Guilherme Carvalhal — Sentido

Diante do sofá vazio onde antes ocorreram os momentos de felicidade, o retrato agora engavetado junto a boletos por pagar não desenhava mais um casal sorridente; as nuances da areia da praia emoldurando o abraço se esvanecia, dando a entender que restava somente o nada.

O tempo nos prega tais surpresas. Ele nos relega o inesperado afastamento feito um nó que indubitavelmente se desfaz. Toda sinergia que o enlace inicial cria, quando os corações reciprocamente disparam, tende a se dissipar em uma névoa insípida que permanece apenas na memória.

De todas as aventuras da vida, as memórias se perpetuarão como a única herança palpável. Os contatos, os toques, nada mais disse se manifestará no mundo tangível. Tudo o que se foi se restringe nas sinapses do cérebro, formulando as lembranças, e mesmo essas muitas vezes contam com prazo de validade.

Memórias essas que vêm à tona conforme os pequenos acontecimentos do dia a dia nos remetem ao que vivemos juntos. O reencontro ao final do expediente, as brigas na hora de escolher um filme para assistir, isso tudo jaz no inconsciente trazendo uma imensa lição, a de como a felicidade reside justamente nas coisas mais ínfimas.

Seria aquele sapato que insistia em deixar no chão da sala, os fios de cabelo no ralo do chuveiro, o barulho do mastigar de chiclete. A mania de cutucar o próprio ouvido, o incômodo com a incidência solar na sala, o olhar-se no espelho e reclamar do pneu de cerveja na cintura. Isso dava sentido ao que tivemos. E agora já não faz sentido nenhum.

Sobrava o porta-retratos. Não significava mais nada, porém constituía uma prova cabal de que um dia você existiu. Dobrei-me ao parapeito e vislumbrei a calçada lá embaixo. Ninguém passava: soltei-o e o deixai cair, contemplando quando se espatifou em muito pedaços.

Permaneci debruçado ali por uns instantes, reflexivo, até uma cena me chamar a atenção. Um rapazinho passou, olhou aqueles cacos e os catou todos. Não entendi o que pretendia, se os colaria, se o usuária para outra coisa. Só sei que aquele pedaço exorcizado de mim de alguma forma fez sentido para ele.

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