Orávio de Campos — Teixeira de Melo ou Azevedo Cruz?

 

 

 

Muito embora a memória planiciana aponte, com muita razão, o poeta João Antonio de Azevedo Cruz (1870-1905) como o maior de seus vates, destacando sua obra quase totalmente voltada para o engrandecimento de sua aldeia Goytacaz, não podemos esquecer, também, do sucesso nacional obtido pelo médico e poeta José Alexandre Teixeira de Melo (1833-1907), autor de “Sombras e Sonhos” e “Miosótis”, famoso poema cívico sobre os voluntários campistas imolados na Guerra do Paraguai.

Cruz, nascido na Freguesia de Santa Rita da Lagoa de Cima, estudou no Liceu e se formou em Direito, na capital, onde pode conviver com a intelectualidade no final do século XIX, com destaque para o aedo Alphonsus de Guimarães, de quem se tornou amigo. No “Escólio do Poema Amantia Verba”, seu autor, o filólogo Newton Perissé Duarte, salienta que ele frequentou a roda poética do simbolista Cruz e Souza.

Além dos encômios recebidos em sua terra, o poeta, amigo de Nilo Peçanha, “o mulato de Morro do Coco”, Manuel Moll, Múcio da Paixão, Luiz Carlos de Lacerda (abolicionista), Tancredo Lobo, Pedro Americano e, dentre outros, o sanjoanense Cecílio Lavras, que deu nome ao “Banco das Cismas”, ganhou importância no livro “Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro”, de Andrade Muricy…

Já Teixeira de Melo, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, menos badalado pela boêmia poética do final do Século XIX é, todavia, um dos destaques do livro “História da Literatura Brasileira” (Livraria José Olímpio Editora, Rio de Janeiro, 1960, p. 1040/1047), de autoria do não menos famoso crítico Silvio Romero (1851-1914), que o coloca dentre os articuladores do movimento parnasianista no país, e no mesmo nível (até melhor) de Casimiro de Abreu e de Luiz Delfino.

Ganha destaque, ainda, na obra “Movimento Literário em Campos” (p.34), através da pena de Múcio da Paixão. “(…) Entre nossos diletos cantores, figura nos primeiros planos. Poeta lírico de sabido merecimento, seu lirismo é suave, doce e delicado; teceu páginas de beleza admirável as quais foram respeitadas pela inclemência do tempo (…). Waldir Pinto de Carvalho, em “Gente Que é Nome de Rua” (p.31/45), também não lhe poupa elogios.

Azevedo Cruz, tão mulato como Nilo Peçanha, na perspectiva do olhar bairrista, tem um foco maior por causa da alegoria “Amantia Verba”, traduzida como “Versos Amantes”, um grito de amor à terra, (dedicada ao Dr. Benedito Pereira Nunes) — considerada como uma pérola da poesia brasileira e muitas vezes repetida, em parte, no próprio hino à cidade, com a musicalidade perfeita do próprio autor de “Escólio…”.

Teixeira de Melo, no dizer de Silvio Romero: “(..) O que individualiza e distingue as feições da poesia deste autor é certa singularidade, certa elevação graciosa das frases, certa garridice das imagens; coisas que lembram Victor Hugo nos bons tempos, quando ele não tinha ainda gongorismos, a fase em que escreveu “Sara la Baigneuse” e outras jóias deste quilate (…)”. Depois deixa exalar que o livro de Teixeira é exuberante de seiva, como são tantos outros do animado e luxuriante lirismo brasileiro.

Os dois vultos históricos ganharam bustos no entorno do prédio neoclássico da Academia Campista de Letras, na Praça Nilo Peçanha. As pessoas passam por ali não os reconhecem e nem os passarinhos poupam-lhes as cabeças coroadas. A cidade parece sem memória e nos programas pedagógicos são raras as escolas que tratam da cultura papa-goiaba como uma das mais interessantes da Capitania de São Tomé.

Azevedo Cruz escreveu: “Torres de usinas fumegando a um lado, / Para o poente o Itaoca e em cima e ao fundo, / Diáfano sempre, — um céu imaculado, / Céu de safira sem rival no mundo”. Teixeira de Melo e seu lirismo: “O amor é a vida na mulher que um dia / Ao passar pelo espelho achou-se linda! / Ama e vive, mulher! Quando morreres… / Quando morrermos, viverá ainda! ”.

Ambos — Azevedo Cruz e Teixeira de Melo — marcam a grandeza da poesia brasileira e, por isso, deveriam merecer pelo menos o respeito de seus concidadãos. Contudo, como outras relíquias de nosso patrimônio cultural, estão sujeitas à destruição, por falta de uma política que contemple a preservação da história desta urbe, que já foi uma das mais importantes do pais. Pior é, finalmente, verificar (Jacques Le Goff) que a memória também pode ser esquecimento.

 

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