Cinderela — A crueza do mundo real é um dos motivos pelos quais, muitas vezes, opta-se por vivenciar a ficção, seja por meio da literatura ou do cinema. Nela, é ampla e irrestrita a possibilidade de encontrar aspectos que saciem a ânsia por horas de paz, dando ao leitor/telespectador momentos de tranquilidade e entrega a um mundo distante de cobranças, medos e angústias do cotidiano. Salvo em casos de histórias baseada em fatos, não há forma melhor de escapar da realidade. Um dos gêneros voltados principalmente para a criação de um mundo atípico, pleno de encantos e soluções deliciosamente irreais para conflitos diários é a fantasia, cujo representante mais recente, “Cinderela”, dirigido por Kenneth Branagh e roteirizado por Chris Weitz, cumpriu com êxito a missão a que estava inconscientemente destinado: a de levar o público à outra dimensão.
Por meio de efeitos especiais, trilha sonora, figurinos adequados ao contexto da época e cenários — cuja iluminação se alterna, dando maior ou menor tom sombrio ao enredo —, foi criada a ambiência ideal para a entrega do público à adaptação do conto de fadas. Desta vez, no entanto, a história abandonou os traços da tradicional animação para ser interpretada por atores, que não deram somente a voz, mas também o corpo e as expressões para a composição do longa-metragem. A opção estética torna universo de Cinderela ainda mais envolvente.
O filme narra a história de uma jovem, interpretada por Lily James, que, depois da morte de seus pais, é obrigada a morar com a madrasta, vivida por Cate Blanchett, que a explora e a transforma em empregada. Forçada a realizar tarefas domésticas para a mulher e as filhas, a moça se torna triste e desapontada com o ser humano. Apesar da dor, não esquece os ensinamentos da mãe. Em uma noite, após ter sido convidada para o baile real — e proibida de participar da festa pela madrasta —, Cinderela recebe a visita da fada madrinha, papel de Helena Bonham Carter, que muda o destino da jovem.
Apesar da rápida participação, Bonham Carter, como principal característica de sua marcante atuação, trouxe a essência da personagem às telas, unindo caracterização, texto e interpretação comedida e leve, fugindo a clichês e exageros que podem fazer parte de um filme de fantasia. Semelhante zelo pode ser comprovado em “Alice no país das maravilhas” (2010), de Tim Burton, no qual a atriz viveu a Rainha Vermelha. Ambos os longas-metragens apresentam narrativas infantis de maneira atraente, unindo, delicadamente, dramas e humor. Em comum, as duas histórias, adaptadas para o cinema, foram igualmente bem roteirizadas, produzidas e montadas. Lily James e Cate Blanchett também se destacam em cena pela atuação convincente e pela sintonia existente entre as atrizes
Os diversos sentimentos que “Cinderela” causa no telespectador são desenvolvidos por meio da construção da fotografia do filme. Nas primeiras cenas, o ambiente, tomado pelo verde da floresta e pelas luzes do dia, permite que seja emocionalmente compreendida a relação entre Ella e os pais. Com a morte do casal, as sequências se tornam pouco mais densas e escuras, levando o público a vivenciar a transição junto à personagem.
“Cinderela” proporciona, simultaneamente de maneira simples e grandiosa, momentos de descontração e desconexão com o mundo real, dando a adultos e crianças a possibilidade de fazer parte um mundo encantando que, por quase duas horas, é o único acessível e compreensível para os telespectadores.
Cada uma na sua casa — Na medida em que pensamos cinema de animação ou no consumo desse formato, é comum imaginar que este é um dos poucos momentos que a família — todos em qualquer idade – possa aproveitar instantes de lazer e, às vezes, cultura com censura livre e sem preocupação.
De vez em quando vemos desenho animado que desenvolve tramas com valores que acompanharão a garotada por toda vida. Se vierem através de personagens aventureiros, engraçadinhos e de outro planeta, mais efeitos 3D e música pop, aí é maravilhoso.
A novidade da Dream Works Animation (responsável por alguns dos maiores e mais brilhantes lançamentos do cinema de animação contemporâneo, entre eles “O Príncipe do “Egito”, “Madagascar”, “Shrek”, “A Fuga das Galinhas” e, mais recentemente, “Como Treinar Seu Dragão”) para trazer de volta os bons números das películas citadas acima é a animação (3D) “Cada Um Na Sua Casa” (Home- titulo original), distribuída pela 20th Century Fox.
Mesmo com a indústria de animação passando por dificuldades nos últimos anos, como o adiamento de algumas das suas películas (incluindo a em questão) e o fechamento de algumas de suas filiais/escritórios, a produção ( Chris Jenkins e Suzanne Buirgy) contou com um orçamento de US$132.000.000. Com argumento baseado no livro infantil “Tre True Meaning of Smekday”, de Adam Rex, o filme tem direção de Tim Johson (“FormiguinhaZ” 1998, “Sinbad – A Lenda dos Sete Mares” 2002, “Os Sem Floresta” 2006, “Kung Fu Panda” 2010 e “Como Treinar Seu Dragão” 2010). Na dublagem original, o famoso Jim Parsons (o magrelo nerd, Sheldon de The Big Bang Theory) e a cantora pop barbadiana Rihanna emprestam suas vozes aos personagens principais, Óh e Tipoline, a Tip. Ainda compõe o elenco de dubladores a cantora/atriz hispânica Jennifer Lopez (Lucy Tucci, mãe da jovem Tip) e o comediante Steve Martin (com a voz do Capitão Smek, o líder da raça alienígena Boov).
No filme, de 94 min, a Terra é invadida por alguns alienígenas (os Boov’s seres estranhamente fofos que mudam de cor de acordo com os sentimentos) que procuram refúgio dos seus temidos inimigos e, para isso, realocam toda a humanidade em um único lugar (mais especificamente a Austrália) e tomam conta do resto do planeta. O protagonista é Óh (Jim Parsons), um jovem atrapalhado e excluído (bullying) que, na empolgação de chegar a um novo lugar que passa sentir “seu”, acaba enviando um sinal aos inimigos de sua espécie por acidente. Com seu vacilo, o estabanado personagem vira alvo das autoridades alienígenas, comandadas pelo Capitão Smek (Steve Martin), e se une a Tip (Rihanna), uma garota que conseguiu escapar, juntamente com Porquinho, seu gato, das garras dos invasores e está decidida a procurar Lucy Tucci (J-Lo), sua mãe, que foi raptada pelos Boovs. É aí que a trama passa a girar em torno do relacionamento construído entre os personagens e é justamente essa a “cereja do bolo”. Óh e Tip vão criando laços gradativos de amizade e companheirismo durante a busca, realizada em um carro voador movido à refrescos coloridos, mostrando que as diferenças, indiferentes de quais sejam, podem ser superadas quando há um sentimento verdadeiro entre dois indivíduos, arrancando do público risadas e, em algumas cenas mais emotivas, lágrimas.
Menos pela edição dos efeitos 3D e pelo roteiro singelo, há que se destacar a trilha sonora com Rihanna e Jennifer Lopes interpretando músicas como “Only Girl”, “As Real As You And Me”, “Dancing In The Dark”, “Feel The Light”, principalmente nas cenas finais de dança e as de maior carga emocional. Outra cena que merece atenção é a que se passa em uma Paris totalmente tomada pelos Boovs em que a Torre Eiffel vira de cabeça para baixo.
“Cada Um Na Sua Casa” é bacana também por sua mensagem contra o preconceito, sobre amizade e superação passadas pelos seus cativantes e fofos personagens de forma alegre, colorida e emocionante sem ser chato ou piegas. As crianças saem da sala de exibição encantadas, com os olhos brilhando.
A série Divergente: Insurgente — Num certo futuro, aquilo que alguma vez foi a cidade de Chicago será dividida em cinco facções: Amizade, Abnegação, Erudição, Franqueza e Audácia. Numa determinada idade, todos os jovens devem escolher a qual facção irão permanecer pelo resto das suas vidas, baseados em testes prévios que pré-determinam a escolha a tomar. Quem não se encaixa completamente num dos grupos, é considerado divergente, e aparentemente são uma ameaça para o sistema todo.
Logicamente, a protagonista de Insurgente, Tris (Shailene Woodley), é uma divergente. No primeiro filme da franquia, “Divergente”, ela tinha escolhido o grupo de Audácia, e o seu roteiro se dedicava a narrar os ritos de iniciação e treinamento que ela e outros candidatos deviam passar para serem admitidos como integrantes da facção. Entretanto, o seu espírito rebelde a levaria despertar uma revolta contra os planos da facção Erudição, cuja líder Jeanine, interpretada por Kate Winslet, pretende se impor por sobre o resto.
Nesta continuação, Tris está refugiada na facção Amizade, junto com seu namorado e outros ex integrantes de Audácia. Amizade é uma comunidade paz-e-amor que se dedica a atividades agropecuárias, e não quer brigar com ninguém. Tris, como já tinha acontecido na Audácia, não se sente a vontade aqui. Acha chato. Mas o aborrecimento será resolvido logo, pois uma força de Audácia invadirá Amizade em busca de divergentes, os quais serão procurados dado que só eles podem decifrar uma mensagem encriptada numa caixa misteriosa, cuja revelação, segundo entende a líder de Erudição, lhe dará o poder absoluto.
Se toda a explicação anterior lhe resultou confusa, não se preocupe, pois isto não tem a menor importância. Esse arcabouço argumental funciona apenas como desculpa para sustentar uma cambada de cenas de ação, recheadas de efeitos visuais impactantes que remetem a filmes como Matrix e A Origem, através de suas alusões a realidades virtuais e combates que só acontecem na cabeça da protagonista.
A franquia Divergente pertence a um recente subgênero da ficção científica que poderíamos denominar ‘distopias adolescentes’, similares a outras séries de filmes como são“Os Jogos Vorazes” e “Maze Runner: Correr ou Morrer”.
Em todas elas, os protagonistas são jovens inseridos em sociedades totalitárias pós apocalípticas, que decidem se rebelar contra a estratificação de classes, estabelecidos pelas autoridades, e acabam liderando revoltas tendentes a construir um novo modelo de comunidade. Entretanto, esta historia padrão, que tem suas particularidades em cada série (uma competição perversa em “Jogos Vorazes”; um labirinto a ser percorrido em “The Maze Runner”; etc.) funcionam apenas como uma espécie de cenografia temática numa arena de luta. Não há nenhuma intenção de refletir acerca dos perigos das desviações totalitárias, como o faziam os romances “1984”, “Fahrenheit 451” ou “A Laranja Mecânica”, todos eles adaptados em versões cinematográficas. Nestes, falava-se em verdade de ameaças ao presente, embora fantasiado como futuro.
Nestas novas distopias adolescentes, pareceria que o que se tenta apenas é produzir uma empatia etária com o público, identificando-o aos protagonistas, que são jovens inconformados com os abusos das regras criadas pelos adultos, isto é, os pais. Mas, como bem apontara Aluysio Barbosa (aqui)na sua crítica sobre o mesmo filme, para rebeldia já tínhamos “Clube dos cinco” de John Hugues.
Todavia, receio que “Insurgente” nem sequer pretenda gerar algum tipo de identificação com os adolescentes. Desconfio que o seu verdadeiro propósito seja simplesmente fornecer ao espectador de duas horas para que possa comer pipoca, e se esquecer tanto do que se passa fora do cinema quanto dentro dele, fascinando-o com imagens de prédios explodindo em câmera lenta. Insurgente é uma espécie de ‘soma’, aquela droga supostamente inofensiva dessa outra distopia chamada “Admirável Mundo Novo”.
Publicado na Folha Dois em 03/04, e republicado aqui apenas hoje com o devido pedido público de perdão ao Gustavo Alejandro Oviedo, mas foi o mesmo dia do velório e do enterro de Kapi
Em janeiro de 2010, no Pontal de Atafona, a primeira chamada da peça “Pontal”: Mairus, Aluysio, Yve, Kapi e Sidney (foto de Leonardo Berenger – Folha da Manhã)
(Para Beth Araújo, Severina Cavalcanti, Fátima Castro, Aucilene Freitas, Jorge Rosa e Bernadete Bogado)
Era 2009. Caminhávamos conversando à beira-mar, quase na curva da foz do Paraíba, numa faixa de areia que hoje é oceano. Tentava animar Kapi, que estava hospedado em minha casa, em Atafona, após um período de internação no Hospital Ferreira Machado por conta de uma tuberculose. Mais do que a recuperação pela doença oportunista, entre as tantas que acham brecha na imunidade comprometida de um soroposito, o ânimo do genial criador estava abatido pela perspectiva do ostracismo, dolosamente banido pelo poder público municipal depois que os Garotinho reassumiram o poder em Campos, naquele mesmo ano.
Foi então que ele teve, de chofre, a ideia:
— Vamos pegar seus poemas sobre Atafona e juntar mais uns meus, do Artur (Gomes) e da Adriana (Medeiros) e montar uma peça. “Pontal”! O nome vai ser “Pontal”!
Ao que eu indaguei, meio assustado:
— Como assim? Vamos montar onde? Quando? Como transformar poemas em texto de teatro?
— Isso tudo você deixa comigo! — disse em tom propositalmente afetado, mas seguro de si, com uma risadinha mefistotélica e os olhos brilhando.
Sem respostas lógicas, não precisava de outra que não fosse aquela expressa em sua súbita recuperação física e psicológica. Mesmo para alguém, como eu, envolvido em trabalho de criação, era impressionante como em Kapi isso era uma demanda tão vital, literalmente, quanto o ar que os demais precisam para respirar.
Voltamos da caminhada, almoçamos, eu tomei banho, entreguei os poemas que ele pediu e segui a Campos para meu trabalho, deixando Kapi imerso no dele. Quando voltei à noite, já estava tudo resolvido:
— Vamos montar no Bar do Bambu (antiga casa de barco da família Aquino, que o mar depois levou). Serão apresentações quinta, sexta e sábado, em quatro semanas entre janeiro e fevereiro do ano que vem (2010). Os poemas serão interpretados como causos contados por pescadores de Atafona. Yve (Carvalho) e Sidney (Navarro) serão os atores. Só falta arrumarmos um terceiro, para dividir melhor os textos.
O terceiro homem, no furto ao filme clássico de Carol Reed, acabou sendo o Mairus Stanislawiski, um gaúcho bicho grilo desses que costumam brotar em Atafona como bicho de pé, sem nenhuma experiência anterior como ator. Comigo e Sidney toureando os conflitos entre as personalidades de diva de Kapi e Yve, sinceramente não sabíamos o que esperar na noite de estreia de uma peça com atores locais (à exceção gaúcha e desconhecida), diretor local e autores locais, num lugar sem luz elétrica e de difícil acesso pela areia.
Grande foi a nossa surpresa quando cerca de 80 pessoas tiveram sua silhuetas atraídas bruxuleantes pela fogueira acesa, no encontro das águas do Paraíba e do Atlântico, em frente ao Bar do Bambu, lotando o antigo galpão que tinha o centro como palco, iluminado internamente por lamparinas e lampiões. Gente de todas as idades e estilos, cujo o boca a boca não deve ter sido ruim, pois o público chegaria a dobrar nas apresentações seguintes, que ganharam ainda mais força dramática quando o Mairus foi substituído pelo Artur Gomes, coautor e também ator do espetáculo, fazendo com que tivéssemos que improvisar uma arquibancada de areia e madeira na entrada do bar transformado em teatro.
Conheci Kapi ainda nos anos 1980, quando eu ainda era um adolescente fascinado pela vida boêmia na qual ele já era uma lenda da planície, dono do mitológico Bar Vermelho, point do underground goitacá. Mas nosso contato se estreitou mais na década seguinte, quando passei a escrever poesia. Logo no primeiro concurso em que entrei, no FestCampos de 1992, realizado no hoje abandonado anfiteatro do Parque Alberto Sampaio — acreditem! aquele lugar já foi palco de poesia —, tendo o Artur Gomes como intérprete de dois trabalhos selecionados à final, grande foi minha surpresa. Aos 19 anos, acabei tirando primeiro e segundo lugares, respectivamente com “Calvário” e “Caçula”, poemas que não guardo, posto serem frutos de uma fase com a qual depois romperia.
Só mais tarde fui saber que, compondo o júri, foi Kapi quem bateu pé contra uma tentativa de manobra “politicamente correta” nos bastidores, que visava me dar apenas um prêmio, abrindo espaço para mais gente:
— Valem o regulamento e as notas dos jurados! — E, graças a Kapi, valeram mesmo.
Alguns anos depois, lembro de um marcante encontro ao acaso, na sua casa em Atafona. Era fevereiro de 1997, eu vinha ouvindo aquele verão todo, até quase “furar” o CD, o acústico do Eric Clapton, com o qual a MTV inaugurou sua exitosa série Unplegged. Por sua vez, Kapi estava cheio de histórias para contar, recém-chegado de uma viagem junto com sua imprescindível amiga Beth Araújo e sua turma de formatura da faculdade de turismo, por mais de 30 dias, entre Costa do Marfim, Líbano, Egito, Israel, Jordânia e França. Velas enfunadas ao vento nordeste, passamos a tarde naquela varanda atafonense, conversando sobre tudo que ele trazia ainda fresco do berço da civilização humana, ouvindo blues, tomando o vermute e fumando os gauloises trazidos há pouco de Paris.
Passado o verão, no final daquele ano, Kapi sofreu sua primeira grave crise advinda do HIV, chegando a ficar em coma. Depois que ele começou a se restabelecer, fui vê-lo internado no Hospital Ferreira Machado, sempre sob a guarda zelosa da mãe, a saudosa Severina. Ao final da visita, entreguei-lhe “órbita de hal”, poema a ele dedicado, que trazia as lembranças daquela tarde em Atafona, assim como a comunhão com seu estado de saúde, por conta de um acidente que também me deixara entre vida e morte alguns anos antes. Creio que foi ali, naqueles versos escritos em tinta de solidariedade, que da amizade se fez uma fraternidade de vida inteira
Com base nessa cumplicidade, se formou uma parceria artística inquebrantável, na qual eu não teria mais nenhum poema em festival cuja interpretação não fosse dirigida por Kapi. Comigo como poeta, ele como diretor e o Yve Carvalho como ator, o trio colheria relativo sucesso em Campos e no Rio.
Nos FestCampos, bati na trave algumas vezes, com um segundo lugar em 2000, com “epifania”, e um quarto lugar em 2006, com “cantos da pequena”, até novamente vencer com “muda”, em 2007, na minha despedida dos festivais de Campos. Além dos limites da província, a parceria também arrebanharia o primeiro lugar de poema, com “conversão a mais de uma atmosfera”, bem como de intérprete, com Yve, no 11º Concurso Nacional de Poesia Francisco Igreja, em 2008, realizado no auditório Machado de Assis, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.
Por sua vez, de pena própria, marcada pelo ritmo da oralidade trazido do teatro, Kapi também ganharia duas vezes o FestCampos: em 2002, com “Canção amiga”, e em 2005, com “Goya Tacá Amopi”.
Com mais de 100 peças encenadas, inclusive no Rio, Kapi foi um divisor de águas no teatro de Campos. Ainda nos escombros, inaugurou o Teatro Trianon, do qual tanto se ufana quem segregou o grande artista, onde encenou “Gota D’Água”, de Chico Buarque e Paulo Pontes, em 1995. Mas a montagem da qual mais se orgulhava, na qual deu vazão às suas ambições artísticas sempre épicas, foi “Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meireles, em 1998. Na superprodução, dirigiu dezenas de atores no cenário perfeito (e real) da Igreja e Mosteiro da Lapa.
Como passagens marcantes também como carnavalesco e organizador do Carnaval de Campos, Kapi foi, talvez, o artista mais completo que conheci nesta planície cortada pelo Paraíba do Sul. Campista filho de uma retirante nordestina, trespassou a origem humilde e os preconceitos de raça e orientação sexual com gumes afiados de talento e coragem. Se nunca cuidou de si como de sua arte, ainda assim foi um bravo resistente. E sobre ele não mente o também diretor teatral Fernando Rossi: “Mais lamentável é saber que esse processo da sua morte foi acelerado pela falta de apoio à sua arte”.
Junto com meu filho, de quem Kapi foi também grande amigo, a coisa que mais me importa nesta vida, ou em qualquer outra, é minha arte. E, como Aluysio Barbosa fez no jornalismo, foi Kapi quem me ensinou que arte é coletiva, ou de ninguém.
Em contrapartida, ele também dizia não acreditar em artista humilde. E tanto à sua vaidade, quanto à minha, às de Yve, Sidney, Artur e Adriana, afaga o fato de que aquela montagem de “Pontal” tenha sido o último grande momento de um lugar mágico que deixou de existir, engolido pelas ondas, como seremos todos nós.
Pode parecer teatro, e depois realmente foi, mas naquela mesma caminhada no Pontal, na qual Kapi pariu “Pontal”, nós dois vimos um golfinho saltar das águas e descrever em arco suas piruetas no espaço. Continuamos acompanhando as aparições do seu dorso e dos seus companheiros, até que sumissem entre o céu e o mar.
Velozes e furiosos 7 — Estados Unidos da América: terra de grandes oportunidades e diversão garantida — aos que se integram ao american way of life, claro. Há espaço até para negros pernósticos, que, ao preço da exposição ao ridículo, podem criar momentos de alívio cômico em filmes protagonizados por brancos. E ainda bem que, em qualquer parte do mundo, a despeito de tanto exotismo, todo estadunidense, sempre e cada vez mais, encontra algo que o faça lembrar-se de seu país de origem ou adoção: carros, computadores e celulares conectados à web, mulheres gostosas…
Sim, tais considerações são de um simplismo pueril. Dignas da mais chinfrim cartilha antiimperialista ianque. Mas também perfeitamente aplicáveis, por espectadores ou críticos ideológicos de esquerda, por exemplo, à franquia “Velozes e furiosos”, que chega agora a seu sétimo episódio, em cartaz no Kinoplex Avenida e no Multiplex Boulevard Shopping desde a última quinta-feira. Se você é um deles — ou tem seu gosto orientado por pressupostos estéticos mais ortodoxos —, mantenha-se longe não apenas deste blockbuster, mas de quase tudo ofertado atualmente nas salas de cinema. Se não, mesmo não gostando muito de filmes ação, periga até curtir a rocambolesca trama em questão.
Iniciada em 2001, os principais desafios desta série talvez sejam amarrar as pontas de capítulos anteriores nos mais novos e, sobretudo, as cenas de ação em cada filme individualmente considerado. Em termos de compreensão pelo público, o primeiro aspecto é menos comprometedor: o maior risco para alguém que não tenha visto ou não se lembre de uma parte anterior da franquia é não rir, por exemplo, com uma piada em torno de alguma situação de uma edição passada. Nem isso, nem o (pouco) que se passa entre as sequências de corridas de carros, lutas e tiroteios, numa trama descompromissada com uma narrativa coerente, incomoda novas gerações, não familiarizadas com o universo “Fast and furious”.
Assim, em Velozes e furiosos 7, sob direção de James Wan (de Jogos Mortais), a motivação para a reunião da equipe liderada por Dominic Toretto/Dom (Vin Diesel) e Brian O’Conner (Paul Walker) é desencadeada pelo desejo de Deckard Shaw (Jason Statham) de vingar a derrota imposta a seu irmão mais novo, Owen (Luke Evans), pelos dois protagonistas da série no episódio anterior. Após ferir o agente policial Luke Hobbs (Dwayne Johnson) e assassinar Han (Sung Kang), amigo japonês de Dom e Brian, Deckard pretende matar estes dois, que, por sua vez, tem motivos de sobra para eliminar o vilão. Não fosse isso suficiente para sustentar um longa-metragem com mais de duas horas, as habilidades do personagem de Statham, como ex-assassino das Forças Especiais Britânicas, fazem dele uma figura difícil de ser alcançada e que consegue, portanto, desaparecer após uma luta com Toretto. Este, então, recebe do agente secreto Mr. Nobody (Kurt Russell), o deux ex machina da trama, uma proposta de ajuda para encontrar Deckard, desde que os Velozes, em troca, resgatem, no Cáucaso, a hacker Megan (Nathalie Emmanuel), inicialmente de identidade desconhecida, que, por criar um dispositivo capaz de acessar câmeras de todo o planeta, foi seqüestrada pelo terrorista Jakande (Djimon Hounsou), líder de uma gangue integrada por Kiet (Tony Jaa, o astro tailandês, lutador de muay thai, imortalizado a partir de Ong Bak).
O absurdo é que, se o dispositivo ajudaria a encontrar Deckard, este — com sede de vingança e norteado pelo ditado “o inimigo de meu inimigo é meu amigo”, aliando-se, assim, ao grupo de Jakande — está em todos os lugares a que vai a equipe comandada por Dom, o que inclui, além da viagem ao Cáucaso, uma passagem por Abu Dhabi, para encontrar o tal equipamento, após o resgate da hacker.
Perseguições de carros, que descem precipícios, voam e caem de pára-quedas, além de duelarem como personagens de western; lutas com peritos no assunto, como Jaa e Hounsou — muitas vezes desperdiçadas pelo uso frenético da câmera; o carisma de Dwayne Johnson e Jason Statham, atores-de-um-personagem-só, e a participação especialíssima de Kurt Russel, compensando a expressividade diretamente proporcional à cabeleira de Vin Diesel; a superioridade dos Estados Unidos sobre o mundo, presente em valores como a importância da família, nas falas de Toretto, e um suposto apreço aos direitos humanos, que contêm os instintos mais primitivos do agente Hobbs em relação ao vilão Deckard — nada disso supera o principal apelo de “Velozes e furiosos 7”, capaz de igualar fãs da franquia e público em geral minimamente simpático ao cinema de pancadaria (desde que, ao final, os bons sobrevivam e os maus sejam punidos): a homenagem ao astro Paul Walker, morto num acidente automobilístico, no final de 2013, sem conseguir concluir o longa ora em cartaz, numa reafirmação do batido ditado de que a “vida imita a arte” e como alerta aos espectadores quanto a não tentar fazer “em casa” o que se passa na tela.
Como credores com meses a receber em todos os setores da Prefeitura, não há hoje em Campos ninguém em sã consciência que tenha dúvida de como os cofres do município foram quebrados em 2014, ano em que o hoje secretário de Rosinha, Anthony Garotinho (PR), sequer conseguiu chegar ao segundo turno da eleição a governador do Rio. Neste, ao apoiar o senador Marcelo Crivella, ainda foi humilhado eleitoralmente em sua própria cidade, na qual perdeu (aqui) em cinco das sete zonas eleitorais.
“Tenebrosas transações”
Isto posto, resta saber quando o dinheiro do município começou a ser deposto. Segundo auditoria interna feita por determinação da própria Rosinha, o rombo nos cofres de Campos vem desde seu primeiro governo (2009/12), num prejuízo de R$ 110 milhões na compra superfaturada e sem licitação de títulos públicos federais. O assunto não é novidade, pois se essa auditoria de 2013 foi escondida da população, um ano depois, em novembro de 2014, a Folha cumpriu a transparência que deveria ser do governo e trouxe a público (aqui) as “tenebrosas transações” feitas com o dinheiro do contribuinte.
Rombo volta à baila
Como embora o rombo descoberto pelo próprio governo Rosinha seja gravíssimo e, devidamente documentado, tenha sido denunciado pelo vereador Marcão, os Ministérios Públicos e Justiça locais, nas duas esferas, nada fizeram, assim como as Polícias Civil e Federal, o assunto estava meio morno. Até que foi novamente “esquentado” na sessão legislativa da última terça pelo próprio secretário de Governo de Rosinha (aqui), em sua edição mensal do “Show do Garotinho” na Câmara Municipal, com direito a claque dos DAS que ainda não foram (e nem querem ser) demitidos por falta de dinheiro.
Quem fala o que quer…
Na sessão, Garotinho disse que o rombo no primeiro governo da sua esposa teve como responsáveis o seu próprio irmão, o ex-vereador Nelson Nahim (PSD), prefeito interino entre julho e dezembro de 2010, na primeira das duas cassações de Rosinha, e do ex-secretário de Finanças Francisco Esqueff, considerado homem de confiança do hoje secretário de Governo até aquele ser demitido. Nahim não só cobrou (aqui) provas da acusação, sem as quais levará o caso ao Judiciário, onde seu irmão não goza mais do foro privilegiado que o salvou tantas vezes, como prometeu revelar brevemente à população de Campos o real estado em que a cunhada lhe entregou a Prefeitura.
Um rombo, duas versões
Talvez empolgado com as palmas pagas dos DAS, como não esconde na ilógica expressão de regozijo quando as recebe, Garotinho tenha se esquecido que sua nova versão para o rombo do primeiro governo Rosinha é diferente daquela passada pelo então líder de Rosinha na Câmara, vereador Paulo Hirano (PR). Ora licenciado, quando a Folha revelou a auditoria em novembro do ano passado, Hirano disse no Folha no Ar, ao vivo pela Plena TV e Rádio Continental, que cerca de R$ 100 milhões do rombo auditado de R$ 110 milhões teriam sido uma “herança maldita” dos governos anteriores de Alexandre Mocaiber (PSB) e Arnaldo Vianna (PDT).
E de verdade?
Entre as duas versões diferentes dadas pelo líder do governo e pelo secretário de Governo de Rosinha para as mesmas “tenebrosas transações” com o dinheiro público do município, uma única coisa em comum: a culpa é sempre dos outros. Mas isso o campista até já se acostumou quando se trata dos Garotinho. Em todo caso, já que o chefe do clã disse na sessão de terça que uma auditoria externa foi feita sobre o rombo, como a auditoria interna inclusive recomendou desde 2013, ele agora terá que revelar quem fez e qual o resultado. Caso tenha mentido, como Marcão suspeita, o vereador vai requerer (aqui) na próxima terça que seja finalmente feita. Só que de verdade, como os aplausos dados a quem não precisa pagar para recebê-los.
Pesquisa Ibope sobre o governo Dilma acendeu a luz vermelha no Instituto Lula
Por Ricardo Noblat
O que mais deve preocupar a presidente Dilma Rousseff em meio ao tsunami de más notícias trazidas pela mais recente pesquisa do Ibope (aqui) que ouviu 2.002 pessoas em todo o país entre os últimos dias 21 e 25: a queda na aprovação dela não se dá apenas entre os que votaram em Aécio Neves (PSDB) para presidente da República. Não.
Entre os que dizem ter votado em Dilma no segundo turno da eleição de 2014, a aprovação do seu governo caiu de 80% em dezembro último para 34% agora. Entre os partidários de Aécio caiu de 16% para 3%. Para 69% dos entrevistados, Dilma é culpada pelo esquema de corrupção na Petrobras. Para 60% deveria ser deposta.
A gestão de Dilma é considerada ruim ou péssima por 64% dos brasileiros, índice igual ao obtido pelo então presidente José Sarney em julho de 1989. O percentual dos que não confiam em Dilma saltou de 14% para 74%. O segundo mandato dela está sendo pior do que o primeiro (76%). Apenas 14% acreditam que o resto do mandato será ótimo ou bom.
Nada do que Dilma está fazendo é aprovado pela maioria da população. As políticas de taxa de juros e impostos são reprovadas por 89% e 90%, respectivamente. E o combate à inflação por 84%. As ações na área da saúde? Quase 85% reprovam.
Anteontem, reunido em São Paulo com um grupo de políticos do PT, Lula disse que seu futuro está ligado ao de Dilma para o bem ou para o mal. Se ele estiver certo, a pesquisa Ibope, que só veio confirmar o que a pesquisa do instituto Datafolha antecipara (aqui), acendeu a luz vermelha no Instituto Lula.
A Petrobras poderá ter de adiar, mais uma vez, a publicação do balanço financeiro do ano passado. Marcada para o dia 30 de abril, a divulgação pode atrasar porque os métodos adotados para apurar os resultados ainda estão sob análise da autoridade americana responsável pela vigilância do mercado, a SEC (Securities and Exchange Comission). Os técnicos da SEC receberam o relatório há duas semanas e não se manifestaram oficialmente sobre os procedimentos. Fontes ligadas à Petrobras dizem, porém, que há sinais de que a metodologia será aprovada.
O novo cálculo não levará em conta os prejuízos causados pela corrupção revelada pela Operação Lava Jato. E deverá levar a uma baixa contábil – redução do valor dos ativos da empresa – bem menor do que a conta anterior, feita em janeiro pela consultoria Delloite e pelo banco BNP. Pelos cálculos da Delloite, os ativos da Petrobras estavam inflados em R$ 88,6 bilhões – resultado de vários problemas, do superfaturamento das obras e à queda do preço do petróleo, que provoca desvalorização dos ativos. A crise provocada pela divulgação dos R$ 88,6 bilhões foi apontada como a causa da queda da presidente da Petrobras, Maria Graça Foster.
Desta vez, o método é diferente e o resultado é menor. Segundo uma fonte ligada à estatal, o valor final da baixa contábil ainda não foi definido, mas deve ficar entre R$ 20 bilhões e R$ 40 bilhões. Para chegar a este número, a Petrobras não atualizou o valor de cada refinaria, alvo das investigações da Lava Jato, mas do conjunto delas. “Levamos em conta a sinergia entre as refinarias”, diz a fonte. Segundo esta fonte, é inviável calcular as perdas com a corrupção. A metodologia adotada agora é mesma usada tradicionalmente pela companhia. A origem da baixa contábil mudou: agora está concentrada na reavaliação de projetos que a Petrobrás colocou para ‘hibernar’ ou vender, principalmente as refinarias que não vão sair do papel.
O método foi submetido à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), responsável pela fiscalização do mercado brasileiro, que indicou o que achava necessário conter no balanço. Se a SEC der o sinal verde, a auditoria PricewaterhouseCoopers (PWC), que havia se recusado a assinar o balanço após a Lava Jato, deve referendar o documento. Mas, mesmo se a SEC der o ok nos próximos dias, pode não haver tempo hábil para entregar o balanço até 30 de abril. A Petrobrás precisa de 10 dias para convocar uma assembleia e mais 30 para que os acionistas se manifestem. A estatal tem pressa porque os detentores de títulos da dívida podem pedir o pagamento antecipado do débito caso o prazo não seja cumprido. A empresa negocia mais prazo com os credores.
Mefistófeles —O marqueteiro João Santana orienta a presidente Dilma em debate da campanha presidencial de 2014. Construir a imagem se tornou a principal preocupação dos governantes (foto de Eduardo Knapp – Folhapress)
No Brasil, parte do papel antes exercido pelas empreiteiras na promiscuidade entre poder político e o capital privado foi transferida para o ramo das empresas que agenciam a comunicação a serviço dos governantes. O tempo em que os governos se gabavam de transformar as cidades num “canteiro de obras” é passado. Hoje, o velho estilo saiu do centro das atenções. Agora é a vez do político comunicador. O sujeito tem de ser bom de televisão. No núcleo estratégico do poder, as receitas para comunicar os feitos valem muito mais do que aquelas para realizá-los. Rigorosamente, até mesmo a ideia de comunicar os feitos perdeu atualidade. Hoje, comunicar se tornou o feito em si. Não é mais a comunicação que se presta a tornar conhecidas as obras realizadas. São as obras que, se necessárias ao projeto de comunicação, ilustram e dão materialidade à imagem que a autoridade pretende forjar para si mesma. Construir a imagem é o destino de todo o esforço dos governantes – mesmo que, para isso, alguns hospitais, viadutos e sistemas de saneamento sejam necessários. As obras se converteram em um acessório do “bem principal”, que é a comunicação.
Por isso, as empreiteiras se deslocam, progressivamente, do centro para a periferia da estratégia política. É verdade que elas ainda representam a fatia mais polpuda das doaçõespara as campanhas eleitorais, mas se afastam gradativamente do centro de inteligência das estratégias políticas. Esse centro passou a ser ocupado por agências de marketing eleitoral ou de comunicação política. Hoje, a estratégia de comunicação dos candidatos, dos partidos e dos governantes participa da concepção e da gerência das relações promíscuas que definem os vínculos entre os poderes econômico e político. O que conta, agora, mais que a construção de pontes e viadutos, mais que a construção de usinas hidrelétricas, é a construção da imagem. E essa imagem se faz pelos métodos da publicidade comercial.
Nesse novo contexto, a comunicação de governo funciona cada vez mais como prolongamento dos filmes partidários da campanha eleitoral. Não apenas a linguagem, mas também as equipes responsáveis pelas peças publicitárias dos governos e pelos filmes dohorário eleitoral costumam ser as mesmas. Esse é um mercado que se autonomizou para dar nascimento a uma indústria com identidade própria. O negócio frutificou, ganhou regras próprias e um nome relativamente pomposo: o bilionário campo do marketing político. Os dutos de abastecimento dessa nova indústria são os contratos com governos e partidos políticos, às vezes simultâneos.
É por aí que os governantes, os partidos e suas agências aprenderam a fazer e a financiar a campanha eleitoral fora do período eleitoral. A máquina, azeitada e célere, funciona muito bem. Pergunta: será que alguém acredita em filmetes de otimismo governista do tipo em que a metrópole (pode ser São Paulo, Rio de Janeiro ou outra grande cidade qualquer) aparece como uma musa deslumbrante, com ruas imaculadas e calçadas que são passarelas, em que se pode caminhar sem medo, pois a iluminação é digna de um estúdio cinematográfico, os policiais sorriem como garçons, e onde os postos de saúde são tão aprazíveis que dá até vontade de ficar doente? Resposta: não, as pessoas não acreditam. O telespectador, pobre dele, assiste ao filme e em seguida olha pela janela em busca de uma migalha que seja da urbe publicitária, mas nada do que é mostrado na tela se parece com a vida real. Mas, dada a repetição intensiva, a fórmula traz dividendos eleitorais. Não pelo que tem de crível, mas pelo que tem de eficiência em fixar na cabeça do público o nome do político, do partido ou a marca da gestão. Embora não consiga se passar por verdade, a propaganda de governo tem a inestimável capacidade de gerar familiaridade entre o telespectador e a turma instalada no poder. Torna o político um pouco mais conhecido. Faz com que as pessoas se lembrem dele – e essa lembrança, quando a campanha eleitoral começar oficialmente, é uma vantagem que vale mais que ouro.
Os estrategistas de imagem dos governos sabem que, de alguma forma, a técnica – regada a bilhões – vai acabar surtindo efeito. Sabem que, se baterem na tecla da propaganda caríssima e ilusionista, o cidadão vai acabar se lembrando daquela marca, daquele rosto, daquele governante, como alguém que se lembra de uma celebridade ou de um ator muito famoso. O que esses estrategistas buscam, no fim das contas, é ficar na liderança dos nomes mais lembrados pelo eleitor. E operam na mais absoluta tranquilidade. Não há lei que possa impedi-los de aumentar a gastança e de se esmerar nesse esporte que é a única unanimidade entre as diversas agremiações que se batem na política brasileira: a autopromoção consentida, paga pelo Erário. Se os programas sociais de saúde, moradia e educação crescessem na mesma proporção que a promoção pessoal de governantes, a vida real seria a melhor propaganda do mundo. Mas ela não é. A publicidade dos governos aumenta com base no termômetro da infelicidade dos governados. Ela vende o céu porque a vida é um inferno. O instituto tácito da publicidade oficial ilimitada também constitui um privilégio acessível apenas aos que já estão no poder. Graças a ela, os governantes têm muito mais exposição nos meios de comunicação do que qualquer oposicionista. Têm muito mais chance de promover a si mesmos sem gastar um tostão do próprio bolso. E não apenas isso. O instituto da publicidade oficial ilimitada (leia-se: a propaganda governista sem pejo nem pudor) trava um combate aberto ao princípio democrático da alternância de poder. Ao tentar convencer o eleitor de que o governo em curso (qualquer que seja) é o melhor do mundo e merece ser reeleito, desequilibra a disputa, vicia o jogo.
Deu-se, no interior do Estado brasileiro, algo que ainda não foi suficientemente compreendido: a comunicação oficial se deixou açambarcar pelo método da publicidade mais ligeira e menos respeitosa que existe. Esse é um dos motivos pelos quais as distinções entre a propaganda eleitoral e a comunicação oficial praticamente caíram por terra, fazendo com que a voz oficial dos governos seja o prolongamento da voz publicitária das campanhas eleitorais
Trecho editado do livro “O Estado de Narciso”, lançado pela Companhia das Letras