Gersinho fala em lançar candidatura alternativa à Prefeitura de SJB

Após sua importante vitória na votação e aprovação da LDO, no último dia 28, a prefeita sanjoanense Carla Machado abriu aqui, no blog do Esdras, a possibilidade de diálogo com a oposição na Câmara, sobretudo com Gersinho, presidente da Casa, que pertence ao seu partido. O blogueiro se interessou em conhecer a resposta, estendida nas circunstâncias apresentadas pelo vereador, inclusive às possibilidades dele se lançar por outro partido, numa candidatura alternativa à Prefeitura, em 2012…

 

(Foto de Mariana Ricci)
(Foto de Mariana Ricci)

 

Diálogo com Carla  — A Câmara sempre pregou o diálogo. Nós dois somos do mesmo partido, mas isso pode tanto unir, quanto às vezes impedir. O que ela sinalizou para o Esdras, a Câmara já vem sinalizando para ela há muito tempo. 

Ressentimentos antigos — Nas duas vezes que tentei ser presidente da Casa, meu diálogo com Carla não adiantou, e ela fez o Neco (na Legislatura passada). Na primeira (2005/06), até entendi, porque ela tinha uma dívida política com o Neco, mesmo que eu tenha sido o vereador mais votado, critério que tínhamos combinado para definir o presidente. Mas na segunda (2007/08), que ela havia combinado que seria eu, Carla antecipou a eleição da Mesa Diretora, com votação na véspera do Carnaval, sem avisar a mim ou ao Alexandre, e fez o Neco de novo.

Revanche — Na eleição municipal de 2008, depois do resultado, quando já sabia que tinha sido o candidato mais votado, Neco quis fazer uma lei para usar isso como critério oficial da escolha do presidente do biênio seguinte (2008/09), para ficar pela terceira vez. Eu e Alexandre derrubamos isso na Justiça.

Da situação à oposição — Fizemos uma reunião com os vereadores (da situação) Jonas (PMDB) e Aluizio Siqueira (PTB), propondo o sorteio para definir o presidente, mas sem o Neco, que já tinha sido duas vezes. Carla não aceitou. Aí, eu e Alexandre nos juntamos aos vereadores da oposição: Franques (PDT), Kaká (PDT) e Camarão (PPS). 

Oposição sistemática — Elegemos Alexandre (2009/10), mas mesmo assim, dissemos que não iríamos fazer oposição sistemática à prefeita. Ela não aceitou porque disse que era uma vitória de Alexandre, não dela. Aí, viramos oposição mesmo.

Enfim, a presidência — Nós cinco havíamos combinado que eu seria o presidente no biênio seguinte (2011/12), já que os outros três da oposição, diferentes de mim e de Alexandre, eram vereadores de primeiro mandato.

Ressentimentos recentes — Em 2011, os vereadores governistas entraram com um requerimento para me destituir do cargo de presidente. Agora, entraram no Ministério Público contra mim por improbidade administrativa. Para qualquer evento oficial da Prefeitura, eu não sou convidado, mesmo sendo presidente da Câmara e do mesmo partido.

Possibilidade de reconciliação — Não diria que é impossível, mas que é difícil, é. Eu jamais ficaria a favor do que foi feito nas desapropriações com o pessoal do 5º distrito, que é meu reduto eleitoral. Não há mais confiança. Grupo político é como casal: se não há confiança, que se separe. Pode até se reconciliar, mas desde que volte a confiança.

Candidatura à Prefeitura — Todo jogador sonha em chegar à Seleção. Acho que tenho chances, sim, de ser candidato (a prefeito) pelo PMDB (em 2012). Há cerca de 15 dias, estive com (Jorge) Picciani (presidente estadual do PMDB), no Rio, e fui muito bem recebido e tratado.

Candidatura a prefeito por outro partido — Sou fiel ao PMDB, como fui fiel ao PDT no passado. Temos que esperar as coisas acontecerem. Minha decisão pode ser tomada até 6 de outubro. Até lá, são mais de dois meses. O PP do (senador Francisco) Dornelles pode ser uma opção, entre vários outros partidos.

Oposição na Câmara com candidatura alternativa — Li no seu blog que Wladimir fechou com Betinho para prefeito. Assim mesmo, Kaká e Camarão ficariam fechados comigo. Franques, embora do grupo, realmente é mais ligado a Betinho.

Odisséia: “Makhoul é nome de consenso dentro do PT”

(Foto de Silésio Corrêa)
(Foto de Silésio Corrêa)

“Se Makhoul aceitar o convite que lhe fizemos, lógico que eu abro mão, em favor dele, da candidatura do PT à Prefeitura em 2012. Meu projeto não é pessoal, mas de partido. E Makhoul é um nome de consenso dentro do PT”. Foi o que a vereadora Odisséia Carvalho garantiu agora há pouco ao blogueiro, confirmando tanto a possibilidade de disputar a reeleição na Câmara em 2012, quanto a revelação do convite petista ao seu ex-candidato nas eleições majoritárias de 2004 (33.628 votos, em 4º lugar) e 2006 (na 3ª posição, com votação de 23.508,)

A vereadora considera que Makhoul não só é um nome novo entre aqueles que vinham sendo especulados na oposição, como também agrega um patamar eleitoral já consolidado pelas recentes corridas à Prefeitura que disputou, característica que divide com Arnaldo Vianna (PDT) e Odete Rocha (PCdoB). Um dos três pré-candidatos do PPS, Sérgio Mendes também já disputou (e conquistou) o Executivo municipal, mas na década retrasada (1992/96), com residual bem mais remoto na mente do eleitorado.

Segundo revelou Odisséia, o contato inicial com Makhoul partiu do advogado Edinho Rangel, sendo depois participado a ela, ao presidente Eduardo Peixoto, ao Marcão (líder do grupo de Renato Barbosa) e ao Hélio Anomal. Posteriormente, a vereadora e Eduardo conversaram pessoalmente com o ex-petista, reiterando o convite ao seu retorno com vistas à mais uma disputa para prefeito.

PMDB de Carla e PT de Odisséia querem Makhoul

(Fotos: Folha da Manhã / Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
(Fotos: Folha da Manhã / Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Sempre bem informado, o jornalista e blogueiro Saulo Pessanha revelou aqui que a vereadora petista Odisséia Carvalho, no lugar de uma candidatura à Prefeitura de Campos, vai mesmo tentar a reeleição na Câmara Municipal em 2012. Usando do mesmo pragmatismo que deu ao seu grupo a hegemonia no PT de Campos, a decisão não está incorreta, ao declinar da condição de franco-atiradora no enfrentamento direto contra a prefeita Rosinha, optando pelas chances menos arriscadas de manter em seu partido um mandato legislativo que, segundo Geraldo Pudim afirmou aqui, foi conquistado com os votos pessoais do saudoso vereador Renato Barbosa.

Embora a vaga na disputa da Prefeitura, caso o PT decida mesmo lançar candidatura própria, baste para reacender os delírios natimortos dos aloprados locais do partido, no plano real de quem tem garrafas para vender, sobem as chances de Hélio Anomal, candidato a vice de Arnaldo Vianna em 2008. Todavia, o mesmo nome que Carla Machado já havia convidado para ingressar no PMDB de Campos, também já foi sondado por Odisséia e seu marido, Eduardo Peixoto, para ingressar nas hostes petistas, com o mesmo objetivo: dotar a legenda de um nome com residual eleitoral na disputa majoritária.

A pedido da fonte, o blogueiro havia mantido seu anonimato, mesmo após confirmar desde a última sexta (aqui), com Carla Machado, o convite que ela lhe fez. Com a informação desse outro convite, feito também pelos petistas, a autorização devida foi dada para nomear essa outra possibilidade, não de ingresso, mas de REingresso. O fato é que o PMDB de Carla e o PT de Odisséia e Eduardo querem Makhoul Moussalém.

Governo Rosinha já gastou em oito meses a grana que tinha que durar mais cinco?

 

Atrasos no pagamento de obras, nos repasses aos hospitais conveniados e às instituições assistenciais? Prefeitura de orçamento bilionário e sem dinheiro? Qual o motivo possível?

Ainda as emendas individuais que teriam sido concedidas generosamente aos vereadores, apaziguados em uníssono na gestão interina de Nelson Nahim na Prefeitura? Algo a ver com a saída ainda nebulosa de Francisco Esquef da secretaria municipal de Finanças? Tentativa de fazer caixa para gastar em dobro em 2012, ano em que a prefeita tentará a reeleição?

Segundo uma fonte do primeiro escalão da administração Rosinha, nada disso! O motivo real, londe das atenuantes farsescas que os governistas encenam aos olhos do povo e da mídia, é muito mais elementar: a Prefeitura simplesmente já teria gasto praticamente todos os R$ 1,9 bilhão previstos para durar por ainda mais cinco meses.

É a mesma fonte que diz não entender porque o governo ao qual integra simplesmente não admite isso diante do dono de fato da grana: nós, o respeitável(?) público.

Arnaldo Mattoso: Não serei vice, nem candidato a vereador

“Uma coisa é certa: vice eu não serei. Muito menos candidato a vereador, o que romperia meu compromisso com os pré-candidatos ao Legislativo que me apoiaram internamente”. Foi o que garantiu ao blogueiro o ex-prefeito e atual secretário de Educação de Quissamã, Arnaldo Mattoso (PMDB), preterido pela vereadora petista Fátima Pacheco na disputa interna da pré-candidatura da situação à eleição majoritária de 2012, a partir da pesquisa do IBPS, que teve alguns números revelados no post anterior.

Confirmando o que prefeito Armando Carneiro havia dito antes ao blog, Arnaldo reagiu com aparente elegância diante da definição interna desfavorável:

— Reconheço o resultado e tenho um compromisso com Armando. E este compromisso pressupõe que eu apóie a candidata definida pelo grupo a partir da pesquisa. Participei da definição deste critério e acompanhei todo o processo. Se não questionei antes, não posso fazê-lo agora. O momento requer muita tranquilidade — disse Mattoso, revelando ainda desconhecer a informação de que a primeira dama e secretária de Saúde de Quissamã, Alexandra Moreira, tenha tido qualquer interferência no processo de escolha.

Quissamã: Armando revela números de Fátima e Arnaldo na pesquisa que Octávio lidera

Em relação à pesquisa do Instituto Brasileiro de Pesquisa Social (IBPS), coordenada pelo cientista político Geraldo Tadeu, professor da Uerj, ouvindo mil pessoas em Quissamã, nos dias 18 e 19 de julho, visando o pleito majoritário de 2012, o blogueiro teve acesso a alguns números, passados por telefone pelo prefeito daquele município, Armando Carneiro (PSC). Embora só tenha revelado os percentuais atingidos por seus então dois pré-candidatos, a veredora Fátima Pacheco (PT) e o ex-prefeito e secretário de Educação Arnaldo Mattoso (PMDB), que fizeram definir seu apoio desde já pela primeira, Armando admitiu que o ex-prefeito Octávio Carneiro (PP) lidera as amostragens espontânea e estimulada. Abaixo, o que foi revelado ao blog…

 

(Infográfico de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
(Infográfico de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Na verdade, através da sua assessoria, Armando Carneiro entrou em contato com o blogueiro para questionar alguns pontos da matéria publicada hoje, na edição impressa da Folha, noticiando a definição de Fátima Pacheco como sua pré-candidata em 2012, a partir da pesquisa do IBPS. A ressalva do prefeito se centrou, sobretudo, na informação que creditava a escolha também a uma opção pessoal da secretária de Saúde e primeira dama daquele município, Alexandra Moreira.

Embora não assinada, a matéria foi apurada e redigida pelo editor de Política da Folha, Cilênio Tavares, profissional da maior competência e seriedade, com passagem de destaque em outros jornais, como os extintos A Cidade e Monitor Campista, além do carioca O Dia. Sigilo de fonte, como o blogueiro explicou ao prefeito, é uma garantia constitucional. De qualquer maneira, ao ter o cuidado de colocar a susposta intervenção pessoal de Alexandra na condicional, o repórter abriu a devida margem ao contraditório, reforçada hoje não só pela negação veemente de Armando, como no desconhecimento dessa versão por parte do próprio Arnaldo Mattoso, também ouvido pelo blog.

Em relação à pesquisa, o prefeito esclareceu que, embora a alternância entre Fátima e Arnaldo, nos números entre espontânea e estimulada, aponte para o equilíbrio, o que definiu a escolha da primeira pré-candidata foram as possibilidades de crescimento de ambos a partir dos índices de rejeição, na qual o secretário de Educação apareceu com diferença negativa de 10,1% em relação à concorrente. Ainda segundo Armando, este foi o raciocínio do cientista político Geraldo Tadeu na exposição da pesquisa feita ao vice-governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) e ao ministro da Pesca, Luiz Sérgio (PT), que levou os quatro a se definirem conjuntamente pela vereadora do PT.

Opiniões de poesia — João Cabral de Melo Neto

Na transição da política à poesia, momento sempre mais prazeroso das quartas-feiras, segue a reprodução neste “Opiniões” de textos originalmente escritos pelo blogueiro para o “Cantos” (aqui), inativo há algum tempo. Precisa como na tacada de sinuca ou no passe de Zidane, a bola da vez é…

João Cabral de Melo Neto — Poeta diamante

Por aluysio, em 07-11-2009 – 2h49

 

 

João Cabral de Melo Neto

 

Cronologicamente, o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920/1999) pertenceu à Geração de 45, ano do fim da II Guerra Mundial e inicial da Guerra Fria. A ela, coube a difícil missão de suceder à Geração de 30, talvez a mais profícua na história da poesia brasileira, com valores como um Carlos Drummond de Andrade (1902/1987), um Murilo Mendes (1901/1975), um Mário Quintana (1906/1994), uma Cecília Meireles (1901/1964), um Augusto Frederico Schmidt (1906/1965), um Emílio Moura (1902/1971), um Jorge de Lima (1895/1953) e um Vinícius de Moraes (1913/1980). Por sua vez, foi a qualidade destes autores que solidificou o Modernismo no Brasil, inaugurado pela transgressora Geração de 22, de Mário de Andrade (1893/1945), Oswald de Andrade (1890/1953), Cassiano Ricardo (1895/1974), Raul Bopp (1898/1984), Ribeiro Couto (1898/1963) e do maior poeta entre estes pioneiros, ainda que modernista tardio: Manuel Bandeira (1886/1968), que, aliás, era primo de João Cabral.

Todavia, todo esse preâmbulo geracional, talvez didático e certamente enfadonho, se desvanece diante da afirmação do próprio Cabral: “Eu não sou de 45”. Cronologias à parte, não afirmava isso desprovido de razão, posto ter inaugurado uma póetica diametralmente oposta ao confessionalismo e à metafísica que marcaram seus contemporâneos.

Curiosamente, é uma toada de claras cores surreais, influência certamente do amigo Murilo Mendes, que vai ditar o primeiro livro de João Cabral, “Pedra do sono”, de 1942. A direção inicial, no entanto, seria realinhada pelo compasso e esquadro com os quais acabaria por sedimentar sua obra, tomados de empréstimo não de um poeta, mas de um arquiteto, o francês de origem suíça Le Corbusier (1887/1965):

— Quem mais influência exerceu sobre mim, teoricamente, foi o arquiteto Le Corbusier. Por muitos anos, ele significou para mim lucidez, claridade, construtivismo. Em resumo: o predomínio da inteligência sobre o instinto — admitiria o próprio Cabral.

Essa influência das artes visuais não se restringiria ao grande arquiteto, se espraiando também sob os traços do pintores holandês Piet Mondrian (1872/1944), do francês André Masson (1896/1987) e dos espanhóis Pablo Picasso (1881/1973) e Joan Miró (1893/1983), sobre quem chegou a escrever um livro em prosa e com quem chegou a conviver em sua carreira diplomática na Espanha — cuja Andaluzia, como seu Nordeste natal, está tão impressa em seus versos. Na poesia em si, ironicamente, quem mais marcou o vate pouco afeito ao canto das musas foi uma mulher: a estadunidense Marianne Moore (1887/1972), que “em vez de lápis,/ emprega quando escreve/ instrumento cortante:/ bisturi, simples canivete”, como ele descreve logo à estrofe inicial de “O sim contra o sim”,  poema do livro “Serial”, de 1961.

Identificados na gênese do “verso cicatriz” de Moore, a analogia óbvia desse “bisturi” e desse “canivete” com a “faca” e a “lâmina” que rasgam presença em boa parte da obra cabralina evidencia bem o autor marcado a fio de navalha pela imagem, auto-destinado à coisificação da poesia. Afinal, como diagnosticou nos versos de “Psicologia da composição”, poema que batiza o livro publicado em 1947: “São minerais/as flores e as plantas,/as frutas, os bichos/quando em estado de palavra.”

Poeta da concisão e da contenção, do “seco”, avesso ao lirismo fácil, ao derramamento sentimental que o grande público costuma associar aos poetas,  João Cabral está para a poesia brasileira como Graciliano Ramos (1892/1953) para a prosa. Elevado pelos concretistas a ponto de partida de uma nova estética, é o principal referencial ao fazer poético de lá ao Brasil dos nossos dias, mais que qualquer outro poeta do Modernismo, incluindo Drummond.

Atual inimigo público nº 1 do Concretismo, o poeta Alexei Bueno sequer considera os concretistas como pares, mas “artistas gráficos”, e denuncia ruidosamente o monopólio que os seguidores do movimento passaram a exercer no eixo Rio/São Paulo, a partir dos anos 1950 e do encastelamento nas universidades, sobre a produção e crítica da poesia brasileira. Mas ao radiografar esta numa obra de fôlego, “Uma história da poesia brasileira” (de 2007), ele ainda assim não se furtou em classificar Cabral “entre seus maiores criadores”.  Ou seja, embora critique o que chama de “seita” — o Concretismo e os neo-concretistas —, Bueno reverencia o “messias”.

Para o bem ou para o mal dos olhos de quem lê, a “pedra” que Cabral atirou no leito da poesia brasileira tem suas ondas de impacto refletidas até hoje. E sem margem ainda à vista…

Vários são os poemas que poderiam ser escolhidos para tentar sintetizar sua obra neste blog. “O cão sem plumas”, “Uma faca só lâmina”, “A educação pela pedra” e “Morte e vida severina” certamente estão entre eles. Todos pertencem a livros homônimos, publicados, respectivamente, em 1950, 1955 e, os dois últimos, em 1966. Para muitos, sua grande obra seria “Estudos para uma bailadora andaluza”, que abre “Quaderna”, de 1960. Também deste livro, a escolha, no entanto, acabou recaindo sobre outro poema:“‘Cante a palo seco’”.

O título do livro, pela etimologia, remete ao latim quaterna: “que são em número de quatro; que são quatro a quatro”, na definição do Houaiss. Muitas vezes pelos motivos errados, considerado um poeta complexo, o fato do pernambucano ter a quadra como sua estrofe de eleição é  fruto da influência direta que assumidamente sofreu da poesia popular nordestina. No poema “O número quatro”, do livro “Museu de tudo”, de 1975, ele dá sua razão: “O número quatro feito coisa/ ou a coisa pelo quatro quadrada,/ seja espaço, quadrúpede, mesa,/ está racional em suas patas”.

Se todos os poemas de “Quaderna” são compostos em estrofes de quatro versos, é em “‘Cante a palo seco’” que a exatidão da forma vem na numeração exata: quatro movimentos, cada um de quatro conjuntos com o divisor do quatro (dois) por número de estrofes. E, ao quadrado ou vezes quatro, quatro é conta sempre precisa de 16.

Dedicado ao poeta espanhol Rafael Santos Torroella — que apresentou a Drummond e que traduziu este ao castelhano —, o poema é também onde Cabral mais brilhantemente rascunha, em versos, o seu próprio fazer poético, onde o anti-confessional melhor confessa sua arte diante de si e do leitor, nesse difícil “ser-se ao meio-dia”. Entre os maiores imagéticos da poesia brasileira e universal, ele faz isso utilizando metáforas de musicalidade, despindo-a em suas rimas toantes ao quase silêncio; mas só quase, como  “esse fio/ quando sem qualquer pássaro/ dá o seu assovio”.

A música, que costumava chamar de “menos desagradável dos ruídos”, foi a sua chave para negá-la.

Poeta mais apolíneo da Literatura brasileira, João Cabral de Melo Neto foi pintado em “Retrato, à sua maneira”, por Vinícius de Moraes, nosso maior dionisíaco: “Adiante Ave/ Camarada diamante!”

Bem sabia o Poetinha que a pedra mais dura é também a que mais brilha.

 

“A Palo Seco”

A R. Santos Torroella

 

1.1

Se diz a palo seco

o cante sem guitarra;

o cante sem; o cante;

o cante sem mais nada;

 

se diz a palo seco

a esse cante despido:

ao cante que se canta

sob o silêncio a pino.

 

1.2

O cante a palo seco

é o cante mais só:

é cantar num deserto

devassado de sol;

 

é o mesmo que cantar

num deserto sem sombra

em que a voz só dispõe

do que ela mesma ponha.

 

1.3

O cante a palo seco

é um cante desarmado:

só a lâmina da voz

sem a arma do braço;

 

que o cante a palo seco

sem tempero ou ajuda

tem de abrir o silêncio

com sua chama nua.

 

1.4

O cante a palo seco

não é um cante a esmo:

exige ser cantado

com todo ser aberto;

 

é um cante que exige

o ser-se ao meio-dia,

que é quando a sombra foge

e não medra a magia.

 

2.1

O silêncio é um metal

de epiderme gelada,

sempre incapaz das ondas

imediatas da água;

 

a pele do silêncio

pouca coisa arrepia:

o cante a palo seco

de diamante precisa.

 

2.2

Ou o silêncio é pesado,

é um líquido denso,

que jamais colabora

nem ajuda com ecos;

 

mais bem esmaga o cante

e afoga-o, se indefeso:

a palo seco é um cante

submarino ao silêncio.

 

2.3

Ou o silêncio é levíssimo,

é líquido sutil

que se coa nas frestas

que no cante sentiu;

 

o silêncio paciente

vagaroso se infiltra,

apodrecendo o cante

de dentro, pela espinha.

 

2.4

Ou o silêncio é uma tela

que difícil se rasga

e que quando se rasga

não demora rasgada;

 

quando a voz cessa, a tela

se apressa em se emendar:

tela que fosse de água,

ou como tela de ar.

 

3.1

A palo seco é o cante

de todos mais lacônico,

mesmo quando pareça

estirar-se um quilômetro:

 

enfrentar o silêncio

assim despido e pouco

tem de forçosamente

deixar mais curto o fôlego.

 

3.2

A palo seco é o cante

de grito mais extremo:

tem de subir mais alto

que onde sobe o silêncio;

 

é cantar contra a queda,

é um cante para cima,

em que se há de subir

cortando, e contra a fibra.

 

3.3

A palo seco é o cante

de caminhar mais lento:

por ser a contrapelo,

por ser a contravento;

 

é cante que caminha

com passo paciente:

o vento do silêncio

tem a fibra do dente.

 

3.4

A palo seco é o cante

que mostra mais soberba;

e que não se oferece:

que se toma ou se deixa;

 

cante que não se enfeita,

que tanto se lhe dá;

é cante que não canta,

cante que aí está.

 

4.1

A palo seco canta

o pássaro sem bosque,

por exemplo: pousado

sobre um fio de cobre;

 

a palo seco canta

ainda melhor esse fio

quando sem qualquer pássaro

dá o seu assovio.

 

4.2

A palo seco cantam

a bigorna e o martelo,

o ferro sobre a pedra,

o ferro contra o ferro;

 

a palo seco canta

aquele outro ferreiro:

o pássaro araponga

que inventa o próprio ferro.

 

4.3

A palo seco existem

situações e objetos:

Graciliano Ramos,

desenho de arquiteto,

 

as paredes caiadas,

a elegância dos pregos,

a cidade de Córdoba,

o arame dos insetos.

 

4.4

Eis uns poucos exemplos

de ser a palo seco,

dos quais se retirar

higiene ou conselho:

 

não o de aceitar o seco

por resignadamente,

mas de empregar o seco

porque é mais contundente.

 

João Cabral de Melo Neto, em João Cabral de Melo Neto — Obra completa (1994), Editora Nova Aguilar, Quinta reimpressão da 1ª edição (2006), págs. 247 a 251

 

Entre as adivinhações e a lógica de SJB, Betinho aposta em ser o nome da oposição

Confirmado no post abaixo, pelo presidente do PR em Campos, como nome do grupo de Garotinho para disputar a Prefeitura de São João da Barra em 2012, o ex-prefeito Betinho Dauaire reagiu com ironia à descrença em sua candidatura, manifestada aqui pela prefeita Carla Machado (PMDB):

— Acho que Carla está com a síndrome do final de governo. Ela agora quer ser vidente. Mas se ela não consegue nem adivinhar quem será seu candidato, como quer adivinhar o candidato que a oposição vai ter? — indagou Betinho, desconsiderando que a prefeita já externou aqui sua preferência pessoal por Neco (PMDB), vereador eleito e seu secretário de Promoção Social, muito embora também mantenha aberta as possibilidades de candidatura dos vereadores Aluizio Siqueira (PDT) e Alexandre Rosa (PPS).

À ironia do ex-prefeito, o blogueiro engatou algumas perguntas de pretensão mais séria, feitas e respondidas na transcrição abaixo…

 

 

 

 

Blog — O que você chama de exercício de adivinhação de Carla reside no raciocínio dela de que problemas com a Justiça vão impedi-lo de se candidatar. Há este risco?

Betinho — Como já disse ao seu blog anteriormente (aqui), ela quis adivinhar a mesma coisa na eleição de 2008. E o fato é que eu me candidatei e concorri normalmente, sem nenhum problema com a Justiça.

 

Blog — Mas se a previsão dela foi equivocada em relação à sua candidatura, não foi precisa em relação à vitória final dela sobre você?

Betinho — Pode ter sido, assim como foi anteriormente errada em 2000, quando concorreu contra mim, disse que iria vencer, mas perdeu.

 

Blog — Das adivinhações para aquilo que de lógico as confirma ou não, a diferença parece ser quem está no poder. Em 2000, você estava e ganhou. Em 2008, ela estava e você perdeu. Em 2012, como ela estará, isso não fará novamente a diferença?

Betinho — Com uma diferença básica: Em 2000, eu venci quando tentei a reeleição; em 2008, ela me derrotou quando se reelegeu. Ocorre que Carla, agora, mesmo estando no poder, não pode mais tentar se reeleger, vai ter que escolher um candidato. Neste processo, usando mão da lógica levantada por você, todos sabem que a transferência de votos está longe de ser uma ciência exata.

 

Blog — Você questiona as “adivinhações” de Carla. Mas ao apostar em conseguir a vaga no PR de Garotinho, não pode você estar fazendo uma adivinhação arriscada?

Betinho — Isso não é adivinhação, é compromisso. Em 2009, fiz a aliança com Garotinho e meu filho (Bruno Dauaire) assumiu a vice-presidência do partido em São João da Barra. Em 2010, apoiei no município as candidaturas de Garotinho para deputado federal e de Clarissa para deputada estadual, e ambas foram muito bem votadas (mas atrás, respectivamente, de Arnaldo Vianna (PDT) e João Peixoto (PSDC), apoiados por Carla). Até a segunda quinzena de agosto, assinarei minha filiação ao PR, quando estaremos também inaugurando a nova sede do partido em São João. Ou seja, todos os compromissos têm sido rigorosamente mantidos de parte a parte. Apostar que eles continuem sendo até 2012, não tem nada de adivinhação. Como você disse, é a lógica.

Wladimir: Nosso compromisso em SJB é com Betinho

(Foto de Antonio Cruz)
(Foto de Antonio Cruz)

 

 “Não serei candidato em São João da Barra. O nosso compromisso é com a candidatura de Betinho Dauaire”. Assertivo, foi assim que o presidente do PR em Campos, Wladimir Garotinho, reagiu à possibilidade de ser uma alternativa do grupo político do pai, nas eleições majoritárias sanjoanenses do próximo ano. Cogitado aqui pela prefeita Carla Machado (PMDB), como possível opção da oposição, Wladimir disse ao blog que lembrar outros nomes, além do de Betinho, “é uma tentativa de desviar o foco”.

Ranulfo descarta candidatura e define eleição em SJB entre Carla e Garotinho

Ouvido agora pelo blogueiro, pelo menos um dos quatro nomes citados pela prefeita Carla Machado como possível candidato da oposição à sua sucessão, negou qualquer intenção neste sentido. Ex-prefeito daquele município (entre 1992 e 1996, cassado ao final do mandato) e atual presidente do Centro de Informações e Dados de Campos (Cidac), Ranulfo Vidigal revelou que sequer pretende trasnferir seu domicílio eleitoral novamente para São João da Barra.

Embora tenha preferido tratar da questão da política local sempre embutida em sua visão de desenvolvimento econômico regional, ele não se furtou em afirmar:

— A eleição de 2012 em São João da Barra será definida no embate direto entre aqueles que, hoje, em são seus principais eleitores: Carla Machado e Anthony Garotinho.

Abaixo, outras impressões de Ranulfo…

Doutorado no Açu —  Minha dissertação de doutorado na UFRJ, defendida e aprovada em novembro passado, foi “Desenvolvimento Regional no caso do Açu e suas Implicações para o Futuro”. Nela, identifiquei muito claramente três pontos, três carências, que existem em São João da Barra, em Campos e em todos os municípios da região, que tem obrigação de pensar todo seu desenvolvimento futuro de maneira conjunta e articulada, tendo como base a implantação do Porto do Açu.

Macro-planejamento — A primeira questão é a ausência de macro-planejamento, capaz de dotar a região de infra-estrutura necessária para um investimento dessa monta. Não adianta mais São João da Barra se pensar sozinha, Campos se pensar sozinha, Macaé se pensar sozinha. Temos que pensar regionalmente e não estamos fazendo isso.

Burocracias municipais despreparadas — Os quadros públicos de todas as prefeituras da nossa região, sem exceção, estão muito aquém do necessário para atender às demandas desse novo ciclo. Os quadros administrativos dos nossos municípios são todos fracos, despreperados e desqualificados.

Mão-de-obra desqualificada — Sobretudo depois que encerrar a fase de construção, esses investimentos que aportarão no Açu gerarão demanda de mão-de-obra qualificada. Uma siderúrgica como a que montará esse grupo chinês vai gerar 3,5 mil empregos com média salarial de R$ 3,5 mil. E nossa região não está qualificada para ofertar essa mão-de-obra, que terá que ser em grande parte importada por essas empresas.

E a eleição em SJB? — Infelizmente, num erro que pode custar caro no futuro próximo, essas grandes discussões não são o tema das eleições para Prefeitura de São João da Barra. Em vez disso, o que se debate são as picuinhas políticas, os desafetos pessoais. Posso até assumir um posionamento diante das pessoas que me conhecem e confiam em mim, mas meu domicílio eleitoral está em Campos e não pretendo transferí-lo, pelo menos não com vistas a 2012.

Se não a economia, o que definirá em SJB? — Os principais eleitores de São João da Barra, hoje, são a prefeita e Garotinho. Desde as últimas eleições, em 2010, isso ficou bem nítido. Para deputado federal, os mais votados foram Arnaldo Vianna, apoiado por Carla, e Garotinho. Para estadual, lideraram João Peixoto, com os votos da prefeita, e Clarissa, que é filha de Garotinho. Dentro dessa política personalista, não tenho muito a contribuir.