Brasil em clima de Copa do Mundo com “Ainda Estou Aqui”

 

Filme de Walter Salles baseado em romance homônimo de Marcelo Rubens Paiva, “Ainda Estou Aqui” disputa neste domingo o Oscar de filme, filme internacional e atriz, com Fernanda Torres

 

Desde 23 de janeiro, quando foram divulgados os indicados ao Oscar, com “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, concorrendo a filme, filme internacional e atriz com Fernanda Torres, o clima no Brasil é de Copa do Mundo. A indicação a melhor filme, junto aos de língua inglesa, é a primeira do cinema da América do Sul nos 96 anos de história do Oscar. Mas onde “Ainda Estou Aqui”, que tem como produtora a campista Maria Carlota Fernandes Bruno, estará na entrega do maior prêmio de Hollywood, na noite deste domingo (2) de carnaval?

A maior chance do longa brasileiro, baseado em uma história real que revela a crueldade homicida da nossa última ditadura militar (1964/1985), é na categoria de filme internacional. Onde seu principal concorrente, o filme francês “Emilia Pérez”, em ambientação no México bastante criticada pelos mexicanos, tem sofrido reveses com declarações xenófobas do seu diretor, Jacques Audiard, e da sua protagonista, a atriz espanhola trans Karla Sofía Gáscon. Que também concorre com Fernanda Torres como atriz, categoria que tem a estadunidense Demi Moore, por sua atuação em “A Substância”, de Coralie Fargeat, apontada como favorita.

Fernanda Torres com seu Globo de Ouro de melhor atriz dramática

Entre torcida e projeções realistas, com base em todas as premiações mais importantes anteriores ao Oscar, incluindo o Globo de Ouro de Fernanda como atriz dramática, o que se pode esperar da premiação na noite de amanhã? No maior prêmio da indústria cinematográfica que tem como característica a surpresa, com injustiças históricas entre vencedores e perdedores?

Para tentar responder a essas perguntas, o programa Folha no Ar de ontem (28), na Folha FM 98,3, ouviu o cineasta, produtor e doutorando em sociologia da Uenf, Fernando Sousa; a médica e cinéfila Bárbara Gazineu; e o estudante de letras e crítico de cinema Lucas Barbosa. Como entrevistará no programa de segunda (3), já com os resultados do Oscar, o historiador e crítico de cinema Arthur Soffiati, o cineasta e crítico de cinema Felipe Fernandes e o cineasta Carlos Alberto Bisogno. À Folha Dois, estes três últimos anteciparam seus palpites:

Arthur Soffiati

— Como os festivais dos Estados Unidos são muito contaminados por formas de compensação e de ficar bem com todos, temo que se entenda Fernanda Torres como já contemplada como melhor atriz (dramática) no Globo de Ouro. Chance real, ela tem, mas, pelo sistema de compensação, o Oscar de melhor atriz pode ir para Karla Sofía Gáscon, de “Emilia Pérez”, ou para Demi Moore, de “A Substância”. “Ainda Estou Aqui” pode ser compensado como o melhor filme internacional — projetou Arthur Soffiati.

Felipe Fernandes

— Com suas 13 indicações ao Oscar e prêmios em outras competições importantes, era esperado que “Emilia Pérez” fosse o grande favorito na categoria filme internacional, situação que vem caindo pelas polêmicas envolvendo alguns de seus realizadores. Com seu lançamento em diversos mercados ao redor do mundo, obtendo números excelentes, “Ainda Estou Aqui” chega forte na briga e para muitos, inclusive, para mim, se tornou o favorito da categoria. O Brasil nunca esteve tão perto do seu primeiro Oscar. Na categoria de atriz, a movimentação pelo prêmio de Fernanda Torres é imensa. Elogiada mundo afora, sua impressionante atuação chega com justiça entre as indicadas, mas não deve levar o prêmio. Hollywood adora histórias de atores/atrizes que passam anos no segundo escalão e ressurgem em alguma obra com destaque no Oscar. Foi assim com Brendan Fraser em 2023 e muito provavelmente será com Demi Moore em 2025 — comparou Felipe Fernandes.

Carlos Alberto Bisogno

— “Ainda Estou Aqui” tem boas chances na categoria filme internacional, mas enfrenta forte concorrência, especialmente do francês “Emilia Pérez”, que venceu o Globo de Ouro e outros prêmios importantes. No entanto, as controvérsias em torno desse filme podem favorecer o longa brasileiro. Outros concorrentes, como “Flow”, da Letônia, e “A Semente do Fruto Sagrado”, da Alemanha, também são bem cotados. Para atriz, Fernanda Torres é uma das favoritas. Sua performance foi amplamente elogiada, e ela já venceu o Globo de Ouro e o Satellite Award. No entanto, enfrenta forte concorrência de Demi Moore, por “A Substância”, cuja atuação também tem sido muito destacada — antecipou Carlos Alberto Bisogno.

Lucas Barbosa

— Estou otimista em relação ao Brasil no Oscar. Nas três categorias (em que “Ainda Estou Aqui” foi indicado), a mais provável de ganhar é filme internacional. Eu boto minha mão no fogo que a gente vai levar esse Oscar. O outro grande candidato, que era “Emilia Pérez”, perdeu muita força. Não só por conta dos tuítes da Karla Sofía Gáscon sobre questões delicadas (islamofobia, xenofobia e racismo), mas pelos tuítes que ela fez sobre a Academia, sobre a própria premiação do Oscar (criticando sua diversidade). Isso pegou mal entre os votantes. Quando “Ainda Estou Aqui” foi indicado a melhor filme, acendeu uma luz: o Brasil vai levar o prêmio de melhor filme internacional. O prêmio de melhor atriz, realmente, é mais difícil. Demi Moore é a franca favorita — disse Lucas Barbosa ontem no Folha no Ar.

Bárbara Gazineu

— Assisto ao Oscar há muitos anos e ele é sempre imprevisível, mas este de 2025 é especial. A Academia, depois de muita crítica, ampliou muito o quadro de votantes e a ala internacional desses votantes. Acho que o Brasil já fez história. A última indicação (a filme internacional) do país foi em “Central do Brasil”, em 1999. E nunca um filme brasileiro (e sul-americano) foi indicado a melhor filme. Das três indicações (de “Ainda Estou Aqui”), acho que a mais provável é filme internacional. Embora esses incêndios em Los Angeles tenham ampliado o tempo de votação e a Fernanda Torres apareceu. Até dezembro, ela não era nem conhecida. E ela foi aparecendo, ganhou o Globo de Ouro (de atriz dramática), que deu muita visibilidade. Ela tem dado muita entrevista, é muito carismática. Mas acho que este é o ano da Demi Moore, ela é a superfavorita, ganhou a maior parte dos prêmios — lembrou Bárbara Gazineu na Folha FM.

Fernando Sousa

— Sou otimista e acredito na força de Fernanda Torres, na força dela no filme. Essa cena da sorveteria (sem diálogos, só com a expressão facial e corporal da atriz, após a personagem saber que seu marido foi assassinado pela ditadura), ela pega. É a câmera, a narrativa está na câmera, na fotografia, no olhar, nas sutilezas dos gestos; está tudo ali. Por essa cena “Ainda Estou Aqui” já merece o prêmio. O filme tem um apelo muito contemporâneo, é um drama que não é somente brasileiro, é o drama das eleições da Alemanha (do último da 23, onde a extrema direita teve sua maior votação naquele país desde as eleições de 1932, que levaram os nazistas e Adolf Hitler ao poder), do recrudescimento desse autoritarismo. E “Ainda Estou Aqui” tem uma sacada sobre isso com a história de uma família. Que é uma família brasileira, mas poderia ser de qualquer outro lugar sob regime autoritário. Acredito muito no (Oscar de) filme internacional. E acho que Fernanda Torres pode surpreender muito positivamente. Estamos na briga. Estamos muito bem na briga — apostou Fernando Sousa no Folha no Ar.

 

Capa da Folha Dois da edição de hoje da Folha da Manhã

 

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