Opiniões

Crônica — Covid, comércio, Eichmann e a copa das árvores

 

Covid, comércio, Eichmann e a copa das árvores

 

Adolf Eichmann, tenente-coronel da SS na Alemanha Nazista e arquiteto da Solução Final, que na II Guerra matou 6 milhões de pessoas em câmaras de gás e queimou seus corpos em fornos

— É o mundo real, percebe? A Covid impôs a realidade ao mundo! — sentenciou Aníbal na varanda do seu apartamento à tarde, diante da tela do lap top aberto, antes de secar pela metade o copo em um gole longo de Original gelada. Combinou a cerveja real no encontro virtual com o amigo, por conta do novo fechamento dos bares e comércio de Campos, enquanto lá fora a copa das árvores balançava com o vento, tão invisível e real quanto o vírus.

— Está falando de quê? Da pandemia? De Campos e seu comércio, do Brasil de Bolsonaro, dos Estados Unidos de Trump a Biden? — indagou Luiz, estampado na tela do computador do amigo, lambendo do lábio superior o bigode de espuma deixado por sua tulipa de Heineken, na sala do próprio apartamento.

— Estou falando de tudo. Literalmente tudo. E estou só no primeiro copo de cerveja.

— Tudo é muita coisa. E falar de tudo é correr o risco de não falar de nada.

— Como diria Jack the Ripper, vamos por partes. Campos e seus comerciantes, por exemplo. Com o governo Wladimir, entraram o Chabell Kury e o Rodrigo Carneiro no lugar da Andreya Moreira, que comandou o combate à Covid no governo Rafael. A que saiu e os dois que entraram são três médicos infectologistas da mais alta qualidade. Com os quais Campos tem a sorte por ter formado e agora contar.

— E do outro lado tem comerciantes brigando para sobreviver.

— Perfeito. Embora quase todos abracem a neurose anticomunista de Bolsonaro e Trump, sem nunca terem lido Marx ou Górki, para se descobrirem pequeno-burgueses diante do espelho. E se legitimarem no conceito da luta de classes do primeiro. São os anticomunistas de WhatsApp. Como foram antes deles os marxistas de axila, aqueles que botavam o grosso “O Capital” embaixo do braço, mas nunca leram nem o fininho “O Manifesto do Partido Comunista”, para sair gritando palavras de ordem.

— Como diria Lula: “menas”, Aníbal. Não precisava nem puxar do fundo do baú o filósofo barbudo judeu alemão, ou o grande romanista russo. Com Russo no nome, é só lembrar do poeta do rock brasileiro dos anos 80. Não precisa nem gastar todos os nove minutos de “Faroeste Caboclo” para cantarolar ao comércio de Campos e promovê-los de tamanho: “E a alta burguesia da cidade/ Não acreditou na história que eles viram na TV”.

— Não dá para ser raso, Luiz. Renato não era. Tanto que o “Russo” que adotou foi em homenagem a Jean-Jacques Rosseau e Bertrand Russel. Do Planalto Central onde a Legião foi parida à planície goitacá, acho que o fechamento do Piccadilly foi um marco que assustou muito o comércio. Se um restaurante e bar com 30 anos de tradição fechou as portas físicas, o que podem esperar os demais comerciantes da cidade?

— O problema é que, em Campos, no Brasil e no mundo, todo o comércio está na banguela. Não é uma coisa só daqui. Nem as mortes da Covid, com gente caindo como moscas em toda a parte para o vírus.

— Para ficar no nosso canavial, o problema é que a rede de saúde de Campos já está colapsando pela Covid. Desde terça e quinta da semana passada, onde as vagas de UTI chegaram aos 100% de ocupação. E desta vez, diferente do que foi no lockdown parcial de Rafael entre maio e junho, o problema maior agora está na rede privada. Que atende quem tem plano de saúde, como os comerciantes. Quando um deles precisar e não conseguir vaga para internação em UTI, e não precisa nem ser para Covid, mas tiver que mendigar na rede pública um leito para sofrer menos e tentar sair vivo, aí talvez a ficha caia.

 

Paciente com Covid sendo entubado nessa sexta (22) no Centro de Controle e Combate ao Coronavírus de Campos (CCC)

 

— Ou talvez não caia nunca. Sem nenhuma empatia pelo sofrimento do semelhante, provavelmente sociopatas, Trump e Bolsonaro abriram a caixa de Pandora. Depois deles, as pessoas que sempre esconderam seu pior lado, não só perderam a vergonha de mostrá-lo. Agora elas têm orgulho. Literalmente, não usam máscara.

 

Jair Bolsonaro e Donald Trump (Foto: Alan Santos – PR)

 

— Sim, é o orgulho de ser filho da puta. O que não sei é se essas pessoas ficaram assim por conta de Bolsonaro e Trump, ou se sempre foram e só escondiam bem. Essa distorção cognitiva coletiva aparece na humanidade de tempos em tempos. É o conceito que a Hannah Arendt, judia alemã como Marx, chamou de “banalidade do mal”. Ela escreveu após assistir em Jerusalém ao julgamento de Adolf Eichmann, arquiteto da Solução Final para os judeus e outros “inimigos” da Alemanha Nazista, que exterminou 6 milhões deles em câmaras de gás e queimou seus corpos em fornos durante a II Guerra Mundial.

— E por conta disso o Mossad foi catar o Eichmann em Buenos Aires, em 1961, 16 anos após o suicídio de Hitler e a rendição da Alemanha. “Anjo da Morte” do campo de concentração de Auschwitz, o Josef Mengele nunca conseguiram pegar. Acabaria morrendo afogado no Brasil, nadando na praia paulista de Bertioga, só em 1979.

— Exato. Mas Mengele não foi exposto aos olhos do mundo como Eichmann. Que chocou ao ser revelado como homem de cinquenta e tantos anos, careca, com óculos e aspecto insignificante. Impressionou o tal mundo real por não ter pés de cabra, rabo pontudo, cornos de carneiro montês na testa, língua bifurcada de serpente ou tridente na mão.

 

Adolf Eichmann em 1961, após ser sequestrado pelo Mossad em Buenos Aires para ser julgado em Jerusalém e condenado à morte por enforcamento

 

— Verdade. Parecia só mais um sujeitinho medíocre, absolutamente normal, sem nada que chamasse a atenção. Como qualquer tio do WhatsApp de hoje — disse Luiz, enquanto um calafrio lhe subia pela espinha, na direção inversa à do outro gole da sua Heineken gelada.

— Como é que a Arendt definiu mesmo em seu “Eichmann em Jerusalém”? Peraí… — pediu Aníbal, até encontrar no pai dos burros do São Google e ler ao amigo de volta à tela do seu lap top: “Os membros fanatizados são intangíveis pela experiência e pelo argumento; a identificação com o movimento e o conformismo total parecem ter destruído a própria capacidade de sentir, mesmo que seja algo tão extremo como a tortura ou o medo da morte”.

— E o que dizer desses canalhas que fizeram campanha contra a “vacina chinesa” contra a “doença chinesa”, ecoando Bolsonaro, mas furaram a fila dos idosos e dos profissionais da saúde da linha de frente, na primeira etapa da vacinação com a CoronaVac?

— É dizer que o Rosseau de Renato Russo, Marx e o Cristo podem estar errados. Que o homem não é bom por natureza. E que ser filho da puta talvez seja a sua essência.

— Então Biden e seu discurso de união e valores humanos, na direção contrária, vão dar com os burros n’água?

— Espero sinceramente que não. Mas é como disse o ex-presidente conservador George W. Bush, que prestigiou a posse de Biden: “O futuro é algo que veremos amanhã” — citou Aníbal sem recorrer ao Google, matando a Original do copo antes de enchê-lo novamente, atento ao barulho do vento sobre as folhas na copa das árvores.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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