Crítica de cinema — Animação e história: ficção mostra a realidade

Bagdá Café

 

cada um na sua casa

 

Mateusinho 4Criadora das aclamadas sequências “Shrek”, “Madagascar”, “Kung Fu Panda”, a americana DreamWorks Animation voltou à cena, após “Os Pinguins de Madagascar” e uma crise gerada por prejuízos em bilheterias e demissões no último ano, com a animação “Cada um na sua casa”. Dirigida por Tim Johnson, a produção americana conta com vozes de Rihanna, Jim Parsons, Jennifer Lopez e Steve Martin.

Após uma ameaça de invasão dos inimigos górgons, os extraterrestres boovs se dirigem para o planeta Terra. Ao chegarem, os novos habitantes retiram os humanos de suas cidades e os enviam para outros locais. Dominados os “selvagens nativos”, conforme afirma o capitão dos boovs, Smek, o grupo assume residências, ruas e a nova realidade em um local estranho e distante de sua origem. O líder acredita que os humanos precisam de seus ensinamentos por serem simples e atrasados. Entretanto, a adolescente Tip e seu gatinho de estimação continuam na Smeklândia, novo nome dado a Terra. Em sua busca pela mãe, a menina encontra Oh, um boov que se une a ela por estar fugindo dos alienígenas.

Composta por cenários coloridos e bonecos que mudam de cor de acordo com o humor — característica semelhante a personagens da saga “Harry Potter”, da britânica J.K. Rowling —, a animação faz alusão, de maneira lúdica e leve, a importantes questões históricas e sociais, como a ocupação indevida de terras por grupos que julgam inferiores as pessoas que as habitam. Ao pousarem no planeta Terra, os boovs iniciam a colonização — termo, inclusive, utilizado no filme — com o intuito de dominação e modificação de hábitos e costumes. A fuga dos ETs, que se desesperam com medo de uma invasão de górgons, traz à memória a vinda da Família Real para o Brasil, em 1808. A mesma atitude de entrega e covardia (um dos lemas dos extraterrestres, junto à ideia de liderança, fuga e “picar a mula”) é um dos pontos da ficção e de certos acontecimentos da História do Brasil.

Depois de fugir de Portugal devido a ameaças do francês Napoleão Bonaparte, a corte aportou em Salvador e, em seguida, no Rio de Janeiro, onde permaneceu até 1822. A estada dos portugueses trouxe prejuízos — principalmente financeiro — para a população, cuja essência havia começado a ser dizimada com a colonização do país, nos anos de 1500. Este pode ser considerado outro aspecto comum ao filme e a fatos do Brasil. Na terra recém-descoberta, os colonizadores passaram por uma fase de estranhamento quanto ao comportamento e ao hábito dos nativos, assim como os boovs em relação à cultura humana, e tentaram modificar a realidade na qual eles viviam. Em determinada cena, Oh, sem saber a real função dos objetos terrestres, transforma rolos de papel higiênico em enfeites para festa. Os sentimentos que envolvem as pessoas também são desconhecidos pelo grupo dos extraterrestres.

Em diferentes momentos da animação, os alienígenas mudam as principais características das cidades em que chegam, após realocarem as pessoas, por se considerarem os únicos capazes de decidir o que pode ser útil ou não. É feita a retirada de bicicletas, lixeiras e outros objetos comuns à vida humana, mas não à boov. Eles fogem dos górgons tal como os portugueses fugiram de Napoleão Bonaparte por medo de terem suas terras dominadas.

O exercício de estranhamento a partir do ponto de vista dos boovs, no entanto, é uma atividade interessante para que crianças e adultos possam compreender e aceitar as diferenças entre os inúmeros grupos sociais existentes no planeta Terra, colaborando, mesmo indiretamente, para ajudar a manter as peculiaridades e a história de cada ser humano.

A partir da mudança do ponto de vista de Oh quanto à transferência dos extraterrestres para a Terra — a suposta atitude certa do capitão Smek se torna errada a partir da ampliação do conhecimento do boov sobre a espécie humana — e o respeito com que ele trata a adolescente Tip, “Cada um na sua casa” oferece ao público, em aproximadamente 1h30, momentos de ensinamentos que tornam a diversão na sala de cinema adequada para reflexões.

 

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Crítica de cinema — Um robô trapalhão

Cinematógrafo

 

Chappie

 

Mateusinho 3Chappie — Nos filmes produzidos ou coproduzidos nos Estados Unidos, os ETs vêm à Terra para pilhá-la, salvá-la ou transformá-la em campo de batalha sideral. Particularmente num, eles vêm fugidos da miséria e se instalam na África do Sul, residindo e favelas paupérrimas e sendo discriminados por brancos e negros. O filme é um libelo ao racismo, mostrando que ele é um fenômeno de que qualquer ser humano pode ser vítima, ao mesmo tempo que está muito arraigado nas sociedades. Foi com este assunto que o diretor sul-africano Neill Blomkamp. estreou no cinema. Seu filme “Distrito 9” tornou-se um clássico. Em seguida dirigiu “Elysium” (2013). Cooptado pelo cinema dos Estados Unidos, ele volta com “Chappie”, com roteiro do próprio Blomkamp e de Terri Tatchell. O filme é desenvolvimento do curta “Tetra Vaal ”, dirigido pelo diretor em 2004.

Ambientado em Joanesburgo, África do Sul, ele mostra o profundo contraste entre ricos e classe média, morando no miolo de uma cidade tipicamente ocidental, e os pobres, morando em favelas piores que as do Rio de Janeiro. A atividade dos favelados que chama a atenção no filme é a transferência de renda por meio de violência. São as gangues armadas, distintas das gangues de gravata que também transferem renda por meio da corrupção no Brasil.

Diante de tamanha violência, uma empresa (Tetra Vaal) é contratada pelo governo para cuidar do policiamento da cidade, substituindo os policiais humanos por androides. Resolve-se o problema? Evidente que não. Como não há nenhum programa de promoção social, a marginalidade continua, só que agora combatida por super-policiais que podem ser destruídos sem que os humanos sofram com a morte de pessoas. Basta reparar os robôs danificados ou simplesmente substituí-los por outros.

A empresa é dirigida por Michelle Bradley (Sigourney Weaver) e nela trabalham o jovem engenheiro Deon Wilson (Dev Patel), que deseja dotar os androides de consciência e sentimentos humanos, o militar aposentado Vincent Moore (Hugh Jackman), empenhado em desenvolver um super-robô que superará os que estão em operação. Deon consegue alcançar seu intento e cria um androide humanizado semelhante a Pinóquio, como observou Gustavo Oviedo. Ele, porém, é sequestrado por três facínoras, entre eles uma impiedosa mulher. O robô é criado pela trinca e toma a mulher e um homem como pais, reconhecendo que Deon é seu criador.

Depois de cometer vários crimes, o androide adquire plena autonomia e muda para o lado do bem. A ideia de criar um robô plenamente humano seria boa se já não tivesse sido pensada muitas e muitas vezes antes. O diretor declarou numa entrevista que desejou colocar em discussão a questão da consciência. Tudo bem, mas ele passa ao largo das neurociências nesta discussão. Provisoriamente (porque em ciência tudo é provisório), tem-se por assentado que a consciência é uma emergência imaterial do supercomplexo cérebro humano, formando ao longo de pelo menos sete milhões de anos, sem considerar a história anterior do cérebro animal. Em outras palavras, o cérebro humano é material, ocupa quase todo espaço da caixa craniana, pode ser tocado e cortado quando exposto. A consciência e os sentimentos humanos podem ser externados, mas não tocados. São, portanto, imateriais, mas intimamente ligados ao cérebro como emergências de seu funcionamento hipercomplexo.

A criação de uma consciência artificial e externa ao ser humano não é trabalho de engenheiros, mas de neurocientistas, que não têm esperança de conseguir um dia o êxito do engenheiro Deon. As máquinas naturais não podem ser igualadas por máquinas artificiais. Por isso, o filme soa superficial e imaturo. Também não convincente com uma mulher cruel transformando-se numa doce mãe de um robô. Para falar a verdade, até mesmo meio caricato ao tornar uma mulher endurecida pela sobrevivência em meio violento numa terna e carinhosa mãe. Meio maniqueísta em traçar em linhas claras a distinção entre um engenheiro do bem lutando contra um militar do mal. Em simplificar a consciência humana num programa que pode ser armazenado num pendrive e transferido para robôs ou vice-versa. Mas o contato com más companhias pode influenciar uma pessoa. Parece que ficou meio enlatado ao ser cooptado pelos Estados Unidos. Enfim, “Chappie” é um filme mal resolvido.

 

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Crítica de cinema — Muita ação, veículos de sonhos e destreza surreal em 3D

Colyseu

 

 

Velozes e furiosos 7

 

Mateusinho 4Velozes e furiosos 7 — Poucos objetos promovem tanta sedução quanto os carros fazem com os homens . O carro seduz porque é uma espécie de extensão do corpo. Dá a sensação de que o indivíduo se torna mais potente, menos lento, mais robusto, menos vulnerável.

A sedução passa, primeiramente, pela potência do motor. Curiosamente, a unidade de medida dos motores é “cavalo de força”. Uma alusão à masculinidade dos equinos e a força de seus corpos. Quanto mais cavalos um motor possui, mais virilidade sugere. Corridas de carro são mania mundial. A relação entre velocidade e masculinidade já mereceu estudos psicológico-comportamentais interessantes.

Para o psicólogo Francesco Albanese, que há anos estuda psicologia do trânsito, é preciso voltar a Freud e à psicanálise. Por estar associado subjetivamente a atributos considerados viris, como velocidade e potência, o carro se presta melhor a ser alvo de um processo de identificação masculina. E onde há identificação, há projeção da própria personalidade. Há, porém, uma explicação neurobiológica para o fascínio pelas altas velocidades: a consciência (ainda que parcial) do risco desencadeia no organismo reações neurológicas e hormonais. A elevação dos níveis de adrenalina induz à hiperatividade do sistema nervoso e confere uma espécie de euforia artificial que, para alguns, pode resultar em satisfação. O carro dá ao motorista a oportunidade de experimentar seu corpo elevado a velocidades que, por si só, não alcançariam. Correr faz parte do sonho humano por superação.

Nas telas, o fascínio por automóveis e velocidade já foi explorado em produções  de grande sucesso  como  “Juventude transviada”(1955) com James Dean ao volante de um Chevrolet Special Deluxe 1941 ; “Viva Las Vegas”(1964), com Elvis Presley; na série 007, com Sean Connery e outros atores no papel do agente secreto James Bond; na comédia dirigida por Robert Stevenson “Se meu fusca falasse” (1968) e na animação japonesa “Speed Racer”(60’/70’) com seu poderoso Mach5.

O estúdio Universal Pictures lançou o 7º filme da sua franquia “Fast and furious”, “Velozes e Furiosos 7” no Brasil. Com direção de James Wan (de “Jogos Mortais”,de 2004; e “Invocação do Mal”, de 2013) e produção de Michael Fottrell, Vin Diesel e Neal H. Moritz, que contaram com US$ 230 milhões para manutenção do elenco, efeitos em 3D, equipes de dublês, locações maravilhosas e muito carro bacana para destruir. Segundo o Wall Street Journal os veículos foram destruídos durante as filmagens do longa em Colorado, Atlanta e Abu Dhabi. A lista dos possantes que foram para o ferro-velho é de deixar qualquer apaixonado por carros babando: foram muitos Mercedes-Benz, um Ford Crown Victoria e um Mitsubishi Montero.

No elenco, atores já conhecidos dos filmes anteriores da franquia como Vin Diesel (“O Resgate do Soldado Ryan”, de 1998; “Eclipse mortal”, de 2000; e “Riddick — A ascensão”, de 2013) é o alpha da equipe motorizada Dominic “Dom” Toretto. Diesel, além de protagonista, é produtor da franquia V&F. Paul Walker (“ Mergulho radical”, de 2005; “Contagem Regressiva”, de 2013 e “Distrito 13”, de 2013) vítima fatal de um acidente automobilístico em novembro de 2013, antes do fim das filmagens, é Brian O’Conner , bem treinado e corajoso membro da equipe de Dom, viciado em adrenalina com dificuldades em levar uma vida tranquila com sua esposa, Mia Toretto, interpretada pela bela atriz panamenha (filha da modelo brasileira Maria João Leão de Souza) Jordana Brewster (de “Uma história a três”, de 2001; e Annapolis, de 2006). Jason Statham (ator e lutador de artes marciais britânico – “Collateral”, de 2004, “Carga Explosiva” de 2002, 2005 e 2008; além de “Os Mercenários”, de 2010, 2012 e2014) é o frio e explosivo vilão Deckard, que não deixa nada de pé em busca de sua vingança. Dwayne Johnson ou The Rock (“A Rocha” — ex jogador de futebol americano e lutador de wrestling profisssional  (“O escorpião rei”, de 2002; e “Hércules”, de 2014) interpreta o chefe da agência de inteligência norte americana Luke Hoobs (Tyrese Gibson de “Transformes”, de 2007; e “Legião”, de 2009) como o engraçadinho Roman Pearce ( Ludacris, ator e rapper americano) de Tej, o especialista em tecnologia. Michelle Rodriguez (“Girlfight”, de 2000; “Residentl evil”, de 2002; “Avatar”, de 2009 e “Resident evil: Retribution”, de 2012) como Leticia “Letty” Ortiz, esposa de Dom que sofre de amnésia temporária. Nathalie Emmanuel (“Twwnty8k”, de 2012; e “Games of thrones”, de 2013) como a toda linda hacker Megan, criadora do programa “Olho de Deus”, que consegue acessar  todas as câmeras de vigilância e celulares do mundo. Participação de Kurt Russell (“Fuga de Nova York”, de 1981; “Stargate”, de 1994; e Vanilla Sky”, de 2001) de Mr.Nobody.

Na trama, a equipe motorizada de Dom precisa resgatar a hacker, que está nas mãos de uma gangue também motorizada, e o dispositivo contendo o programa Olho de Deus, para deixarem de ser a caça e virarem caçadores do vilão vingativo e explosivo Deckard. Além das várias explosões, muitos tiros e lutas corporais eles encenam um salto de um avião, com seus carros mexidos, de paraquedas.  A seguir, aterrissam em estrada sinuosa no alto de montanha no Azerbaijão entre floresta e precipícios. Aprontam na festa de arromba do príncipe árabe (estilo ostentação) conseguindo, com um super-carro (Lykan Hypersport – de 0 a100 Km/h em menos de 3 segundos e valor US$ 11 milhões),  voar entre o alto de três torres em Dubai, acabando em uma galeria de arte da terceira torre, atropelando estátuas de terracota chinesas. O grand finale fica para as cenas noturnas nas ruas de Los Angeles, onde a equipe está em casa. A disputa entre a turma de Dom e os vilões, envolve carros preparadíssimos (claro), drones e helicópteros hiper armados. As perseguições e combates destroem com força as ruas e prédios da cidade para no final amansar em uma praia pacata da República Dominicana. Os efeitos convincentes em 3D, os super-carros, as locações, as lindas moças e o número generoso de cenas de ação com lutas entre os fortões, tiroteios, explosões e perseguições com destrezas surreais, deixam os espectadores fixados na tela.

A antiga fórmula da franquia continua dando  certo. Acrescido da comoção com o falecimento do astro Paul Walker, “Velozes e Furiosos 7”  se transformou correndo (com trocadilho) no líder de bilheteria 2015 em mais de 67 países, e a arrecadação já passa do bilhão de dólares. Pule de 10 a produção de 8º filme.

Seguro que a diversão e adrenalina são garantidas.

 

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Soffiati, meu capitão, lança livros sobre Sete Capitães e manguezais

Charge de Marco Antonio Rodrigues
Charge de Marco Antonio Rodrigues

A vantagem de uma formação autodidata é a livre escolha dos mestres. A maior parte dos meus, conheci apenas pelas obras, sem qualquer dimensão pessoal que as excedesse. Rara e prazenteira exceção é o historiador, professor, escritor, ambientalista e crítico de cinema Aristides Soffiati, sujeito que amo como a um irmão e respeito como maior intelectual vivo destas terras de planície cortadas pelo Paraíba do Sul. Por e-mail, ele avisa que estará lançando dois livros no próximo dia 8 de maio, a partir das 17h30, no auditório da Universidade Federal Fluminense (UFF) em Campos, da qual se aposentou como professor: “Roteiro dos Sete Capitães” e “Pé no Mangue”.

O primeiro se trata de uma análise crítica, sob a ótica da história e da geografia, do documento original do séc. XVII no qual um escrivão anônimo narra as três expedições portuguesas sobre as terras que depois viriam a se tornar Campos dos Goytacazes. Soffiati, a quem não sem motivo chamo de meu capitão, refez a pé, nos anos 1980, o roteiro daqueles que nos colonizaram mais de 300 anos antes, e assina o livro junto com Adelmo Henrique Daumas Gabriel, Margareth da Luz, Roberto B. Freitas, Fabiano Vilaça dos Santos e Paulo Kanus. O segundo é uma coletânea de artigos acadêmicos sobre uma das obsessões de Aristides: os manguezais, berçários da vida do rio e do mar.

Confira abaixo as capas dos livros e o vídeo da pertinente cena final do filme “Sociedade dos Poetas Mortos” (1989), do mestre australiano Peter Weir:

 

Roteiro dos Sete Capitães

 

 

Pé no Mangue - capa

 

 

 

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Poema do domingo — Ivan Junqueira

“O abraço”, óleo sobre tela de 1917, de Egon Schiele
“O abraço”, óleo sobre tela de 1917, de Egon Schiele

 

 

Quando solene e agudo

 

Quando solene e agudo eu te penetro,

mais agudo que o gume de uma adaga,

e à tua ilharga, que de suor se alaga,

me enlaço como quem abraça um cetro,

e lambo a tua espádua que naufraga

sob o sêmen fugaz com que perpetro

em ti o que não falo ou mal soletro

tal o peso do pasmo que me esmaga,

sou como um rei na cripta de uma vaga

cuja espuma engalana cada imagem

ou palavra que ruge na voragem

das páginas sagradas desta saga.

Quando me afundo em ti, útero adentro,

como Deus, numa esfera, estou no centro.

 

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Artigo do domingo — Tempo (e dinheiro) perdido

A persistência da memória - Salvador Dali
“A persistência da memória”, óleo sobre tela de 1931, de Salvador Dali

 

 

Por Ricardo André Vasconcelos(*)

 

Com a sucessão de 2016 às portas, a palavra de ordem no califado da Lapa é recuperar terreno perdido no desgaste de sete anos de uma administração que vinha superando a falta de criatividade com abundância de recursos. Com a nova realidade imposta pela queda dos preços do petróleo e a recessão iminente com a paralisia do governo Dilma, o dinheiro jorra com menos intensidade, mas como eleição não espera, tem data certa e o projeto político do grupo que retomou a Prefeitura em 2008 passa, obrigatoriamente, pela manutenção do poder, é preciso fazer alguma coisa.

Para isso, o governo Rosinha & Garotinho está saindo dos gabinetes e mostrando a cara nas ruas, organizando ações itinerantes, como vem fazendo há semanas a secretaria de Educação com ações nas escolas aos sábados. Da mesma forma, há movimentação nos 18 condomínios onde foram assentadas cerca de 6 mil famílias no projeto batizado de “Morar Feliz”. Em nenhuma das novas comunidades — algumas com até oitocentas famílias — foi instalada creche, escola ou posto de saúde, mas o “Viver Feliz”, que é  uma espécie de “prefeitura itinerante”, vai levar a essas comunidades, serviços como segunda via de carteira de identidade, plantio de árvores, preparação de currículos…. Tudo com custo perto de zero, muita gente na rua, o indispensável foguetório e algum serviço à população. Melhor que nada.

Além disso, outras áreas como as fundações dos Esportes e Jornalista Oswaldo Lima, estão sendo cobradas a implantar projetos simples, baratos e de grande repercussão. Na falta de dinheiro para grandes shows, a cobrança é por criatividade. Tirar o assento dos gabinetes refrigerados e enfrentar o mormaço de outono é a ordem geral. Daqui para frente a cobrança será mais contundente e aguente quem quiser contracheque no final do mês. Quem se banqueteou com as carnes, agora se contente com os ossos. E com um sorriso sincero na cara, mesmo para aqueles que tiveram redução de salário na reforma administrativa confirmada pelo decreto 088/2015, publicado na última sexta-feira.

A decisão de botar o governo na rua é a marca da volta do Garotinho ao comando efetivo da tropa. Ele avalia, com a concordância geral de qualquer um que preste a mínima atenção ao paquidérmico governo Rosinha, que na falta de recursos para obras, a solução é compensar com a presença física da administração nas ruas. Pelas contas alardeadas pelo próprio secretário de Governo e prefeito em exercício de fato, a Prefeitura de Campos deve arrecadar menos R$ 1 bilhão em relação ao ano passado neste ano de 2015 e no próximo, o ano da eleição, a perspectiva é tão sombria quanto. Contas feitas com mais isenção apontam que, na verdade, a redução existe e o tamanho dela é o suficiente para uma economia agora para gastar na hora certa (certa para eles!). Se o preço é ver pais mendigando, pelas redes sociais, assistência médica para suas crianças enfermas, remedia-se, se der tempo.

E a receita para atravessar a crise é a de sempre: militância do contracheque na rua e mídia aliada generosamente paga no rádio e TV trombeteando o que o governo fez ou pretende fazer, além da velha cantilena dirigida aos antecessores. A novidade é a tentativa de intimidar os que têm coragem de discordar dessa turma. Ameaçam jornalistas e blogueiros com processos (aqui, aqui e aqui), como se a Justiça fosse — a exemplo da Câmara Municipal — também um apêndice do Centro Administrativo da Prefeitura, um puxadinho do Cesec. Enganam-se: vocação de indústria dos processos é a falência.

Os motivos para o desgaste vão além dos sete anos de governo. Tem a demissão de cinco mil terceirizados, obras paradas (outras arrastadas), além de um trabalho de uma oposição em ascensão que soube explorar alguns pontos fracos da administração Rosinha como a falta de transparência, gastança generalizada e sucateamento da Saúde. Isso tudo no governo que teve mais recursos na história de Campos. A decantada experiência de dois ex-governadores no comando da prefeitura foi demolida pela realidade. Em sete anos passaram pelas suas mãos cerca de R$ 15 bilhões de reais  (soma dos sete orçamentos) sem que nenhuma obra estruturante fosse realizada pensando a cidade para as próximas décadas.

Excetuando obras como os bairros legais (que sempre precisarão de outras obras de manutenção e reformas) e as casas populares (6 mil das 10 mil previstas estão prontas), o que se viu foi uma gastança desenfreada nos últimos sete anos: Sambódromo de R$ 100 milhões para seu utilizado uma vez por ano; enfeite milionário da Beira-Valão e a Cidade da Criança (orçada em R$ 10 milhões e já está em R$ 16 milhões), são apenas alguns exemplos das prioridades de uma administração mais preocupada no alarido imediato que no futuro. O que interessa, para eles, é o voto na próxima eleição e não a cidade que teremos na próxima década.

Quando fizerem um balanço histórico dos últimos anos do século XX e os primeiros deste, serão debitados na conta do garotismo muitos dos males que assolarão as gerações futuras como reflexo das ações não realizadas enquanto havia recursos de sobra.

O julgamento da história é implacável.

 

(*) Jornalista e autor do blog Eu Penso Que…

 

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Sob ajuste fiscal, Brasil real tem certeza, enquanto Brasil oficial ainda não sabe o que fazer

Vergonha na cara 1

 

 

Jornalista Ruy Fabiano
Jornalista Ruy Fabiano

Os dois Brasis

Por Ruy Fabiano

 

Há evidente descompasso entre as ruas e o discurso parlamentar. Mesmo agora, com novas denúncias – as pedaladas fiscais do governo Dilma, o rombo gigantesco nos fundos de pensão das estatais e a prisão do tesoureiro do PT —, a oposição ainda hesita quanto à hipótese do impeachment.

O “Fora Dilma”  a incomoda tanto quanto ao PT. Mais: não obstante tenha ingressado na Justiça Eleitoral com um questionamento à lisura das urnas eletrônicas, a oposição parece convencida de que, no fim das contas, não houve fraude alguma. Não mais concede à hipótese nem o benefício da dúvida.

Uma coisa é abdicar da causa (ou postergá-la) por sabê-la sem praticidade e fora de seu alcance; outra, dá-la por incorreta, legitimando o discurso do adversário. As pesquisas mostram que a grande maioria da população tem sérias dúvidas a respeito.

Na sua essência, as pesquisas demonstram que a população não crê em soluções paliativas para a crise. E o Congresso não tem feito outra coisa senão buscá-las. Eis aí o impasse: a falta de interlocução entre representantes e representados.

O encontro esta semana, em Brasília, entre líderes oposicionistas e entidades que organizaram os protestos, evidenciou essa falta de intimidade. A tolerância do Brasil institucional com os desmandos dos governos do PT é bem maior que a do Brasil real, que pede providências e maior rigor para os que delinquiram.

Exemplo disso é a bizantina discussão jurídica quanto à constitucionalidade de a presidente responder por atos que praticou no mandato anterior, do qual este é mera continuidade, já que não houve interrupção.

A Constituição é anterior ao princípio da reeleição e diz que o presidente da república não responde por atos estranhos a seu mandato. Os atos em pauta foram praticados no exercício do mandato presidencial — portanto, não lhe são alheios. Não é preciso ser jurista para entender isso. Montesquieu, há três séculos, já tratava do espírito das leis — e é disso que se trata.

No curso da semana, vieram à tona os rombos nos fundos de pensão de três estatais: Funcef (Caixa Econômica), Postalis (Correios) e Petros (Petrobrás) — mais de R$ 5 bilhões para cada um dos dois primeiros e mais de R$ 13 bilhões no terceiro. A conta será rateada entre os funcionários e o Tesouro (isto é, nós).

Os autores da proeza, todos indicados pelo PT, não são nem mencionados. Os servidores do Postalis terão de descontar, durante doze anos, 25% de seu salário para cobrir o rombo. Quem ganha, por exemplo, R$ 1 mil, terá de pagar, entre outros descontos, R$ 250, para cobrir um rombo que não criou.

Esse escândalo, no entanto, não acresceu qualquer urgência à proposta de uma CPI dos Fundos de Pensão, contra a qual se move, até aqui com pleno êxito, o vice-presidente e articulador político do governo Michel Temer.

O que se tem é o contrário: a retirada de assinaturas de apoio a uma CPI do BNDES no Senado — um escândalo dentro do escândalo. O BNDES, em plena crise, continuou a mandar auxílio milionário aos vizinhos bolivarianos, sob a rubrica de “ultrassecreto”. A CPI conseguiu as assinaturas na Câmara, mas não se sabe se será instalada ou não. Há outras na fila e Michel Temer move-se mais uma vez para sabotá-la.

É interessante notar o que o mandato faz com alguns personagens. O ex-craque Romário, hoje senador pelo PSB do Rio, notabilizou-se pela fúria e audácia com que investia contra os desmandos dos cartolas da CBF.

Não as exibiu, porém, contra os cartolas do BNDES, que fazem com que os da CBF pareçam aprendizes de escoteiros-mirins. Tirou sua assinatura do pedido de CPI e não deu qualquer explicação. Nem precisa: certos gestos são auto-explicáveis.

São tantos os escândalos que é difícil relacioná-los de memória. Todos têm a marca do governo e do PT, alguns com o apoio de partidos aliados, como PP e PMDB. Não obstante, dá-se credibilidade à tese de que a presidente atual e seu antecessor, em cujos governos tudo começou, nada sabiam.

Nixon, nos anos 70, valeu-se também do mesmo argumento — e por um delito que aqui nem seria considerado como tal: um ato de espionagem política na sede do Partido Democrata. Renunciou para evitar o impeachment.

O Brasil oficial perdeu a noção de compostura. Antes mesmo que as investigações da Operação Lava-Jato tenham sido concluídas — e, portanto, antes que se saiba a real extensão dos delitos cometidos —, o governo anuncia um acordo de leniência com as empresas infratoras, para que continuem a prestar-lhe serviços.

O mais estranho é que esse acordo é promovido pelo Executivo, parte envolvida nos delitos da Petrobras. O Ministério Público, incumbido das investigações, ficará de fora. E o TCU, em vez de exercer o controle das contas, será avalista do acerto.

No STF, a turma que presidirá o julgamento, cujos réus, em sua maioria, pertencem ou têm ligações com o PT, terá à frente um ex-advogado do partido, Dias Tofoli, que, a exemplo do que ocorreu no Mensalão, não vê qualquer conflito em julgar antigos clientes. Nem ele, nem a Corte — e nem o Senado, que esta semana arquivou sumariamente um pedido de impeachment contra Tofoli.

Em suma, o Brasil real, submetido aos rigores do ajuste fiscal, está paralisado de espanto, enquanto o Brasil oficial espanta-se com esse espanto — e não sabe o que fazer.

 

Publicado aqui, no Blog do Noblat

 

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Palloci recebeu R$ 12 milhões sob suspeita quando coordenou campanha de Dilma em 2010

Capa Época
Capa da Época hoje nas bancas

 

 

Por Thiago Bronzatto e Filipe Coutinho

 

Em 3 de dezembro de 2010, a petista Dilma Rousseff, eleita havia poucas semanas para seu primeiro mandato como presidente da República, mandou anunciar o nome do ministro mais poderoso de seu governo. Dali a dias,Antonio Palocci — ex-ministro da Fazenda, ex-deputado federal, ex-prefeito de Ribeirão Preto e hoje alvo ilustre da Operação Lava Jato — assumiria a chefia da Casa Civil. Era a improvável ressurreição política de Palocci, ceifado do governo Lula anos antes, quando, após resistir a toda sorte de acusações de corrupção, acabou por não resistir ao escândalo da quebra dos sigilos do caseiro Francenildo. Perdeu o cargo, mas não a influência. Palocci ressurgiu na eleição de Dilma. Coordenou a campanha e atuou como arrecadador informal da petista, ao lado dotesoureiro do PT, João Vaccarihoje preso. A nomeação para a Casa Civil, na qual sucederia a Erenice Guerra, premiava seus bons serviços na campanha. Nas palavras de Dilma, Palocci fora “um dos artífices da jornada vitoriosa” que a elegera. Estava claro quem mandaria em Brasília noterceiro mandato petista.

No mesmo dia do anúncio, Palocci recebeu R$ 1 milhão do escritório do criminalista Márcio Thomaz Bastos, segundo documentos da empresa do petista, em poder do Ministério Público Federal (MPF) e obtidos por Época. MTB, como era conhecido o advogado, morreu no ano passado. Em 2010, após uma longa passagem pelo Ministério da Justiça do governo Lula, na qual fez muitas tabelinhas com Palocci, resistia como principal conselheiro jurídico da cúpula do PT. O dinheiro foi repassado sem que houvesse sequer contrato formal. Era um contrato de boca. Duas semanas depois, Palocci recebeu mais R$ 1 milhão de MTB. Os R$ 2 milhões somavam-se aos R$ 3,5 milhões repassados durante a campanha e a pré-campanha de Dilma. No total, 11 pagamentos. Sempre sem contrato. Sempre em valores redondos — R$ 500 mil, no auge das eleições, e R$ 250 mil, antes. Sempre depositados, segundo o próprio Palocci, na conta da Projeto, a empresa de consultoria criada por ele após deixar o governo Lula.

No dia em que foi anunciado como ministro de Dilma, Palocci recebeu R$ 1 milhão em sua consultoria

Qual a origem do dinheiro? O Pão de Açúcar, dizem os advogados de Palocci e do escritório de MTB. Por que o Pão de Açúcar pagaria uma pequena fortuna a Palocci? Para que o petista, um médico sanitarista que passava aqueles dias de 2010 na intensa faina de uma campanha presidencial,ajudasse na fusão entre o grupo de Abilio Diniz e as Casas Bahia. Não se sabe como Palocci poderia ser tão valioso numa negociação dessa natureza — nem por qual razão o Pão de Açúcar não o contratara diretamente. Mas ele prestou algum serviço? A renomada consultoria Estáter, contratada de forma exclusiva pelo Pão de Açúcar para tocar a fusão,informou ao MPF que, por óbvio, não — Palocci não prestou qualquer serviço, o que despertou suspeitas entre os investigadores. Fontes que participaram das negociações confirmaram a Época que Palocci não participou de qualquer reunião, conversa informal ou troca de e-mails durante o negócio. Em ofício ao MPF, o Pão de Açúcar disse que “em função da relação de confiança desenvolvida” é comum que os “serviços de assessoria jurídica sejam contratados de modo mais informal”. Palocci não é advogado. Procurado por Época, o Pão de Açúcar informou que não vai se pronunciar.

Palocci não tardou a cair novamente. Pouco após assumir a Casa Civil, o jornal Folha de S.Paulo revelou que ele comprara um apartamento avaliado em R$ 6,6 milhões, antes de voltar a Brasília. Palocci, que não tem herança e sempre foi político, se recusou a explicar a origem do dinheiro. Disse apenas que provinha dos clientes que contratavam a Projeto, sua empresa de consultoria. Preferiu deixar a Casa Civil a revelar os nomes deles — e a declinar para que fora exatamente contratado. Agora, Época teve acesso a documentos internos da empresa de Palocci, a uma investigação sigilosa do MPF sobre ela e a uma lista com 30 nomes de empresas que pagaram o ex-ministro. Os papéis oficiais, assim como a investigação dos procuradores, revelam que a prosperidade da empresa de Palocci coincidiu com o momento em que ele assumiu as tarefas de coordenar a campanha de Dilma — e de arrecadar para ela.

Em 2010, Palocci recebeu, ao menos, R$ 12 milhões em pagamentos considerados suspeitos pelo MPF. Além dos pagamentos do escritório de Márcio Thomaz Bastos, supostamente em nome do Pão de Açúcar, os procuradores avaliaram como suspeitos os pagamentos do frigorífico JBS e da concessionária Caoa. Eles somam R$ 6,5 milhões. São suspeitos porque, na visão do MPF, Palocci, mesmo depois de ouvido, não conseguiu comprovar que prestou serviços às empresas — ou foi desmentido por quem estava envolvido, como no caso da consultoria Estáter e do Pão de Açúcar. Ademais, para o MPF, a inexistência de contratos para muitos dos pagamentos reforça os indícios de que as consultorias foram, na verdade, de fachada. Por que grandes empresas gastaram tanto com Palocci? E qual o destino final do dinheiro? Ninguém sabe ainda.

A investigação à qual Época teve acesso corre em Brasília, mas será requisitada por procuradores que trabalham nos dois maiores casos de corrupção sob investigação no país: aLava Jato. No petrolão, a Procuradoria-Geral da República abriu inquérito para apurar a acusação de que o petista arrecadou R$ 2 milhões — para a mesma campanha de Dilma em 2010. A denúncia foi feita pelo delator Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da Petrobras. Como Palocci não tem foro privilegiado, o processo contra ele corre no Paraná, sob a guarda do juiz Sergio Moro. Com base no trabalho dos procuradores de Brasília, a Força-Tarefa de Curitiba espera avançar mais rapidamente no rastro do dinheiro que circulou pelas contas associadas ao ex-ministro. Eles preparam o pedido de quebra dos sigilos de Palocci, entre outras medidas.

 

 Época 1

 

O procurador da República Frederico Paiva, responsável pela investigação e coordenador do núcleo de combate à corrupção no Distrito Federal, não quis dar entrevista, porque o caso corre sob sigilo. Com o avanço em Palocci, que também está sob investigação em outras frentes da Lava Jato, a Força-Tarefa do Paraná atinge a tríade responsável pela arrecadação de dinheiro no PT desde a queda de Delúbio Soares. Além de Palocci, a tarefa cabia ao ex-ministro José Dirceu e ao tesoureiro João Vaccari. No caso de Vaccari, já preso, as evidências de participação no esquema são abundantes (leia mais na coluna de Ruth de Aquino). Os procuradores também abriram uma investigação específica para Dirceu. À semelhança de Palocci, Dirceu enriqueceu como consultor, após sair do governo em desgraça. Ele é suspeito de forjar contratos de consultoria para receber propina das empreiteiras. Ele e as empresas negam. No total, José Dirceu recebeu como consultor pouco mais de R$ 29 milhões entre 2006 e 2013. “Uma das principais sistemáticas para o pagamento de propina para agentes públicos era justamente a celebração de contratos simulados com empresas de consultoria. Há suspeita de que a JD assessoria tenha sido utilizada para essa finalidade”, escreveram os procuradores ao pedir a quebra de sigilo da empresa de Dirceu. O ano de 2010, quando Dilma foi eleita, também foi próspero para o petista. Sua empresa de consultoria faturou R$ 7,2 milhões. Para os procuradores, as operações de Dirceu e Palocci são siamesas no método e, suspeitam, na finalidade.

Há uma proliferação de consultorias petistas. Também preso na Operação Lava Jato, o ex-deputado André Vargas é mais um deles. Valeu-se de contratos de consultoria de fachada para ganhar dinheiro. Por meio da empresa Limiar, ele recebeu R$ 200 mil da JBS em agosto de 2010, às vésperas da eleição. Questionada sobre o repasse, a empresa afirmou que contratou em 2010 os serviços de “consultoria de marketing” prestados por Vargas, técnico de nível médio em administração de empresas. Não colou. No despacho que decretou a prisão de Vargas, o juiz Sergio Moro disse que “há prova de que a empresa teria recebido remuneração por serviços não prestados”.

 

Época 2

 

A consultoria do frango

Segundo os documentos obtidos por Época, a consultoria de Palocci recebeu R$ 2 milhões da JBS entre 2009 e 2010. É um caso para lá de estranho: embora Palocci tenha admitido que recebeu da JBS, a JBS informou a Época, por e-mail, que nunca teve qualquer negócio com o petista. Em 2010, a JBS foi a campeã de doações oficiais à campanha de Dilma, com R$ 13 milhões – foram quase R$ 70 milhões em 2014. No caso de Palocci, a JBS fez sete depósitos em cinco meses. Os pagamentos se dividiram em dois de R$ 250 mil e outros cinco de R$ 300 mil, segundo notas fiscais obtidas pela reportagem. Embora a JBS negue, a justificativa para esses pagamentos está num contrato com metas e tarefas inverossímeis para um consultor como Palocci.

O contrato foi assinado antes da eleição, no dia 1º de julho de 2009. Previa o assessoramento do ex-ministro na aquisição que a JBS faria nos Estados Unidos da multinacional Pilgrims Pride, segunda maior produtora de aves do mundo. A JBS fechou o negócio logo depois, em 16 de setembro daquele ano. Aos procuradores, Palocci descreveu os serviços que a JBS diz não ter contratado: “Apoio decisório que passa pela análise das perspectivas do mercado de carnes de frango nos mercados americano e global e pela avaliação do valor de mercado da companhia e as sinergias passíveis de serem auferidas com a globalização do grupo em outras áreas de proteína animal, além da carne bovina”.

Mesmo que Palocci entendesse profundamente do mercado avícola americano e global, um documento enviado ao BNDES pela dona da Friboi em 5 de agosto daquele ano – um mês, portanto, após a contratação de Palocci – põe ainda mais em dúvida a veracidade dos serviços, segundo o MPF. Na nota técnica AMC/DEPAC 028/2010, a que Época teve acesso, a JBS informa ao BNDES que “já estava em fase adiantada de negociação com a Pilgrims”. O próprio dono da JBS, o empresário Joesley Batista, que já era dono nos Estados Unidos da multinacional Swift, disse, em outubro daquele ano: “Começamos a negociar com a Pilgrims Pride há um ano, antes que pedisse concordata”. Dez meses antes, portanto, da assinatura do contrato com Palocci. Nele, aliás, Palocci assinalou que ajudaria a JBS “no processo de negociação” e na “avaliação do empreendimento”.

Executivos envolvidos nessa negociação disseram a Época que a JBS foi assessorada por uma equipe de cerca de 20 especialistas em fusões e aquisições, formada por representantes dos bancos JP Morgan e Santander — e de dois tradicionais escritórios de advocacia, o brasileiro Pinheiro Neto e o americano Shearman & Sterling. Segundo essas fontes, que pediram anonimato, Palocci em nenhum momento se agregou ao grupo ou foi mencionado como um dos analistas da operação comercial. É, portanto, o mesmo relato que se fez no caso de MTB e do Pão de Açúcar.

Palocci, portanto, nada fez? Não há certeza, novamente. Mas, em setembro de 2009, dois meses depois da contratação do petista, a JBS anunciou a aquisição do frigorífico brasileiro Bertin e da americana Pilgrim’s Pride numa só tacada. Para fechar o negócio com a Pilgrim’s, a JBS contou com o apoio do BNDES, que, segundo suspeita, o MPF só topou financiar essa aquisição internacional se a companhia adquirisse o endividado Bertin. Assim foi feito. Em dezembro, o banco adquiriu R$ 3,47 bilhões em debêntures (papéis de dívida) do frigorífico Bertin. Um mês depois, Palocci emitiu sua última nota de consultoria para a JBS, no valor de R$ 300 mil. O financiamento da operação do banco estatal desencadeou uma investigação em andamento no Ministério Público Federal no Rio de Janeiro. O BNDES se recusa a fornecer informações sobre a operação de financiamento da JBS.

 

 Época 3

 

A consultoria chinesa

Meses depois, em 1º de julho de 2010, já no auge de suas atividades na campanha, Palocci fechou um contrato com a rede de concessionária de automóveis Caoa. No papel, o petista foi contratado para ajudar o empresário Carlos Alberto Oliveira Andrade, dono do grupo automotivo, na avaliação de oportunidades de negócios com a China e na ampliação de produção de veículos. Palocci deveria ajudar a explorar uma nova marca e uma nova linha de veículos com preços competitivos em relação às montadoras chinesas que estavam chegando ao Brasil. O ex-ministro foi então recrutado para negociar uma parceria com a Great Wall, maior fabricante de utilitários esportivos da China, e a BYD, fabricante chinesa de carros elétricos. Novamente: era isso que o contrato previa. Nele, consta a definição do que seria o serviço. Há expressões como “no intuito de analisar e assessorar a concretização de investimentos em projetos na área de produção” e procurar “definição de investimento em nova planta”.

Conforme o próprio grupo Caoa admitiu, as consultorias de Palocci não vingaram – nenhum acordo relevante foi fechado. Mesmo assim, o ex-ministro levou uma bolada. De julho a dezembro de 2010, ele recebeu da Caoa R$ 4,5 milhões. Durante o período em que o ex-ministro era seu consultor, o grupo Caoa pleiteava no Congresso a aprovação da Medida Provisória 512, que estendeu até 2020 as isenções fiscais para montadoras do Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país – a Caoa tem uma fábrica da Hyundai em Goiás. Sem a medida, o benefício se encerraria em janeiro de 2011. A MP foi transformada em lei em abril de 2011, quando Palocci era chefe da Casa Civil. O grupo Caoa afirmou: “Não temos e nunca tivemos nada com a consultoria do Palocci. O grupo não se manifesta sobre assuntos relativos a contratos privados e acrescenta que não possui parceria e nem contrato com nenhuma das duas empresas citadas”.

Procurado, Palocci não quis falar. Pronunciou-se por meio de nota. “A empresa de consultoria Projeto não pode divulgar cláusulas e condições dos contratos que celebra com seus clientes, os quais se revestem de cláusula de confidencialidade, inclusive por conterem segredos comerciais das contratantes. Todas essas informações, todavia, estão — e sempre estiveram — à inteira disposição dos órgãos estatais de fiscalização e controle. Sobre os questionamentos formulados, esclarecemos que rigorosamente tudo o quanto se indagou já foi respondido ao Ministério Publico Federal, há tempos, inclusive com envio de todas as informações contratuais, contábeis, financeiras e tributárias — e a respectiva documentação —, as quais foram encaminhadas à Procuradoria da República no Distrito Federal, onde tramita, desde o ano de 2011, procedimento a respeito dos fatos e que se reveste de caráter sigiloso, que nada tem a ver com a Operação Lava Jato”.

A nota prossegue. “Afirmamos, categórica e peremptoriamente, que as atividades e recursos da Projeto não têm nem nunca tiveram qualquer relação com a referida campanha eleitoral ou com qualquer outra, como demonstra a documentação que se acha em poder do Ministério Público Federal, repita-se, desde o ano de 2011. Repudiamos, assim, com indignação, qualquer insinuação ou ilação gratuita nesse sentido. A despeito de a Projeto prestar serviços para empresas de diferentes ramos de atividade, Engevix e UTC jamais foram suas clientes. Nada obstante, no ano de 2006, depois de ter deixado o Ministério da Fazenda e antes da constituição da Projeto, Antonio Palocci Filho proferiu palestras, enquanto pessoa física, para diversas empresas, por solicitação dessas, uma das quais na UTC”.

Se Palocci teve, ao menos, 30 clientes, qual a natureza da relação do petista com as demais 27 empresas? Um exame dos pagamentos conhecidos e uma análise do MPF mostram que havia dois Paloccis à frente da Projeto. Um conseguia milhões de grandes empresas, sem, segundo o MPF, prestar qualquer serviço

— é o caso de MTB e Pão de Açúcar, JBS e Caoa. O outro Palocci dava palestras e fazia análises de cenários, por valores muito mais modestos. Nesses casos, tudo indica que os serviços – as palestras e as análises de cenário político — foram prestados. Trata-se, portanto, de uma relação comercial corriqueira. Nesses casos, o valor de mercado do ex-ministro, quando contratado por uma grande empresa, é de R$ 30 mil a R$ 50 mil por mês. Nas palestras, a fatura não fica muito longe disso. Em 12 de novembro de 2013, Palocci fez uma palestra para um grupo de empresários, a convite do banco BR Partners. Cobrou R$ 30 mil. Como menciona em seu comunicado, Palocci fez palestra até para a UTC, empreiteira apontada como líder do cartel do petrolão. Foi em 2006, logo após deixar o governo Lula. Cobrou R$ 27 mil. Procurada, a UTC disse que “foi efetuado pagamento registrado e tributado no valor de R$ 27 mil, compatível com o que era cobrado na época por palestrantes de primeira linha, caso do senhor Palocci”.

 

Publicado aqui, na epoca.com

 

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Novo tesoureiro do PT recebeu R$ 95 mil de empreiteira do Petrolão

Ex-deputado federal Márcio Macedo, substituto de João Vaccari Neto e Delúbio Soares como tesoureiro do PT (Antonio Augusto - Câmara dos Deputados)
Ex-deputado federal Márcio Macedo, substituto de João Vaccari Neto e Delúbio Soares como tesoureiro do PT (Antonio Augusto – Câmara dos Deputados)

 

 

Por Ricardo Brito e Nivaldo Souza

 

Escolhido nesta sexta-feira, 17, por unanimidade como novo tesoureiro do PT, o ex-deputado federal Márcio Macedo (SE) recebeu uma doação R$ 95 mil da empreiteira Andrade Gutierrez na eleição de 2014. A empresa é alvo da Operação Lava Jato.

O valor corresponde a quase 20% dos recursos que a campanha Macedo arrecadou, R$ 493 mil no total. O repasse foi feito via Diretório Nacional do PT, cujo responsável pelas finanças era, até ser preso esta semana pela Lava Jato, João Vaccari Neto.

Eleito deputado federal pela primeira vez em 2010 com 58.782 votos – número expressivo para o Estado, após ter sido secretário do ex-governador Marcelo Déda, que morreu em dezembro de 2013, Macêdo, contudo, não conseguiu se reeleger ano passado. Obteve 40.814 votos, ficando na suplência para a Câmara.

A Andrade Gutierrez aparece nas investigações da Polícia Federal como uma das construtoras que se envolveram no esquema de corrupção da Petrobrás. Em uma das delações premiadas, o ex-diretor de Abastecimento da estatal Paulo Roberto Costa listou a Andrade Gutierrez junto com outras três construtoras como responsáveis pela doação de R$ 21 milhões ao PT em 2013.

Segundo Costa, o repasse ao partido seria propina paga por contratos obtidos em obras na Petrobrás. A empreiteira é uma das construtoras alvo de processos administrativos abertos pela Controladoria-Geral da União em razão das investigações da Lava Jato.

Enfrentamento. O vice-presidente do PT, deputado José Guimarães (CE), afirmou que a doação não é “problema” para a chegada do novo tesoureiro do partido. “Isso (a doação da construtora) não é problema nenhum. Daqui a pouco vão dizer que doação legal é crime? Qual deputado não recebeu recurso legal de alguma dessas empresas (da Operação Lava Jato)?”, disse.

Guimarães ressaltou que o novo tesoureiro do PT foi eleito por unanimidade pelo diretório nacional para um momento de “enfrentamento” de crise. “É um nome novo, mas preparado para a nova missão de enfrentamento”, afirmou.

O vice-presidente petista disse também que o tesoureiro tem “trânsito” tanto na bancada na Câmara como no partido, o que deve facilitar o trabalho dele. “Foi uma indicação certa para a hora certa”, disse.

Em nota, a Andrade Gutierrez informou que “todas as doações eleitorais realizadas pela empresa seguem rigorosamente a legislação brasileira vigente sobre o assunto, são sempre direcionadas para os diretórios nacionais dos partidos políticos e 100% registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A definição das candidaturas que receberão esses recursos é feita pelos partidos, sem qualquer interferência e conhecimento da empresa e sem obrigatoriedade das legendas informarem a quem o recurso foi doado”.

 

Publicado aqui, no estadao.com

 

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Nas guerras digitais, quem não conhece imbecis dos dois lados?

Imbecil - Oscar Wilde

 

 

Jornalista, escritor e produtor musical Nelson Motta
Jornalista, escritor e produtor musical Nelson Motta

É nóis contra nóis

Por Nelson Motta

 

Depois de anos estimulando o ódio, as calúnias e difamações na internet como tática politica, agora o governo quer policiar e punir os que atacam seus adversários com as mesmas armas com que eram atacados. O governo quer uma internet limpinha, sem mensagens de ódio, sem hatters, e justamente num momento em que o feitiço virou contra os feiticeiros. As guerras digitais travadas no vale-tudo das eleições não só deixaram rancores inesquecíveis mas se institucionalizaram numa lama pestilenta.

Quem pode acreditar que repetir milhares de vezes os mesmos insultos, mentiras e palavras de ordem vai mudar o pensamento de alguém, mesmo que seja um completo imbecil?

Petralhas e coxinhas, com esses apelidos ridículos, se enfrentam diariamente nas redes, destilando ódio, ignorância e intolerância em bilhões de terabytes que têm como única consequência se tornar lixo digital no fim do dia. Para quê? Para nada.

Os odiadores se dividem entre amadores e profissionais. Uns são pagos para odiar, com patrocínios de governos e partidos, mas não obtêm qualquer resultado prático, não conseguem convencer um único idiota a mudar de ideia. Pregam para convertidos e ganham a vida nessa anacrônica atividade, como “soldados da causa”. Não são perigosos, são apenas inúteis.

Os amadores são os que amam odiar e descarregar sobre qualquer um as suas frustrações, invejas e ressentimentos pessoais, e encontram na selva digital o habitat ideal para exercer os seus piores sentimentos e até encontrar uma motivação “nobre” para eles: o futuro do Brasil… rsrs.

Não há qualquer forma de diálogo nessa patética guerra de trincheiras digitais, com cada um em seu buraco e a estupidez humana exercendo na plenitude a sua virulência e capacidade destrutiva — da educação, da convivência e da civilização.

O mais patético é a ideia de que é possível controlar e estabelecer limites e punições para manifestações políticas do ódio humano — que nasceu com Caim. Quem dá os padrões? O governo da vez? Nascido como tática eleitoral grosseira de Lula, o nóis contra eles virou nóis contra nóis, um jogo em que todos perdem.

 

Publicado aqui, em oglobo.com

 

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