Crítica de cinema — Prosperidade do Cinema Infanto-juvenil e a lei 13.006/14
A questão da distribuição sempre foi o calcanhar de Aquiles do cinema brasileiro. Muitos filmes são realizados, e de ótima qualidade, mas não chegam às salas de exibição ou permanecem muito pouco tempo nas telas grandes. No caso do filme infanto-juvenil, o problema se agrava porque também não há produção. Qual a causa? A competição com o cinema estrangeiro? A falta de recursos? Este é um tema que já foi discutido em vários encontros, congressos e seminários. Mas a situação continua a mesma.
Tal situação nos deixa à mercê das produções internacionais, sem condições de competir com o produto estrangeiro, submetendo nossas crianças e jovens à cultura importada e impedindo-lhes de conhecer os valores e a cultura brasileira. São muitos os países que reconhecem a importância dos filmes infanto-juvenis na formação de novas plateias. Na Europa, a Dinamarca destina 25% da verba governamental para a produção de filmes para crianças.
No Brasil, menos de 3% da produção cinematográfica é destinada ao público infanto-juvenil. É muito pouco para começarmos a implementação da lei nº 13.006/2014, que inclui 8º parágrafo ao artigo 26 da Lei de Diretrizes Básicas da Educação, obrigando a utilização, no mínimo 2h/mês, de produção audiovisual nacional como ferramenta pedagógica nas escolas de educação básica, públicas e privadas. Um longo caminho a ser percorrido.
Para que o cinema de fato toque o público infantil e, consequentemente, as pessoas de seu convívio, é necessário dar continuidade a ações efetivas no ambiente escolar e social. O cinema infantil propõe uma experiência coletiva que auxilia as crianças na construção de sua identidade e na tomada de consciência do seu pertencimento a uma realidade multifacetada. Trata-se de enriquecer e permitir outros olhares, mais sensíveis e perceptíveis, que conduzam a encantos e transformação.
Uma boa e leve brisa sopra do sul, vindo da excelente 14ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, que encerrou ontem (14/06). Sob a coordenação de Luíza Lins, o evento reuniu produtores, realizadores e diversos representantes de órgãos como Ministério da Educação, Ministério da Cultura e Ancine, para debates e oficinas sobre financiamento, produção e difusão das produções e a implementação da lei 13.006/14. Além de exibir o melhor da produção nacional para o público infanto-juvenil com lições como ter coragem, conquistar autonomia, ter paciência e muitas outras. Entre os filmes, destaco o documentário longa-metragem “Brincante”, de Walter Carvalho, com o maravilhoso Antônio Nóbrega; os curtas de ficção “A Visita”, de Leandro Corinto, e “Coração Azul” de Wellington Sari; e os curtas de animação “Abraço de Urso” de Almir Correa, “Ana e a Borboleta” e “3 Temas p/ 60 Janelas” de Jakson Abacatu.
Que a exibição de filmes nas escolas contribui culturalmente para a formação social da criança e do adolescente, não temos dúvidas. Mas é imprescindível ampliar o repertório de professores. A maioria não conhece as produções nacionais por não ter o hábito de frequentar e/ou consumir cinema.
A demanda é excelente e muito bem vinda: Cineclubismo & educação.
Publicado hoje na Folha Dois
Artigo do domingo — O vendedor de ilusões

Por Wilson Diniz e Ranulfo Vidigal
Recorremos ao filósofo plebeu Antístenes (440 – 365 a.C.) discípulo de Sócrates para tentar explicar o caso patológico do ator político e secretário de Governo de Campos, que implantou na localidade o modelo de Hugo Chávez e de Nicólas Maduro, falindo a cidade que possui um dos 20 maiores orçamentos entre os municípios brasileiros.
Para o filósofo, a glória e a fama são ilusões criadas pela sociedade que destroem a liberdade das pessoas, fazendo com que elas se tornem escravas dessas ilusões. Nosso personagem vende ilusões e fantasias políticas, tornando refém do seu modelo de governo uma massa do tecido social de pobres, sem escolaridade, com seus programas populistas de transferência de renda, sem priorizar a geração de uma única vaga de emprego na indústria campista.
Há 30 anos, através do Muda Campos prometeu romper com a oligarquia dos donos da cana de açúcar. Passados anos, entretanto, implantou uma oligarquia familiar mais severa. Brinca com o poder em rotatividade de governança, passando o comando da cidade para sua mulher e para amigos “confiáveis”.
As finanças do município desde 2009 fotografam o fracasso de seu modelo populista de Hugo Chávez. Até 2014, as receitas superaram cifras astronômicas. Mais de R$ 17 bilhões, sendo 84% de transferências governamentais com os repasses dos royalties ultrapassando mais de R$ 1 bilhão por ano.
Hoje, passado quatro meses do ano, as contas da Prefeitura mostram o quadro caótico das finanças publicada no Diário Oficial. Com todas as receitas de seis anos sem crise do preço do barril do petróleo, o município está endividado em mais de R$ 560 milhões e atrasa, sistematicamente, seus compromissos com fornecedores, prestadores de serviços e empreiteiras, conforme constatado pela Folha da Manhã.
Mantendo o orçamento municipal dependente de uma commodity instável e sujeita ao jogo geopolítico internacional, o secretário “salvador da pátria” assusta-se com a queda real de sua receita orçamentária em 30%, nesse primeiro quadrimestre de 2015. Isso forçou um redirecionamento do gasto, com queda nos investimentos públicos da ordem de 60%, bem como de quase 40% no custeio da pesada máquina eleitoral.
Em 2014, o atual secretário da Prefeitura quebrou a estrutura financeira do município. Pegou empréstimo de R$ 250 milhões no Banco do Brasil aceitando pagar cerca de R$ 50 milhões em encargos financeiros, na finalidade de cobrir os descasos no manejo das contas para financiar sua ambição desmedida de chegar ao Palácio Guanabara.
Para completar o quadro de falência, tenta impor às futuras gerações uma pesada herança. Pretende contrair uma nova antecipação de receitas, depois da sessão polêmica de aprovação na Câmara dos Vereadores (aqui, aqui e aqui). Supondo que o montante da operação atinja R$ 1 bilhão, para pagar volumosas dívidas acumuladas desde 2014, uma simples pesquisa junto à rede bancária revela um custo dessa operação de aproximadamente 30% ao ano (R$ 300 milhões) — valor que forçará o próximo dirigente municipal a ficar sem qualquer possibilidade de manejo orçamentário, já em 2017, a não ser por um aumento brutal de impostos municipais como IPTU e ISS.
Nesse contexto preocupante, um despertar coletivo tende a fortalecer o processo de mudança política na capital do petróleo. Aliás, esse quadro já foi retratado pela Folha da Manhã com a publicação de pesquisas de opinião pública (aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui), dos institutos Pappel e Pro4, realizadas em abril no município.
A solução passa por superar o modelo venezuelano vigente. Campos paga preço alto em ter no comando da cidade um vendedor de ilusões, que no rádio, com sua retórica sofista recheada de clichês, ludibria a população mais carente da cidade distribuindo benesses à custa do cidadão comum, que paga uma salgada conta nessa crise que se arrasta e assusta a todos.
Publicado hoje na Folha da Manhã
Crítica de cinema — Reverência ao passado
JURASSIC WORLD: O MUNDO DOS DINOSSAUROS — Quando venceu uma intensa disputa em Hollywood para conseguir comprar os direitos de filmagem sobre o romance “O Parque dos Dinossauros”, do escritor e produtor de TV e cinema Michael Crichton (1942/2008), antes mesmo da obra chegar às livrarias em 1990, Steven Spielberg sabia o que estava fazendo. Se os efeitos especiais da Industrial Light & Magic já se destacavam pela criatividade desde 1977, na gênese da franquia “Guerra nas estrelas”, de George Lucas, a coisa foi elevada ao patamar do fantástico com o advento da computação gráfica. Foi ensejado por essa revolucionária tecnologia, no rastro da digitalização do mundo a partir dos anos 1980, que os dinossauros presentes no cinema desde 1914, com o inovador curta mudo de animação “Gertie the dinosaur”, dirigido pelo cartunista estadunidense Winsor McCay (1860/1934) — espécie de precursor de Walt Disney (1901/66) —, finalmente puderam ser transportados da pré-história à tela com a mesma aparência de realidade (ou mais) dos atores humanos.
A cara dessa revolução, “com a boca escancarada, cheia de dentes”, como cantou Raul Seixas (1945/89), foi “Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros”, que Spielberg dirigiu e lançou em 1993 para abocanhar a (até então) maior bilheteria da história do cinema, superando outro sucesso do mesmo diretor: “ET, o extraterrestre” (1982). Vencedor de três estatuetas do Oscar em 1994 — som, edição de som e, lógico, efeitos especiais —, “Jurassic Park” foi também um consistente sucesso de crítica. Uma das suas poucas ressalvas foi ao desenvolvimento das tramas humanas, aquém dos dinossauros que sempre fascinaram e apavoraram os humanos, numa tensão muito próxima à de quem, anos antes, havia sido apresentado ao cinema de Spielberg por “Tubarão” (1975).
De fato, desde “Tubarão”, apesar das excelentes atuações do trio Roy Scheider (1932/2008), Robert Schaw (1927/78) e Richard Dreyfuss, ninguém tem dúvida de que o protagonista não é humano, mas aquele que os devora. Assim como apesar do bom elenco de “Jurassic Park”, com Sam Neill, Laura Dern, Richard Attenborough (1923/2014), Jeff Goldblum e Samuel L. Jackson, a única incerteza que permanece até o final do filme é se o personagem principal se trata do titânico Tiranossauro rex ou dos astutos Velociraptores, questão definida a rugidos e dentadas, sem direito a recurso.
O mesmo tipo de protagonismo ocorreu nos dois filmes seguintes da franquia. Em “O mundo perdido: Jurassic Park”, de 1997, novamente dirigido por Spielberg e baseado em livro de Michael Crichton, num outro sucesso de público, embora nem tanto de crítica, não resta dúvida de que o protagonista é o Tiranossauro, que chega a tirar onda de King Kong em Nova York. Já em “Jurassic Park III”, de 2001, dirigido por Joe Johnston, com críticas desabonadoras e bilheteria bem abaixo do esperado, quem manda no pedaço é o Espinossauro, que na vida real viveu há mais de 65 milhões de anos onde hoje ficam o Norte da África e o nosso estado do Ceará.
Mais do que perder o toque de Midas de Spielberg na direção, que nunca deixou de estar presente na produção da série, o grande dilema desta parece ser exatamente o mesmo do Parque que ressurge reaberto já há 10 anos, em “Jurassic World: O mundo dos dinossauros”, lançamento ansiosamente aguardado e ora em cartaz nos cinemas de Campos: após o estrondoso impacto inicial, como continuar atraindo a atenção do público? No Parque, a resposta parece ser o Indominus rex, um híbrido geneticamente modificado, com base no DNA do Tiranossauro, mas também no de outras espécies extintas, assim como modernas, sobre as quais se faz segredo.
Já na franquia, a intenção é claramente reverenciar o filme inicial, lançado quando Colin Trevorrow, diretor do atual, ainda era um adolescente de 17 anos, embasbacado como tantos outros pelo mundo, com as gigantescas criaturas dos períodos Jurássico e Cretáceo revividas na tela por Spielberg. Por isso o retorno à fictícia ilha Nublar, palco de “Jurassic Park” e vizinha à igualmente ficcional ilha Sorna, onde se desenrolaram “O mundo perdido” e “Jurassic Park III”.
As crianças a serem salvas, elemento presente em todos os filmes anteriores, estão novamente lá, na pele dos irmãos Zach (Nick Robinson) e Gray Mitchell (o garoto Ty Simpkins, que tinha roubado a cena em “Homem de Ferro III”, de Shane Black), sobrinhos da típica executiva fria Claire Dearing (Bryce Dallas Howard, filha do bom diretor Ron Howard), chefe operacional do Parque. Ela compõe o casal romântico em conflito, outra marca registrada da franquia, com Owen Grady (Chris Pratt, na atuação mais convincente do filme), um ex-militar dedicado ao estudo dos Velociraptores, chegando a se relacionar com eles, assumindo a condição de macho alfa da espécie que, como o homem, pensa e age em bando.
Também como sempre, as medidas de segurança humanas não conseguem conter milhões de anos de instinto predatório acumulado, abrindo a temporada de caça ao público do sofisticado zoológico pré-histórico. Depois que mercenários armados até os dentes mais uma vez não dão nem para a saída diante dos assassinos profissionais da evolução, armados só de dentes, a solução é emblematicamente buscada no primeiro filme, numa associação improvável entre seus dois pro(an)tagonistas. Muito embora, na hora definir a parada, não caia mal a ajudinha do novo “colega” da turma — para quem o outrora temido tubarão de Spielberg é manjuba.
Como as recriações genéticas do filme não são os dinossauros do passado, nem o seriam na realidade, o jovem diretor Trevorrow nunca será Spielberg. Mas, em sua reverência em 3D ao passado, até que deu para o gasto.
Publicado hoje na Folha Dois
Confira o trailer do filme:
Poema do domingo — Cupido bêbado não tem dono
Comunicador há vários anos, os caminhos do jornalista campista Nino Bellieny se cruzaram como os meus desde o primeiro show da banda norueguesa A-ha no Brasil, na praça da Apoteose, num hoje distante 1989. Sempre soube que ele escrevia, assim como penso ser a recíproca verdadeira. Tanto que, quando foi lançar “Nada é eterno mas tudo é para sempre”, seu primeiro livro de poemas, em 1998, Nino me convidou para fazer o prefácio, no qual lembrei do nosso primeiro contato num show de rock na passarela do samba. Ele depois editaria outro livro de poesia, “Pedra quebrada”, em 2000.
Apesar da perenização da obra em duas publicações, Nino hoje diz não se considerar mais um poeta, mas “um resumidor de ideias, buscando frases cada vez menores”. Do blog que mantém para divulgação dessas “ideias”, batizado de “Nuvens estacionadas”, este “Opiniões” escolheu ao domingo um poema curto e posterior aos dois livros, fruto do lirismo e da ironia que se aliam para ditar o tom de boa parte da obra do autor.
“Tonteria” é um substantivo bastante empregado no castelhano como sinônimo de “bobeira”, na língua aparentada de Luís de Camões. E aconselha-se mesmo a não dar nenhuma. Afinal, como advertido logo de cara pelo poeta, “cupido bêbado não tem dono”…
TONTERIA
Cupido bêbado não tem dono
Nem cuida da mira
Vai flechando sem piedade
Enquanto ri e delira.
Crítica de cinema — Broches e novas dimensões: o futuro em nossas mãos
TOMORROWLAND — Um mundo perfeito: sem guerras, distrações, políticos que possam atrasar a evolução de um espaço. Sem problemas relacionados ao meio ambiente e, também, a questões sociais. Um local em que as pessoas possam viver plenamente e agir em prol da Terra, contribuindo para o seu desenvolvimento. Esta é a realidade desejada no filme “Tomorrowland – Um lugar onde nada é impossível”, do diretor norte-americano Brad Bird (“Os incríveis, 2004; “Ratatouille”, 2007; “Missão impossível – Protocolo fantasma”, 2011). Em comum com as atuais circunstâncias do mundo real, aspectos políticos e conflitos humanos permeiam o filme, destinado ao público infantil, mas recomendado, também, aos adultos.
Em Tomorrowland, uma terra na qual as pessoas possuem conhecimentos acerca do passado, presente e futuro. Casey Newton (Britt Robertson), adolescente cujo pai é engenheiro da Nasa, tem interesse por ciências. Após atacar patrimônios do governo, a jovem é presa. Na saída, entre seus objetos pessoais, ela encontra um PIN — uma espécie de broche — que não lhe pertence. A partir desse PIN, Casey começa a ter visões de outra dimensão, até que a bateria do pequeno aparelho eletrônico chega ao fim.
Em sua busca para consertá-lo, a menina é vítima de armadilhas até conseguir encontrar novamente o local que deseja. Para isso, ela necessita da ajuda de Athena (Raffey Cassidy) e de Frank Walker (George Clooney), que esteve em Tomorrowland durante anos da sua infância, mas foi expulso da dimensão e interpreta a realidade de forma negativa, em oposição ao comportamento positivo de Casey.
Em cena, a união de atores consagrados e novatos chama a atenção dos espectadores. George Clooney e Hugh Laurie, que interpreta o governador vilão David Nix, interagem em nível semelhante com Britt Robertson e Raffey Cassidy, sendo esta, surpreendentemente, o maior destaque da produção norte-americana. A inglesa, de 12 anos, com expressões firmes e entrega ao texto e às cenas, toma plenamente o cenário com interpretação de qualidade, levando o espectador a mergulhar nas partes em que sua personagem aparece. Nas sequências em que atua com o veterano Clooney, Cassidy se destaca pelo brilhante trabalho de atriz e por se tornar tão grande quanto o veterano ator.
Os cenários que compõem “Tomorrowland — um lugar onde nada é impossível” remetem a filmes futuristas, tanto estrangeiros, como “Blade Runner — O caçador de andróides” (1982, dirigido por Ridley Scott) e “Nosso Lar” (2010, de Wagner de Assis — o longa-metragem, apesar do viés espírita, apresenta uma realidade com construções arquitetônicas e aspectos de futuro e tecnologias além das existentes no mundo atual). O dinamismo cênico torna mais agradável e atraente o roteiro, que, se criado a partir de artefatos mais simples, teria mais aspectos repetitivos e negativos do que positivos.
Embora a aventura seja voltada principalmente para o público infantojuvenil, o filme traz, breve e suavemente, questões políticas, sociais e ambientais ao debate — apesar de rapidamente citados em determinados trechos da história. Para livrar Tomorrowland de abusos humanos, o governador David Nix, papel interpretado por Hugh Laurie, se mantém a favor da destruição da Terra, mandando para ela homens que possam fazer com que a dimensão do futuro não seja descoberta. Ele crê que a condenação do planeta esteja ligada ao descaso de seus habitantes que, cientes de todo o mal que causam a si mesmos e à natureza, prosseguem com afã de dar continuidade a seus sonhos e objetivos.
O vilão afirma que “as pessoas são movidas pela selvageria”. Problemas como epidemias, obesidade, fome, catástrofes são apresentados, em “Tomorrowland”, como consequências do mau comportamento dos humanos, possibilitando que o público — crianças, jovens e adultos — reflita sobre os rumos que tem seguido o Planeta Azul e possa evitar ações nocivas que, diariamente, colaboram para os males terrestres.
Publicado hoje na Folha Dois
Confira o trailer do filme:
Crítica de cinema: Tomorrowland — Um lugar onde nada é impossível
TOMORROWLAND — Ao assistir “Tomorrowland”, lembrei de um filme B que ironizava as aventuras do espião 007. Um homem do bem ou do mal, não me lembro mais, é preso por outros e colocado num helicóptero que o conduz para um lugar distante no mar. Lá, ele é atirado da aeronave, mergulha e é retido por outros homens que o atiram numa jaula submarina em que se encontra separado de um tubarão por uma grade divisória. Suspensa a grade, o tubarão o devora. A intenção era satirizar as mortes rebuscadas dos filmes de espiões, que poderiam ser resolvidas com um mero tiro ou com um golpe forte. Mas, ao sofisticá-las, parece que a trama se torna mais atraente.
“Tomorrowland” (Estados Unidos, 2015), filme saído dos estúdios da Disney, até começa de maneira promissora com uma discussão sobre utopia e distopia entre Frank Walker (George Clooney) e Casey Newton (Britt Robertson). Toda sociedade, na Modernidade, cria concepções de futuro. Nos séculos XVI e XVII, na Europa, foram numerosas as utopias, a começar pela de Thomas Morus. Nelas, há uma esperança nos seres humanos, na ciência e nas tecnologias, que podem construir um mundo melhor do que aquele em o autor da utopia vive.Já nos séculos XX e XXI, o avanço das tecnologias e a decadência moral estimularam autores como Aldous Huxley e George Orwell a vislumbrarem distopias, ou seja, futuros sombrios. Atualmente as distopias pululam por toda parte, mas as utopias ainda persistem. “Tomorrowland” começa com uma discussão entre um homem de meia idade pessimista e uma jovem otimista. Logo em seguida, o filme parece se perder, com idas ao passado e ao futuro.
Brad Bird, seu diretor, tem, a seu crédito, três sucessos de bilheteria: “Os incríveis”, “Ratatouille” e “Missão impossível: protocolo fantasma”. Mas, em “Tomorrowland”, ele se perdeu, não apenas como diretor. Com Damon Lindelof, ele é criador da ideia original, colaborador no roteiro e roteirista. Qual a diferença entre criador da ideia original, colaborador do roteiro e roteirista? Por que não se é roteirista apenas, que já embute a ideia original? Seja qual for a diferença, a verdade é que o roteiro é confuso para um adulto estudioso de utopias e distopias quanto mais para um jovem, público a que o filme se dirige.
Perguntei a meu neto, de 11 anos, o que ele compreendeu. Resposta: é um filme em que as pessoas buscam um futuro melhor do que o presente. Até aí, tudo bem. As locações são deslumbrantes, os efeitos especiais são caríssimos, mas as ideias parecem confusas. Parece que tudo gira em torno de um boton, espécie de passaporte para o passado, para o presente e para o futuro. Com ele, visita-se a terra do amanhã ou um lugar onde nada é impossível, dois subtítulos do filme. Com ele, encontra-se tanto com Thomas Edison, Nikola Tesla, Júlio Verne e Gustave Eiffel quanto com robôs exterminadores. A Torre Eiffel é tanto uma atração turística quanto uma base se lançamento de naves espaciais. Seria ótimo se um simples boton conduzisse governantes, empresários e cientistas para um mundo futuro, além da modernidade, da globalização e da economia de mercado. Parodiando o poeta brasileiro Paulo Henriques Brito, não se pode deixar as ideias meio soltas. É preciso domesticá-las.
Publicado hoje da Folha Dois
Confira o trailer do filme:
Crítica de cinema — Torcendo por avanços nas comédias cinematográficas
QUALQUER GATO VIRA-LATA 2 — Quando se transforma em sucesso de bilheteria, um filme aclamado por público raramente fica sem uma continuação. Em alguns casos, as sequências não passam de caça-níqueis que acabam sendo ignoradas.
O cinema brasileiro, pelo menos nas produções de comédias românticas, vem enfrentando um momento de crise criativa, daí é muito mais fácil e seguro apostar em investimentos certeiros na busca pelo grande público. Só assim para explicar a enorme quantidade de sequências que foram lançadas nos últimos tempos e que não agradaram.
Em 2011 a produtora Buena Vista lançou “Qualquer gato vira-lata” baseado na peça “Qualquer gato vira-lata tem uma vida sexual mais sadia do que a nossa”, de Juca de Oliveira, a comédia romântica foi um inesperado sucesso de bilheteria, levando mais de um milhão de espectadores aos cinemas sem nenhum nome de grife do gênero — o mais próximo era o coadjuvante Álamo Facó, que participou do seriado “A grande família” (2009-2010) e do besteirol “Totalmente inocentes” (2012).
Sem nenhuma surpresa nos chega em 2015 “Qualquer Gato Vira-Lata 2” (107min) com a direção de Roberto Santucci, realizador de todas as comédias campeãs de bilheteria no atual cenário nacional. São dele, por exemplo, os recentes “O candidato honesto” (2014) e “Loucas para casar” (2015). O roteiro é de Paulo Cursino, que assinado o de quase todas as outras comédias realizadas no país nos últimos anos, como “De pernas para o ar” (2010) e “Odeio o dia dos namorados” (2013). “Qualquer Gato Vira-Lata” contava a história de uma bela moça (Cléo Pires) que, apesar de estar apaixonada por um rapaz todo careta e certinho (Malvino Salvador), ficava balançada pelo jeito malandro e desapegado de um ex-namorado (Dudu Azevedo). Pois sua continuação recente narra exatamente a mesma série de eventos. A única diferença é o cenário, deixa-se de lado o Rio de Janeiro original e muda-se para uma ilha paradisíaca do Caribe.
É a mesma fórmula empregada, por exemplo, em “De pernas para o ar 2” (2012), do mesmo diretor e roteirista. Dessa vez, o casal protagonista está meio de férias e meio a trabalho para o lançamento do livro dele, mas quando ela o pede em casamento, ao invés dele aceitar de imediato, fica em dúvida e “pede um tempo para pensar”. A crise começa, e o antigo concorrente ressurge, colocando tudo em suspense mais uma vez.
Cléo Pires continua tão linda quanto seus colegas masculinos (embora desajeitados), e a verdade é que ela não convence muito como par de nenhum dos dois. Malvino exagera nas caras e bocas, evidenciando uma falta de direção mais atuante, enquanto que Azevedo é o que mais sofre com a inconsistência do seu personagem — a sub trama com a filha postiça chega a ser risível, e é constrangedor perceber que a menina Mel Maia está muito melhor preparada do que ele nestas cenas.
As novas aquisições da franquia são bem vindas. Mel Maia (“Avenida Brasil”) interpreta Julia, uma garota subornada por Marcelo para se passar por sua filha e amolecer o coração da amada. No viés dramático do enredo, Fábio Jr. (“Tal pai, tal filho”) faz uma participação especial como o pai de Tati. A cena claramente mistura emoções da vida real com a história ficcional e cria um momento tocante.
No final das contas, “Qualquer Gato Vira Lata 2” só pode ser considerado um saldo positivo na medida em que há melhorias evidentes na qualidade da produção. Os romances/comédias cinematográficos estão longe de acabar. Então, é melhor torcer pelos avanços do gênero.
Publicado hoje na Folha Dois
Confira o trailer do filme:



















