Ícone do cinema muito além de 007, Sean Connery morre aos 90, dormindo

 

Sean Connery (Foto: Matthew Mendelsohn – Getty Images)

 

 

Em tempos pré-anabolizantes, o jovem Sean Connery como fisiculturista

Morreu na madrugada de hoje, aos 90 anos, em sua casa nas Bahamas, o ator escocês Sean Connery. Desde que o fato foi anunciado no mundo, a mídia superficial do tempo das redes sociais se prestou a ecoar o óbvio: foi o maior James Bond do cinema de todos os tempos. Sim, foi. Mas também foi muito mais que isso. Dono de físico privilegiado, que quando jovem o fez concorrer e chegar em terceiro lugar em concurso de fisiculturismo como Mister Universo, tinha um timbre de voz rouco e igualmente viril, sempre pontuado de ironia. Com presença carismática diante das câmeras e fora delas, soube exceder o estrelato dos filmes de ação para, sem abandoná-los, se tornar também um ator de grande intensidade dramática. Gigante da arte cênica, esteve entre os maiores do seu tempo.

Filho da classe proletária de Edimburgo, bela capital da Escócia, dividia quando garoto o mesmo banheiro coletivo com sua família e outras do quarteirão de classe baixa. Largou a escola aos 13, tentou a vida como leiteiro, salva-vidas e serviu na Marinha Real Britânica, da qual levaria tatuagens nos braços por vezes camufladas em seus filmes. De volta à vida civil, foi modelo vivo na Escola de Artes de Edimburgo, até fazer um teste ao teatro, que abriria suas portas à televisão e ao cinema. Seu primeiro grande filme seria a superprodução de guerra “O mais longo dos dias” (1962), de Ken Annakin, Andrew Marton, Bernhard Wicki e Darryl F. Zanuck. No mesmo ano, estrelaria o papel que o tornaria conhecido no mundo: Bond, James Bond, em “007 contra o satânico Dr. Noo”, de Terence Young.

 

Sean Connery no seu primeiro filme como James Bond, em “007 contra o satânico Dr. Noo”

 

O sucesso da franquia de 007, como do seu carismático protagonista, geraria mais seis filmes do personagem de Yan Fleming, ex-agente de inteligência britânica e escritor de populares livros de espionagem. Connery ainda estrelaria “Moscou contra 007” (1963), do mesmo Terence Young; “007 contra Goldfinger” (1964), de Guy Hamilton; “007 contra a chantagem atômica” (1965), de volta com Terence Young; “Com 007 só se vive duas vezes” (1967), de Lewis Gilbert; e “007 — Os diamantes são eternos” (1971), de volta com Guy Hamilton. Após 12 anos de separação, com James Bond encarnado por outros atores, o escocês voltaria para se despedir definitivamente do papel em “007 — Nunca Mais Outra Vez” (1983), de Irving Kershner.

 

Sean Connery e Richard Harris em “Ver-te-ei no Inferno”

 

A abertura de Connery a outras possibilidades começaria no auge do sucesso de 007, com o mestre do cinema Alfred Hitchcock. Sob sua batuta, o ator escocês estrelou o suspense psicológico “Marnie: confissões de uma ladra” (1964). Daria passos decisivos nessa transição ao estrelar “Ver-te-ei no Inferno” (1970), de Martin Ritt, ao lado de Richard Harris, outro ator que unia presença física imponente com grande capacidade dramática. No filme, o capitalismo selvagem é combatido com atos de terrorismo e a força dos punhos, numa dura comunidade mineira de imigrantes irlandeses nos EUA do século 19.

 

Sean Connery e Michael Caine em “O homem que queria ser rei”

 

Mas o filme com que Connery se libertaria de vez de James Bond seria “O homem que queria ser rei” (1975), baseado em conto de Rudyard Kipling, vivido por Christopher Plummer. Dirigido por outro mestre, John Huston, o escocês o estrelaria ao lado do craque inglês Michael Caine. Difícil dizer se é o maior filme de Huston, diretor também do clássico “Relíquia Macabra” (1941), que fundamentou o estilo conhecido como cinema noir. Mas a atuação de Connery, encarando a morte de frente, enquanto canta altivo até despencar no precipício da própria vaidade, no meio do Himalaia, é a síntese definitiva de qualquer “homem que queria ser rei”.

 

 

No ano seguinte, Connery atuaria numa daquelas pérolas do cinema muito menos conhecida do que deveria. “Robin e Marian” (1976), de Richard Lester, é o menos pretensioso e talvez o melhor filme sobre o mito de Robin Hood. Não mais o jovem vigoroso e revolucionário que “roubava dos ricos para dar aos pobres”. Mas o homem desiludido de meia idade que, na busca do seu passado de glória contra o xerife de Nottinghan vivido pelo grande Robert Shaw, reencontra a verdade derradeira entre os braços do velho amor, encarnado pela freira retirada do hábito pela paixão, a eterna “bonequinha de luxo” Audrey Hepburn.

 

Audrey Hepburn e Sean Connery em “Robin e Marian”

 

Os anos 1980 encontrariam Connery ainda vigoroso para protagonizar filmes de ação. Dois anos antes de se despedir de vez de James Bond, estrelaria “Outland: comando titânico” (1981), de Peter Hyams, na pele do xerife de uma lua de Júpiter, mais uma vez disposto a fazer valer a lei contra o sistema capitalista das grandes corporações. Mas o final daquela década reservaria ao ator escocês algumas obras primas da sua carreira. E da história do cinema. Nelas, seria o coadjuvante que rouba o estrelato dos jovens protagonistas.

 

Sean Connery e Christopher Lambert em “Highlander”

 

Em “Highlander — O guerreiro imortal” (1986), de Russel Mulcahy, Connery enseja Christopher Lambert na arte da espada e na imortalidade, que só finda para determinados escolhidos quando têm sua cabeça cortada pelo vencedor em um duelo entre iguais. A franquia depois se perdeu em filmes de qualidade inferior, mas o primeiro, com a música do Queen, é um clássico daquela “década perdida”. No mesmo ano de 1986, Connery seria o mestre também do jovem Christian Slater, dois sacerdotes jesuítas em “O nome da rosa”, de Jean-Jaques Annaud. Não mais na espada, mas no caminho à imortalidade pela fé aliada ao conhecimento, entre os Evangelhos e a obra filosófica do pagão Aristóteles. Passado na Idade Média, o filme é homônimo da obra do romancista, filósofo e semiólogo italiano Umberto Eco.

 

Sean Connery e Christian Slater em “O nome da rosa”

 

No ano seguinte, em “Os Intocáveis” (1987), de Brian De Palma, a atuação de Connery renderia a ele seu único Oscar, como coadjuvante. Um capaz de superar Robert De Niro no auge, em soberba atuação como o famoso gângster Al Capone. Na pele de Malone, velho policial de rua, Connery é recrutado pelo agente federal Eliot Ness, vivido pelo então jovem Kevin Costner, para ser o mestre de quem se insurge contra o crime tão disseminado na Chicago dos anos 1920 quanto no Rio de Janeiro das milícias de um século depois. Ao aceitar o convite, em uma das tantas cenas antológicas do filme, ele diz dentro de uma igreja: “Deus não gosta de covardes!” O poder da sua atuação foi tamanho, que o Oscar pouco se importou se interpretou um irlandês com seu inconfundível sotaque escocês.

 

Andy Garcia, Sean Connery, Kevin Costner e Charles Martin Smith em “Os intocáveis”

 

Assisti a “Os Intocáveis” pela primeira vez no antigo “Cine Veneza”, há muito inexistente, no Campos Shopping. E lembro de ter saído meio embasbacado, certo de que acabara de testemunhar um espetáculo superlativo de cinema.

 

 

Dois anos depois, Connery roubaria de novo a cena como pai de um dos personagens mais icônicos do cinema daquela década: Indiana Jones. Foi a escolha pessoal de Steven Spielberg, diretor do blockbuster “Indiana Jones e a última Cruzada” (1989). Intérprete de Jones, misto de arqueólogo e aventureiro, o ator Harrisson Ford diria que Connery passaria a cumprir para ele, a partir dali, uma referência paterna também fora das telas. Naquele mesmo ano de 1989, o escocês faria outro filme, que é muito menos lembrado do que merece: “Negócios de família”, de Sidney Lumet, outro mestre. Connery é um ladrão escocês, pai de Dustin Hoffman com uma mãe italiana, e avô do filho único destes, muito inteligente, mas que largou a universidade, vivido por Matthew Broderick.

 

Sean Connery e Harrison Ford em “Indiana Jones e a última Cruzada”

 

Com sua influência sobre o neto, o personagem de Connery consegue convencer também o filho, que largara o crime para se estabelecer como respeitável negociante de carne, para um roubo que dá errado. A cena em que o escocês vence a resistência inicial de Hoffman para participar do assalto, cantando e envolvendo-o com o seu charme, puxando-o paternalmente pela lapela do casaco, no meio de um bar de Nova York, é inesquecível. Cinema, como tudo na vida, é questão de gosto. No meu, quem disser que “Negócios de família” é candidato para estar entre melhores filmes já feitos, não mente. Talvez seja o grande papel dramático do escocês, no diálogo com Hoffman e Broderick também em grandes interpretações.

 

Sean Connery, Mathew Broderick e Dustin Hoffman em “Negócios de família”

 

Após estrelar com Connery outro filme de ação e sucesso de bilheteria, “Caçada ao Outubro Vermelho” (1990), de John McThiernan, um galã daquele tempo e ainda na ativa, Alec Baldwin diria do seu encontro com o escocês: “Quando me falaram que eu iria filmar com ele, confesso que não gostei. Não o conhecia pessoalmente, mas sabia de vários outros ex-galãs ressentidos com a perda da beleza física e da popularidade. Aí, ele entrou na sala, para uma reunião. E fiquei muito impactado. Era aquele tipo de sujeito que, mesmo se você não tivesse nenhuma atração física por outros homens, seria magnetizado por sua presença. O carisma dele concentrava todas as atenções, onde quer que estivesse, mesmo se ninguém o conhecesse”.

 

Sean Connery e Alec Baldwin em “Caçada ao Outubro Vermelho”

 

Os anos 1990 ainda trariam sucessos a Connery. A despeito da idade, brilharia em filmes de ação como “Sol Nascente” (1993), de Phillip Kaufman, ao lado de Wesley Snipes; “Lancelot — O primeiro cavaleiro” (1995), de Jerry Zucker, ao lado de Richard Gere; o blockbuster “A Rocha” (1996), de Michael Bay, ao lado de Nicholas Cage e Ed Harris; e o fracasso “Os Vingadores” (1998) — não os da Marvel —, de Jeremiah S. Chechik, ao lado de Ralph Fiennes e Uma Thurman. Nesta mesma década, fez também “O curandeiro da selva” (1992), novamente com John McThiernen, ao lado de Lorraine Bracco e do falecido ator brasileiro José Wilker.

 

Sean Connery e Nicholas Cage em “A Rocha”

 

Da experiência das filmagens na selva amazônica, em um tempo anterior às queimadas criminosas do Brasil de Jair Bolsonaro, Wilker deu seu testemunho sobre o trabalho com Connery: “Entrei atrasado na produção e comecei a ficar constrangido, ao perceber que estava atrasando o ritmo das gravações. Sean me chamou reservadamente e começou a repassar pessoalmente comigo todas as falas. Mesmo sendo um grande astro internacional, era humilde e solidário com os colegas. Ele sabia, como diz um ditado árabe, que ‘a velocidade da caravana é a do camelo mais lento’”.

 

Sean Connery e Rod Brown em “Encontrando Forrester”

 

O último papel dramático de Connery foi em “Encontrando Forrester” (2000), de Gus Van Sant. Em personagem inspirado em J. D. Salinger, autor do clássico romance “O apanhador no campo de centeio”, interpreta um escritor recluso, que é reintroduzido ao mundo por um jovem negro, vivido por Rod Brown. Seu último filme de fato, como não poderia deixar de ser, foi de ação. Em “A Liga Extraordinária” (2003), de Stephen Norrington, empresta sua pele a outro personagem literário: o caçador Allan Quartemain.

 

Sean Connery em seu último filme, “A Liga Extraordinária”

 

Em sua vida longa e plena, apesar de ordenado pela rainha Elizabeth como cavaleiro britânico, Connery foi um militante entusiasmado da independência da Escócia do Reino Unido. Perguntado algumas vezes sobre como se pronunciava corretamente seu nome de batismo, Connery esclarecia com seu sotaque escocês nasalado: “Chôun”. Além de James Bond, emprestou espírito e pele à encarnação de muitos nomes. E morreu dormindo, onde todos somos nós e tantos.

 

Sean Connery exibe seu Oscar em 1988, pela grande interpretação em “Os Intocáveis”

 

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