande atuação. É o tipo de história que a Academia adora — ressalvou Felipe.
— Fernanda Torres tem excelente atuação. Mas não apenas. Hoje, busco no cinema algo mais que roteiro e atuação. Roteiro tem ligação com literatura e atuação com o teatro. Quero algo relacionado ao que é próprio do cinema: a fotografia em movimento. O trabalho do Walter Salles com a câmara é também bom. Ele mostra uma fotografia oscilante na primeira parte, falando com imagens que o momento é de insegurança e medo. Na segunda parte, já passada a ditadura, a câmara se estabiliza — descreveu o historiador e escritor Arthur Soffiati, que assina como crítico de cinema com o pseudônimo Edgar Vianna de Andrade.
— Até aqui, o filme só venceu em roteiro, na Europa (com Murilo Hauser e Heitor Lorega, no Festival de Veneza), e atuação, nos Estados Unidos (Globo de Ouro). O prêmio europeu nos bastaria para consagrar o filme, mas precisamos do reconhecimento dos Estados Unidos. Não é, para mim, o reconhecimento principal, mas é para o Brasil. Concorrendo com atrizes que ganham bem e contam com respaldo da indústria, Fernanda mostrou que atuação existe também fora dos EUA. Aguardemos agora o Oscar — projetou Arthur/Edgar.
Página 2 da Folha Dois de hoje, publicada na Folha da Manhã
O Botafogo foi, pela primeira vez, campeão da Libertadores da América em 2024, título mais importante dos seus 120 anos de história no futebol
Botafogo, por isso é que tu és
Os inquestionáveis 3 a 0 que levou ontem (11), no Qatar, do Pachuca, 16º colocado do campeonato do México, foi um vexame do Botafogo? Sim, foi. Isso mancha o ano histórico do clube carioca, em que conquistou com merecimento uma inédita Libertadores e um Brasileiro que não levava há 29 anos? Absolutamente, em nada!
Flamengo e Palmeiras amassados — Na balança deste 2024 perto do fim, o Botafogo está de parabéns. No Brasileiro, não apenas venceu, mas amassou os dois clubes que dividiam nos últimos 8 anos a hegemonia do futebol nacional. Em 18 de agosto, meteu 4 a 1 no Flamengo, seu maior rival regional e campeão brasileiro em 2019 e 2020. E, em 26 de novembro, deu de 3 a 1 no Palmeiras, seu maior rival nos dois últimos Brasileirões, que o clube paulistano levantou em 2016, 2018, 2022 e 2023.
Do basquete ao futebol — Em 2024, o Botafogo meio que repetiu a Palmeiras e Flamengo, no futebol, a advertência que Michael Jordan deu a Magic Johnson e Larry Bird num dos jogos-treino do Dream Team do basquete dos EUA antes das Olimpíadas de Barcelona 1992. No qual Johnson diz que Jordan deu a maior exibição de basquete que viu em sua vida. Ao final dela, como gênio dos anos 1990, quando deu ao Chicago Bulls 6 títulos da NBA, Jordan disse aos dois grandes astros dos anos 1980, nos quais não existiu final da NBA sem o Los Angeles Lakers de Magic ou o Boston Celtics de Bird:
— Vocês tiveram o seu tempo, mas tem um xerife novo na cidade.
Exorcismo — No caso do Botafogo, diferente de Jordan, bem verdade que houve titubeio. Mas após reconquistar em 2024 o Brasileiro que vencera pela última vez em 1995, além de outro, atribuído pela CBF à conquista da Taça Brasil em 1968, do qual até o Goytacaz participou, o Botafogo exorcizou seus fantasmas de 2023. Quando chegou a ter 13 pontos de vantagem, mas pipocou para perder o Brasileirão mais ganho da história. Em realidade incredível à ficção, foi a maior assombração do futebol brasileiro desde os 7 a 1 da Alemanha em 2014.
Cara e caráter de campeão — Ajustes de contas no Brasileiro ao largo, a Libertadores da América foi a grande conquista do Botafogo. Não só de 2024, mas dos 120 anos de história do clube. No 1º jogo da semifinal, goleou por 5 a 0 o copeiro uruguaio Peñarol, que vinha de eliminar o Flamengo nas quartas. Mas seria na final de jogo único, ao bater o Atlético Mineiro por 3 a 1, mesmo com um homem a menos desde os 30 segundos de jogo e sem o técnico português Artur Jorge promover substituições defensivas, que o Botafogo mostrou cara e caráter de verdadeiro campeão.
Botafoguense médio — Embora haja exceções, não é equivocado o juízo que atribui o caráter arrogante, grandiloquente e megalômano ao torcedor flamenguista médio. O que se reforça pelo fato de o Flamengo ser o clube de maior torcida e mais títulos estaduais, nacionais e internacionais entre os cariocas. Com menos títulos, em diferença agora menos longínqua, o torcedor médio do Botafogo tem características bastante semelhantes com aqueles que julgam seus maiores rivais — no antiflamenguismo que os une a vascaínos e tricolores.
Além da bipolaridade política — Essa característica botafoguense, na média arrogante do flamenguista, extrapola até a bipolaridade política do país. Pode ser um ex-marxista convertido em democrata de centro-esquerda. Que, quando se trata do seu Fogão, vira o típico tiozão de WhatsApp bolsonarista. Pode ser um profissional da saúde que negou a ciência para defender cloroquina na pandemia da Covid. E delirou com a anulação do Brasileiro que o Botafogo perdeu no campo em 2023, como com uma nova eleição presidencial após a que perdeu com Bolsonaro nas urnas em 2022.
Bravataria — Essa falta de contato com a realidade não é exclusiva à torcida pelo clube. Se repete também na torcida pela Seleção Brasileira, na qual não há torcedor mais megalômano que o botafoguense médio. A ele(a), pouco importa se o Brasil não ganha jogo eliminatório de Copa do Mundo contra uma seleção europeia desde a final vencida contra a Alemanha em 2002 — 22 anos e seis Copas atrás. Na última, umas cervejas a mais bastaram para bravatear “Brasil campeão” após a vitória de 4 a 1 nas oitavas sobre o temível esquadrão da… Coreia do Sul.
Parado no tempo de Pelé e Garrincha — É a mesma soberba tola, e em geral ébria, capaz de ver favoritismo do Brasil no futebol mundial porque “nós já tivemos Pelé e Garrincha”. Mesmo que os dois gênios, já falecidos, não joguem pela Seleção há 54 anos — mais de meio século. Independente do seu clube do coração, não há notícia de um torcedor da Hungria que julgue sua seleção favorita numa Copa do Mundo porque seu país já teve Puskás. Como não há torcedor da Inglaterra que julgue esta favorita, nem mesmo na Euro, porque seu país já teve Stanley Matthews.
Mesmo tão apaixonados pelo futebol quanto os brasileiros, até os botafoguenses, o fato é que húngaros e ingleses têm mais noção de ridículo.
Melhores no Mundial — A derrapada do Botafogo ontem contra o Pachuca o torna historicamente inferior ao Flamengo de 2019, que foi um time melhor. E também ganhou naquele mesmo ano o Brasileiro, com mais facilidade, e a Libertadores. Assim como, em resultados internacionais, o Botafogo de 2024 ficou abaixo do Palmeiras de 2021/2022 e do Fluminense de 2023. Mesmo que estes dois tivessem times tecnicamente inferiores, de futebol menos vistoso, que o atual campeão do Brasil e América do Sul.
Nas finais — O fato é que Flamengo de 2019, o Palmeiras de 2021 e o Fluminense de 2023 chegaram à final do Mundial. Em que todos perderam. Flamengo e Palmeiras ainda conseguiram jogar de igual para igual, respectivamente, contra o Liverpool (0 a 1 na prorrogação) e o Chelsea (1 a 2 também definido na prorrogação). O Fluminense também tentou jogar de igual para igual contra o Manchester City de Pep Guardiola. E tomou uma sapatada de 0 a 4.
Luso espanta chororô — Antes de o modelo da Copa do Mundo de Clubes estrear em 2025, o Botafogo foi o primeiro sul-americano a ter que disputar as quartas de final do Mundial. O Flamengo de 2019, o Palmeiras de 2021 e o Fluminense de 2023 entraram direto nas semifinais, diminuindo a possibilidade de tropeço. Que, em 2024, não deve ser justificado pelo cansaço, como o próprio Artur Jorge frisou para espantar o chororô. Como, antes do português, a pipocada no Brasileiro de 2023 não deveria ser creditada a erros de arbitragem tão supostos quanto seletivos.
Abaixo do Santos de Pelé — Pela primeira vez no último quarto de século, o Botafogo não precisa mais viver de um passado verdadeiramente glorioso, mas distante, quando deu com o Santos a base da Seleção Bicampeã Mundial em 1958 e 1962. Testemunhado por poucos torcedores ainda vivos, foi um tempo em que os estaduais de clubes importavam mais que os títulos nacionais e internacionais. A não ser ao Santos de Pelé, que superou o Botafogo de Garrincha para ser bicampeão da Libertadores e do Mundial em 1962 e 1963.
Glória presente e futuro da SAF — O Botafogo teve o melhor ano da sua história em 2024. Não precisa mais viver de ressentimento pela distância do seu passado de glória. Que, finalmente, se fez maior no presente. E mesmo sem o craque argentino Almada em 2025, quer Artur Jorge fique ou não, promete durar enquanto continuar entrando o dinheiro do controverso milionário estadunidense John Textor. Em um modelo de SAF que demanda tempo para provar ser capaz de deixar residual sustentável. E que Palmeiras e Flamengo dispensam para serem donos dos próprios narizes.
É a economia, estúpido! — O tropeço do Botafogo contra o Pachuca não macula o ano do clube brasileiro. Nem fará com que o 16º colocado do campeonato do México assuma a ponta da tabela. Na verdade, por motivos econômicos, só provou que a distância entre o futebol de clubes da Europa e o da América do Sul é muito maior do que deste para América do Norte, Ásia e África.
Novo xerife da Estrela Solitária — No Brasil e na América do Sul, no entanto, há um novo xerife na cidade. Cuja autoridade se impõe no brilho da Estrela Solitária.
“Um filme sobre uma família”. É como a produtora campista de cinema Maria Carlota Fernandes Bruno definiu duas vezes, em entrevista, o filme “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Walter Salles. Sucesso de público e crítica, no Brasil e no mundo, conta a história real da família do ex-deputado federal e engenheiro Rubens Paiva (interpretado por Selton Mello). Que é assumida por sua esposa, Eunice (na pele madura de Fernanda Torres e, já idosa, de Fernanda Montenegro), após o marido ser levado de casa por agentes armados em 1971. Para ser torturado, assassinado e ter seu corpo desaparecido pela nossa última ditadura militar (1964/1985).
Entre crueldade, perda, coragem e reconstrução, a tragédia da família e do país tem levantado prêmios em festivais internacionais. Foi selecionado pelo Brasil à disputa de uma indicação ao mais badalado deles, o Oscar. Talvez não só de filme estrangeiro, mas como a própria crítica dos EUA tem cogitado, também de atriz com Fernanda Torres, entre outras possíveis categorias. Além da performance em público e festivais de “Ainda Estou Aqui”, das chances deste ao Oscar e da própria carreira como produtora de grandes diretores do cinema nacional, Carlota falou da boa acolhida ao filme na sua Campos natal. Onde, a despeito do conservadorismo político da cidade, a evidência dos crimes da extrema-direita segue em cartaz nos cinemas.
Campista Maria Carlota Fernandes Bruno, produtora de cinema e CEO da VideoFilmes (Foto: Divulgação)
Folha da Manhã – Desde sua estreia nacional em 7 de novembro, “Ainda Estou Aqui” liderou as bilheterias do país, à frente de blockbusters de Hollywood. E superou a marca de 1 milhão de espectadores em 11 dias. Vocês esperavam tanto sucesso de público no Brasil? Como o receberam?
Maria Carlota Fernandes Bruno – Recebemos com muita alegria o público brasileiro que lotou as salas de cinema na primeira semana e continua lotando. O filme se manteve em 1º no terceiro final de semana, alcançando mais de 1,7 milhão de espectadores e batendo superproduções norte-americanas. E, esta semana, batemos 2 milhões de espectadores. É a segunda maior bilheteria de um filme brasileiro depois da pandemia.
Fernanda Torres e Maria Carlota Fernandes Bruno
Folha – O filme também tem sido muito bem recebido por críticos e festivais internacionais de cinema. Recebeu prêmios importantes nos festivais de Veneza, Vancouver, Mill Valey, Miami e Pingayo. Como foi percebida essa recepção na Itália, Canadá, EUA e China?
Carlota – O filme teve a sua estreia mundial na Competição Oficial do Festival de Veneza e ganhou prêmio de melhor roteiro. Toda premiação é sempre importante. Na sequência, o filme foi exibido e muito bem recebido em Toronto, que é uma vitrine para filmes norte-americanos e também filmes de outras latitudes. Walter, Fernanda e Selton deram muitas entrevistas e elas repercutiram bastante na imprensa norte-americana e também aqui no Brasil. O filme já foi convidado para mais de 50 festivais internacionais e ganhamos prêmios de público nos festivais de Mill Valley, nos EUA; Vancouver, no Canadá; Pessac, na França; e na Mostra de São Paulo. O que só confirma que o público em várias latitudes gosta do filme.
Folha – “Ainda Estou Aqui” foi escolhido pela Academia e Cinema do Brasil como representante do país, junto aos de outros 85, a uma indicação ao Oscar de 2025. A lista prévia sai em 17 de dezembro e os indicados serão anunciados em 17 de janeiro. Qual é a real expectativa?
Carlota – Em 23 de setembro, “Ainda Estou Aqui” foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para ser o candidato brasileiro apto a concorrer a melhor filme internacional no Oscar. Vale dizer que a comissão de 25 membros, presidida pela atriz Barbara Paz, foi uma escolha unânime, o que é raro. Com isso, Sony Classics, a distribuidora americana, inscreveu o filme na plataforma da Academia Americana como fez os outros 85 candidatos de outros países. No dia 17, sai a lista com os 15 filmes escolhidos. E, em janeiro, sai a “shortlist” com os 5 candidatos que concorrerão na categoria de melhor filme internacional. É um trabalho árduo com muitas viagens, muitos debates e muitas projeções, para fazer com que o filme seja visto pelo maior número de pessoas nos Estados Unidos e Europa.
Cartaz original de “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte, com cena de Leonardo Villar em destaque
Folha – Desde “O Pagador de Promessas” (1962), de Anselmo Duarte, o Brasil disputa o Oscar, mas nunca levou. Isso aumenta a ansiedade do país e da equipe? E a pessoal do diretor Walter Salles, que já teve “Central do Brasil” (1998) indicado ao Oscar de filme estrangeiro?
Carlota – Acho que existe uma torcida dos brasileiros e brasileiras de que o filme e também a Fernanda Torres sejam indicados. Com a internet, temos visto esse movimento acontecer de forma muito natural e com humor. Acho que existe um clima de “agora vamos trazer o Oscar para o Brasil”. Enquanto produtora do filme e CEO da VideoFilmes, eu gostaria de que o filme fosse indicado, mas o mais gratificante até agora é ver o público voltar às salas de cinema para assistir ao filme. Tomara que se crie o hábito de o brasileiro prestigiar a sua cultura e assistir a outros filmes brasileiros que estão neste momento em cartaz como “Retrato de um Certo Oriente”, de Marcelo Gomes; “Malu”, de Pedro Freire; e a animação “Arca de Noé” (de Sérgio Machado e Alois Di Leo), baseado no disco de Vinicius de Moraes; entre outros.
Vinícius de Oliveira e Fernanda Montenegro em “Central do Brasil”
Folha – “Central” também rendeu indicação ao Oscar de melhor atriz a Fernanda Montenegro. Em sua crítica à revista Deadline, Stephanie Bunbury escreveu sobre a atuação de Fernanda Torres em “Ainda Estou Aqui”: “deve catapultá-la (…) 25 anos depois de sua mãe, Fernanda Montenegro ter sido indicada ao Oscar”. Há esse critério de “justiça” visto por Hollywood?
Carlota – Não sei dizer se existe esse critério “de justiça” em Hollywood, mas acho que os brasileiros estão com esse sentimento. Aconteceu algo curioso e divertido: há alguns dias o site oficial da Academia postou uma foto da Fernanda Torres assim como de outras atrizes que participaram de um evento que se chama Governors Ball, em Los Angeles, e a foto da Fernanda teve mais de 800 mil comentários. Somos um país continental.
Fernando Alves Pinto e Fernanda Torres em “Terra Estrangeira”
Folha – A parceria de Walter com Fernanda Torres começou em “Terra Estrangeira” (1995), no que ficou conhecido como “retomada” do cinema brasileiro após o desmonte da Embrafilme no governo Collor. Em que essa química entre diretor e atriz ajudou “Ainda Estou Aqui”?
Carlota – Walter sempre diz que “Ainda Estou Aqui” é um filme sobre uma família, feito por uma família. Voltar a ter essa parceria artística com as duas em um mesmo filme é muito especial na carreira dele. E é sobre isso que as longas parcerias dizem respeito, criar uma família fílmica.
Folha – Além das categorias filme, filme estrangeiro, atriz e diretor, outras indicações ao Oscar são consideradas possíveis a “Ainda Estou Aqui”: roteiro adaptado (Heitor Lorega e Murilo Hauser), ator coadjuvante (Selton Mello) e edição (Affonso Gonçalves). O que vocês projetam?
Carlota – As ações feitas pela Sony Classics são as mesmas, o filme tem que ser visto para ser promovido. Através das sessões e do boca a boca, o filme vai ganhando espaço em outras categorias. O que ajuda nas demais categorias são críticas e prêmios técnicos, isso alavanca as possibilidades do filme.
Filho de Eunice e Rubens Paiva, e autor do livro “Ainda Estou Aqui”, que deu base ao filme homônimo, Marcelo Rubens Paiva com Fernanda Torres, Selton Mello, Walter Salles, a campista Maria Carlota Fernandes Bruno e o também produtor Rodrigo Teixeira, no Festival de Veneza (Foto: Divulgação)
“Na Estrada”, adaptação dirigida por Walter Salles do romance “On the Road”, de Jack Kerouac
Folha – Numa adaptação de época impecável, como foi a produção entre você, Walter, Rodrigo Teixeira e Martine de Clermont-Tonnerre? Como foi sua trajetória pessoal e profissional de Campos à produtora de um dos maiores cineastas do Brasil? Como funciona essa parceria?
Carlota – Walter não atua como produtor, ainda que a VideoFilmes seja uma das produtoras do filme. A relação com Martine vem de longa data, ela foi a coprodutora francesa de “Central do Brasil”. Rodrigo é um produtor que tem uma expertise internacional, pois produz filmes aqui no Brasil, nos EUA e na Europa, e veio para somar. Com relação à minha trajetória, estou há 35 anos na VideoFilmes. Ao longo desses anos, fui crescendo profissionalmente com a confiança que tanto Walter como seu irmão João (Moreira Salles, cineasta documentarista, produtor e fundador da revista “Piauí”) depositaram em mim. Comecei como assistente pessoal do Walter e durante anos pude acompanhá-lo nas produções no Brasil, como também no exterior, com “Diários de Motocicleta” (2004), “Água Negra” (2005) e “Na Estrada” (2012). Essas experiências me deram estofo e, em 2011, assumi a VideoFilmes como diretora executiva e desde então venho produzindo documentários como “No Intenso Agora” (2017), do João; “Últimas Conversas” (2015), do mestre Eduardo Coutinho; “Jia Zhangke, Um Homem de Fenyang” (2014), do Walter; e “Marinheiro das Montanhas” (2021), de Karim Aïnouz.. Nesse momento estou produzindo o novo documentário de Marcelo Gomes sobre Sidarta Ribeiro (neurocientista brasileiro) e outro sobre ativista indígena Txai Suruí e seu pai, o cacique Almir, codirigido por João e o coletivo de indígenas. Também sou produtora da animação “Arca de Noé”, dirigido por Sérgio Machado e Alois di Leo. Ao longo dos anos, a VideoFilmes também fez algumas coproduções nacionais e com a Argentina. Este ano, além de “Ainda Estou Aqui em Veneza”, sou produtora associada de “Manas”, primeiro longa-metragem de Marianna Brennand. Como “Ainda Estou Aqui”, “Manas” também foi premiado em festival. No momento também estou coproduzindo, junto com Joana Mariani e Eliane Ferreira, o longa-metragem “Cyclone”, longa de ficção ambientada na São Paulo de 1929. Enfim, posso dizer que é parceria longeva, gratificante que envolve confiança, admiração e respeito de ambos os lados.
Selton Mello e Maria Carlota no Festival BFI de Londres (Foto: Divulgação)
Folha – Em Campos, Bolsonaro teve mais de 63% dos votos válidos no 2º turno a presidente em 2018, quando venceu, e em 2022, quando perdeu. E, a despeito do conservadorismo político da cidade, o filme também foi sucesso de público e segue em cartaz. Como campista, qual sua visão?
Carlota – Fiquei muito feliz quando soube que tivemos 40% a mais de campistas que foram assistir ao filme. O filme é acima de tudo sobre uma família, ou melhor sobre uma mulher forte e altiva, Eunice Paiva, que teve que se reinventar quando o marido é levado de casa sem nenhuma explicação e nunca mais retornou. É sobre a luta dela para conseguir ter um atestado de óbito, 25 anos depois do desaparecimento do Rubens Paiva. E também por ter se tornado uma advogada defensora da causa indígena e, acima de tudo, por manter a família unida que ficou órfã desse pai. Essa história poderia ter acontecido com qualquer família. Para mim, cinema, a arte em geral, está acima de qualquer viés ideológico. Como campista, só tenho a agradecer a cada campista que já assistiu e ainda vai assistir ao filme na tela de cinema.