Arthur Soffiati — Manguezais da Ásia

 

Sumária notícia de manguezal na Ásia do séc. XVI

Por Arthur Soffiati

 

No início do século XV, a economia de mercado da Europa ocidental estava diante de um dilema: ou crescer ou estagnar. Para continuar a crescer, ela precisava romper o monopólio do comércio oriental sob domínio dos muçulmanos. A tentativa de transferir o comércio oriental do mundo islâmico para o mundo cristão ocidental por meio das Cruzadas, entre os séculos XI e XIII, não deu resultado porque os muçulmanos resistiram. Apenas Veneza consegui crescer, pois monopolizava as relações comerciais dos muçulmanos com a Europa ocidental. O fluxo pode ser esquematizado do seguinte modo: o que se chamava de Índias, no ocidente, integrava Índia, China, Japão e outros pontos da Ásia. Os produtos oriundos desses pontos eram levados por comerciantes muçulmanos até o Mediterrâneo, onde eram vendidos a Veneza que, por sua vez, vendia-os aos comerciantes dos mercados europeus que, finalmente, vendiam-nos aos consumidores. No ponto terminal, os produtos chegavam a preços muito caros. Os comerciantes finais perceberam que era necessário romper o monopólio islâmico e veneziano.

Em 1415, a busca de um caminho marítimo para o oriente começou com a tomada da cidade de Ceuta, no norte da África. Os portugueses saíram na frente, seguindo uma rota pragmática: costear a África pelo Atlântico julgando que havia um ponto de inflexão que levaria às Índias. Informações a esse respeito existiam, ainda que vagas. Pouco a pouco a costa atlântica da África foi conquistada.

Cristóvão Colombo partiu da premissa de que a Terra era redonda. Assim, navegando rumo ao ocidente, chegar-se-ia ao oriente. Os portugueses estavam prestes a contornar o cabo da Boa Esperança. A rainha Isabel, da Espanha, no ano mesmo em que conseguiu expulsar os muçulmanos de Granada, decidiu bancar Colombo. Assim, ele partiu da Espanha em 1492.

O navegador genovês dirigiu-se ao ocidente e chegou a terras americanas julgando que tocara a Índia. Daí o nome de índios que deu aos habitantes das terras alcançadas. Colombo voltou mais três vezes à América com a convicção de que chegara às Índias. Como Portugal e Espanha haviam se lançado primeiro na aventura de encontrar um caminho marítimo para o oriente, foi necessário definir limites para os dois países. Assim, assinou-se o tratado de Tordesilhas, em 1494, dividindo o mundo entre ambos por um meridiano de polo a polo.

Nos diários de bordo de Colombo, há registro de muitas maravilhas, entendendo-se por essa palavra a pujante natureza e os costumes dos nativos. Mas, em suma, o que se esperava achar eram metais preciosos e centros produtores. A natureza era vista nos diários de Colombo como um todo indistinto. Suas caravelas passaram rente a manguezais e eles não foram notados. Américo Vespúcio, outro grande navegador, também não enxergou mangue. Muitos outros igualmente não o viram, como Pero Vaz de Caminha, Antônio Pigafetta e Pero Lopes de Souza.

Em 1498, depois da mais longa viagem marítima empreendida até então, Vasco da Gama chegou à Índia. Os governantes muçulmanos que ele encontrou nos pontos de parada tentaram impedir a viagem ou impulsioná-la. Consta que o experiente piloto islâmico Amad ibn Majid desempenhou papel de fundamental importância para Vasco da Gama. Com Cristóvão Colombo e Vasco da Gama, duas frentes da expansão europeia foram abertas: a do ocidente e a do oriente. A Espanha desinteressou-se das Índias por ter encontrado metais preciosos na América.

Portugal conquistou Goa, na Índia, e a transformou na porta de entrada para todo o oriente. O país fincou estaca em Diu, Damão, Malaca, Macau e Timor. Suas ambições eram maiores: dominar a China, o Japão, o Ceilão, a costa oriental da Índia e a parte norte da ilha de Sumatra, principalmente. No século XVI, Portugal já havia criado bispados em Goa, Malaca e Macau. Seus comerciantes eram bastante dinâmicos. A língua portuguesa passou a ser falada em vários pontos da Ásia, sofrendo mudanças locais ou gerando dialetos ao mesclar-se com as línguas faladas na Ásia. Eram as línguas crioulas, hoje em declínio.

De todos os relatos escritos por portugueses sobre a Ásia, destacaremos aqui o “Roteiro das Cousas de Achem”, redigido por D. João Ribeiro Gaio, bispo de Malaca. Achem era um poderoso sultanato situado na ponta norte da ilha de Sumatra, conhecida então como Samatra. Portugal tinha em seus planos a conquista de Achem a partir de Goa. D. Gaio era um entusiasta dessa conquista. Para tanto, escreveu um roteiro sobre o país com ajuda de Diogo Gil, que conhecia muito bem o local, no ano de 1584. Se, no século XV, os manguezais representavam, ao que se supõe, uma ameaça à navegação, agora eles passam a merecer registros superficiais. Parece que eram assinalados nas cartas de navegação na forma de conjunto de árvores.

 

Achem em carta de Fernão Vaz Dourado, datada de 1568. Biblioteca do Duque de Alba, Madri

 

No capítulo 16 do Roteiro, D. Gaio escreve: “E na ilha que faz este esteiro há algumas casas de pescadores e algumas figueiras e árvores salgadas”. Pescador próximo a árvores salgadas pode ser indicação da presença de manguezais, notadamente a referência a árvores salgadas. No capítulo 40, aparece uma referência explicita a nipa, planta associada a manguezal. D. Gaio escrever: “Do riacho de Pasangam para o oriente está outro riacho que se chama Labu, distância do outro de um terço de légua, e tem caminhos por terra como todos os outros riachos. E de maré cheia entram neste riacho catures (pequena embarcação indiana) e tem povoação de cem vizinhos, e há neste riacho nipas e hortas palmares.” A nipa aparecerá ainda no capítulo 46 ao lado da pimenta, cânfora, benjoim de bonina, ouro, seda, madeira para a construção de naus, pedras, rubis, pau brasil, cravo, noz, sândalo, tartarugas, etc.

A “Nypa fruticans”, comumente conhecida como palmeira de mangue, é a única espécie da família Arecaceae (palmeiras) que tolera ambientes salinos de estuários nos oceanos Índico e Pacífico. É, pois, a única palmeira que consegue viver em área de manguezal. O mapa abaixo mostra a sua distribuição.

 

Distribuição de “Nypa fruticans” no mundo

 

Quem se dedica ao estudo do manguezal na América, tanto na costa atlântica quanto na pacífica, não encontrará essa palmeira que, segundo informações não está ameaçada.

 

Touceira de Nypa no interior de manguezal na Ásia

 

Atualmente, as grandes áreas de manguezal das ilhas orientais deram lugar a fazendas para a criação de camarão. Nas margens de cada rio e de cada riacho, elas se estendem, impedindo que os manguezais voltem a crescer.

 

Fazenda de camarão em Achem, norte de Sumatra

 

Sugestões de leitura

ALVES, Jorge M. dos Santos e MANGUIN, Pierre-Ives. O roteiro das cousas do Achem de D. João Ribeiro Gaio: um olhar português sobre o norte de Samatra em finais do século XVI. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1997.

LINSCHOTEN, Jan Huygen van. Itinerário, viagem ou navegação para as Índias Orientais ou Portuguesas, 2ª ed. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1998.

ORTA, Garcia da. Colóquios dos simples e drogas da Índia, 2 volumes. Edição fac-similada. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1987.

 

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