Soffiati propõe em O Globo soluções para a questão das cheias

A partir de contato feito por este blogueiro, entre o historiador ambiental Arthur Soffiati e o Aloysio Balbi, talentoso jornalista da Folha e de O Globo, o primeiro publicou hoje um artigo no jornal carioca, em sua página de opinião, no qual propõe soluções para a questão das cheias na região. Trata-se de um resumo de outro texto que Soffiati já havia escrito aqui, a pedido do blog. Abaixo, o texto publicado hoje em O Globo…

 

Enchentes no norte-noroeste fluminense
Por Arthur Soffiati

Quatro bacias hídricas principais drenam a Zona da Mata Mineira: a do Paraíba do Sul, a do Rio Doce, a do Itabapoana e a do Itapemirim. Das quatro, cortam a região norte-noroeste fluminense a do Paraíba do Sul e a do Itabapoana. A do Paraíba do Sul é a maior e recebe da Zona da Mata os afluentes Paraibuna. Pirapetinga, Pomba e Muriaé. A enchente de 2012 assolou o norte-noroeste fluminense pelos dois últimos, sobretudo.

Manoel Martins do Couto Reis, em 1785, e Antonio Muniz de Souza, em 1834, subiram o Muriaé e descreveram sua navegabilidade até o local onde hoje se ergue a cidade de Cardoso Moreira, seus longos meandros, suas extensas várzeas e suas pujantes florestas. Registram também que engenhos de açúcar estavam subindo o vale do rio e exortam quanto ao aproveitamento das florestas e das várzeas para fins econômicos.

Sobre o Rio Pomba, um importante depoimento foi deixado pelo naturalista alemão Hermann Burmeister, que subiu seu curso em direção a Minas Gerais, em 1850. As vastas florestas também fascinaram o viajante. Mas ele já denunciava o avanço do desmatamento.

As florestas foram o primeiro alvo econômico dos colonos, fornecendo lenha e madeiras nobres. Muitas delas foram sumariamente removidas por meio de fogo para a abertura de espaço destinado à agropecuária. Pouco mais de dois séculos depois de Couto Reis, a cobertura florestal do noroeste fluminense reduziu-se de 100% para 1%. As várzeas e lagoas marginais do Muriaé foram separadas do rio por diques e comportas. Intensificou-se a circulação de tropeiros entre a Zona da Mata e Campos nos dois sentidos. As rotas seguidas por eles foram substituídas por caminhos de terra, descritos pelo Major Bellegarde em 1837, e pela ferrovia Carangola, posteriormente substituída pela rodovia BR-356, que, em grande parte, cruza o leito maior do Muriaé.

Então, chegou a vez da urbanização. Laje do Muriaé, Itaperuna, Italva e Cardoso Moreira, no Muriaé. Santo Antônio de Pádua, Miracema e Aperibé, na bacia do Pomba. A maioria dos núcleos urbanos ocupa parte dos leitos de cheia ou mesmo invade o leito regular dos rios. Outros sobem encostas.

Hoje, chuvas torrenciais não contam mais com florestas e lagoas marginais para reduzir seu ímpeto. Nem mesmo diques construídos nas margens dos rios bastam para conter as cheias. Em janeiro de 2012, a cheia do Muriaé destruiu dois diques e provocou um rombo na BR-356. Cardoso Moreira e a localidade campista de Três Vendas ficaram embaixo d’água.

Como de hábito, autoridades federais, estaduais e municipais se desculpam e se acusam. Todos são responsabilizados e ninguém assume a responsabilidade. Usando coletes da defesa civil, todos visitam as áreas afetadas e prometem soluções definitivas, mas sempre pontuais. O problema das enchentes, no norte-noroeste fluminense só será relativamente resolvido com um programa de reflorestamento, com a liberação das lagoas e de parte das várzeas como áreas de escape, com a reforma (e não meros reparos) nos diques e na rodovia BR-356 e com a transferência de núcleos urbanos para partes mais altas. Mas, pelo visto, novamente a população atingida será vítima da indústria das enchentes.

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Diretor da Câmara de Campos tem alta em hospital da Bahia

Um dia antes do que informou ontem (aqui)  ao blogueiro, hoje o diretor geral da Câmara de Campos, Amaro Luís dos Santos Rangel, recebeu alta hoje da Santa Casa de Misericória de Salvador, assim como sua esposa, Eliane Rangel. Ele guiava o carro numa colisão em Feira de Santana, no último domingo, no qual também estavam Nélia e Maria Oliveira, respectivamente esposa e filha do presidente da Câmara, vereador Nelson Nahim (PPL).

Nélia e Maria ainda permanecem internadas no hospital da capital baiana. A previsão é que tenham alta na sexta, quando devem também voltar a Campos, em companhia de Nahim.

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Muhammad Ali — O maior de todos os tempos

Aqui, quando da morte do ex-boxeador e ex-campeão mundial Joe Frazier, lancei mão de um oxímoro para seu epitáfio, posto que, embora baixo para a categoria peso-pesado, dentro de um ringue, ninguém como ele esteve à altura do maior pugilista de todos os tempos: Muhammad Ali. 

Pois, hoje, enquanto o mundo celebra os 70 anos de vida de Ali, no lugar de um texto em prosa, faço aqui minha modesta lembrança à data na forma de poesia, linguagem por certo mais próxima àquela com que ele mudou o mundo nos anos 60 e 70 do séc. 20, dentro dos ringues e fora deles…

 

“virá impávido que nem muhammad ali
virá que eu vi”
(caetano veloso)

 

paixão a palo seco 
 
o punho esquerdo vivo, arauto ativo
da direita dissimulada em guarda baixa,
guardada ao avessar da face que o encara
pendularmente, lado a lado, pela cartilha,
não para frente e trás, como seria
recuar nos trilhos do trem que avança,
só não alcança quando lá está ali,
feminino nos gestos de um felino.
 
a delicadeza florescida em oposição,
por oposto o soco ao giro da ponta do pé
na lona plantado à picada da abelha,
mas de raiz aérea, de vôo de borboleta
— belo a reinventar o mundo que abalou,
derrubando homens e se arrogando rei,
negou ser soldado de matar alguém,
para afirmar sua raça: homens também;
eu, nós, nos versos do campeão.
 
campos, 22/03/07

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Ejetadas do carro na colisão, mulher e filha de Nahim ainda estão internadas

Ao contrário do que a edição impressa da Folha informou hoje, na capa e na página 2 do primeiro caderno, Nélia e Maria Oliveira, respectivamente esposa e filha do vereador Nelson Nahim (PPL), não receberam alta ontem. O blogueiro falou agora há pouco, por telefone, com o presidente da Câmara de Campos. Ele está na Bahia, ao lado da mulher e da filha, ainda internadas na Santa Casa de Misericórdia de Salvador.

No acidente ocorrido no último domingo, numa estrada em Feira de Santana, ambos foram ejetadas do carro. Nélia sofreu escoriações, enquanto Maria teve uma parte do couro cabeludo descolada na colisão (já reimplantada), mas felizmente não sofreu nenhum dano neurológico. Ambas passam bem se e submeteram a exames de tomografia e ressonância. A partir do resultados, a expecativa é que tenham alta possivelmente amanhã.

Diretor da Câmara de Campos, Amaro Luís dos Santos Rangel guiava o carro, no qual também se encontrava sua esposa, Eliane Rangel. Ele sofreu escoriações  pelo corpo e fraturou os dedos do pé esquerdo, enquanto ela teve duas costelas quebradas. Ambos também estão ainda internados e igualmente fora de perigo.

 

Atualização às 16h30: O blogueiro acabou de falar ao telefone também com Amaro Rangel, diretor geral da Câmara de Campos. Ele revelou que a colisão ocorreu quando o pneu do carro que guiava furou. Ao perder a direção, a colisão se deu com o pneu traseiro de um caminhão que seguia em sentido contrário. Jogado para fora da estrada, o automóvel foi para num matagal às suas margens, mas não chegou a capotar. Inicialmente, seus quatro passageiros foram encaminhados ao Hospital Estadual de Feira de Santana, sendo transferidos no mesmo dia 15 à Santa Casa de Misericórdia, em Salavador. À informação passada antes por Nahim, de que a alta coletiva poderia ser dada amanhã, Amaro disse que o mais provável é que todos saiam do hospital na próxima quinta-feira.

Atualização às 21h10 de 18/01/11, para adotar o verbo mais suave do leitor Ademario.

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O bobo sem corte

 

No último dia 28, durante a confraternização de final de ano que reúne os jornalistas e blogueiros da Folha, conversava com a vereadora petista Odisséia Carvalho. Entre outras coisas, ela me falou, sem disfarçar os risos, do ostracismo a que determinada e repugnante figura havia sido relegada, real e virtualmente, após mais um dos seus surtos psicóticos, banalmente motivado pela existência do segundo turno na eleição presidencial de 2010. 

Em se tratando de alguém que, diante de uma simples discordância política, passa a classificar publicamente seus próprios amigos como putas, adúlteros, cornos, impotentes, viciados, sonegadores, covardes e idiotas, não espanta que a ausência de qualquer vestígio de altruísmo coexista, sempre bipolarmente, com o conhecimento da grafia da palavra. O problema é quando se pretende medir os outros pela própria régua. Sobretudo quando esta tem demanda muito curta para se aferir o tamanho real, metafórico, do caráter ou da própria relevância.

Moral da história: bobo é quem dá luz a canalha, notadamente quando este foi por si mesmo banido de todas as cortes.

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Mãe dá sua versão sobre discussão, tiros e morte do filho em Atafona

Rosângela ontem, no enterro do filho Douglas, à esquerda (reprodução e foto de Antonio Cruz)
Rosângela ontem, no enterro do filho Douglas, à esquerda (reprodução e foto de Antonio Cruz)

 

O blogueiro falou agora há pouco, por telefone, com Rosângela Moura, mãe de Douglas Moura Monteiro, baleado e morto aos 17 anos, no último sábado, em Atafona, pelo agente penitenciário Daniel Menezes Pinheiro. Ela falou da enfermaria do Hospital Ferreira Machado (HFM), onde acompanha o marido, Alessandro Pessanha Monteiro, e o cunhado, Marcos Antônio Pessanha Monteiro,  que também foram baleados na confusão.

O pai de Douglas ainda tem a bala alojada no lado direito das costelas, enquanto em Marcos Antônio, atingido no lado esquerdo da mesma região, o projétil vazou. Ambos estão com drenos, que só devem ser retirados na próxima quarta-feira, sendo que Alessandro ainda espera avaliação de um cirurgião toráxico para saber se ficará com a bala no corpo, ou se passará por uma cirurgia para extraí-la. A conselho dos médicos e da assistente social do HFM, ele ainda não sabe que o filho morreu, notícia que poderia agitá-lo e acabar tirando o dreno.

Rosângela presenciou toda a confusão e revelou ao blog a sua versão. Segundo ela, um amigo da família, que soube identificar apenas como Pablo, comprou um jet-ski e depois de receber a habilitação para conduzi-lo, passou na casa da família amiga no sábado, que fazia um churrasco, convidando todos para assistí-lo estrear a embarcação na foz do rio Paraíba do Sul, em Atafona.

Chegando todos ao cais localizado nos fundos da Igreja Nossa Senhora da Penha, o agente Daniel estava tirando seu jet ski da água, mas teria demorado a fazê-lo. Pablo, então, se ofereceu para ajudar. Como o procedimento continuou demorando, Alessandro interviu e perguntou ao agente:

— Você vai demorar?

— Por quê? Está com muita pressa? — teria dito Daniel.

— Não estou com pressa não. Para mim, você pode enfiar seu jet ski no (…) — repondeu Alessandro, segundo sua esposa.

— Você disse o quê? — indagou Daniel, enquanto tirava do seu jet ski algo enrolado num pano.

— Disse que você pode enfiar seu jet ski no (…) — teria reafirmado Alessandro.

A partir daí, segundo Rosângela, o agente desenrolou o pano, tirou dele sua arma (uma pistola Taurus, modelo PT, calibre 380) e deu o primeiro tiro, que acertou Alessandro. Vendo o pai tombar com o disparo, Douglas, que já estaria indo embora, depois de iniciada a discussão, saltou da garupa da moto de um amigo, se dirigiu ao agente e acertou-lhe um soco. Sem cair com o golpe, Daniel teria dado um tiro à queima roupa no peito de Douglas, acertando outro depois no abdômen do rapaz.

No meio da confusão, para dispersar as pessoas, o agente teria ainda efetuado vários disparos, para cima e para o chão. Num deles, Marcos Antônio também acabou atingido. No meio da correria, Daniel teria aproveitado para tentar sair com seu carro do local. Pablo ainda tentou impedir a fuga, atravessando seu carro na saída, mas foi abrigado a tirá-lo, depois que o agente teria apontado a arma para seu rosto, mandando que lhe desse passagem.

Depois de fugir do local, Daniel acabaria interceptado pela PM.

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Agente penitenciário preso foi transferido para Bangu

Depois da repercussão nacional que o caso atingiu, após ser noticiado pelo “Fantástico” de ontem, o agente penitenciário Daniel Menezes Pinheiro foi transferido hoje da Casa de Custódia de Campos para o complexo penitenciário de Bangu, na cidade do Rio de Janeiro. Ele foi preso em flagrante no último sábado, após uma discussão por conta de jet skis, atrás da Igreja Nossa Senhora da Penha, em Atafona, onde matou a tiros Douglas de Moura Monteiro, de apenas 17 anos, além de ter baleado também o pai e o tio deste, respectivamente Alessandro e Marcos Antônio Pessanha Monteiro.

Lavrado em Campos, no esquema de plantão da Polícia Civil nos fins de semana, o inquérito foi remetido há poucas horas para a delegacia de origem, em São João da Barra, na 145ª DP, cujo delegado titular é Carlos Alberto Andrade. A contar de ontem, ele tem prazo de 10 dias para fechar o inquérito e remetê-lo ao Ministério Público sanjoanense, a quem caberá ou não oferecer denúncia.

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As duas metades de um canalha

Numa metade, um “erudito” que identifica filme de Terrence Malick como de Clint Eastwood, ou atribui um conhecido livro de George Orwell a Orson Welles. Na outra, um recalcado capaz de se sentir mal quando alguém deseja o bem, disposto a polemizar em cima de solidariedade manifesta, questionador do altruísmo alheio pela incapacidade do sentimento e fixação patológica por quem o sente.

Juntando as duas metades, o que se tem? Simples: um canalha completo!

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Um conto de Santo Amaro

Por Hélio Coelho (*)

 

Saíra de casa apressado e até certo ponto assustado com a quantia de dinheiro que carregava no bolso. O avô lhe fizera todas as recomendações.

– Cuidado! Na hora de fazer o depósito vê se tem alguém te observando. Não fale com estranhos. Não esqueça do recibo. Isso e aquilo e por aí vai …

Atravessou a ciclovia e partiu para o banco, na Pelinca. Enquanto caminhava ia pensando com tristeza na possibilidade de perder a carona para conhecer e observar a tão falada Festa de Santo Amaro. O dia 15 de janeiro tinha chegado e justamente agora estava enrolado com aquele depósito para fazer. Provavelmente filas enervantes e depois ainda teria outras obrigações. No entanto, por mais que isso o angustiasse, jamais diria não a um pedido do avô, tão querido e tão presente em sua vida.

Dito e feito: filas enormes e o sistema fora de linha. Ainda reinava muita confusão sobre aquele dia, se seria feriado ou não. E agora? A essa altura os amigos já haviam passado por lá. Perguntou as horas ao guarda. Onze e meia. Nada funcionando, tudo parado. A ansiedade aumentava o desconforto de ficar ali na fila, em pé, com as pernas doendo e a cabeça esquentando. Calculou mais ou menos meia hora e saiu.

– Ah, o ar da Pelinca deixa o homem livre! Falou consigo mesmo lembrando-se de uma aula de história qualquer … Desassossegado, sem saber exatamente o que fazer, seguiu como quem vai para o Sagres.

Em frente à Boutique Zazá, percebeu um GOL aproximando-se devagar e ouviu um grito que fez brilhar os seus olhos.

– E aí,cara, vai ou não vai?

Os amigos deram um tempo ao saber que ele fora ao banco e antes de botar o carro na estrada, resolveram procurá-lo na área.

Ele era estudante de Ciências Sociais na UERJ, e, lá, um professor chamara sua atenção para a importância das manifestações populares como traço da identidade cultural de um povo. Prometera, então, ao mestre, recolher alguns elementos significativos da Festa de Santo Amaro, tradição que se mantém há quase duzentos e cinqüenta anos. Agora, sim, todos juntos seguiram em direção à Baixada Campista, aonde está a Vila que tem o nome do Santo, situada a quarenta e cinco quilômetros da cidade e à cinco da praia do Farol de São Tomé.

– Olhaí pessoal, se eu não fosse ateu e materialista, ia até dizer que Santo Amaro tá me dando uma colher de chá hoje. Eu já estava sem a menor esperança da gente ir pra lá. Pois é, valeu mesmo!

Foi então que ouviu a voz pausada que veio do banco da frente:

– Rapaz, não se espante com tão pouco. Dia de Santo Amaro tudo pode acontecer!
Era o professor, pai de um dos seus amigos, e que tendo raízes na Baixada, ali estava com uma espécie de cicerone da rapaziada. Relatos dos tempos de seu avô, bem como prosas e prosas com seu pai, desde cedo despertaram nele o gosto pelas coisas e pelos causos daquela região do município de Campos dos Goytacazes imortalizada por José Cândido de Carvalho em O Coronel e o Lobisomem.

Pegaram a 28 de março e no fim (ou começo?) da ciclovia entraram na estrada percebendo, à direita, as sinistras ruínas da Usina Santo Antonio como indicação do fantasma da quebradeira, que, como um espectro, vive rondando os usineiros e os plantadores de cana da Baixada e do município.

Passaram por Donana e chegaram a Goitacazes. O pessoal espantou-se com o crescimento urbano da antiga São Gonçalo. Alguém exclamou:

– Puxa, tão perto e tão desconhecido da gente que só vai pra Atafona e Grussaí!

Ao longo da Rodovia do Açúcar vão sentindo a força das cerâmicas que se multiplicam.
Em Campo Limpo, uma pequena parada para olhar de perto a igreja histórica e pisar o chão de um dos marcos inaugurais da colonização de Campos.

Mineiros. Descobrem a entrada que vai para o Caboio dos Olhos D’Água, para São Martinho e Barra do Furado. Bem que procuraram mas nem vestígios encontraram da Usina que havia por ali.

Apressadamente passaram por Saturnino Braga como quem passa por um nome que lembra alguém ou alguma coisa. É que durante um bom tempo o lugar passou por uma grave crise de esvaziamento. Mas, se tivessem parado pra dar uma olhada com mais calma, teriam visto que o Braga está renascendo com força!

Perto de Mussurepe, deram uma entradinha para conhecer o imponente Mosteiro de São Bento, importante referência no processo de construção da história da Baixada desde os tempos coloniais.

Em Mussurepe, foram lembradas e homenageadas as famílias mais antigas e tradicionais do lugar, ressaltando-se a figura inesquecível do “farmacêutico-médico” da baixada Antonio Coelho dos Santos. A pequena estação ferroviária ainda está lá. E de repente, foi como se todos ficassem a imaginar como era uma viagem de trem de Campos a Santo Amaro…

Realidade chegando: Baixa Grande. Usina falida, povo desempregado e antigos proprietários envolvidos em escândalos e maracutaias. Dizem que, a exemplo de outras, a empresa vai mal, o povo de mal a pior, e a família do dono vai bem, muito bem, viajando e morando com aquele requinte dos tempos da Casa Grande…

Finalmente, Santo Amaro.

O professor fala uns versinhos:

“ No dia 15 de janeiro tem
em Santo Amaro Grande festa popular.
De toda parte muita gente vem
pagar promessa e depois rezar.
De manhãzinha tem um foguetório
que faz a Vila inteira acordar.
Depois começa o vai e vem do povo
que chega, chega, chega sem parar.”

Quase duas da tarde e já tem muita gente. A prefeitura fez um atalho pra facilitar o trânsito que flui lento, parando. A turma do 171 ataca pelas janelas do carro, querendo vender fitas milagrosas, imagens poderosas e outros produtos “pra ajudar na Igreja”.

E por falar nisso, a igreja está um brinco, novinha, reluzente. E  Prefeit@ é bob@?

Naquele tumulto, alguém sugere uma ida ao Farol, tão pertinho. Tomar uma gelada, almoçar e voltar na hora da cavalhada.

– É isso aí, inclusive eu nunca fui ao Farol! Disse Leonardo, o universitário interessado na pesquisa antropológica.

Saíram do sufoco e logo chegaram. Lá, o espanto foi com o próprio farol. Inaugurado em 1883, a bela e robusta construção provocou debates se foi ou não projetada pelo famoso engenheiro francês Gustave Eiffel, o mesmo da torre de Paris.

A fome apertou, a sede também, e a conversa mudou de rumo. Tomaram uma “estica o braço” do barril e beliscaram carne seca no feijão em Benicinho e foram comer uma peixada no Alambique do Leley. Entusiasmado, Leonardo, o inquieto observador participante, bateu no bolso da calça e gritou:

– Tudo por minha conta!

Lá pelas quatro e meia, o grupo voltou para Santo Amaro. O professor, de novo puxou outros versinhos:

“E aí se junta grande multidão
a cavalhada já vai começar.
Será o mouro, será o cristão,
Quem dessa vez a luta vai ganhar?”

Com muita dificuldade, estacionaram o carro. Não para de chegar gente, de toda parte, de toda espécie. Compadres, comadres, políticos, romeiros, anônimos e celebridades.

Impressionado com o movimento, Leonardo contratou um fotógrafo para uma série de registros. Levava a pesquisa a sério quando parou numa barraca onde se jogava Campistinha, famoso jogo de dados da região.

Jogou. Ganhou. Perdeu…

Dali, foram visitar a igreja por dentro, ver a imagem do Santo e em seguida dirigiram-se à capela, aonde assistiram comoventes manifestações de devoção, fé e adoração.
Retratos, pinturas, partes do corpo em gesso e em cera, tudo atestando o momento de pagar a promessa e de mostrar reconhecimento pela graça recebida. Calor imenso. É janeiro, verão, e as velas acesas reforçam a sensação de abafamento. Sentimentos de vida resgatada e ao mesmo tempo é forte aquele cheiro de igreja, de velório, de semana santa.

Lá fora respiraram fundo e se emocionaram com a cavalhada. Vestidos de azul, cavaleiros da terra representavam os cristãos, e os de vermelho encarnavam os mulçumanos. Escolhidos a dedo, preparam-se o ano inteiro para esse momento de glória: mostrar a destreza no comando do cavalo, a precisão no manejo da lança e por fim, fazer com que seja proclamada a verdade cristã pela conversão dos mouros. Depois, juntos, vão se prostrar de joelhos aos pés do altar do Glorioso Santo Amaro. Espetáculo fascinante!

Mais uma voltinha pelas barracas, desta vez à procura de lembrancinhas da festa e a dura constatação: O Paraguai também é aqui …

A noite chega e começam os preparativos para o grande show de Wando. O locutor anuncia que “o maior cantor romântico e sensual do Brasil vai deixar o público molhadinho com pêssegos em compotas e vai distribuir as mais excitantes calcinhas que uma mulher já usou para o seu homem”. Esse atrevimento foi considerado por alguns mais conservadores como uma afronta, uma imperdoável profanação.

Quando a missa acabou, foram contar o ocorrido para o padre e quase que o show foi cancelado.

Wando era considerado brega demais para a galera e ficou decidida a volta pra Campos antes mesmo do início do show. Nesse momento, passou a procissão e a banda tocava o “Queremos Deus, que é nosso Pai, queremos Deus que é nosso irmão”, entrando aí a tuba com o inesquecível “pom, pom-rom, pom, pom, pom, pom”.

A volta foi um silêncio só, depois de tanta cerveja, cachaça, traçado, peixada, pimenta, e outras especiarias.

– Chegamos! Anuncia o professor que, com a proteção do Santo, conseguira trazer o carro, acordando a todos, deixando-os em casa com uma agradável sensação de felicidade por ter feito a iniciação daqueles jovens em tão relevante traço cultural do jeito especial de  ser campista.

Leonardo entrou em casa com um misto de pânico e remorso por ter gasto, na farra, parte daquele dinheiro que lhe fora confiado para depositar. Tomou a decisão de falar a verdade.Chegou logo dizendo o que havia acontecido e pediu perdão, entregando ao avô o maço com o dinheiro que restara e abaixou a cabeça, olhos fechados.

O avô, perturbado com a situação, começou a contar o dinheiro pra sentir o tamanho do prejuízo.

– Ué, tá certinho! Exclamou. Tá tudo aqui. Não falta nem um tostão! Vai dormir menino, você bebeu demais e saiu do sério.

Leonardo, atordoado como fica todo ateu que se preza numa situação assim, saiu da sala falando sozinho:

– Não pode ser. Não posso acreditar. Como? Eu gastei. Eu vi, eu gastei!

Foi sentar na varanda e respirar o ar fresco da noite. Num dado momento, uma frase, que ouvira mais cedo, ficou martelando sua cabeça.

– … Dia de Santo Amaro tudo pode acontecer.

Será?

Cansado, foi dormir. Sonhou com a imagem do Santo dando-lhe uma piscadinha brejeira e um sorriso maroto.

 

 (*) Hélio Coelho é Professor da FDC e da UFF/Campos. É da Academia Campista de Letras.

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Violência à tarde em Atafona e à noite em Grussaí: dois feridos a tiros em show

Em comentário aqui, a jornalista Márcia Lemos informou ao blog sobre mais uma confusão que terminou com feridos à bala em São João da Barra. Se na tarde de ontem, o palco da violência foi Atafona, com um morto e dois feridos por tiros disparados por um agente penitenciário, à noite foi a vez do desapreço pela vida humana cruzar a av. Atlântica para se manifestar em Grussaí. Lá, num show do cantor Tomate, dois jovens (Leonardo da Costa Constante, de 26 anos, e Guilherme de Souza Vieira, 23) teriam sido feridos a tiros, um no rosto e outro no abdómen. O primeiro seria sanjoanense, se chamaria Leonardo e teria sido encaminhado ao Hospital Ferreira Machado, onde estaria fora de perigo (foi liberado na manhã de hoje). O segundo (Guilherme, também liberado hoje do HFM) não seria residente do município e também não teria sofrido ferimento fatal.

Depois de se manifestar no Farol, alguns anos atrás, parece que a violência neste verão se mudou de mala e cuia para as praias do município vizinho de São João da Barra. Veremos o que as autoridades pretendem fazer sobre a questão.

 

Atualização às 15h40: Segundo informou aqui o portal sanjoanense OZK News, os dois rapazes feridos no show em Grussaí seriam Leonardo da Costa Costante, de 26 anos, e Guilherme de Souza Vieira, 23. O primeiro teria levado um tiro na boca e o segundo no abdomén, sendo ambos encaminhados ao Hospital Ferreira Machado, de onde já teriam recebido alta na manhã de hoje. Ainda de acordo com o portal, Leonardo seria primo de Bruno Costa, secretário de Comunicação de São João da Barra. Embora descrito por testemunhas, o autor dos disparos ainda não teria sido identificado ou preso pela Polícia.

Atualização às 15h58: Leonardo é mesmo primo do secretário de Comunicação sanjoanense, Bruno Costa. Ele estava no show em companhia da noiva, foi ao banheiro e quando voltava, foi atingido por uma bala perdida, que lhe atingiu na boca. Ele também já trabalhou na administração municipal, como diretor de marketing da secretaria de Turismo, mas saiu para trabalhar na empresa TNT, que presta serviço de iluminação pública em São João da Barra.

Atualização às 16h50: Segundo o repórter da Folha Mário Sérgio Júnior apurou com o comandante do 8º BPM, tenente coronel Lúcio Flávio Barachio, o policiamento ostensivo já havia sido previamente reforçado nas praias tanto de São João da Barra, quanto de Campos e São Francisco de Itabapoana. Em todo caso, devido aos acontecimentos violentos ontem, em Atafona e depois em Grussaí, a PM vai intensificar a fiscalização nas vias de acesso àqueles dois balneários sanjoanenses, com blitzen em todos os finais de semana, em busca de armas e drogas, até o final do verão.

Atualização às 17h01: Comandante da Guarda Municipal de São João da Barra, Leandro Ferreira revelou ao blog que conta com efetivo de 270 homens, sendo 55 guardas concursados e 215 seguranças contratados de empresas terceirizadas. Ele informou ainda que um serviço de monitoramento com câmeras é feito durante os eventos de verão. Todavia, no caso dos tiros em Grussaí, pelo contato que manteve com a empresa que faz as filmagens, nada teria sido regitrado porque a confusão ocorreu em área  próxima, não dentro do show.

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