Carol Poesia — Pensamentos-pílula ou doses diárias

 

(Foto: Amanda Erthal)

 

 

 

27 de janeiro de 2013, às 19h26min

Quando eu era adolescente, o meu nariz me incomodava muito, ele era grande e ficava vermelho de tanta alergia. Depois o nariz parou de me incomodar e eu comecei a detestar meus pés, eles eram horríveis, grandes demais, magros, compridos, desproporcionais. Na faculdade, nem meu nariz nem meu pé me incomodavam mais, eu queria mesmo era ter seios fartos, os meus eram pequenos e separados. Hoje, a alergia passou e meu nariz tá legal… Até gosto dos meus pés. E meus seios… Hum… Tenho dúvidas se vale a pena mexer neles… Agora o que ta difícil mesmo de aceitar é a minha alma.

 

24 setembro de 2013, às 15h

Estava morrendo de cólica, então me dei ao luxo de parar um pouco de corrigir prova e de assistir televisão deitada. Estava passando um filme simples e delicado — “Três vezes amor”. O final é meio piegas, mas os desencontros são perfeitos. Fiquei com vontade de pedir perdão ao meu passado e aos meus desafetos. É tão fácil estragar tudo. Fiquei chorosa e aquela e aquela solidão agulhenta, da qual fujo como o diabo foge da cruz (“diabo” é com letra maiúscula? fiquei na dúvida… preciso voltar a ler a bíblia), me deu uma lambida (a solidão, não o diabo; mas no fundo é quase a mesma coisa). Fiquei lagrimosa, enxovalhada. Me deu vontade de prostração… Aquela vontade vontadezinha de quase-morte… Foi aí que eu recebi um torpedo lembrando da reunião no meu trabalho. Faltam 40 min. Não é à toa que dizem que o trabalho dignifica. E não é à toa que associam poeta a vagabundo. Discordo. Já estou chegando aí.

 

9 de março de 2012, às 23h53min

(Para Mateus Siqueira de Souza e Bárbara de Oliveira)

Hoje, um aluno, um notável aluno estava perceptivelmente abatido. Eu cheguei perto dele e perguntei “O que houve?”. Ele levantou a cabeça, me olhou profundamente e com uma sinceridade constrangedora disse “Falta. Falta alguma coisa… Sabe, professora?”. Sei, eu sei (imediatamente pensei). Sei sim… Eu sei… Pobrezinho… Descobriu tão cedo… E na descoberta não se pode voltar atrás. Eu disse apenas “melhora essa carinha hein!”.

 

25 de março de 2012, às 20h

Uma das coisas bacanas em amadurecer é se preocupar menos em agradar todo mundo, é relaxar quanto ao que os familiares e amigos esperam de você. Perceber que você deixou de ser o foco é muito saudável! É um alívio poder SER! Quando a gente é nova a gente tem medo de decepcionar alguém próximo e deixar de ser amada por pai, mãe, familiares etc. Quando adulto, isso muda. Sinto uma sincera tranquilidade em fazer escolhas de acordo com o que eu acho, penso e assumo como estilo de vida. Certamente nem sempre agradarei a todos que amo, mas a relação que tenho com essa certeza hoje é muito mais equilibrada. Tem gente que não “esquenta a cara” desde sempre, são felizes. Tem gente que envelhece abrindo mão de SER, por causa dos outros. E tem gente que É o que É, e, finalmente, sem culpa. Enfim… estou me sentindo muito bem hoje.

 

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