Hoje, no Cineclube Goitacá, filme que dividiu cinema em antes e depois

 

 

 

Assisti a “Cães de Aluguel” logo após seu lançamento em VHS no Brasil, em 1993. Era o primeiro filme escrito e dirigido por um jovem desconhecido com nome esquisito, ex-atendente de locadora de vídeo. Profundamente impactado pelo que vira, lembro da convicção com que afirmei ao meu pai, também cinéfilo, assim que ele chegou do trabalho aquele dia: “O cinema vai se dividir em antes e depois desse filme. No diálogo franco com tudo que veio antes, esse tal de Tarantino inventou uma nova maneira de se fazer cinema”.

Até pelo fato do filme nunca ter deixado de ser atual, como o impacto que me causou, confesso ter tomado um “susto” quando constatei, numa postagem de Facebook do sempre atento Gustavo Alejandro Oviedo, que “Cães de Aluguel” estava completando 25 anos. E pela certeza que teve aquele jovem que fui, após assistir ao filme pela primeira vez, o escolhi para a exibição hoje, às 19h, no Cineclube Goitacá, na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento da ruas Conselheiro Otaviano e 13 de Maio. Como sempre, a entrada e a participação no debate são livres.

 

 

Ainda um ilustre desconhecido, Tarantino tinha escrito três roteiros. E vendeu os de “Amor à Queima-Roupa” (1993) e “Assassinos por Natureza” (94). O primeiro seria dirigido por Tony Scott, irmão de Ridley Scott, que se suicidou em 2012. O outro seria levado às telas pelo cineasta Oliver Stone. Com o dinheiro, Quentin pode financiar e dirigir “Cães de Aluguel”, filme que custou apenas US$ 1,5 milhão. Com soluções eficientes, sua maior parte se passa dentro de um galpão, além de outras poucas locações e externas, antes e depois de um assalto mal sucedido a uma joalheria.

Mesmo que não tenha sido o primeiro no cinema a apostar na narrativa não linear, ninguém até Tarantino o tinha feito com tantas referências da cultura pop nos diálogos e músicas. A cena de abertura do filme, com a câmera girando sobre a mesa de restaurante onde os bandidos se reúnem, é cartão de visita e resumo das inovações que o diretor e roteirista traria à sétima arte. No papel de ator coadjuvante a que se destina em vários de seus filmes, é ele mesmo quem explana sua visão “freudiana” da música “Like a Virgin”, de Madonna.

Bem verdade que Tarantino também chocou os padrões morais daquele início de anos 1990, pelo emprego desavexado de palavrões e violência. Mesmo que esta tenha sido sempre motivo de crítica, nunca foi elemento gratuito, mas de reforço à narrativa. Na sequência mais violenta de “Cães de Aluguel”, onde um policial é torturado pelo gângster Vic Vega, ao som contagiante de “Stuck In The Middle With You”, o espectador que se deixa impressionar pelas imagens fortes e urros de dor, talvez não atente que o desfecho da cena revela, enfim, quem é o “rato” (delator) culpado pelo fracasso do assalto.

O Vic Vega vivido por Michael Madsen, na talvez melhor interpretação de sua carreira, é irmão do Vincent Vega depois encarnado por John Travolta em “Pulp Fiction: Tempo de Violência” (95), que rendeu o Oscar de melhor ator em outro filme revolucionário escrito e dirigido por Quentin. Em “Cães de Aluguel”, além de Madsen, também brilham os atores Tim Roth, Steve Buscemi e Chris Penn (irmão de Sean Penn, morto precocemente em 2006), além de Harvey Keitel. Ator assinatura dos primeiros filmes de Martin Scorsese, uma das muitas influências de Tarantino, Keitel abraçou o roteiro do diretor estreante e foi um dos seus produtores.

Talvez não haja exagero em afirmar que, desde “Cidadão Kane” (1941), de Orson Welles, “Cães de Aluguel” foi o grande primeiro filme de um diretor na história do cinema. Na dúvida, é considerado pela conceituada revista Empire “o maior filme independente de todos os tempos”.

Ao final, quem já leu ou assistiu as peças “Hamlet” e “Macbeth”, pode encontrar boas pistas. Na tragédia dos antigos gregos que Shakespeare revisitou como ninguém e na mesma complexidade dada aos dilemas morais do homem por Tarantino.

 

Confira abaixo o traleir do filme e o clipe de “Stuck In The Middle With You”, da banda Stealers Wheel:

 

 

 

 

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