Declaração de voto
Confesso estar profundamente desesperançoso com o futuro do meu país, sobretudo após o debate de ontem entre seus candidatos a presidente, no qual as tentativas de destruição do outro, com cada gesto e sílaba marcados minuciosamente pelos marqueteiros, imperaram sobre as propostas e o pensamento real de cada um sobre o Brasil. Com a viralização desse clima de MMA na política nacional, nada indica que o Brasil sairá da eleição de depois de amanhã menos dividido ou melhor do que entrou, independente do resultado das urnas. Mas é como dizia o velho leão inglês Winston Churchill (1874/1965): “A democracia é o pior dos regimes. O problema é que ainda não inventaram um melhor”.
Não por outro motivo, na marcação exclusiva da minha consciência, segue abaixo:

Ponto final — À prova de bala
Conforme dito ontem nesta coluna (aqui), tudo indica que após um consistente crescimento eleitoral em setembro, no qual ultrapassou Anthony Garotinho (PR), Luiz Fernando Pezão (PMDB) finalmente bateu seu teto a poucos dias de 5 outubro. Se havia repetido os 31% no primeiro turno, nas últimas pesquisa Ibope e nas duas Datafolha, o governador teve uma baixa mínima, chegando aos 30% na mais nova pesquisa do segundo instituto, divulgada ontem (aqui) e primeira feita após o debate da Globo, de terça.
Como a margem de erro do Datafolha é de três pontos para mais ou menos, não se pode nem afirmar que Pezão teve uma queda. A lógica vale até para Garotinho, que alcançou o limite da margem de erro para configurar outro desabamento, no qual minguou suas intenções de voto de 24% a 21%. Em empate técnico com o político da Lapa, Marcelo Crivella (PRB) poderia ameaçá-lo mais se crescesse, mas manteve os mesmos 17% das duas Datafolha anteriores, enquanto Lindberg Farias (PT) cresceu de 11% para 13%, mas já não ameaça ninguém.
Na verdade, a grande surpresa dessa primeira pesquisa após o sucesso de audiência do debate da Globo, acusada de porta-voz dazelite pelo maniqueísmo petista, foi o candidato de um partido à esquerda do PT. Como o Christiano Abreu Barbosa adiantou na quarta em seu blog “Ponto de vista” (aqui), e ontem na Folha, o grande vencedor do debate foi Tarcísio Motta, do Psol. Se Christiano deu-lhe nota 9 pela atuação de terça, Tarcísio depois dela subiu de 3% para 6%, num impressionante crescimento de 100%.
Todavia, nada altera a projeção lógica do segundo turno entre Pezão e Garotinho. Nele, segundo o Datafolha, o governador cresceu dois pontos e ficaria com 52%, enquanto o deputado perdeu três, quedando aos 30%. E nem que a bandidagem carioca toda se assanhe contra a manutenção da política das UPPs, daqui até 26 de outubro, nada indica que essa diferença abissal de 22 pontos entre os dois candidatos possa ser revertida. Com 48%, a rejeição de Garotinho parece vestir colete à prova de bala.
Publicado hoje na Folha
Ponto final — Sem coincidências
Qualquer atleta de competição vai afirmar que, muito além do talento, está no planejamento de cada um a principal distinção entre os vencedores e os derrotados no final. Por melhor que qualquer um seja, em qualquer atividade, ninguém consegue permanecer no seu auge durante muito tempo. O segredo é se preparar para atingir o pico da curva ascendente justamente no momento da decisão, antes de se abrir a inevitável curva do descenso.
Desde que começou seu sprint na reta final do primeiro turno, antes mesmo de ultrapassar Anthony Garotinho (PR), o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) ainda não havia conhecido seu teto nas pesquisas. Ao que tudo indica, ele finalmente bateu a cabeça lá, ao repetir os 31% de intenções de voto tanto na última pesquisa Ibope, quanto nas duas últimas Datafolha, como evidencia a mais recente delas na capa e na página 2 desta edição (aqui), em matéria do jornalista Arnaldo Neto.
Ninguém deixa para alcançar seu auge eleitoral na semana da eleição por acaso. No lado oposto da moeda, como evidencia a necessária análise do Christiano Abreu Barbosa (aqui) também na página 2, sobre o sucesso de audiência do debate da Globo da noite de terça, último no primeiro turno entre os candidatos a governador do Rio, tampouco foi coincidência que Garotinho tenha chegado a ele bem pior nas pesquisas do que já esteve, isolado por todos os demais e falando quase sozinho.
Publicado hoje na Folha.
Datafolha: Pezão mantém 31%; Garotinho sobe um ponto e agora tem 24%
Pesquisa Datafolha divulgada nesta quarta-feira mostra que o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), mantém a liderança nas intenções de voto na disputa pelo governo do Estado do Rio. Segundo o levantamento, o peemedebista tem 31% da preferência dos eleitores, repetindo o mesmo índice registrado na semana passada.
Em relação à pesquisa anterior, realizada entre os dias 25 e 26 de setembro, Garotinho (PR) subiu um ponto e agora tem 24% das intenções de voto. Marcelo Crivella (PRB) manteve 17%, enquanto o petista Lindbergh Farias caiu um ponto, passando de 12% para 11%. Votos em branco e nulos somam 9%. Entre os entrevistados, 4% disseram que não sabem em quem vão votar.
Na simulação de um provável segundo turno entre Pezão e Garotinho, o peemedebista tem 50% das intenções de voto, contra 33% do candidato do PR, o que mostra uma queda de sete pontos percentuais entre os candidatos em relação à última pesquisa, quando os dois tinham 54% e 30%, respectivamente. Em um eventual segundo turno entre Pezão e Crivella, o governador teria 47% e o senador, 37%.
O instituto também apontou a rejeição dos candidatos. Garotinho continua com o maior índice (47%), seguido por Lindberg (20%), Pezão (19%) e Crivella (15%),
O Datafolha ouviu 1.522 eleitores entre os dias 29 e 30 de setembro em 36 municípios. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou para menos. A pesquisa, encomendada pelo jornal “Folha de S.Paulo” e pela TV Globo, está registrada registrada no TSE sob o nº RJ-00050/2014 e BR-00905/2014.
Matéria publicada aqui, na globo.com
“Anã” para marqueteiro de Dilma e Hugo Chávez, Marina é alvo de dois gigantes

Um campo de batalha
Por Zuenir Ventura
Para falar de intolerância, Millôr Fernandes usava o futebol e dizia que só haveria democracia verdadeira no dia em que os vascaínos pudessem torcer para seu time no meio dos flamenguistas, e vice-versa. Se tivesse tido tempo de assistir à atual campanha presidencial, não precisaria buscar exemplo no esporte. A diferença é que a política tem sempre o pretexto de uma causa nobre: o bem do país. Pode-se alegar que sempre foi assim e que há precedentes piores, com as disputas partidárias levando a atentados, crimes e até a suicídio de presidente. Mas acreditava-se que a situação inédita de agora, com duas damas dignas e ainda por cima ex-companheiras de partido e de governo, permitiria uma disputa de alto nível, mais civilizada, com mais respeito mútuo. Que nada. Os debates se transformaram em embates; as críticas em denúncias; as discordâncias em acusações.
Não por acaso têm estado tão presentes no noticiário e nos comentários políticos a linguagem bélica e as metáforas de guerra como “tiroteio”, “batalha”, “alvo”, “bombardeio”, “ataques”. E a previsão é que piore nessa reta final da propaganda gratuita, quando, segundo Ricardo Noblat, “Dilma, Lula e o PT continuarão com gosto de sangue na boca contra Marina”. Outro comentarista, Josias de Souza, para descrever o debate na TV Record, preferiu a comparação com uma violenta luta de boxe, “na qual Marina Silva entrou com a cara. Dilma esmurrou-a e Aécio Neves desfechou-lhe um par de jabs”. Isso lembra o que pensa João Santana sobre eleições: “São um combate quase sangrento”, onde, pode-se acrescentar, não há muito lugar para escrúpulos éticos. Consultor do PT, ele é considerado um gênio do marketing político. Já conseguiu comandar três vitoriosas campanhas ao mesmo tempo: de Danilo Medina, na República Dominicana; de Hugo Chávez, na Venezuela; e de José Eduardo dos Santos, em Angola. Pertence, portanto, ao rico time de craques que o Brasil hoje exporta e que são responsáveis pela construção e venda da imagem dos candidatos, que, às vezes, se limitam a interpretar papéis preestabelecidos por eles, os estrategistas, aos quais interessa mais a forma que o conteúdo.
A Santana é atribuída a virada radical, o endurecimento de estilo da candidata do PT. Nada de Dilminha paz e amor. Tratado como um deus marqueteiro, ele, no entanto, pode não ser infalível. Em abril, disse à revista “Época”: “A Dilma vai ganhar no primeiro turno porque ocorrerá uma antropofagia de anões. Eles vão se comer lá embaixo e ela, sobranceira, vai planar no Olimpo.” É possível que o mágico acerte mais uma vez, mas não como esperava. Pelo menos um anão, ou melhor, uma anã, está dando mais trabalho do que o previsto, sendo alvo dos dois gigantes.
Publicado aqui na globo.com
Ponto final — Contenção de danos
Nenhuma análise das últimas pesquisas ao governo do Rio será capaz de projetar algo diferente da vitória de Luiz Fernando Pezão (PMDB) no primeiro e no segundo turno, provavelmente contra Anthony Garotinho (PR). Na nova consulta Ibope divulgada ontem, enquanto Pezão cresceu de 29% para 31%, Garotinho perdeu os mesmos dois pontos, caindo de 26% para 24%. Com dois pontos também na margem de erro para mais ou menos, o governador se isolou de vez na liderança, a quatro dias do pleito.
Com Marcelo Crivella (PRB) caindo de 17% a 16%, a amostragem indicou claramente o segundo turno entre Pezão e Garotinho, vencido pelo primeiro por 46% a 31%. Esta larga vantagem de 15 pontos se deve à grande rejeição do segundo, que impede a transferência de voto. Pelo Ibope, Garotinho tinha 39% e chegou aos 40% de eleitores que não votariam nele em nenhuma circunstância, depois de já ter batido incríveis 49% no índice pelo Datafolha. Pezão, nos dois institutos, tem apenas 16% de rejeição.
Vociferar contra os institutos de pesquisas, dizendo que estão comprados por Pezão, por Cabral, pela Globo, pelos poderosos, ou qualquer outro algoz imaginário, tem o mesmo valor de quem atira pedra no espelho pelo reflexo da própria imagem. Se muda alguma coisa, é para pior, ao aumentar a rejeição sempre natural ao mau perdedor. À luz da razão, a hora é de respirar e tentar conter os danos nas nominatas e a debandada antes da palavra final das urnas.
Publicado hoje na Folha



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