A maioria sabe que o bloco do governo se transformou num grupo de assalto

Metralhas

 

Jornalista Fernando Gabeira
Jornalista Fernando Gabeira

Um domingo em outubro

Por Fernando Gabeira

 

Hoje não é apenas um dia perdido no tempo. Quando menino, acompanhava as eleições a uma certa distância: Dutra, o Brigadeiro, até mesmo Lott e Jânio eram para mim matéria de jornal. Não os conhecia nem acompanhava suas peripécias de campanha. Já as eleições na abertura democrática, acompanhei todas, algumas de muito perto. Agora, distanciei-me de novo, mas, certamente, vou limpar e lubrificar minha bicicleta azul marinho, cruzar e Lagoa e cumprir meu dever.

Quando começou a campanha, ainda vivi um pouco de suas emoções. Todas as noites, quando ia comprar pão na padaria, um grupo numa mesa de botequim gritava: deputado, senador, estimulando minha entrada na corrida eleitoral. Uma vez, chegaram a gritar presidente. Mas foi num dia em que perdi a fornada das sete e saí um pouco mais tarde para buscar o pão. Naquela altura, já haviam bebido algumas doses a mais.

Com o tempo, toda a minha carreira foi se desmontando e acabei sendo apenas o vizinho que vem comprar o pão com uma sacola vinho e, às vezes, para, diante da padaria, para ver o futebol na televisão.

Quando disputava campanhas, acordava cedo no domingo e percorria a cidade num carro aberto. Era tudo muito animado, exceto quando entrávamos no túnel. Ali, abraçado com a bandeira, sem ninguém para acenar, sentia-me inútil e patético.

Recomendo a quem esteja em crise vocacional na política que desfile em carro aberto por um túnel. O trecho é pequeno, mas o ritmo das associações, alucinante.

Estar fora da campanha não me livra das preocupações com o Brasil, às vezes tão alheio à pedreira que nos espera nos próximos anos.

Na eleição de Collor, resolvi ir embora. Berlim. Tive a oportunidade de ver a Alemanha se unindo, a antiga Iugoslávia se dilacerando em guerras, o império soviético desabando no Báltico.

Agora, um quarto de século depois, não tem mais isso de ir embora. Acostumei a viver num país cuja lógica me escapa. Quando ouvi o discurso da Dilma na ONU pensei: não acredito que esteja propondo diálogo com o Estado Islâmico que corta cabeças, filma e divulga.

De uma certa forma isso passou em branco. A importância que dou ao tema não é a mesma de uma campanha presidencial no Brasil. Política externa não dá voto. Ponto.

É provável que Dilma não conheça o grupo terrorista. As campanhas são muito envolventes, quase não deixam tempo para o que se passa no mundo. Se Dilma encontrasse o líder dos cortadores de cabeça, Abu Bakr al-Baghdad, no metrô, talvez o convidasse para comer uma esfirra.

Só num quadro de humor é possível imaginar negociação com os terroristas. Se ela mesma quisesse tentar, talvez conseguisse a dispensa do véu, mas iria cruzar o deserto trazendo na bandeja a única mensagem que sabem enviar ao mundo: uma cabeça cortada. Como encarar o futuro do país nas mãos de uma ingênua Salomé, cercada por um aparato monolítico de burocratas que não levam a sério a imagem do Brasil, porque o importante é apenas vencer as eleições?

Com os escritores cubanos aprendi algo que expressei no prefácio do livro do Raúl Rivero, um poeta exilado na Espanha. Quase todos os grandes artistas cubanos mantiveram a vida amorosa a salvo da dominação burocrática. Nunca deixaram a chama erótica e paixão pelo seu povo serem enquadradas pelo regime.

Com os tchecos, percebi a força do humor, uma das maneiras de enfrentar a lógica cinzenta dos burocratas. Eles tinham uma generosa tradição literária. Do “Bravo soldado Schweik” ao “Processo” de Kafka, a Praga do início do século já refletira de forma cômica e trágica a relação do indivíduo com o Estado.

Valorizar a vida amorosa e o senso de humor é a melhor reação ao resultado das urnas. O resto são as tarefas cotidianas, o trabalho duro, a tentativa de continuar argumentado, sem superestimar o intercâmbio racional.

Uma vitória do PT, creio, não pode ser atribuída apenas à sua capacidade de mentir e atacar. Não se deve nunca acusar o adversário pela própria derrota. Se não for possível resistir aos ataques e mentiras do PT, isso significa que vão ficar, eternamente, no poder. Por que mudariam de tática?

Os marqueteiros e os amigos dos marqueteiros vão dar a impressão de que tudo nasceu de suas cabeças mágicas. Minha sensação, nesse dia decisivo, é que a maioria sabe o que se passa e vai escolher de acordo com o que sabe. A maioria sabe que o bloco do governo se transformou num grupo de assalto. Provavelmente, ela prefere não ser assaltada. Os votos da oposição somados devem ultrapassar os votos de Dilma.

Isso levaria a decisão para outro domingo. Mas o quadro permaneceria aberto, porque uma outra avaliação entra em cena. Quem pode alterar esse cenário de estagnação econômica, degradação política, tensão social? Perdi três bicicletas, roubadas nos últimos anos. Cada vez que inicio uma jornada, olho para a máquina como se fosse a última vez. Mas esse será um domingo cívico. Espero voltar ao tema, num outro domingo, com a mesma bicicleta.

 

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Entre a violência da polícia e a estupidez dos black blocs, perdemos o rumo

UFC

 

Cineasta Cacá Dieguez
Cineasta Cacá Dieguez

O que ainda não sabemos

Por Cacá Dieguez

 

Bem que eu gostaria, mas não dá para falar de outra coisa: é hoje!

Meio desiludido, andei pensando em usar da prerrogativa que me oferece a idade e não votar este ano. Mas caí em mim a tempo. Ou fui derrubado pela celebração do evento democrático, a necessidade de me sentir responsável pelo que acontece no país. A democracia é antes de tudo o regime do outro, a responsabilidade que cada um tem pelo todo. Me rendi ao talvez inútil, mas não fútil, entusiasmo.

Já disse que não sou catastrofista, não acho que estejamos vivendo o pior dos tempos. Em geral, é tão difícil viver que confundimos nossa agonia com a agonia dos tempos, como se nossa dor fosse fruto do pior momento da história da humanidade, aquele que estamos vivendo. Confundimos a angústia de nossa finitude, com o próprio fim do mundo. E, no entanto, a humanidade segue avançando; como uma senhora bêbada pelas ruas, mas avançando.

Erramos muito. Ao longo do tempo, os homens transformaram em costume crimes morais e materiais, leves ou imperdoáveis, praticados à custa do outro em nome do poder e do dinheiro. E finalmente consideramos tudo isso normal. Às vezes, penso até que a história da humanidade é a maior prova de que Deus não existe ou não tem jurisdição sobre nós. Ou ainda, se Ele existe, está pouco se lixando para o que fez.

Das soberbas pirâmides do Egito clássico ao esplendor barroco de nossas igrejas coloniais, construímos nossas maravilhas às custas da escravidão de semelhantes de outra cor, religião ou etnia. Atiramos à fogueira aqueles que nos ameaçavam porque não os compreendíamos; como degolamos diante das câmeras aqueles de quem discordamos. Sempre resolvemos com guerras e, não poucas vezes, espantosos genocídios as diferenças entre nossas tribos e nações. E, uma vez vencedores, transformamos nossos horrores em feitos heroicos, monumentos à glória de nosso povo.

Apesar de tudo, vamos em frente. Atravessamos os oceanos e voamos acima das nuvens, curamos os males do corpo, inventamos máquinas que facilitam nossa vida, pensamos sobre o nosso destino e para que servimos, ouvimos sábios que parecem saber quem somos, a que estamos destinados. Produzimos ideias em que, no fim dos confrontos finais, o homem se tornaria senhor de si mesmo, um ser divino, livre de classes, acima da natureza, num paraíso que haveríamos de construir por aqui mesmo. Mas vai chegar a hora em que teremos de contemplar com franqueza as nossas fraquezas, colher de nossos defeitos a virtude possível, construir um novo mundo do qual seremos o centro não triunfal. Nos daremos o direito de chorarmos nos ombros uns dos outros, iguais tão dessemelhantes.

Pode ser que eu esteja pirando, mas, apesar de tudo, ainda acho que o Brasil pode ser, quem sabe, um espaço de redenção, território experimental para a humanização da humanidade. Sei que ainda somos racistas e bárbaros, que somos corruptos e corruptores, que humilhamos o mais fraco sempre que está a nosso alcance. Mas não são esses os nossos mitos fundadores — e, onde há mito, há sempre um projeto inconsciente. Ele talvez esteja em nossa permanente esperança de sermos o futuro.

Os milhões de cidadãos jovens que foram às ruas nas jornadas de junho de 2013 iluminaram o Brasil com essa esperança. Em pânico, os políticos convencionais correram a prometer mudanças em que não acreditavam. Mas, entre a violência da polícia e a estupidez dos black blocs, perdemos o rumo das coisas e os políticos respiraram aliviados, não se sentindo mais obrigados a realizar o que haviam prometido na hora do aperto.

Na campanha política cuja primeira parte se encerra hoje, evitou-se cuidadosamente esses assuntos delicados, os temas de junho. Os candidatos preferiram a difamação mútua, o rancor de baixo nível, as ofensas pessoais, o marketing da porrada, como se o eleitor tivesse que escolher um lado diante de um combate de UFC. Como em junho, eles descobrirão um dia que os maiores inimigos do conformismo que os imobiliza são o acaso e o que ainda não sabemos.

Mesmo sem euforia, já sei como vou votar hoje, já andei espalhando por aí os nomes de meus favoritos. Mas a vitória de meus candidatos não é o mais importante. O que importa é que ainda quero ver por aqui as manhãs que cantam, a luz do sol sobre o horizonte, a primavera chegando sem avisar.

 

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Artigo do domingo — Novidades antes da sua decisão

 

 

 

Na véspera da eleição de hoje, duas grandes surpresas. A primeira veio das pesquisas divulgadas ontem, com a ultrapassagem (aqui) de Aécio Neves (PSDB) sobre Marina Silva (PSB) na disputa presidencial liderada por Dilma Rousseff (PT). A segunda, como anunciado em matéria postada no site do jornal O Dia às 23h33 de sexta (aqui), é um “pacto” firmado entre Anthony Garotinho (PR) e Marcelo Crivella (PRB) de apoio mútuo no segundo turno contra o favorito das pesquisas Luiz Fernando Pezão (PMDB).

Embora Dilma aparentemente não tenha sido afetada por sua habitual péssima atuação em debates, repetida naquele promovido pela Globo na noite de quinta, o fato de Marina também não ter ido bem, diferente de Aécio, apesar do seu condenável dedo em riste contra Luciana Genro (Psol), parece ter causado uma migração de última hora dos eleitores da candidata do PSB ao tucano.

Dilma manteve os 40% anteriores, reflexo quase exato dos 39% de eleitores brasileiros que consideraram seu governo ótimo ou bom nas pesquisas Ibope e Datafolha divulgadas na quinta. Por sua vez, comparando estas consultas com as feitas após o debate e divulgadas ontem, Aécio cresceu cinco pontos no Ibope (de 19% para 24%) e três no Datafolha (21% a 24%). Marina por sua vez, saiu dos 24% que tinha nos dois institutos para baixar aos 21% (Ibope) e aos 22% (Datafolha).

Contabilizados apenas os votos válidos, já excetuados os em branco, nulos ou indecisos, Dilma teria pelo Ibope 46%, contra 27% de Aécio e 24%, de Marina. Pelo Datafolha, a mesma escala seria de 44%, 26% e 24%. Apesar do empate técnico entre Aécio e Marina, considerada a margem de erro de dois pontos para mais ou menos, o fato do sobrinho de Tancredo Neves ter passado à frente da discípula de Chico Mendes nas duas pesquisas, demonstra maior proximidade do segundo turno.

Todavia, sobrinho e discípula perderiam para a gerente de Lula no turno seguinte. Contra Aécio, Dilma ganharia por 45% a 37% ,pelo Ibope, e pela diferença mais apertada de 48% a 42%, segundo o Datafolha. Já contra Marina, a presidente venceria também por 45% a 37% no Ibope, e por 49% a 39%, no Datafolha, maior diferença nas quatro projeções.

Apesar dos novos números depois do debate da Globo, foi nele que Dilma e João Santana, ex-marqueteiro do ex-ditador venezuelano Hugo Chávez, deixaram claro a preferência por Aécio como adversário. Sempre que possível, a presidente buscou o embate contra o tucano, tanto quanto evitou enquanto pôde a acareação com Marina. Ironicamente, o resultado prático da tática marqueteira petista foi ajudar um adversário que as pesquisas mostraram mais perigoso no segundo turno.

Exatamente por ser um adversário mais difícil para Pezão no turno seguinte, do que um Garotinho campeão de rejeição (40% pelo Ibope e 48%, na Datafolha), é que o tal “pacto” do político da Lapa com Crivella trouxe mais surpresa à corrida ao governo fluminense, do que suas novas pesquisas de ontem (aqui e aqui). Contando apenas os votos válidos, Pezão tem 37% pelo Ibope, contra 27% de Garotinho e 20%, de Crivella. Já pelo Datafolha, também descartados brancos, nulos e indecisos, o governador ficou com 36% dos votos, contra 25% do deputado e 22% do senador.

Ou seja, no primeiro turno, na margem de erro de dois pontos para mais ou menos, Crivella empata tecnicamente com Garotinho apenas nas projeções do instituto paulista. Mas é no segundo turno que as coisas podem apertar. Enquanto Garotinho tomaria duas coças eleitorais de Pezão, de 29% a 47%  pelo Ibope, e 32% a 48%, no Datafolha; Crivella diminuiria a diferença na projeção de derrota no primeiro instituto (36% a 46%), alcançando um empate técnico com o governador pelo Datafolha: 41% a 44%.

Em seu blog, o próprio Garotinho reproduziu (aqui) a matéria de O Dia, assumindo publicamente seu endosso ao “pacto” com Crivella. E a reportagem cita petistas favoráveis ao acordo, como Chico Dângelo, candidato a deputado federal, além do presidente estadual do partido, o prefeito de Maricá, Washington Quaquá. Isso sem contar a desavexada dobrada de Lindberg Farias com Crivella nos últimos debates entre os candidatos a governador.

Por outro lado, as ameaças petistas podem ser apenas uma tentativa de pressionar o grupo de Pezão para apoiar integralmente à candidatura de Dilma no segundo turno presidencial, já que o “Aezão” liderado pelo pit bull peemedebista Jorge Picciani, candidato a deputado estadual, está longe de estar descartado como plano B do PMDB fluminense.

Apesar de ter usado ofensas de cunho bíblico para chamar Crivella durante a campanha de “mentiroso, ingrato, fariseu e encantador de serpentes”, sendo respondido pelo senador, quando este repetiu em Macaé e Campos que havia candidato a governador “com a ficha mais suja do que Fernandinho Beira-Mar”, como a Folha registrou em sua manchete de capa de 31 de agosto, Garotinho agora disse possuir “mais afinidades do que divergências” com o candidato do PRB.

Na mesma matéria de O Dia republicada em seu blog, Garotinho admitiu estar “com dificuldades de arrecadação e dívidas na casa dos milhões e reconhece que chegou ao seu limite físico, e o cenário é difícil na reta final.‘Eu não sei como eu vou começar a campanha se eu for para o segundo turno’, resumiu”.

Fossem leitores mais atentos da Folha, os jornalistas Caio Barbosa, Juliana Dal Piva e Nonato Viegas poderiam ter apurado a mesma informação para O Dia, mas bem antes da véspera da eleição. Pois foi aqui, neste mesmo espaço, que no dia 21 de setembro, sobre a condução da campanha de Garotinho a governador, foi anunciado ao final e no título do artigo: “Acabou o milho, acabou a pipoca”.

Bem, mas isso tudo foi antes. Porque hoje, leitor, é só sua a decisão.

 

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Ponto final — Segurem as cabeças

Ponto final

 

Salvo um evento de proporções bíblicas, nada que for feito nas 24 horas que nos separam das urnas de 5 de outubro mudará a vitória parcial da presidente Dilma Rousseff (PT) e do governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) no primeiro turno. Embora a primeira tenha chances remotas de definir a parada em turno único, tudo indica que teremos um segundo tanto no Brasil, quanto no Estado do Rio. É aí que residem as maiores dúvidas: Marina Silva (PSB) ou Aécio Neves (PSDB)? Anthony Garotinho (PR) ou Marcelo Crivella (PRB)?

Enquanto todos os institutos não soltam hoje suas últimas pesquisas, já feitas e registradas, os dois de maior credibilidade, Datafolha e Ibope, já apontaram Marina e Garotinho com mais chances para enfrentar, respectivamente, a Dilma e Pezão. Assim como a presidente, isolada no teto de 40% nas duas consultas divulgadas na quinta, Marina também repetiu 24% em ambas, enquanto Aécio apareceu com 19% na Ibope e num empate técnico de 21%, dentro da margem de erro, na Datafolha.

Já quanto ao governo fluminense, enquanto Pezão também se isolou num teto de 31% no Ibope divulgado na terça, quedado a 30% na Datafolha de quinta, Garotinho apareceu com 24% na amostragem do primeiro instituto, caindo para 21% na consulta mais recente do segundo. Nesta última, dentro da margem de erro, o político da Lapa ficou no empate técnico com Crivella, que manteve os 17% das duas Datafolha anteriores, enquanto no Ibope caiu para 16%.

A diferença de Aécio para Crivella, teoricamente favorável ao presidenciável tucano, é que ele está em ascensão (18%, 20% e 21% nas três últimas Datafolha), enquanto o sobrinho de Edir Macedo, estagnado. De qualquer maneira, nenhum dos dois mudaria muita coisa nas projeções de segundo turno. Aécio perderia para Dilma por 46% a 33% (Ibope) e por 48% a 41% (Datafolha). Por sua vez, Crivella cairia diante de Pezão por 43% a 32%  (Ibope) e 47% a 39% (Datafolha).

E as coisas não seriam muito diferentes se Marina ou Garotinho confirmassem suas vagas no segundo turno, a partir de pequena vantagem sobre os terceiros colocados. Marina perderia para Dilma por 48% a 41% (Datafolha) e 43% a 36% (Ibope). Ainda assim, teria mais chances do que Garotinho, massacrado por Pezão tanto no Ibope (31% a 46%), quanto do Datafolha (30% a 52%). E se Marina ganharia de Aécio num improvável segundo turno (38% a 33% no Ibope), Garotinho perderia nele também para Crivella: 32% a 37% (Ibope) e 30% a 49% (Datafolha).

Mas se Marina, mesmo perdendo, sai cacifada da sua segunda eleição presidencial, tudo indica que Garotinho sairá muito desgastado da sua terceira disputa a governador. Como o colunista Murillo Dieguez externou ontem na Folha, o deputado dificilmente repetirá os percentuais de votação nos municípios do Norte Fluminense, obtidos por ele próprio, quando se elegeu em 1998, ou quando o sucedeu Rosinha, em 2002. Em Campos, por exemplo, nada indica que ele conseguirá ficar nem perto dos 83,3%, conquistados em 1998, ou mesmo dos 63,7% rosáceos de 2002.

Cientes de que a rejeição a Garotinho é enorme não só no Estado (40% no Ibope e 48%, no Datafolha), mas também em sua cidade natal, candidatos locais a deputado pela nominata, sobretudo os abandonados no favorecimento a Clarissa Garotinho (PR) e Geraldo Pudim (PR), já estão distribuindo suas propagandas sem qualquer referência ao candidato a governador. Ciente de que ainda pior do que a derrota na eleição, é a derrocada antes mesmo dela acabar, consta que Garotinho já prometeu cortar algumas cabeças e expô-las em público, pessoalmente, na semana que vem.

 

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Declaração de voto

Confesso estar profundamente desesperançoso com o futuro do meu país, sobretudo após o debate de ontem entre seus candidatos a presidente, no qual as tentativas de destruição do outro, com cada gesto e sílaba marcados minuciosamente pelos marqueteiros, imperaram sobre as propostas e o pensamento real de cada um sobre o Brasil. Com a viralização desse clima de MMA na política nacional, nada indica que o Brasil sairá da eleição de depois de amanhã menos dividido ou melhor do que entrou, independente do resultado das urnas. Mas é como dizia o velho leão inglês Winston Churchill (1874/1965): “A democracia é o pior dos regimes. O problema é que ainda não inventaram um melhor”.

Não por outro motivo, na marcação exclusiva da minha consciência, segue abaixo:

 

Voto 05-10-14
(Arte de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

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Ponto final — À prova de bala

Ponto final

 

Conforme dito ontem nesta coluna (aqui), tudo indica que após um consistente crescimento eleitoral em setembro, no qual ultrapassou Anthony Garotinho (PR), Luiz Fernando Pezão (PMDB) finalmente bateu seu teto a poucos dias de 5 outubro. Se havia repetido os 31% no primeiro turno, nas últimas pesquisa Ibope e nas duas Datafolha, o governador teve uma baixa mínima, chegando aos 30% na mais nova pesquisa do segundo instituto, divulgada ontem (aqui) e primeira feita após o debate da Globo, de terça.

Como a margem de erro do Datafolha é de três pontos para mais ou menos, não se pode nem afirmar que Pezão teve uma queda. A lógica vale até para Garotinho, que alcançou o limite da margem de erro para configurar outro desabamento, no qual minguou suas intenções de voto de 24% a 21%. Em empate técnico com o político da Lapa, Marcelo Crivella (PRB) poderia ameaçá-lo mais se crescesse, mas manteve os mesmos 17% das duas Datafolha anteriores, enquanto Lindberg Farias (PT) cresceu de 11% para 13%, mas já não ameaça ninguém.

Na verdade, a grande surpresa dessa primeira pesquisa após o sucesso de audiência do debate da Globo, acusada de porta-voz dazelite pelo maniqueísmo petista, foi o candidato de um partido à esquerda do PT. Como o Christiano Abreu Barbosa adiantou na quarta em seu blog “Ponto de vista” (aqui), e ontem na Folha, o grande vencedor do debate foi Tarcísio Motta, do Psol. Se Christiano deu-lhe nota 9 pela atuação de terça, Tarcísio depois dela subiu de 3% para 6%, num impressionante crescimento de 100%.

Todavia, nada altera a projeção lógica do segundo turno entre Pezão e Garotinho. Nele, segundo o Datafolha, o governador cresceu dois pontos e ficaria com 52%, enquanto o deputado perdeu três, quedando aos 30%. E nem que a bandidagem carioca toda se assanhe contra a manutenção da política das UPPs, daqui até 26 de outubro, nada indica que essa diferença abissal de 22 pontos entre os dois candidatos possa ser revertida. Com 48%, a rejeição de Garotinho parece vestir colete à prova de bala.

 

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Ponto final — Sem coincidências

Ponto final

 

Qualquer atleta de competição vai afirmar que, muito além do talento, está no planejamento de cada um a principal distinção entre os vencedores e os derrotados no final. Por melhor que qualquer um seja, em qualquer atividade, ninguém consegue permanecer no seu auge durante muito tempo. O segredo é se preparar para atingir o pico da curva ascendente justamente no momento da decisão, antes de se abrir a inevitável curva do descenso.

Desde que começou seu sprint na reta final do primeiro turno, antes mesmo de ultrapassar Anthony Garotinho (PR), o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) ainda não havia conhecido seu teto nas pesquisas. Ao que tudo indica, ele finalmente bateu a cabeça lá, ao repetir os 31% de intenções de voto tanto na última pesquisa Ibope, quanto nas duas últimas Datafolha, como evidencia a mais recente delas na capa e na página 2 desta edição (aqui), em matéria do jornalista Arnaldo Neto.

Ninguém deixa para alcançar seu auge eleitoral na semana da eleição por acaso. No lado oposto da moeda, como evidencia a necessária análise do Christiano Abreu Barbosa (aqui) também na página 2, sobre o sucesso de audiência do debate da Globo da noite de terça, último no primeiro turno entre os candidatos a governador do Rio, tampouco foi coincidência que Garotinho tenha chegado a ele bem pior nas pesquisas do que já esteve, isolado por todos os demais e falando quase sozinho.

 

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Datafolha: Pezão mantém 31%; Garotinho sobe um ponto e agora tem 24%

Pesquisa Datafolha divulgada nesta quarta-feira mostra que o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), mantém a liderança nas intenções de voto na disputa pelo governo do Estado do Rio. Segundo o levantamento, o peemedebista tem 31% da preferência dos eleitores, repetindo o mesmo índice registrado na semana passada.

Em relação à pesquisa anterior, realizada entre os dias 25 e 26 de setembro, Garotinho (PR) subiu um ponto e agora tem 24% das intenções de voto. Marcelo Crivella (PRB) manteve 17%, enquanto o petista Lindbergh Farias caiu um ponto, passando de 12% para 11%. Votos em branco e nulos somam 9%. Entre os entrevistados, 4% disseram que não sabem em quem vão votar.

Na simulação de um provável segundo turno entre Pezão e Garotinho, o peemedebista tem 50% das intenções de voto, contra 33% do candidato do PR, o que mostra uma queda de sete pontos percentuais entre os candidatos em relação à última pesquisa, quando os dois tinham 54% e 30%, respectivamente. Em um eventual segundo turno entre Pezão e Crivella, o governador teria 47% e o senador, 37%.

O instituto também apontou a rejeição dos candidatos. Garotinho continua com o maior índice (47%), seguido por Lindberg (20%), Pezão (19%) e Crivella (15%),

O Datafolha ouviu 1.522 eleitores entre os dias 29 e 30 de setembro em 36 municípios. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou para menos. A pesquisa, encomendada pelo jornal “Folha de S.Paulo” e pela TV Globo, está registrada registrada no TSE sob o nº RJ-00050/2014 e BR-00905/2014.

 

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“Anã” para marqueteiro de Dilma e Hugo Chávez, Marina é alvo de dois gigantes

sumô

 

Jornalista Zuenir Ventura
Jornalista Zuenir Ventura

Um campo de batalha

Por Zuenir Ventura

 

Para falar de intolerância, Millôr Fernandes usava o futebol e dizia que só haveria democracia verdadeira no dia em que os vascaínos pudessem torcer para seu time no meio dos flamenguistas, e vice-versa. Se tivesse tido tempo de assistir à atual campanha presidencial, não precisaria buscar exemplo no esporte. A diferença é que a política tem sempre o pretexto de uma causa nobre: o bem do país. Pode-se alegar que sempre foi assim e que há precedentes piores, com as disputas partidárias levando a atentados, crimes e até a suicídio de presidente. Mas acreditava-se que a situação inédita de agora, com duas damas dignas e ainda por cima ex-companheiras de partido e de governo, permitiria uma disputa de alto nível, mais civilizada, com mais respeito mútuo. Que nada. Os debates se transformaram em embates; as críticas em denúncias; as discordâncias em acusações.

Não por acaso têm estado tão presentes no noticiário e nos comentários políticos a linguagem bélica e as metáforas de guerra como “tiroteio”, “batalha”, “alvo”, “bombardeio”, “ataques”. E a previsão é que piore nessa reta final da propaganda gratuita, quando, segundo Ricardo Noblat, “Dilma, Lula e o PT continuarão com gosto de sangue na boca contra Marina”. Outro comentarista, Josias de Souza, para descrever o debate na TV Record, preferiu a comparação com uma violenta luta de boxe, “na qual Marina Silva entrou com a cara. Dilma esmurrou-a e Aécio Neves desfechou-lhe um par de jabs”. Isso lembra o que pensa João Santana sobre eleições: “São um combate quase sangrento”, onde, pode-se acrescentar, não há muito lugar para escrúpulos éticos. Consultor do PT, ele é considerado um gênio do marketing político. Já conseguiu comandar três vitoriosas campanhas ao mesmo tempo: de Danilo Medina, na República Dominicana; de Hugo Chávez, na Venezuela; e de José Eduardo dos Santos, em Angola. Pertence, portanto, ao rico time de craques que o Brasil hoje exporta e que são responsáveis pela construção e venda da imagem dos candidatos, que, às vezes, se limitam a interpretar papéis preestabelecidos por eles, os estrategistas, aos quais interessa mais a forma que o conteúdo.

A Santana é atribuída a virada radical, o endurecimento de estilo da candidata do PT. Nada de Dilminha paz e amor. Tratado como um deus marqueteiro, ele, no entanto, pode não ser infalível. Em abril, disse à revista “Época”: “A Dilma vai ganhar no primeiro turno porque ocorrerá uma antropofagia de anões. Eles vão se comer lá embaixo e ela, sobranceira, vai planar no Olimpo.” É possível que o mágico acerte mais uma vez, mas não como esperava. Pelo menos um anão, ou melhor, uma anã, está dando mais trabalho do que o previsto, sendo alvo dos dois gigantes.

 

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