Embora admita existir perseguição entre os servidores contratados de São João da Barra, na qual enxerga uma “ditadura” a impor pena de exoneração a qualquer um ligado a ela, a ex-prefeita Carla Machado (PT) não acha impossível a reconciliação política com o atual prefeito Neco (PMDB), de quem foi a principal cabo eleitoral nas eleições municipais de 2012. Também pré-candidata a deputada estadual, ela garante não temer retaliações do PMDB fluminense que abandonou, enquanto do ex-aliado Anthony Garotinho (PR), disse só lembrar quando este “enche o saco”. Apesar de centrar foco no pleito de outubro próximo, ela admitiu pela primeira vez que pode voltar a tentar a ser prefeita em 2016.

Folha da Manhã – Você e o prefeito Neco estão rompidos ou não?
Carla Machado – Acredito que o termo “rompimento” não é o mais apropriado. Poucas foram as vezes que estive com o prefeito Neco após a vitória do nosso grupo na eleição de 2012. Após oito anos de trabalho sem férias tenho cuidado um pouco da minha vida, me mantendo ocupada em outras atividades. É perceptível a todos que há algum tempo não mais faço parte do grupo de amigos seletos do atual prefeito e percebi que o mesmo dispensou qualquer tipo de contribuição da minha parte. Solicitei um encontro há nove meses e como ainda não houve a conversa, aguardarei um pouco mais para responder isso definitivamente.
Folha – Comenta-se abertamente em São João da Barra que todos os servidores contratados ligados a Carla estão sendo desligados da Prefeitura. Isso procede? Como você, essas pessoas e a população sanjoanense têm reagido?
Carla – Alguns, sim. Existe hoje uma pressão psicológica para que servidores não se aproximem de mim, sob pena de serem exonerados. O clima em São João da Barra realmente não é bom, parece que a ditadura se instalou aqui.
Folha – Em relação ao professor Antônio Neves, consta tanto que você o teria indicado como chefe de gabinete do prefeito, quanto que ele depois teria exercido papel preponderante no seu processo de desgaste com Neco. Qual a sua leitura?
Carla – O sr. Antônio Neves realmente é uma decepção para mim. Aconselhei o atual prefeito não deixá-lo na secretaria municipal de Educação, devido a eu ter percebido, no fim da minha gestão, a insatisfação da equipe com o mesmo. Como esse senhor tinha experiência, acreditei que poderia ajudar o prefeito em seu início de governo. Infelizmente, há pessoas que deixam de cumprir suas tarefas para perseguir outros e utilizam erradamente o seu tempo com fofocas e intrigas.
Folha – A reeleição de Aluizio Siqueira (PMDB) a presidente da Câmara, com a exclusão de Soninha Pereira (PT) da mesa diretora, foi considerada (aqui) o primeiro golpe aberto de Neco contra você. Publicamente, você disse (aqui) não encarar assim. Por quê?
Carla – Na primeira eleição da mesa diretora, eu tinha o compromisso em fazer com que o Aluizio fosse o presidente, e cumpri. Reuni todos os vereadores que havíamos elegido em nosso palanque e pedi o voto de presidente para ele. Compomos a mesa diretora para 2013/2014, em comum acordo com os demais vereadores, e demos a notícia ao prefeito do resultado. Naquela ocasião havia ficado acordado que os vereadores que hoje não participam da mesa diretora, participariam no segundo biênio. Esse acordo não foi cumprido e credito isso às mudanças que normalmente ocorrem por ocasião das eleições da Câmara. Ressalto que não fui convidada a participar desse processo, e mesmo se fosse, não aceitaria, por este não ser mais um problema meu.
Folha – Eleito presidente por você e reeleito por Neco, Aluizio disse (aqui) enxergar indícios da sua ruptura com Neco e que, caso esta se confirme, ficaria ao lado do prefeito. Como reagiu?
Carla – Ultimamente nada mais me surpreende, estou na plateia observando os acontecimentos. Quanto ao fato do Aluizio, no caso de “ruptura”, preferir ficar com o prefeito Neco, vivemos numa democracia e todos têm livre arbítrio.
Folha – Indagado sobre quais seriam os indícios da ruptura entre você e Neco, Aluizio se referiu (aqui) a “ataques a membros do governo em redes sociais”, que teriam sido feitos por você. Que ataques foram esses? Ativa do facebook, no qual mantém dois perfis, é correto supor que você às vezes acaba desabafando lá o que realmente sente?
Carla – Acho que todos deveriam ser mais sinceros e falar a verdade. Gosto e uso o facebook para interagir com amigos, posto o que acho que devo. As únicas pessoas que critiquei foram o deputado federal Anthony Garotinho, respondendo a diversas calúnias feitas a mim, e ao ex-delegado chefe da Polícia Federal em Campos, dr. Paulo Cassiano, por ter me detido arbitrariamente na semana da eleição, o que posteriormente foi comprovado através da minha absolvição por unanimidade no Tribunal. A única crítica a membro do governo feita por mim foi direcionada ao sr. Antônio Neves, atual chefe de gabinete, por estar usando do seu “cargo” para intimidar servidores, tentando tirar a liberdade deles. Se foi este o motivo alegado pelo vereador para qualquer “ruptura”, vejo como inócuo. Mesmo sendo meu, utilizo as redes sociais de forma responsável.
Folha – Em entrevista à Folha com 14 perguntas, na qual você apareceu como personagem algumas vezes, Aluizio pareceu ter o cuidado de não citar o seu nome nenhuma vez. Acha que foi por acaso ou isso significou algo?
Carla – Prefiro não fazer pré-julgamento.
Folha – Na declaração mais forte na entrevista, sobre a ruptura dele e de Neco com você, Aluizio respondeu: “Se há Judas nessa história, não somos nós”. Há Judas nessa história? Na sua visão, quem seria? E por quê?
Carla – Acho que o único que poderia responder a pergunta seria o próprio Vereador. Judas é chamado quem trai e isso não se aplica a mim. Sempre cumpri meus compromissos. Certa ocasião afirmei que seria eleita, reeleita e que faria sucessor. E fiz! Saí com 88,7% de aprovação de governo após oito anos de mandato e cumpri minhas promessas com o povo de São João da Barra.
Folha – Não acha que sua saída do PMDB para o PT, desde setembro no ano passado, foi precipitada? Por que não esperar mais pela definição do quadro estadual e dar a Neco uma justificativa política para romper com você?
Carla – Não. Deixei a tempo de ser precipitada, penso antes de tomar uma decisão. Quando não nos sentimos satisfeitos numa casa, ou até mesmo agremiação política, o que nos resta é buscar outro espaço. Foi o que fiz. Quanto a esperar para dar justificativa ao prefeito para um rompimento, não vejo dessa forma. Quando se quer arrumar “porquês”, se arruma.
Folha – Consta que o governador Sérgio Cabral (PMDB), assim como seu vice e pré-candidato a sucedê-lo, Luiz Fernando Pezão (PMDB), teriam ficado ressentidos com sua saída para o PT. Como alguém que já esteve à frente da máquina pública, não teme agora ter que enfrentá-la, com força estadual, numa eleição?
Carla – Não existe a palavra medo no meu dicionário. Venho da luta e já passei por muitas coisas… Temor só a Deus!
Folha – Além do desgaste antigo com Jorge Picciani, que bancou o ex-vereador Gersinho no PMDB, mesmo quando ele liderava da presidência da Câmara a oposição ao seu governo, o que mais a levou a trocar de partido?
Carla – Todos estavam cientes, desde o período eleitoral em 2012, que não mais permaneceria no PMDB, porque a nossa executiva municipal não teve o devido respeito da estadual, na questão da liberação do vereador do partido para disputar a vice no PR. Outro motivo foi por achar que no segundo mandato, Sérgio deixou nossa região abandonada e todos nós no fogo cruzado com o ex-governador Garotinho sem o apoio político necessário.
Folha – Você tem muitos eleitores também em Campos (aqui), suficientes, por exemplo, para eleger seu irmão Fred Machado (SDD) a vereador. No PT de Campos, há três nomes que lançaram pré-candidaturas à Alerj: o vereador Marcão, a ex-vereadora Odisséia Carvalho e o professor Alexandre Lourenço. Não é gente demais?
Carla – Por mais que eu pareça e me sinta uma sanjoanense, sou nascida em Campos e morei metade da minha vida lá. No ano passado, por causa da escola do meu filho me dividi entre Campos e São João da Barra, além de ter meu pai, irmãos e outros familiares residindo aí. Minha mãe era sanjoanense. Quando viva morava comigo em São João da Barra. Quanto ao grande número de pré-candidatos do partido, isso é uma verdade. Creio que para o PT da região fazer representantes, seria melhor termos menos candidatos. Porém, todos têm direito à disputa.
Folha – Quando assinou sua filiação ao PT, o senador e pré-candidato a governador Lindbergh Farias disse (aqui) que você seria “tratada como uma princesa” no partido. Tem recebido esse tratamento?
Carla – (Risos) Já passei dessa fase. Tenho tido muito boa relação com o senador Lindbergh e nos falamos bastante o ano passado. Este ano, menos, em virtude de eu estar envolvida com o restaurante Cais do Porto e com outras coisas pessoais. Mas estarei com ele na próxima semana, para conversarmos, e muito breve começaremos a trabalhar com força e determinação.
Folha – Recentemente, você se negou (aqui) a se retratar numa audiência de conciliação, num processo movido pelo deputado federal e pré-candidato do PR a governador, Anthony Garotinho, desabafando depois sobre isso no facebook. A coisa entre vocês dois virou pessoal? Enfrentar ele, Neco, Cabral e Pezão, ao mesmo tempo, não é muita coisa?
Carla – Verdade. Eu já pedi desculpa a algumas pessoas e todos nós somos passíveis de erros. Me neguei a me retratar com o deputado Garotinho, por entender que quem deve se retratar com muita gente é ele. Infelizmente a legislação protege alguns políticos que se utilizam da imunidade parlamentar para caluniar pessoas de bem. Na verdade, não me lembro da existência do nobre Deputado até ele me “encher o saco”. Mas acho que vocês estão me superestimando. Apesar de eu incomodar alguns, graças a Deus, tenho a confiança e apoio do meu povo. Além de ter bons amigos, peço ao Pai para me dar sabedoria para conduzir minha vida e me livrar das maldades. Temos que acreditar no sonho, correr atrás e… vamos que vamos!
Folha – A pré-candidatura à Alerj de Bruno Dauaire pelo PR (aqui) pode ser uma das armas de Garotinho para tentar neutralizá-la. Como está preparada para enfrentá-la? E a pré-candidatura do vereador Kaká (PT do B), pode também incomodar?
Carla – Não acredito. E me preocupo com minha candidatura e não com outras. Tenho serviço prestado e é só comparar currículos e avaliar o comprometimento de cada um com a população. Tenho certeza que tudo dando certo, que saberei representar o povo de São João da Barra, Campos, São Francisco e demais municípios da toda região Norte e Noroeste na Alerj.
Folha – Na quase certeza de que Neco não vai apoiá-la em outubro, cogita-se que ele possa apoiar a tentativa de reeleição do presidente da Alerj, Paulo Mello (PMDB), ou até o próprio Bruno, num movimento mais ousado contra você. Qual movimento causaria mais danos em sua pré-candidatura?
Carla – Não sei. O que sei é que estarei lutando para alcançar os nossos objetivos. Após oito anos como prefeita, saí com 88,7% de aprovação de governo, sendo que 73% da população considerou nosso governo bom e ótimo. Tenho o carinho do povo amigo de São João da Barra, o que me orgulha muito.
Folha – Em sua entrevista, Aluizio também disse que “com o rompimento todos perdem”. Há maneira de você e Neco voltarem a caminhar juntos? Consumada a separação, não ficaria aberto um espaço desnecessário para uma via alternativa, sobretudo em 2016, como Bruno?
Carla – Com certeza. Política é dinâmica e não se diz “nunca”. O povo de São João da Barra me conhece bem. Tenho trabalho realizado, não tenho apenas discurso bonito e vazio.
Folha – Sobre 2016, você já chegou a ser cogitada, em 2012, como candidata a prefeita em Campos, e se considera quase certa sua candidatura, sobretudo se conseguir se eleger deputada estadual, na próxima eleição a prefeito de São João da Barra. Sem esquecer outubro próximo, o que projeta hoje para daqui a dois anos?
Carla – Fico feliz quando os campistas falam que eu deveria me candidatar a prefeita de lá. Ano passado eu não tinha a menor pretensão em voltar a ser prefeita, mas hoje estou repensando. Sei que o que quero no momento é representar nossa região na Assembleia Legislativa, para trazer mais oportunidades e qualidade de vida para a população das regiões Norte e Noroeste fluminense. Depois pensaremos juntos outras metas.
Folha – Pelo temperamento assertivo, pela agressividade com os adversários, mas também pela entrega e capacidade de trabalho, mais de uma pessoa já disse que você é um “Garotinho de saias”. O que a difere e a aproxima do deputado?
Carla – Cruz credo!!!… Sou Carla de saia, de calça ou de vestido. Trabalho muito e sou determinada no que me proponho a fazer. A política que pratico é progressista e não perseguidora. Só não fujo a um bom combate.
Folha – Também mais de uma pessoa já disse que você, por enquanto, está muito quieta. Quando a Carla Machado aguerrida, sem medo do combate, começará a aparecer de vez nessa eleição e na vida política de São João da Barra?
Carla – Agora entendi (risos). O meu silêncio é que tem preocupado mais… Aprendi que tudo tem o tempo certo. Há tempo de falar e há tempo de calar. Mesmo quieta, nunca fiquei ausente da vida política de São João da Barra pois “aqui é o meu lugar”!
Publicado hoje na edição impressa da Folha.