Clássico de Scorsese e De Niro nesta quarta no Cineclube Goitacá

 

(Arte: Gustavo Alejandro Oviedo)

 

 

Na entrevista que será publicada amanhã (26) na capa da Folha Dois, sobre a sessão do Cineclube Goitacá desta quarta, às 19h30, na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento das ruas Conselheiro Otaviano e 13 de Maio, o repórter Jhonattan Reis fez a primeira pergunta: “Por que você escolheu apresentar ‘Taxi Driver’?” Ao que respondi de pronto: “A pergunta deveria ser: como é que ainda não exibimos ‘Taxi Driver’?”

Difícil explicar a um jovem de hoje, como o repórter, dado à luz na era digital da informação em tempo real, o que foi ter nascido poucas décadas antes. Em maio de 1982, um mês antes da Seleção Brasileira de Zico, Falcão, Sócrates e cia. encantar o mundo com seu futebol de sonhos, mas perder a Copa, a crueza do mundo real já dera as caras num vazamento de resíduos tóxicos da Paraibuna Metais, em Minas Gerais, no rio Paraíba do Sul.

Interrompida a captação d’água no rio, todas as escolas de Campos fecharam as portas por duas semanas. Como aquelas crianças evadidas das grandes cidades inglesas para evitar os bombardeios alemães na II Guerra Mundial (1939/45), eu e meu irmão fomos para casa de parentes fora da planície. Não lembro onde Christiano ficou, mas eu, refugiado de 9 anos, fui acolhido na casa do meu tio Luiz Edmundo Barbosa, irmão caçula do meu pai, que residia em Itaipu, Niterói.

Se era maio, o Natal veio com alguns meses de antecedência, quando descobri que não só teria um quarto só para mim, como tio Luiz ainda fez a gentileza de me disponibilizar nele uma TV particular. Para quem dividia o quarto com o irmão, num apartamento de uma única TV coletiva, na sala, a novidade se tornou ainda melhor pelas férias forçadas. Sem aulas de manhã, não tinha que acordar cedo, podendo varar as madrugadas assistindo às sessões do Corujão, na quais a censura da Ditadura Militar (1964/85) ainda vigente liberava os filmes com cenas de violência e conteúdo erótico.

De Niro em “Taxi Driver” na charge de Sebastian Kruger

Foi então que assisti pela primeira vez a “Taxi Driver”. O filme era de 1976, mas naquela época as novidades do mundo demoravam bem mais para chegar ao Brasil. E nunca vou esquecer do impacto que foi travar contato pela primeira vez com a história do veterano da Guerra do Vietnã (1955/1975), conservador e paranóico Travis Bickle. Motorista de táxi na violenta Nova York dos anos 1970, ele se revolta com a “escória” que observa pelas janelas do carro entre uma corrida e outra, numa composição antológica de Robert De Niro, capaz de se igualar a qualquer outra na história do cinema.

O “You talking to me? You talking to me?” (“Você está falando comigo?”) repetido por Bickle no seu pequeno apartamento, ecoado diante ao menino exilado num quarto da casa de seu tio, jamais saiu da minha cabeça. E foi a partir dali que, ainda aos 9 anos, ela se abriu à possibilidade do cinema ser muito mais que mero entretenimento. Depois daquela obra prima de Martin Scorsese, a quem passaria a considerar um dos grandes diretores do cinema falado, certamente o maior ainda em atividade, eu nunca mais veria um filme da mesma maneira.

A história do motorista de táxi encarnada visceralmente por De Niro é sobre solidão, mesmo numa megalópole como Nova York. Como só, distante da sua cidade, pais, irmão, amigos e colegas de escola, estava a criança que a assistiu pela primeira vez. Além da identificação inevitável, pude constatar com o tempo que “Taxi Driver”, como qualquer outra obra da filmografia do ex-seminarista católico Scorsese, trata de apogeu, queda e redenção.

Habilitação de De Niro como motorista de táxi em Nova York, parte do laboratório para sua interpretação antológica

O apogeu é apenas roçado por Bickle na tentativa de conquistar Betsy, assessora do senador Palantine (Leonard Harris) em campanha à presidência dos EUA. Ela é interpretada por Cybill Shepperd, no auge da beleza, que ficaria mais conhecida no Brasil dos anos 1980 pela popular série de TV “A Gata e o Rato”, responsável pelo lançamento de Bruce Willis ao estrelato. Mas, desastrado como conquistador, Bickle leva Betsy, no primeiro encontro, para assistir a um filme pornô, do qual ela sai absolutamente constrangida.

Quedado por sua incapacidade psicológica de levar uma vida normal, ele parte para atitudes mais extremas, mas sem perder Betsy como referência. Após adquirir um arsenal, planeja matar o senador para qual ela trabalha. Desastrado também como terrorista, a nova falha conduz o atormentado motorista de táxi, Hamlet sem brilho, à busca de redenção da única maneira que lhe restou: tentando resgatar uma adolescente da prostituição, a Iris vivida por uma Jodie Foster de apenas 12 anos e até então mais conhecida pelos filmes da Disney. Como alvo da sua ira do mundo, Bickle troca o senador Palantine pelo cafetão Sport, encarnado por Harvey Keitel, figurinha carimbada dos primeiros filmes de Scorsese.

Apesar de levar a Palma de Ouro no Festival de Cannes, “Taxi Driver” não ganhou nenhum Oscar nas quatro categorias em que concorreu: filme, ator (De Niro), atriz coadjuvante (Jodie Foster) e trilha sonora, finalizada por Bernard Herrmann poucas horas antes de morrer. A despeito da tremenda injustiça de Hollywood com aquela obra que a revolucionou, é considerado pela crítica do mundo como um dos grandes filmes já feitos.

Se você, leitor, já assistiu ao filme, revê-lo e poder debatê-lo é sempre uma grande oportunidade. E se ainda não viu, não deixe de conferir essa obra necessária, sabendo que tenho uma inveja danada de você, como do menino que fui um dia.

 

Antes da sessão, assista ao trailer:

 

https://www.youtube.com/watch?v=ikq-PlAuaLA

 

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