Deixei o Rio de Janeiro há duas semanas. O clima ameno do inverno me fez lamentar a viagem. Adoro o Rio de abril a julho, a atmosfera limpa e a temperatura ideal.
Nova York derrete sob um calor de Madureira.
Fui assistir ao musical de David Byrne sobre a vida de Imelda Marcos. Achei um pouco ingênuo, mas gostei de saber da história. Ela guarda alguns paralelos com as manifestações populares que tomaram conta do Brasil. Em frente ao balcão do palácio, com o povo linchando os bonecos do casal Marcos, Imelda pergunta à massa o porquê de não gostarem dela. Depois, foge para os Estados Unidos em um helicóptero, acompanhada de cinquenta membros de seu partido e 3 000 pares de sapato.
Quando saí do Rio, a vigília em torno do prédio do governador Sérgio Cabral estava apenas começando. Amigos mais engajados se juntavam ao protesto e muitos sofreram com a ação violenta da polícia.
Boatos, vindos de gente bem informada, levantavam a apavorante hipótese de a truculência da guarda estar partindo não da Secretaria de Segurança, mas das milícias infiltradas na corporação, insatisfeitas com a atual política.
Conhecidos, revoltados com a ponte aérea Rio-Porto Belo do helicóptero do governador, prometiam fazer o que estivesse ao alcance deles para tirar Cabral do poder.
Alguns se aglomeraram na porta da igreja para berrar contra o casamento milionário da filha de um empresário de transporte. Outros tentaram controlar a fúria dos companheiros de passeata. Um homem retrucou dizendo que estava ali porque era incapaz de sustentar a própria família com a merreca que ganhava por mês. Tomado, investia contra lojas e restaurantes da Zona Sul.
Meu irmão viu uma turba de encapuzados de preto, munidos de pedras, se dirigir para Ipanema.
A revolução popular comporta muitas tribos, muitas vontades e muitos pontos de vista. Não é à toa que a Revolução Francesa decapitou seus principais líderes após a vitória.
Cabral velejava nos bons ventos das UPPs e dos eventos esportivos que viriam sustentar a economia do Rio de Janeiro até 2016. Foi pego pelo jantar da Delta, em Paris, e pelo uso abusivo do transporte aéreo. De uma hora para outra, vestiu a coroa de Luís XVI.
A ditadura das ruas, se perpetuada, corre o risco de se tornar algo brutal, perigoso e irascível. Resta saber quem sairá fortalecido dessa batalha.
Temo tanto a esquerda radical, pura, virgem, que vê em todo e qualquer empresário um corrupto em potencial, quanto o capitalismo sem freio, que aceita conchavos, subornos e privilegia aliados. Mas me apavora, acima de tudo, o populismo de Garotinho.
Eu me pergunto se a grita não beneficiará, mais tarde, forças políticas devastadoras.
Tenho refletido sobre as opções para 2014. A ideia de que as milícias estariam por trás da ação dos policiais, com o objetivo de acabar com a credibilidade do trabalho de José Mariano Beltrame, é uma triste possibilidade. Quando eu me lembro de Álvaro Lins, tenho vontade de chorar.
É preciso ter cuidado para não servir de massa de manobra para as sempre alertas forças ocultas.
Como diz um amigo budista, o mal é sempre poderoso e a virtude, frágil como pluma.
Postagem feita aqui, no blog da atriz Fernanda Torres, na Veja Rio, também reproduzido aqui, na blogosfera goitacá, pelo Ricardo André Vasconcelos.
O PT de Campos já teve alguns representantes no Legislativo municipal por força do prestígio individual dos eleitos. Sim, porque o partido nem sempre consegue aglutinar forças. Quase sempre vai rachado para as eleições. Agora, para 2014, não será diferente.
E olha que a eleição não é para a Câmara de Vereadores. A tarefa é muito mais difícil.
O PT, veja só, em uma disputa para a Assembléia Legislativa, quando, com um candidato, já teria muitas dificuldades em elegê-lo, deve ir com três nomes. É muita pretensão.
Pode ser que, mais na frente, o PT tenha a compreensão de que não tem condições de concorrer com tanta gente e racionalize pretensões internas. Afinal, dos três postulantes, apenas Marcão, que é vereador, já foi testado e aprovado nas urnas.
Mas o PT está longe de chegar a um consenso. Odisséia Carvalho, suplente nas duas eleições que disputou para a Câmara de Vereadores, antecipou, em entrevista ao jornalista e blogueiro Aluysio Abreu Barbosa (aqui), que não tem planos para declinar de sua pré-candidatura.
Da mesma forma, Alexandre Lourenço, que também se coloca como pré-candidato dentro do PT na eleição para a Alerj, declarou que não pensa em desistir. “Sou pré-candidato de oposição ao governo Sérgio Cabral, com o apoio de Alessandro Molon” (leia aqui).
Na democracia irrefreável das redes sociais, o movimento “Cabruncos Livres” está convocando para a lavagem da escadaria da Câmara Municipal de Campos, no próximo dia 7, quando os vereadores de Campos, hoje reunidos para debater a lei orgânica, voltam do recesso legislativo. Quem quiser participar ou conhecer melhor a proposta, reproduzida abaixo, basta clicar aqui…
LAVEMOS-NÓS!
Convocamos todos nós Cabruncos Livres para o dia 07 de AGOSTO de 2013 que marca o final do recesso da Casa Legislativa para esta experiência lúdica de toda uma DEMANDA da NOSSA sociedade.
LAVAREMOS As ESCADARIAS DA CÂMARA DE VEREADORES DE CAMPOS DOS GOYTACAZES – RIO DE JANEIRO – RJ.
TRAGA SEU BALDE, SUA VASSOURA À RODO! LAVEMOS-NOS!
Por Ricardo André Vasconcelos, em 29-07-13 – 19h48
Ela é, sem dúvidas, uma das maiores intérpretes brasileiras de todos os os tempos.
Maria Bethânia vai cantar no palco do Trianon na próxima quarta-feira, dia 31, como parte da programação dos 15 anos do Teatro. Meu ingresso, na fila F, foi comprado por R$ 100,00 e, outras 800 e poucas pessoas como eu também pagaram pelo ingresso.
Mas a conta não fecha. Se eu e outros 800 e poucos fãs compraram o ingresso a bilheteria vai arrecadar, no máximo, R$ 80 mil. Isso na melhor das hipóteses, pois desconte aí os convidados, que nada pagam e os idosos, estudantes, que, com muita justiça pagam metade do valor.
No entanto, a Prefeitura de Campos pagou, na última sexta-feira, de cachê à grande cantora, R$ 233.750,00 mediante nota fiscal nº 94 emitida na véspera pela empresa Jaci Produções Artísticas(*).
Ou seja, a maior parte do cachê vai ser pago por quem não vai ter a oportunidade de ver a grande cantora baiana.
O cachê de Milton Nascimento, que se apresentou no mesmo teatro no último sábado, foi de R$ 83.500,00.
Valores dos cachês de outros artistas contratados para os 15 anos do Trianon:
Segundo colocado na última disputa à Prefeitura de Campos, ainda que sem conseguir forçar o segundo turno com a prefeita Rosinha (PR), o petista Makhoul Moussallem quer garantir a manutenção dos seus mais de 60 mil votos, nas urnas de 2012, para a eleição à Câmara Federal, em 2014. Em outros municípios, como Macaé e Maricá, onde já teve declarado o apoio dos respectivos prefeitos, Aluízio Júnior (PV) e Washington Quaquá (PT), Makhoul espera ampliar o eleitorado em todo o Estado, assim através da sua militância na medicina e da numerosa colônia libanesa fluminense. Em relação à composição de chapas com os pré-candidatos do PT de Campos à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), ele lembra que lançou seu nome a federal no mesmo dia que Odisséia Carvalho a estadual. Mostrando respeito às prováveis alianças de Alexandre Lourenço com Molon, e de Marcão com Chico D’Ângelo, Makhoul busca o que há de comum entre ele e seus correligionários goitacá, mas ressalva: “Não sendo adúltero, sou político-partidariamente poligâmico”.
Foto de Edu Prudêncio - Folha da Manhã
Folha da Manhã – Você teve 61.143 votos para prefeito de Campos, em 2012. Não bastou para o forçar o segundo turno com a prefeita Rosinha (PR), mas quantos desses votos pretende manter na eleição para deputado federal?
Makhoul Moussallem – Se possível, manter todos e tentar acrescentar mais votos, já que não há motivos para que as pessoas que em mim confiaram para ser prefeito, não confiem para ser deputado. Na eleição de 2012, em torno de 103 mil pessoas votaram na oposição. Até o momento, sou o único pré-candidato a deputado federal do grupo da oposição, donde, se trabalharmos com afinco, acredito que poderemos não só manter os nossos, como conquistar mais votos.
Folha – Além dos votos de Campos, você terá o apoio dos prefeitos Aluízio Júnior (PV), de Macaé, e Washington Quaquá (PT), de Maricá. Como os conquistou e o que eles podem ajudá-lo a conquistar em 2014?
Makhoul – O apoio do meu amigo Aluísio Júnior, prefeito de Macaé, como ele mesmo declarou numa entrevista à Folha da Manhã, é porque me conhece de longa data e sabe do meu caráter e da minha maneira de pensar, e acredita que eu posso representar bem o Norte Fluminense na Câmara Federal, defendendo não só os interesses de Campos e Macaé, como de todos os Municípios da região, e, inclusive, do Estado, principalmente na área da educação e da saúde. O apoio de Quaquá é pelos mesmos motivos, e também por acreditar que eu possa ser uma força renovadora no PT. Ambos podem e vão me ajudar na captação de votos de maneira ética, conquistando uma cadeira na Câmara dos deputados, onde vamos levantar as bandeiras da educação e da saúde, e apresentar projetos de interesse coletivo, como, por exemplo, o “Brasil Saudável”, que começa com a alimentação sadia, prática de esportes, aprimoramento da atenção básica, finalizando com a assistência médica na média e alta complexidade.
Folha – E sua atuação como médico, na Unimed, no Álvaro Alvim e no Cremerj, como podem ser revertidos em votos e apoio político? No mesmo sentido, que apoio espera ter da comunidade libanesa fluminense?
Makhoul – A minha atuação ao longo da minha vida profissional foi sempre visando o coletivo. Montei o primeiro Pronto Socorro de Campos na Santa Casa em parceria com a mesma, a Prefeitura e o Inamps. Fundei a Unimed-Campos com outros 60 colegas. Na presidência da Fundação Benedito Pereira Nunes transformei o Hospital Álvaro Alvim, um prédio de 6 andares, onde só funcionava o ambulatório no térreo, em Hospital de Ensino (Hospital Escola Álvaro Alvim), certificado pelos ministérios da Saúde e da Educação, e instalei vários serviços de excelência para atender o SUS. No Cremerj, onde já sou conselheiro por 20 anos, trabalho junto com outros 41 conselheiros pela preservação da ética, pugnando por melhores condições de trabalho para os médicos e, consequentemente, melhorando o atendimento à população. Todos que comigo trabalharam e trabalham nestas instituições sabem da minha capacidade de trabalho, honestidade de propósitos, das minhas convicções sociais e humanitárias. E, sem dúvida, são meus apoiadores em qualquer tarefa que eu empreenda, ajudando-me politicamente e na conquista de votos. É evidente que há exceções; não tenho a pretensão de agradar a todos e nem de ser unanimidade. Os projetos na área da saúde contarão com apoio da esmagadora maioria dos médicos e de outros profissionais da saúde. Em relação à comunidade libanesa fluminense, tenho a pretensão de ser por ela apoiado politicamente e em votos. Sou um dos poucos libaneses que se tornou brasileiro da gema, sem, no entanto, renegar a sua origem e de perder a ligação com ela, de falar e escrever a língua árabe e de querer uma profunda comunhão do Líbano com o Brasil, em favor dos dois povos e de se orgulhar de ambos.
Folha – Em relação à sua condição de médico, você participou ativamente da mobilização contra a contratação de médicos cubanos pelo governo federal do PT. Entre o médico e o petista, sua opção será sempre pelo primeiro? Por quê?
Makhoul – Antes de ser médico e ser filiado ao PT, sou um cidadão brasileiro que gosta de seu país e dos seus compatriotas, donde a minha primeira opção será sempre pelo que acredito ser correto e o melhor para a população, principalmente a carente. Não só fui contra a contratação de médicos estrangeiros sem revalidação do diploma, como também fui contra a MP 621 na sua íntegra, porque entendo que não vai resolver o problema da assistência médica no país. Medidas midiáticas para atender o clamor das ruas, decididamente, não são o melhor caminho e nem fazem a minha cabeça; mas sim um estudo profundo das raízes do problema e daí um planejamento sério e estratégico com começo, meio e continuidade. Participei ativamente e continuarei participando, emitindo minha opinião sempre que se fizer necessário, pois, modéstia à parte, deste riscado eu entendo; inclusive e, principalmente, para ajudar o PT a reencontrar o seu verdadeiro caminho na solução dos problemas nacionais e na consolidação da cidadania e da democracia.
Folha – Você participou da manifestação dos médicos no último dia 3, que saiu do HFM até a praça São Salvador, onde se juntou aos “Cabruncos Livres”, seguindo até a Câmara. Após ver de perto, qual sua opinião sobre o movimento dos jovens nas ruas de Campos?
Makhoul – O meu contato com os “Cabruncos Livres” foi de uma boa comunhão, por eu já defender as mesmas bandeiras. Por ser contra a maneira vigente de se fazer “política”, fui chamado de “arrogante e de não saber fazer política”. Agora já tem uma multidão de “arrogantes que não sabem fazer política”. Junto com os jovens e com outras faixas etárias e com os “Cabruncos Livres”, vamos livrar a política destes “sabidos e falsos humildes que acham que sabem fazer política”, e estabelecer novo modus faciendi de política, na qual o homem público deve servir e não se servir.
Folha – Dos três pré-candidatos do PT de Campos a deputado estadual, o Alexandre Lourenço já deixou claro seu apoio à reeleição do deputado federal Alessandro Molon. E quanto a Marcão e Odisséia?
Makhoul – O compromisso do Alexandre Lourenço com a reeleição do deputado Molon é anterior a minha pré-candidatura, assim como o do nosso vereador Marcão com a possível pré-candidatura do deputado Chico D’Angelo, atual secretário de Saúde de Niterói. A ex-vereadora Odisséia lançou a sua pré-candidatura no partido no mesmo dia que lancei a minha. Todos somos do mesmo partido e defendemos as mesmas ideias e bandeiras em relação à ética e à honestidade na política. O bom de uma eleição proporcional no Estado é que os votos vão todos para um fundo comum do partido, tanto federal, como estadual, e uns ajudam os outros a se elegerem, donde farei uma campanha partidária, ou seja, casado com todos e todas; não sendo adúltero, já que sou político-partidariamente poligâmico.
Publicado hoje na edição impressa da Folha da Manhã.
Desde que os artistas de Campos se mobilizaram em protesto à denúncia da censura da peça “Bonitinha, mas ordinária”, por supostos motivos religiosos da prefeita Rosinha (PR), segundo denunciaram integrantes do grupo teatral carioca “Oito de Paus”, que encenaria a peça de Nelson Rodrigues no Trianon, um movimento dos aloprados rosáceos foi feito no sentido de se tentar responsabilizar pessoalmente um dos titulares desta coluna, também titular do blog Opiniões, pela reação de toda uma categoria em torno das críticas à política cultural pública do município.
No blog, onde a interatividade do leitor é bem mais direta, rápida e fácil, e onde o comentarista pode usar nome e e-mail falsos para tentar se manter no anonimato, aquele que funciona como cachaça, no sentido de dar coragem a quem não tem, uma sucessão de comentários ofensivos, com ameaças pretensas, do nível mais baixo possível, passou a se suceder quase diariamente. Embora editados ou retidos pela moderação, todos foram devidamente arquivados em sua íntegra, com seus IPs de origem, para a devida investigação policial e as providências jurídicas cabíveis.
Certo que a rica cultura de Campos, que não se restringe ao poder público, é muito, mas muito mais importante que as pessoas nela envolvidas, sejam como artistas, presidentes de fundações municipais, jornalistas ou blogueiros. A polarização pessoal, portanto, só deve ser buscada por quem nada tem, além dela, a oferecer como argumento ao debate. E se tratam de duas certezas historicamente alicerçadas em outra: desde 28 de março de 1835, há mais de 178 anos, quando Campos foi elevada à condição de cidade, que sua cultura não é mais a da vila.
Publicado hoje na coluna Ponto Final, na edição impressa da Folha.
O incansável administrador do teatro do Sesi de Campos, Fernando Rossi, divulgou por e-mail, agora há pouco, a agenda cultural da instituição para o mês que se avizinha. Além disso, com inscrições abertas a partir de 13 de agosto, e com vagas limitadas, será oferecida uma oficina de teatro para crianças e adolescentes entre 7 e 12 anos. Até porque o Sesi, sob comando do Rossi e sua competente equipe, tem sido uma das poucas boias salva vidas neste oceano do marasmo cultural do município, vale muita a pena a divulgação…
Bem-vindo aos nossos corações, nos quais gravou seu cativante sorriso e a simplicidade tão rara naqueles que, como você, galgam os degraus do poder.
Bem-vinda a sua ousadia evangélica de entrar no Brasil como Jesus em Jerusalém: não montado no cavalo branco dos imperadores, equivalente hoje às limusines blindadas, e sim no “burrico” de um carro de classe média, com o vidro aberto, sem nojo do cheiro de povo nem temor da acolhida calorosa da população.
Bem-vindo este nome, Francisco, para nomear um papa. O santo de Assis rejeitou, nas origens do capitalismo, o sistema produtivo que gerava concentração de riquezas e exclusão social, e que teve em Bernardone, pai do jovem Francisco, um dos pioneiros.
Bem-vindo à opção pelos pobres, à denúncia da corrupção dentro e fora da Igreja, e da “globalização da indiferença” diante dos fluxos migratórios provocados pela miséria semeada na África pelo colonialismo europeu.
Bem-vindo ao “colocar mais água no feijão” de todos que, “comprometidos com a justiça social”, não se cansam de “trabalhar por um mundo mais justo e solidário.”
Bem-vindo, Francisco, ao grêmio de todos que combatem a “cultura do descartável” e, como você, acreditam que “a medida da grandeza de uma sociedade é dada pelo modo como esta trata os mais necessitados, que não têm outra coisa senão a sua pobreza.”
Bem-vindo à Igreja “advogada da justiça e defensora dos pobres diante das intoleráveis desigualdades sociais e econômicas que clamam ao céu”, como você enfatizou ao fazer eco ao Documento de Aparecida. Não mais uma Igreja que, sob o pretexto de “não se meter em política”, se aninha à sombra dos ricos e poderosos, cala a voz de seus profetas, prega a cruz de Jesus mas se recusa a carregá-la por considerar difamações e perseguições uma maldição, e não uma bem-aventurança.
Bem-vindo à reforma da Igreja iniciada pela mudança que você imprime ao papado. Nada de arminho, cruz de ouro, sapatos vermelhos. “Acabou o carnaval!”, você advertiu ao quererem vesti-lo como um príncipe. Nada de tratá-lo por Sua Santidade, Sumo Pontífice, Santo Padre, e sim apenas por papa, bispo de Roma, servo dos servos de Deus.
Bem-vindo, Francisco, à urgência de abrir os altares aos sacerdotes casados e às mulheres vocacionadas ao sacerdócio; e os sacramentos aos casais que contraíram segundas núpcias.
Bem-vindo às Comunidades Eclesiais de Base, que você tanto valorizou em Aparecida, em 2007, ao fim do celibato obrigatório, à abertura do debate sobre todos os temas atuais relacionados à teologia moral: preservativo, homossexualismo, aborto, pílula do dia seguinte, célula-tronco etc.
Bem-vindo à reforma da Cúria Romana e à sua iniciativa de nomear uma comissão de oito cardeais dos cinco continentes para assessorá-lo na profilaxia da Igreja. Queira Deus que sejam extintos o Banco do Vaticano, e também as nunciaturas apostólicas, de modo a valorizar, no espírito colegiado do Vaticano II, as conferências episcopais.
Bem-vindo, Francisco, a esse mundo globocolonizado que tanto necessita de um papa que seja expressão de Jesus e São Francisco: tolerante, amigo dos pobres, misericordioso, alegre, servidor da justiça, capaz de respeitar as diferenças religiosas e denunciar as causas das desigualdades sociais.
Jovens nas ruas , anunciava O Globo em sua primeira página do caderno de Economia da última quinta-feira. Era uma clara alusão ao protagonismo da juventude nas recentes manifestações. Mas era implacável o título completo: Jovens nas ruas. No olho da rua . Pois a verdadeira notícia foi o aumento do desemprego entre os jovens de 16 a 24 anos, de 14,6% para 15,3%, mais do que o dobro dos 6% registrados para a média de todas as idades. O desemprego entre os jovens é muito alto e não para de subir. Sem legislação trabalhista, sem encargos sociais e previdenciários sobre a mão de obra, 3,5 bilhões de eurasianos mergulharam nos mercados de trabalho globais, condenando ao desemprego em massa os países com mercados de trabalho inflexíveis. Uma verdadeira guerra mundial por empregos.
O problema é mais agudo em economias prisioneiras da armadilha social-democrata do baixo crescimento. Regimes previdenciários irrealistas, legislações trabalhistas inadequadas e organizações sindicais anacrônicas derrubaram o crescimento, aumentaram o desemprego e marginalizaram toda uma geração ao impedir o acesso de jovens pouco experientes aos mercados de trabalho. Na Europa, ficou conhecido como euroesclerose o fenômeno do baixo crescimento e da incapacidade crônica de geração de empregos nas décadas anteriores à criação do euro. Sim, pasme o leitor, pois os males atuais são todos atribuídos à nova moeda. Na Grécia, em Portugal e na Espanha, as taxas de desemprego entre os jovens estão em torno dos 50% – metade dos jovens não tem futuro. No Brasil, com encargos sociais e trabalhistas de quase 100% dos salários, um emprego é destruído para cada emprego criado.
Os jovens sem futuro são vítimas de instituições inadequadas. Justamente indignados, devem perguntar a seus pais por que as garantias trabalhistas e previdenciárias outorgadas a si próprios pelos membros das gerações mais velhas destruíram a capacidade de geração de empregos para os mais jovens. Afinal, herdam de seus pais não apenas valores morais e bens materiais, mas também seus países e suas instituições. O conflito entre as gerações aumenta quando a juventude é ameaçada pelo despreparo, pelo egoísmo, pela irresponsabilidade e pela desatenção dos mais velhos e pelo seu legado institucional.
Dilma disse à Folha de S. Paulo: “Lula não vai voltar porque não saiu”. Foi em resposta à pergunta se ele voltaria a ser candidato à presidência da República em 2014 quando, a principio, Dilma tentará se reeleger. O que Dilma quis dizer com essa história de “não voltar porque não saiu?” Objetivamente, nada. Apenas fugiu de uma resposta direta, frontal à pergunta. Razoável. Se nem ela sabe o que vai acontecer…
Uma coisa é termos uma presidência compartilhada como temos hoje. Dilma não se sente segura para governar sozinha. Pede conselho a Lula sempre que a infelicidade bate à sua porta. Se não pede, ele oferece por telefone. Ou por meio de ministros e assessores que devem o emprego a ele e não a Dilma. Bem, outra coisa é proceder como Lula quando Dilma substituiu José Dirceu na chefia da Casa Civil.
Para enganar os tolos, Lula passou os dois últimos anos do seu segundo mandato repetindo que Dilma governava tanto quanto ele. E que era melhor gestora do que ele. Ora, Dilma fazia o que Lula mandava. Muitas das sugestões que deu foram acatadas por Lula, outras não. Esperto, Lula entregou a gerência do governo a ela para governar à vontade. Não se governa sem fazer política. Muito menos se governa centralizando tudo.
Lula teve melhor equipe do que Dilma tem. Embora soubesse lidar com políticos, cercou-se de gente que também sabia.Os bons ventos sopraram a economia enquanto governou. Por hábil e carismático, levou no gogó a maioria dos brasileiros sempre que se viu em aperto.Depois de consultar amigos, viu que não valeria a pena batalhar pelo terceiro mandato consecutivo. Deu um tempo. Chamou Dilma. Espera reciprocidade.
Há condições para que a reciprocidade se consuma. Mas Dilma está obrigada antes a reagir. Sua popularidade não poderá continuar caindo. Falta mais de um ano para a próxima eleição. Se Dilma chegar feito um trapo em março, não parecerá natural que anunciem para deleite certo do distinto público: “Senhoras e senhores, o candidato do PT e de nove entre 10 partidos à presidência da República será… Luiz Inácio Lula da Silva”.
Que brincadeira é essa? A melhor gestora do governo Lula teria fracassado ao se tornar gestora do seu próprio governo? Ou simplesmente Lula mentiu ao imputar-lhe a falsa condição de melhor gestora? Lula pensa que é assim? Que o povo é bobo e jogará a culpa na Rede Globo? Que o país engolirá a desculpa de que o mau desempenho de Dilma surpreendeu até ele mesmo? Mas que uma vez de volta ele haverá de correr atrás do tempo perdido?
O eventual retorno de Lula passará pela reabilitação de Dilma. A permanência do PT no poder passará pela reabilitação de Dilma. Se candidata outra vez ela talvez não se reeleja. Mas se for alijada da disputa presidencial para evitar uma derrota é quase seguro que o PT acabará alijado do Palácio do Planalto. Sem arrogância alguma, aceita-se apostas. Cartas à redação. Ou: e-mails. Como preferirem.
“A pacífica convivência entre religiões diversas se vê beneficiada pela laicidade do Estado que, sem assumir como própria qualquer posição confessional, respeita e valoriza a presença da dimensão religiosa na sociedade, favorecendo suas expressões concretas”
(Papa Francisco, em seu discurso mais político na Jornada Mundial da Juventude, ontem, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro)
Babalaô Ivanir dos Santos, representante do candomblé e filho de uma ex-cortadora de cana de Campos, foi recebido ontem pelo Papa Francisco, no Teatro Municipal (Foto: Claudio Menezes)