Gil Vianna no Folha no Ar de 27 de janeiro (Foto: Cláudio Nogueira – Folha FM 98,3)
Deputado estadual e “pré-candidatíssimo” a prefeito de Campos, o policial militar reformado Gil Vianna deve reassumir a liderança do PSL na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). A possibilidade foi adiantada ontem (aqui) pela jornalista Berenice Seara, do jornal carioca O Extra, e repercutida (aqui) na coluna Ponto Final de hoje, na Folha da Manhã. E procede. Gil foi o nome de consenso surgido na disputa que divide o PSL fluminense entre governistas (que apoiam o governador Wilson Witzel, PSC) e bolsonaristas.
Após ter eleito 12 deputados em 2018, a maior bancada estadual da Alerj, o PSL ficou com 10 após a expulsão dos deputados bolsonaristas Coronel Salema e Rodrigo Zaca, no início deste mês. No final do ano passado, a legenda rachou nacionalmente entre sua cúpula e o clã Bolsonaro, pela disputa das milionárias verbas do fundo partidário. Com a perda de força, a ala bolsonarista do PSL na Alerj ficou com apenas cinco deputados, contra cinco pró-Witzel. Entre eles, Gil.
Essa ala ligada ao governo estadual, com a assinatura de Gil, tentou apear o bolsonarista Doutor Serginho da liderança do partido na Alerj. Mas o nome apresentado, do deputado Rodrigo Amorim, ficaria empatado com outro nome apoiado pelos bolsonaristas, que provavelmente seria Márcio Agualberto. Como este é três anos mais velho que Amorim, venceria no critério desempate. Na queda de braço, o parlamentar de Campos foi lançado como nome de consenso ao cargo de líder que já ocupou.
A favor de Gil, pesa o fato dele, apesar de pró-Witzel, manter boa ligação com o senador Flávio Bolsonaro (sem partido). No último programa Folha no Ar 1ª edição do qual participou (relembre aqui), em 27 de janeiro, quando se anunciou “pré-candidatíssimo” a prefeito de Campos, o deputado disse ao microfone contar com a força eleitoral desse apoio nas urnas municipais de outubro. No segundo turno da eleição presidencial de 2018, Jair Bolsonaro teve 64,87% dos votos dos campistas.
Jornalista Rodrigo Gonçalves e vereador Jorginho Virgílio no Folha no Ar de hoje (Foto: Genilson Pessanha – Folha da Manhã)
No primeiro bloco da entrevista do vereador Jorginho Virgílio (Patri) e do jornalista Rodrigo Gonçalves, seu assessor e ex-editor-geral da Folha da Manhã, no Folha no Ar 1ª edição da manhã de hoje, os dois entrevistados falaram sobre a importância das redes sociais na política. E no segundo bloco do programa, com a participação em comentário nas redes sociais feito por outro vereador, Ivan Machado (PTB), quando o assunto era o G8 dos quais os dois edis fazem parte, o numeral do grupo “independente” da Câmara de Campos pareceu subtraído ao vivo na Folha FM 98,3.
Perguntado se não seriam inconciliáveis as diferenças políticas do G8 em ano de eleição municipal, com parte do grupo, inclusive sua liderança, apoiando o pré-candidato a prefeito Caio Viana (PDT), enquanto outra, como o próprio Jorginho, apoia o prefeito Rafael Diniz (Cidadania), pré-candidato à reeleição, o vereador do Patri (a caminho do DC do deputado estadual João Peixoto) respondeu:
— Eu acredito que pode ser que fique inconciliável, sim. Até o momento, não. Eu acho que a gente pode caminhar. Porque o grupo, além de ter sido montado para que tivesse mais respeito, principalmente do secretariado (de Rafael), ele também foi montado para um eventual segundo turno (a prefeito de Campos). Então, pode ser que o grupo vá à frente, sim, até outubro, ou o pleito for ao segundo turno.
Assessor de Jorginho, Rodrigo Gonçalves complementou o vereador. E aproveitou para alfinetar o deputado federal Wladimir Garotinho (PSD), que em sua última entrevista ao Folha no Ar, em 10 de fevereiro, questionou a permanência do G8:
— Wladimir esteve aqui no Folha no Ar e falou que o G8 não era mais G8. Em nenhum momento do grupo foi colocada a participação (de pré-candidatos a prefeito). Seja de Caio, de Wladimir, de pessoas ligadas ao Caio, ou ligado a Wladimir. O que foi colocado no G8 a todo o momento era que ali tinha pessoas que já tinham declarado seu racha com o governo e pessoas que queriam se manter na base do governo. O G8 nasceu de uma forma respeitosa. O que muitas vezes falta em grupos que a gente sabe que é imposição. Inclusive, Wladimir vem de um grupo que tudo foi sempre muito imposto. O G8 nascei de pessoas que não estavam satisfeitas com a postura do governo, mas que não seria declaradamente oposição, ou declaradamente situação, pessoas que queriam ficar na base e pessoas que não queriam ficar na base. E isso foi respeitado. O G8 se manteve vivo até agora por conta disso.
Foi quando o vereador Ivan Machado fez mais um comentário (confira aqui), no streaming do Folha no Ar, na página da Folha FM 98,3 no Facebook, ao final do segundo bloco:
— O G8, pelo menos na minha opinião, deixou de ser G8 pelos fatos relatados.
No terceiro e último bloco, dedicado à análise da eleição municipal de outubro, Jorginho abriu dando sua resposta ao colega do grupo:
— Nós já temos a opinião de um membro do G8, que falou aí na Web, que é o vereador Ivan Machado, que diz que para ele o G8 deixou de existir. Isso é a opinião dele. Mas se já é a opinião de um membro, acho até que tem que oficializar o desmanche do G8, se isso parte dele e de outros membros do G8. Se é a opinião só dele, que o G8 tem que deixar de existir, para ele oficializar, até hoje mesmo, a saída dele do G8. Se outros acharem que devem sair, vai lá e protocola o seu pedido de saída.
Confira abaixo os vídeos com os três blocos da entrevista do vereador Jorginho Virgílio e do jornalista Rodrigo Gonçalves ao Folha no Ar de hoje:
A juíza do Trabalho Maria Candida Rosmaninho Soares suspendeu hoje (04) o bloqueio de R$ 6.674.221,89 da Prefeitura de Campos para pagamento dos funcionários do Hospital Plantadores de Cana (HPC). Decisão anterior (relembre aqui) e em sentido contrário havia sido dada pela 4ª Vara do Trabalho de Campos, agora revista. A ação foi movida pelo Sindicato dos Empregados da Saúde de Campos, que informou que 600 profissionais estavam com dois meses de salários atrasados e dois 13º atrasados.
Procurador-geral do município, José Paes Neto falou hoje sobre o alívio que a suspensão do bloqueio trouxe à Prefeitura, em tempo de crise financeira. E enviou documento para endossar que a dívida do município com o HPC foi “mais uma deixada pelo governo Rosinha Garotinho” (hoje Pros).
José Paes Neto, procurador-geral de Campos (Foto: Folha da Manhã)
— A gente foi surpreendido com essa decisão, que havia sido proferida pela Justiça do Trabalho. Porque o governo não era réu no processo, não tínhamos conhecimento da ação e não tivemos oportunidade de apresentar qualquer tipo de defesa. Foi a que a gente apresentou, após tomar conhecimento pela própria imprensa da decisão. E pode detalhar à juíza, primeiro a situação financeira atual do município e o que um bloqueio desse porte poderia significar para a gestão pública municipal. Demonstramos que essa dívida é objeto de questionamento na Justiça Estadual. E a juíza, então, suspendeu a ordem de bloqueio das contas do município, o que é um alívio, sobretudo neste momento de dificuldade financeira que vem sendo vivido. Não seria razoável que todos os serviços públicos fossem afetados em razão de mais uma dívida deixado pelo governo da (ex-)prefeita Rosinha Garotinho — disse José Paes.
Diretor-geral do HPC, Frederico Paes, também se posicionou sobre a revisão da
decisão da Justiça do Trabalho de Campos:
— Em primeiro lugar, a gente entende que a dívida é da Prefeitura. Então, a gestão do prefeito Rafael Diniz (Cidadania) tem que assumir o ônus e o bônus. Não importa a gestão, a dívida é da Prefeitura de Campos. E hoje, além desse valor da gestão passada, a gestão atual deve mais de R$ 6 milhões ao hospital. O único recurso que nós temos recebido, nos últimos sete meses, via bloqueio judicial na Justiça Cível. E não recebemos mais nada de pagamento espontâneo do complemento municipal (à tabela paga pelo Sistema Único de Saúde, SUS). A situação do hospital continua grave, com salário atrasado de médicos, de funcionários, dificuldade para manter conta de energia, compra de medicamentos e material hospitalar. Na última semana, nós tivemos, em média, 15 partos por dia no hospital. A situação vai só se complicando. Enfatizo isso: a dívida não é do prefeito A ou B; a dívida é da Prefeitura.
Abaixo, com os destaques, a decisão de hoje da Justiça do Trabalho, que desbloqueou os R$ 6,6 milhões da Prefeitura de Campos. E documento do próprio HPC, que provaria que a dívida foi deixada entre setembro e dezembro de 2016, no apagar das luzes do governo municipal Rosinha:
Decisão de hoje da Justiça do Trabalho, que reconsiderou o bloqueio de R$ 6,6 milhões da Prefeitura de Campos
Documento do próprio HPC, que mostra que a dívida foi gerada entre setembro e dezembro de 2016, no final do governo Rosinha
Atualização às 10h19 de 05/03 para colocar a versão do diretor-geral do HPC, Frederico Paes.
Nesta quinta (05), o Folha no Ar 1ª edição, na Folha FM 98,3, recebe dois convidados a partir das 7 da manhã: o empresário e colunista da Folha da Manhã Murillo Dieguez e o jornalista, também com passagem pela Folha, Cilênio Tavares. Eles falarão sobre jornalismo em tempo de redes sociais, analisarão os governos Jair Bolsonaro (sem partido), Wilson Witzel (PSC) e Rafael Diniz (Cidadania), além das eleições municipais de outubro.
Quem quiser participar ao vivo pode fazê-lo com comentários em tempo real no streaming do programa, cujo link será disponibilizado alguns minutos antes do seu início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Em reação aos protestos marcados para o próximo dia 15 contra o Congresso Nacional, convocados em vídeo pelo próprio presidente Jair Bolsonaro (sem partido), ou ao que identifica como “intensificação do uso de forças policiais de maneira excessiva à ordem constitucional, a Associação dos Docentes da Uenf (Aduenf) colocou na tarde de hoje uma faixa na entrada do campus Leonel Brizola. Nela, quem passar pela av. Alberto Lamengo pode ler: “Ditadura nunca mais”.
Alexandre Buchaul no Folha no Ar da manhã de hoje (Foto: Genilson Pessanha – Folha da Manhã)
Como o empresário Joilson Barcelos, que desistiu (relembre aqui) da sua pré-candidatura à Prefeitura de Campos no Folha no Ar 1ª edição de 1º de agosto de 2019, o odontólogo Alexandre Buchaul (ex-PSDB) não é mais pré-candidato a prefeito da cidade. Ele também anunciou isso hoje (03) no programa matinal da Folha FM 98,3, rádio mais ouvida (confira aqui) de Campos e região:
— Vem a questão da política real. Aí, você precisa de partido. Conversei com os partidos em que cabia a questão programática. E, lamentavelmente, partido político no Brasil não adere muito aos próprios programas. É muito mais uma disputa pela chave do cofre, na maioria deles, que uma disputa por colocação de programas em execução. E eu não consegui um partido que permitisse essa candidatura sem que tivesse a necessidade de romper com certos princípios. E aí eu não vou ter condição de candidato a prefeito, vou retirar minha pré-candidatura em função disso. Eu tive a oportunidade de anunciar aqui (no Folha no Ar de 15 de julho de 2019) a minha pré-candidatura e estou tendo a oportunidade de anunciar aqui a minha saída.
Buchaul também não vai se candidatar a vereador. Embora outros nomes do seu grupo, que saíram com ele do PSDB, devam fazê-lo. Mas, segundo ele, a retirada da sua pré-candidatura lhe dá mais isenção para comentar o cenário da eleição à Prefeitura. Ele a vê afunilada entre os nomes do prefeito Rafael Diniz (Cidadania), do deputado federal Wladimir Garotinho (PSD) e do pré-candidato Caio Vianna (PDT). Embora crítico aos três, o odontólogo identificado com o conservadorismo político considerou o filho do ex-prefeito Arnaldo Vianna (PDT) a pior opção para Campos:
— Caio Vianna é uma incógnita muito grande. Porque ele tenta se vender como filho do Arnaldo, mas ele é muito mais o filho da mãe, o filho da Ilsan (Vianna, PDT, ex-vereadora). Até pela questão do relacionamento do Arnaldo e da Ilsan muito conturbado, cheio de escândalos, a questão do afastamento (de Arnaldo da Prefeitura, em 2004), a questão do desfile da escola de samba Imperatriz Leopoldinense (que em 2002, quando Arnaldo era prefeito, recebeu R$ 1,8 milhão do dinheiro público de Campos, para a cidade ser enredo na Sapucaí). Não por acaso Caio estava lá agora, de novo, no Sambódromo. Espero que não negociando o próximo desfile da mãe (Ilsan desfilou como destaque da Imperatriz em 2002). Tem essa relação difícil que ele já está construindo com os Bacellar e que levou o (ex-)prefeito Alexandre Mocaiber à situação em que esteve. Não coincidentemente, talvez o maior articulador político de Caio Vianna quem é? Rodrigo Bacellar (SD, deputado estadual). Entre esses três (Rafael, Wladimir e Caio), Caio talvez seja o pior; a pior opção para Campos. É a opção mais frágil. E vai trazer um ranço da má administração da mãe junto com o pai. A mãe interferindo muito na gestão.
Após anunciar sua desistência da pré-candidatura a prefeito de Campos, Buchaul também criticou o atual, Rafael Diniz:
— O governo Rafael também fez muitas promessas durante a campanha (de 2016). As promessas não realizaram. Ele não aproveitou a janela que tinha para as reformas, perdeu o timing. Errou em duas coisas que o Ricardo Amorim (economista e jornalista do Manhattan Connection, da Globo News) oportunamente colocou na palestra dele (no Trianon em 21 de agosto de 2019), que fazem um empreendimento falhar: timing e time de execução. Rafael errou nos dois. Ele errou no timing e ele errou no time de execução. Se a equipe de governo não está acertando, ele tinha que mudar algumas peças. E ele não fez isso, as peças foram mantidas e a coisa não caminhou, não evoluiu. As reformas não foram feitas e ele está chegando ao final do mandato em frangalhos. Com a rejeição que teria se tivesse feito as reformas, sem ter feito as reformas.
Se creditou um “mandato razoável de deputado federal” a Wladimir Garotinho, o entrevistado do Folha no Ar também não poupou o filho do casal dos ex-governadores de críticas:
— Wladimir tem a história dos Garotinho nas costas. Carrega nos ombros a história do pai e da mãe, as condenações de Garotinho e Rosinha. Está um mandato razoável de deputado federal, tem conseguido alguns avanços, algumas verbas para o município. Ele está conseguindo se articular em Brasília, está conseguindo avançar. A maior dificuldade de Wladimir que eu vejo em um eventual mandato de prefeito são os compromissos que ele vem carregando de pai e mãe, que Campos não comporta mais. Tem um time grande demais para abrigar, compromissos com eleições grandes demais para sustentar lá na frente. Se Garotinho tiver condição de elegibilidade, não tenho dúvida alguma.
Confira abaixo os três vídeos da entrevista de Alexandre Buchaul ao Folha no Ar. O bloco em que ele analisa a eleição a prefeito de Campos é o último:
No final da tarde desta quarta (04), no Centro de Convenções da Uenf, será debatido e exibido o filme de ficção “Bacurau” (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. O evento faz parte Semana de Recepção de Calouros, mas tem entrada franca. É promovido pela assessoria de Cultura da Uenf, comandada pela professora Maria Priscila Pessanha de Castro. E cumpre a promessa de interação entre universidade e comunidade, feita na campanha do ano passado, pelo reitor Raul Palacio. Neste sentido, antes da exibição do filme às 18h, haverá um debate às 17h com a pedagoga Sara Wagner York.
A partir das 7 da manhã desta quarta, o Folha no Ar 1ª edição, da Folha FM 98,3, receberá dois convidados: o vereador Jorginho Virgílio (Patri) e seu assessor de imprensa, o jornalista Rodrigo Gonçalves, ex-editor geral da Folha da Manhã. Os dois falarão sobre jornalismo e política em tempo de redes sociais, da formação e do racha do G8 na Câmara de Campos, além das eleições municipais de outubro, quando Jorginho deve tentar sua reeleição.
Quem quiser participar ao vivo pode fazê-lo com comentários em tempo real no streaming do programa, cujo link será disponibilizado alguns minutos antes do seu início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Em 10 de abril de 1984, ainda na Ditadura Militar, comício das “Diretas Já” levou 1 milhão de pessoas às ruas na Candelária
Luciane Silva, socióloga e professora da Uenf
Democracia, Segurança Pública e a defesa da Constituição de 1988
Por Luciane Silva
Domingo de sol, camelôs vendendo mercadorias em verde e amarelo, faixas a favor do impeachment em prédios da avenida Atlântica. Eu realizava entrevistas durante manifestação promovida no posto 1 da praia de Copacabana em 17 de abril de 2016. Meu objetivo era obter imagens e conteúdo sobre a presença de um trio elétrico com nomes do funk carioca. Mas o cenário era muito peculiar. Telões ao longo da avenida reuniam parte dos moradores do bairro que acompanhavam e vibravam com cada um dos 367 votos favoráveis a abertura de processo na Câmara dos Deputados contra a presidente Dilma Rousseff. Resolvi mudar o foco e me desloquei para a Lapa onde estavam concentrados setores contrários à abertura do processo. Era interessante a divisão dos bairros, a composição racial dos grupos e como o verde e amarelo seria ressignificado a partir daquele domingo. Assistir às declarações de voto foi um indicativo do tipo de encenação que seria representada a partir de então. A família e Deus em primeiro lugar. O então deputado Jair Bolsonaro parabenizou Eduardo Cunha e exaltou a memória de Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador. Atrás dele, o filho repetia o nome de um dos mais vis e assustadores homens que já passou pelo Exército. Ao nomeá-lo como o “pavor de Dilma Rousseff”, o deputado demonstrava sua capacidade para usar de crueldade como instrumento de propaganda.
Posteriormente ao impedimento de Dilma pelas “pedaladas”, o governo Temer, as declarações de Aécio Neves e as descobertas sobre a atuação do então juiz Sérgio Moro seriam alguns dos capítulos vividos em um país que afundava em crise econômica, retirava direitos com promessas de benefícios e aumentava o grau de letalidade de suas polícias.
O assassinato de uma vereadora e as reações cruéis e mentirosas ao episódio em março de 2018 eram o prenúncio do tipo de obscurantismo que figurariam nas interações públicas até a eleição. As falsas notícias, as ações “em nome de Deus” e os posicionamentos violentos em relação a mulheres e minorias, indígenas e campesinos, marcariam uma eleição que teve como desfecho uma comemoração religiosa em primeiro de janeiro de 2019. Estavam todos ali e todas as peças. Vivenciamos o crescimento das milícias no país, o apoio a uma moralidade que negava o caráter crítico da sala de aula e a perseguição às discussões de gênero. O primeiro escalão, um anti-escalão, ocupar-se-ia em desmatar, violar a educação, destruir a universidade, perseguir servidores públicos e insistir nas cores para roupas de meninos e meninas.
Quando Bolsonaro convoca atos para o dia 15 de março, ele sabe que tem a sua frente uma investigação sobre Adriano da Nóbrega. E talvez sua base sequer se importe com isso. Ele sabe das declarações de Rosa Weber sobre o funcionamento normal das instituições em coletiva do Tribunal Superior Eleitoral em 2018. O tempo da Justiça, justificado pela ministra, sobre a acusação de caixa 2 não chegou a tempo. Talvez por isso um dos filhos do presidente não tenha medo em afirmar que basta um cabo e um soldado para fechar o Supremo Tribunal Federal. Talvez por isso fale em bomba H no Congresso enquanto um general sugere simplesmente um “foda-se” como o modus operandi dominante no atual governo.
A democracia, mesmo com suas fragilidades, possibilita que possamos divergir. Que possamos exercer direitos e possamos ter respeitados alguns direitos fundamentais. Entre eles, o de ir e vir livremente e o direito à Segurança Pública. Assegurado na Constituição de 1988, art. 144 “a segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos é exercida para preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio”. Temos indícios para saber que greves das forças de Segurança Pública são um caldeirão em ebulição. Nenhum governador gostaria de lidar com o pânico social causado por greves de policiais. Vimos isso no Rio de Janeiro em 2017, quando o governador Luiz Fernando Pezão foi pressionado a pagar salários atrasados, décimo terceiro e bonificações. Seguindo o Espírito Santo, os policiais reclamavam das condições de trabalho. E esta era uma reclamação legítima.
A base que ideologicamente apoia atos contrários à democracia é a mesma que se ressente do fim da Ditadura. Eu os conheço bem. E eles não representam todos os policiais. Mas se aumentam as insatisfações e os usos políticos demagógicos, se as corporações percebem que há um “chamado” em curso e que serão finalmente os protagonistas, podem agir como aqueles que um dia esquecidos, voltam ao cenário para reconstituir a ordem. Neste caso, sob uma orientação fascista. Por isto o Ceará torna-se o epicentro de uma crise nacional.
Por outro lado, se um governador concede aumento de 41,7% a uma única categoria, como fez Romeu Zema com os policiais em Minas Gerais, ele abre um precedente perigoso. Então a pressão é o caminho para fazer valer as demandas? A força e a intimidação indicam que não é preciso portar-se dentro de um jogo democrático? Sabemos disso e sabemos da importância dos freios institucionais como impedimento deste tipo de manobra.
A democracia não pode ser negociada, relativizada ou secundarizada neste momento. Ulysses Guimarães, um dos parlamentares fundamentais da Constituição de 88 declarava “temos ódio e nojo à Ditadura”. Esta posição, clara, altiva, não pode ser relativizada. Conhecemos as consequências e as temos vivenciado: perseguição a jornalistas, censura à arte, difamação dos servidores públicos, desemprego e miséria.
Aquele que prima pelo obscurantismo porque imaginam estarem a salvo de um regime de exceção, devem voltar seus olhos para história do Chile, da Argentina, do Brasil. E lembrar-se de que, fora da democracia, qualquer suspeita justifica a prisão, a tortura e a violação. Não é uma questão de “opinião”.
Afastado fisicamente do trabalho desde o dia 15 deste mês, volto às 7h da manhã desta terça (03) ao Folha no Ar 1ª edição, da Folha FM 98,3. Que terá como convidado o odontólogo Alexandre Buchual (sem partido), pré-candidato a prefeito de Campos. Político conservador, ele analisará os governos Jair Bolsonaro (sem partido) e Wilson Witzel (PSC), o conservadorismo em Campos, no Brasil e no mundo, além das eleições municipais de outubro deste ano.
Em março, a Folha FM volta com responsabilidade redobrada, após ampliar em fevereiro a sua liderança de audiência (confira aqui) entre todas as rádios de Campos e região.
Bolsonaros em sua atividade principal, e de vários brasileiros, durante o caranaval no Guarujá (Foto: @depheliolopes/Instagram)
O idiota, carnaval, Bolsonaro, PT, impeachment e coronavírus
Nelson Rodrigues
“Até então (o séc. 19), o idiota era apenas o idiota e como tal se comportava (…) E o primeiro a saber-se idiota era o próprio idiota. Não tinha ilusões. Julgando-se um inepto nato e hereditário, jamais se atreveu a mover uma palha, ou tirar uma cadeira do lugar. Em 50 mil, 100 mil, ou 200 mil anos, nunca um idiota ousou questionar os valores da vida. Simplesmente, não pensava. Os ‘melhores’ pensavam por ele, sentiam por ele, decidiam por ele. Foi o século 19 que fez do idiota um ser histórico. E, então, aquele sujeito que, há 500 mil anos, limitava-se a babar na gravata, aquele sujeito, dizia eu, passou a existir socialmente, economicamente, politicamente, culturalmente etc. Houve, em toda parte, a explosão triunfal de idiotas”.
O vaticínio é de Nelson Rodrigues. Conservador, anticomunista, jornalista e maior dramaturgo brasileiro — autor de peças de feroz sátira moral, que seriam combatidas pelos conservadores anticomunistas do Brasil de hoje — Nelson morreu em 1980. Só em meados daquela década, quando também se daria a redemocratização do país, surgiria no mundo a internet moderna. Popularizada nos anos 1990, teria seu boom a partir de 2004, com o advento das redes sociais. Maior delas, o Facebook compraria o WhatsApp em 2014, aplicativo criado cinco anos antes.
Umberto Eco
Como todo gênio, Nelson viu antes. Outro, o filósofo, semiólogo e romancista italiano Umberto Eco alertaria em 2015, ano anterior à sua morte, sobre o transeunte dominante da grande via global já pavimentada, entregue e em uso regular: “As mídias sociais deram o direito à fala a uma legião de imbecis que, anteriormente, falava só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel. O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”.
O preâmbulo é adequado à Quaresma de um carnaval em que a esquerda lacradora tentou vender gato por lebre na Baixa Augusta paulistana. Onde uma “índia” branca, pós-moderna e cosmopolita simulou choro pelo uso momesco do “cocar do ‘meu povo’”. Até o cacique Raoni assumir seu lugar de fala em Salvador para despir de qualquer fantasia o estelionato politicamente correto. Que, na iluminação do neopentecostalismo do Leblon, pretendia censurar até o tradicional carnaval da periferia carioca do Cacique de Ramos.
Mark Lilla, cientista político, historiador e jornalista
Por dividir a população que deveria unir para chegar ao poder, a pauta identitária tem se revelado uma bola de ferro acorrentada ao pé da esquerda no mundo. Seu potencial político suicida é denunciado por pensadores progressistas, como o estadunidense Mark Lilla, desde (confira aqui) a eleição de Donald Trump a presidente dos EUA em 2016. Quem duvida do seu peso do outro lado da gangorra, foi a reação a ela que no Brasil elevou Jair Bolsonaro, de antagonista de Jean Wyllys no Congresso, a político mais popular do país, ao lado de Luiz Inácio Lula da Silva.
Um exemplo prático? Em 29 de setembro de 2018, mulheres lideraram o primeiro protesto do “Ele, Não!” em ruas e praças de todo o Brasil. Inclusive em Campos. Pesquisa Ibope feita naquele dia e no seguinte, registrou crescimento de Bolsonaro de 18% a 24% no voto das brasileiras. O pragmatismo tático seria ignorado por arrogância ideológica. A resposta das urnas do primeiro turno, oito dias depois, todos conhecem. No segundo, quando Fernando Haddad trocou o vermelho do PT pelas cores do Brasil no material de propaganda, a fatura já estava fechada. Quem entregou a bandeira do país ao adversário, entregou junto o país.
“Ele, Não!” na praça São Salvador, em 29 de setembro de 2018 (Foto: Folha da Manhã)
Bolsonaro foi eleito por 55,13% dos votos válidos, 39,3% do total do eleitorado. Enquanto mantiver no governo os mais de 30% de bom e ótimo das últimas pesquisas de janeiro, seu impeachment é politicamente improvável. Como alertou Celso de Mello, decano do Supremo, há crime de responsabilidade em divulgar vídeo convocando para protesto contra o Congresso. Mas se for mesmo pedido pelo PT, que pediu quatro contra Fernando Henrique Cardoso, só fortalecerá a bipolaridade política na qual o país chafurda desde 2014. Como provam Fernando Collor de Mello e Dilma Rousseff, presidente só cai se muita gente pedir isso antes nas ruas.
Ex-presidentes Fernando Collor de Mello e Dilma Rouseff, depostos pelo povo nas ruas
A popularidade do presidente só descerá a ladeira se a economia for na frente. Como, “nunca antes na história desse país”, se deu com Dilma. Depois dela, seu legado de 11,4 milhões de desempregados cresceu antes de cair aos 11,9 milhões anunciados pelo IBGE na última sexta (28). Não dá para torcer por mais. Tampouco pelo coronavírus, que já tem um caso confirmado no Brasil e suspeita até em Campos. Por aqui, a dengue matou e matará muito mais. E quem compra máscara cirúrgica na farmácia não limpa água parada no próprio quintal. Só que, vindo da locomotiva China, a Covid-19 deve frear os vagões da economia mundial.
(Inforgráfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Enquanto isso, do outro lado da avenida, os tios e tias do WhatsApp. Que não cabem mais nas fantasias nas quais deitaram e rolaram em outros carnavais. Embora muitos, na surdina faladeira do resto do ano, insistam. Mas agora todos posers da moral, dos bons costumes e dos valores judaico-cristãos. Porque na Sapucaí conquistada pela Viradouro, Bolsonaro foi retratado como palhaço pela Vigário Geral, ridicularizado nas suas “flexões de braço” pela São Clemente e questionado como “Messias de arma na mão”, pela Mangueira.
Bolsonaro como o palhaço presidencial “Chega de Mamata”, pela Acadêmicos de Vigário Geral
São capazes de acreditar que um vídeo com a facada que definiu a eleição presidencial de 2018 é de 2015. Por quê? Porque seu “mito” afirmou, ora! E, nas redes sociais que Eco disse terem dado “fala a uma legião de imbecis”, se dizem dispostos a ir às ruas no próximo dia 15 contra o Congresso. O mesmo que Bolsonaro precisa para aprovar reformas difíceis, como a administrativa, e tentar soerguer o que o manterá no poder. Não são os militares dos quais, inseguro disso, se cerca cada vez mais. Como sentenciou o ex-fuzileiro naval James Carville, estrategista eleitoral do ex-presidente dos EUA Bill Clinton: “É a economia, estúpido!”
James Carville e sua mais célebre sentença
No mais, é como anteviu Nelson: “Muitos estranham a violência de nossa época. Eis um mistério nada misterioso. É o ódio do idiota, sempre humilhado, sempre ofendido, sempre frustrado e que agora reage com toda a potência do seu ressentimento”.