Democracia — Livre convivência entre contrários
Herança viva da ágora grega, berço do próprio conceito de democracia, que a Folha tem orgulho de imprimir todo dia, preto no branco, em sua página de Opinião, o blog adianta dois artigos que serão publicados em sua edição de amanhã, um da prefeita Rosinha (PMDB), outro da vereadora Ilsan Viana (PDT), com impressões bem distintas sobre o presente e as perspectivas de futuro para Campos.
Independente das razões de uma e da outra, fica a certeza de que democracia só se constrói assim mesmo, na livre convivência entre contrários…
Royalties no Congresso
Por Rosinha Garotinho
As camadas de pré-sal deram ao Brasil um novo status no mercado mundial do petróleo, mas não libertaram o país das indefinições que atrasam o marco regulatório para o setor e nem superaram a disputa pelas indenizações constitucionais devidas a municípios e estados produtores.
Iniciamos em 2009, na Organização dos Municípios Produtores de Petróleo (Ompetro), uma ampla mobilização pela defesa dos royalties, com apresentação de mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal (STF) para evitar redistribuição inconstitucional. Mas o impasse político ainda permanece, na análise do veto dado pelo então presidente Lula à mudança das regras existentes.
Na quarta-feira voltei a abordar o assunto, em audiência na Comissão Especial do Pré-sal, na Câmara dos Deputados. Expus que a redistribuição para os não produtores fere a Constituição Federal. Em seu artigo 20, a Carta Magna rege que royalties são instrumentos de ressarcimento para as regiões afetadas pelos impactos, diretos e indiretos, das atividades de exploração.
Lembramos de várias propostas feitas ao ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, que infelizmente não foram adiante. Entre elas, a faixa de reserva de 40% dos recursos do pré-sal, com as indenizações pelos critérios atuais, e os 60% restantes no novo modelo. Ou o uso pela União dos recursos gerados nas licitações para a exploração a fim de contemplar os municípios que não produzem.
É preciso deixar claro que sempre nos abrimos ao diálogo, com uma postura propositiva, torcendo para que o bom senso prevaleça no Congresso Nacional, com a preservação dos direitos dos produtores, principalmente sobre os campos de pós-sal.
Os municípios não recebem royalties como favores e sim porque a cadeia do petróleo pressiona a infraestrutura e a rede de serviços públicos, eleva demandas e cria tensões sociais, sendo imprescindível a reparação legal.
O exemplo negativo
Por Ilan Viana
A prefeita de Campos anuncia uma licença controvertida de 15 dias, a partir do dia 19 próximo, depois de ter editado um entulho autoritário em forma de decreto no qual limita pedidos de licença de funcionários públicos municipais, passando por cima de conquistas asseguradas na legislação e no estatuto do servidor. Diz com seu gesto, que a elite do governo está imune aos deveres que pesam sobre os mortais comuns, àqueles que, efetivamente, levam a administração nas costas.
Pelo decreto imposto por Sua Excelência, caso o trabalhador da Prefeitura exceda o prazo de 120 dias de licença médica, ele fica sujeito a algumas punições, entre as quais, a supressão do vale transporte, do auxílio alimentação e pode, inclusive, perder a sua lotação de origem. Essa bravata autoritária, certamente, não se sustentará juridicamente e já foi, devidamente, denunciada ao Judiciário que cuida no momento de analisá-la. Mas afinal, o que dá a prefeita essa segurança para atropelar o estado de direito dessa forma?
Provavelmente sua larga maioria na Câmara Municipal. A mesma base que não se moveu para investigar a suspeita de fraude no cartão cidadão, o uso de veículos contratados pela municipalidade por familiares da prefeita, o reajuste da taxa de custeio do cheque cidadão, entre outras mazelas. Só mesmo a sensação de poder absoluto pode levar a gestora a atitudes antidemocráticas como a que acabamos de assistir.
Os aliados da prefeita sustentam que sua licença é mais do que compreensível, um direito institucional que não deveria suscitar qualquer questionamento e que o período de 15 dias servirá para um merecido descanso. Mas a sociedade de Campos sabe que não é bem assim, afinal, no segundo semestre do ano passado, Sua Excelência “descansou” seis meses por força de uma decisão judicial que a afastou do cargo, condenada por abuso de poder econômico durante sua campanha eleitoral.
Mas vá lá, se a prefeita se julga assim tão cansada e quer mesmo a licença, ela poderia, pelo menos, antes de viajar, editar novo decreto anulando o que impõem restrições à licença dos servidores. Só assim conseguirá desfazer o péssimo exemplo que acaba de dar, com base na máxima da conveniência: “façam o que eu mando, mas não façam o que eu faço”.






