Gustavo Alejandro Oviedo — O choro da viúva

 

 

Após o incêndio no Museu Nacional, o ministro Carlos Marun, da secretaria de governo, disse que só agora apareceram chorando muitas viúvas apaixonadas. Essa declaração acionou o alarme dos vigilantes da correção política, que aproveitaram a ocasião para bater nesse cachorro morto que é a administração Temer.

No entanto, não falta razão ao ministro. Apesar de sua importância histórica e de seu valiosíssimo acervo, o Museu Nacional estava esquecido, e não apenas pelo governo federal. Matéria do site G1 informa que em 2017 o numero de visitas que o museu recebeu foi de 192 mil pessoas, um número 34% menor à quantidade de brasileiros que visitaram o museu do Louvre em Paris nesse mesmo ano.

Quem for revisar as páginas web especializadas em turismo poderá observar que a maioria daqueles que visitaram o MN deixaram comentários elogiosos, mas também advertiam que o estado do estabelecimento não era bom. Destaco dois que retirei do Google:

Ingrid Marques: “Apesar do Museu estar em péssimo estado de conservação, com paredes rachadas, infiltração e mofo… Ainda me surpreendo toda vez que visito, não só pelas exposições em si, mas muito mais por causa do casarão que esconde muita riquesa (sic) arquitetônica e histórica!”

Luis Paulo Machado:” O lugar é muito bonito, está localizado num belo espaço e histórico. Podia ser melhor mantido, achei as instalações mal cuidadas. O valor do ingresso é bem barato, talvez por isso não consigam manter o local em melhores condições. Absurdo é não aceitarem cartão para pagamento, hoje em dia tem até camelô que aceita.”

No site Tripadvisor, o usuário ‘Giopaccini’ fez esta premonição em 29 de janeiro: “Museu com acervo incrível e arquitetura maravilhosa, mas manutenção MEGA PRECÁRIA.Vamos perder um acervo maravilhoso por conta do descaso público com a cultura. “

Retomando a analogia do ministro Marun, uma das viúvas que chora o falecimento do MN é a Universidade Federal do Rio de Janeiro, aquela que tinha sob sua égide a manutenção do estabelecimento, destinando pouco mais de 500 mil reais por ano do seu orçamento total de R$ 3,18 bilhões.

Em nota publicada em abril deste ano, o Pró-reitor de Planejamento, Desenvolvimento e Finanças da UFRJ, Roberto Gambine, propõe uma série de medidas para reduzir as despesas da universidade visando se ajustar aos contingenciamentos e ao recorte de repasses. Dentre essas medidas, sugere reduzir em 40% o montante gasto com combustível e carros oficiais, cujo valor anual atinge R$ 2,9 milhões.

Reparem: a UFRJ gasta R$ 2,9 milhões com carros oficiais e combustível. O orçamento do Museu Nacional era de R$ 515 mil.

Essa viúva é a mesma que em 2013 retomou a posse definitiva do Canecão, e conseguiu a malfadada façanha de transformar uma histórica casa de shows, localizada numa zona privilegiada da Zona Sul, num prédio abandonado caindo aos pedaços.

A despeito das responsabilidades que caibam genuinamente ao governo federal, é inegável que ele não tem culpa exclusiva pelo assassinato do Museu Nacional. É evidente que a UFRJ também não queria, não podia, ou não sabia como cuidá-lo, pois aqueles que administram a universidade se defrontam nesse típico conflito intelectual que costumam ter os acadêmicos, onde colidem a gestão racional com o idealismo anticapitalista (somada a uma boa dose de hipocrisia), e cujo resultado usual é a inação – e, às vezes, as cinzas.

 

fb-share-icon0
20
Pin Share20

Deixe um comentário