Final Flamengo e Palmeiras na Libertadores por outras torcidas

 

Flamengo de Filipe Luís, Bruno Henrique e Arrascaeta x Palmeiras de Abel, Vitor Roque e Flaco López (Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Quem vencerá a final da Libertadores da América, a partir das 18h de hoje? Na dúvida entre Flamengo e Palmeiras, a certeza: ao apito final do árbitro argentino Darío Humberto Herrera no Estádio Monumental de Lima, um dos dois clubes será o primeiro tetracampeão da América do Sul na história do futebol brasileiro.

Primeira e quarta maiores torcidas do país, o Flamengo será empurrado por 26% dos brasileiros, mais de 55 milhões rubro-negros, contra os 7% da população, quase 15 milhões de almas, a favor do Palmeiras. O clube carioca vem melhor no Brasileiro e está perto de conquistar este título, enquanto o paulista tem uma campanha mais sólida na Libertadores.

Se quem é Flamengo ou Palmeiras não pensa em outra coisa, como enxergam e projetam a final de hoje os torcedores de outros grandes clubes brasileiros? Atrás dessa visão, a Folha ouviu uma botafoguense, uma vascaína, uma tricolor carioca, um corinthiano, um tricolor paulista, um atleticano, um cruzeirense e um tricolor gaúcho.

 

Guiomar Valdez

Guiomar Valdez, torcedora do Botafogo, historiadora e professora do IFF — “A estética, a troca inteligente, o talento individual e o gol fazem do futebol um esporte encantador! Ah, a torcida, não violenta, é uma obra-prima! Acompanhando a Libertadores neste ano de 2025, apesar de alguns percalços, encontro no Flamengo as características do que relatei acima. Neste sábado minha torcida é para ele. O Palmeiras não me empolgou. Entretanto, aprendi, sofrendo, com o meu Botafogo, que ‘o jogo só acaba quando termina’. Estamos tratando de uma final de Libertadores, em apenas um jogo, ambos os times lutando pelo tetra, não há favoritismo para mim. No ano passado, em 30 de novembro, o Fogão conquistou o seu primeiro título com louvor! Que dia! Em 29 de novembro de 2026, fica o meu desejo sincero para que o Flamengo alcance o seu tetracampeonato.”

 

Mariana Felix

Mariana Felix, torcedora do Vasco e jornalista — “Estou apostando no Verdão. Mesmo que a situação seja preocupante para o time comandado por Abel Ferreira, e contrariando o favoritismo do time rubro-negro, sigo apostando que o tetracampeonato vai para o Palmeiras. Será um jogo difícil, uma partida dura e disputadíssima, já que o campeonato foi disputado ponta a ponta pelos dois times, mas acredito na capacidade do Abel em mobilizar o elenco e fazer acontecer, já que os rivais estarão em um campo neutro, com grande apoio das torcidas ao elenco. Claro que é um jogo em que tudo pode acontecer, mas na partida decisiva, os jogadores vão entrar em campo deixando tudo que passou nos jogos anteriores para trás, entrando na partida focados no resultado.”

 

Silvana Siqueira

Silvana Siqueira, torcedora do Fluminense, poeta e professora — “Este é o final de semana mais esperado por duas grandes torcidas: Palmeiras e Flamengo.  Em busca do tetracampeonato da Libertadores, será um evento que já mobiliza brasileiros de todos os times. Entre apostas, achismos, opiniões divergentes e palpites de quem sairá com a glória eterna, eu torço pela vitória do Flamengo. Os dois times têm um bom elenco. Flamengo dispõe de Bruno Henrique no ataque e o meia Arrascaeta, que vêm levantando a torcida. Nos últimos 10 jogos, o Flamengo ganhou 6, empatou 2 e perdeu 2. Já o Palmeiras caiu de rendimento: nas últimas 10 partidas, venceu 3 jogos, empatou 3 e perdeu 4. Estatisticamente, aposto na vitória do Flamengo. Na minha família somos cinco tricolores, contando com minha mãe (in memoriam) e umas dezenas de flamenguistas: um eterno Fla-Flu.”

 

João Paulo Granja

João Paulo Granja, torcedor do Corinthians e advogado —  “Reeditando 2021, os dois melhores elencos, os maiores orçamentos e a segunda e quarta maiores torcidas do Brasil, este último quesito na visão deste apaixonado corinthiano, Palmeiras e Flamengo novamente se enfrentam para definir o melhor time da América, com ligeira vantagem para os rubro-negros, diante do comportamento das equipes nos últimos jogos. Em 2021, um erro individual do então flamenguista Andreas Pereira sacramentou o resultado. A expectativa hoje é que também por um erro individual, de alguém vestido de verde, a exemplo do ex-corinthiano Carlos Miguel, tenhamos a definição do resultado.”

 

Victor Queiroz

Victor Queiroz, torcedor do São Paulo e promotor de Justiça — “Sou são-paulino desde a concepção e em qualquer lugar do universo, ainda que admita ter alguma simpatia pelo Madureira no RJ. Por isso não torço pelo Flamengo, com quem o São Paulo tem muitos pontos comuns, especialmente no âmbito mundial, além de parcela das cores. E muito menos pelo Palmeiras. Mas nessa passageira fase de aridez de títulos do tricolor paulista, e gostando do futebol jogado de modo vistoso, assim como ensinava Telê Santana, me parece muito mais justo que o Flamengo seja campeão da Libertadores em 2025. Ambos têm seus méritos, excelentes treinadores, grandes elencos e numerosos torcedores, mas acho que o rubro-negro joga muito mais bola do que o alviverde, e não adianta apelar para a sorte, o azar ou o assoprador de apito. Simples assim. Necessariamente haverá um tetracampeão da Libertadores em 2025. Tá bom, tenho que aceitar. Mas o caminho para haver um tricampeão mundial, ainda mais um que leva impiedosos seis gols de outro tricolor, como apenas o meu sacrossanto tricolor é, será ainda muito longo.

 

Danniel Lincoln

Danniel Lincoln, torcedor do Atlético Mineiro e administrador de empresa — “A final da Libertadores entre Flamengo e Palmeiras será acompanhada por torcedores de diversos clubes do Brasil, inclusive eu, que sou torcedor do Atlético Mineiro, mas não vou torcer para nenhum dos dois times. Entendo que o Flamengo chega para o jogo como favorito pelo momento vivido do time, elenco mais completo e um ótimo treinador. Porém não posso deixar de citar que o Palmeiras é um ótimo time. Mas, pelo lado pessoal, espero que o Palmeiras seja campeão pela rivalidade de longa data entre Galo e Flamengo.”

 

Ricardo Garcia

Ricardo Garcia, torcedor do Cruzeiro, engenheiro agrônomo e professor da Uenf — “A final da Libertadores reúne exatamente o que o torcedor espera de um grande espetáculo: dois times que não apenas tiveram as melhores campanhas do torneio continental, mas que também vêm sustentando atuações sólidas no Campeonato Brasileiro de 2025. Flamengo e Palmeiras chegam com total mérito, representando hoje o que há de mais competitivo e consistente no futebol sul-americano. Naturalmente, minha torcida se inclina ao Palmeiras. A ligação histórica entre Cruzeiro e Palmeiras, ambos originados como Palestra Itália, cria um laço afetivo que atravessa gerações. Ainda assim, reconheço que a partida promete equilíbrio absoluto. É uma final que valoriza o futebol da América e que deve ser decidida nos detalhes, por quem souber transformar sua grande campanha em um último jogo perfeito.”

 

Eron Simas

Eron Simas, torcedor do Grêmio e juiz de Direito — “Como torcedor de um clube com grande tradição em torneios sul-americanos, não há como negar o incômodo com essa dominação continental de Flamengo e Palmeiras, clubes que somam quatro dos últimos seis títulos da competição e que se aproximam do feito de se tornar o primeiro clube brasileiro tetracampeão da América do Sul. Mas isso é o reflexo da superioridade dessas equipes e do sucesso de projetos de gestão financeira sustentáveis, que deveriam ser modelo aos demais. Parece-me que o Flamengo ostenta leve vantagem, pelo bom momento no Campeonato Brasileiro. O Palmeiras, por sua vez, vem de resultados negativos e da perda da liderança do Brasileirão. De toda forma, tratando-se de jogo único e equipes com elencos estrelados, não acredito que esses fatores sejam suficientes para gerar favoritismo. Tudo pode acontecer.”

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Hevertton Luna — Sonho de garoto pequeno lá dos anos 2000

 

 

Hevertton Luna, jornalista

Sonho de garoto pequeno lá dos anos 2000

Por Hevertton Luna

 

No começo dos anos 2000, eu, pequeno garoto torcedor daquele Flamengo de Dimba, China e Negreiros, achava que a Libertadores era um bicho-papão. A gente até cantava “Ihhhh, Libertadores, qualquer dia tamo aí”. Mas, quando aparecíamos, era sempre com campanhas tímidas.

Mesmo assim, o Flamengo forjou boa parte das minhas melhores memórias ao longo desses quase 30 anos. Meus amigos, minha rotina e minha fé: tudo passa pelo Mengo.

E agora chegamos aqui. Mais uma semana decisiva, mais uma final do maior torneio da América.

Hoje, calejado pela vida e pelo próprio Flamengo, vou ver, se Deus quiser, a minha quarta final de Libertadores. Meu Deus!!!… Se for sonho, não quero acordar. Se eu voltasse no tempo e contasse isso para o menino do Flamengo do começo dos anos 2000, ele riria da minha cara.

Mas é real. E é Flamengo!

 

Acusação de racismo contra petista Gilberto é arquivada

 

Gilberto Gomes (de camisa verde, ao centro) após passar dois dias preso por acusação de racismo que o Ministério Público pediu e o juízo da 3ª Vara Criminal de Campos arquivou (Foto: Rodrigo Silveira/Folha da Manhã)

 

“Essa decisão só reforça o que dissemos desde o momento da prisão: fui vítima de uma mentira que resultou em perseguição política, sofri uma série de arbitrariedades, desde a condução inadequada dos guardas municipais até o absurdo na delegacia onde fui preso sem nenhum flagrante ou testemunha que apoiasse a alegação do indivíduo que me denunciou.” Foi como Gilberto Gomes, secretário de Comunicação do PT de Campos, reagiu ao pedido do Ministério Público (MP) de arquivamento da acusação de injúria racial que sofreu. E foi acolhido pelo juiz titular da 3ª Vara Criminal de Campos, Glaucenir Silva de Oliveira.

O fato aconteceu em bate-boca (confira aqui) entre Gilberto e o militante monarquista Hugo Hebert, no desfile do último 7 de Setembro no Cepop. De onde Gilberto saiu conduzido por guardas municipais, prestou depoimento na 134ª DP, sendo autuado e preso em flagrante por injúria racial. Para depois ser conduzido à Casa de Custódia, de onde foi liberado (confira aqui) no dia 9 daquele mês.

— Ressalte-se que a versão do sr. Hugo não encontra respaldo nos outros elementos acostados aos autos, tal como a mídia acostada aos autos, na qual se verifica, em clara contradição ao depoimento prestado em sede policial, dialogando com a versão apresentada pelo indiciado Gilberto e pela testemunha Eduardo Peixoto, o sr. Hugo Hebert concedendo entrevista e esclarecendo que a fala do investigado foi “um preto monarquista, monarquista?” — justificou o promotor de Justiça Arthur Keskinof Zanfelice em seu pedido de arquivamento acatado pela 3ª Vara Criminal de Campos.

Advogado de Gilberto, João Paulo Granja também se manifestou sobre o acolhimento do Judiciário ao pedido de arquivamento do caso, ao qual ainda cabe recurso da suposta vítima à instância superior do MP:

— Por decisão da 3ª Vara Criminal de Campos, foi acolhido o parecer do Ministério Público e determinado o arquivamento, pela ausência fundamento jurídico para o ajuizamento de ação penal, do inquérito policial, instaurado para investigar suposta injúria com cunho racial, atribuída a Gilberto Gomes. Demonstrando que, na discussão travada no desfile de 07 de setembro, as palavras utilizadas pelo Gilberto não se enquadraram no ilícito que lhe foi atribuído, restaurando a verdade dos fatos ocorridos.

Outro advogado de Gilberto, o criminalista Alex Ribeiro Cabral também se manifestou sobre o pedido de arquivamento do caso, acolhido pela Justiça:

— Conforme havíamos manifestado no dia posterior ao ocorrido, realmente não se tratava de hipótese de injúria racial, pela falta de elemento básico ao crime, qual seja o ânimo do agente de ofender a honra da vítima, atribuindo a ela uma característica negativa que tenha relação com a cor, raça, etnia etc. Desde o início, portanto, era clara a não ocorrência de injúria racial. Em verdade, sequer deveria ter ocorrido a prisão em flagrante.

Gilberto também agradeceu ao papel dos advogados João Paulo e Alex em sua defesa. E disse que pretende buscar na Justiça reparação pelos danos causados à sua imagem:

— Vamos buscar reparação dos danos que sofri e todo constrangimento. Sempre tive uma vida honesta e sigo firme defendendo meus ideais de justiça social e luta antirracista. O arquivamento do caso pelo MP é uma vitória, mas nós provamos que houve má fé na denúncia, que existe contradição no depoimento. Por isso vamos analisar com nossos advogados, Dr. Alex Cabral e Dr. João Paulo Granja, os quais eu agradeço e destaco a atuação impecável, quais são os próximos passos, pois entendo que se houve denunciação caluniosa, que é o crime de imputar falsamente a alguém a prática de algo ilícito, isso deve ser denunciado e apurado pela Justiça.

 

Após Bolsonaro e Trump, Lula volta a crescer nas pesquisas

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Após cair em intenção de voto (confira aqui, aqui, aqui e aqui), por classificar no dia 4 como “matança” a megaoperação policial no Rio do dia 28, com amplo apoio popular (confira aqui, aqui, aquiaqui e aqui), o presidente Lula (PT) parece voltar a se recuperar nas pesquisas a 2026. Em pesquisa MDA divulgada ontem (25), Lula liderou fora da margem de erro todos os quatro cenários de 1º turno e os oito do 2º turno.

Efeitos Bolsonaro e Trump — Feita com 2.002 eleitores, com margem de erro de 2,2 pontos para mais ou menos, entre 19 e 23 de novembro, a pesquisa MDA pegou em seus dois últimos dias de coleta os reflexos iniciais da prisão preventiva de Bolsonaro (confira aqui), na manhã do dia 22. Como também pegou o recuo dos EUA de Donald Trump (confira aqui), no dia 20, nas tarifas comerciais ao Brasil, fato favorável a Lula.

Lula sobe, Bolsonaro desce no 1º turno — Nas simulações de 1º turno em consulta estimulada, Lula bateu Bolsonaro, inelegível até 2060, por 38,8% de intenção a 27,0%. Hoje, são 11,8 pontos de vantagem ao petista. Ele cresceu, na série histórica MDA, 3 pontos de setembro a novembro. São os mesmos 3 pontos que Bolsonaro perdeu no mesmo período.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Tarcísio, Michelle e Eduardo batidos no 1º turno — Nas outras três simulações de 1º turno, Lula bateu ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (REP), por 42,0% a 21,7% (20,3 pontos de vantagem). Contra a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), o petista teve 42,7% a 23% (19,7 pontos de vantagem). E 42,7% a 16,4% (26,3 pontos de vantagem) contra o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL).

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Lula também amplia ao 2º turno — Nas simulações de 2º turno, Lula hoje não só bateria um Bolsonaro inelegível por 49,2% a 36,9% (12,3 pontos de vantagem), Tarcísio por 45,7% a 39,1% (6,6 pontos de vantagem) e Michelle por 49,1% a 35,6% (13,5 pontos de vantagem). Na série MDA, o petista também aumentou sua vantagem entre setembro e novembro sobre Bolsonaro e Tarcísio.

Sobre Ratinho, Zema e Caiado no 2º turno — Nas outras simulações de 2º turno, Lula bateria os governadores do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), por 46% a 39% (7 pontos de vantagem); de Minas, Romeu Zema (Novo), por 47,9% a 33,5% (14,4 pontos de vantagem); e Goiás, Ronaldo Caiado (União), por 46,9% a 33,7% (13,2 pontos de vantagem). De setembro a novembro, Lula abriu a vantagem sobre Ratinho e Caiado e estabilizou com Zema.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Lula amplia também sobre Ciro — Na simulação de 2º turno restante da MDA, Lula bateria também seu ex-ministro Ciro Gomes (PSDB), por 44,1% a 35,1%. São 9 pontos de uma vantagem do petista que cresceu 6 pontos desde setembro.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Bolsonaros campeões na rejeição — Na rejeição, fundamental ao 2º turno, Bolsonaro tem 60,1% de brasileiros que não votariam nele de jeito nenhum.  Ele só foi superado pelo filho Eduardo, com 62,6% no índice negativo. Atrás dos dois vieram Lula (47,8% de rejeição), Ciro (43,2%), Tarcísio (35,7%) e Ratinho Jr. (34,5%).

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Aprovação de governo — Impulsionado pelos fatos recentes de Bolsonaro e Trump, Lula também melhorou sua aprovação de governo. Entre setembro e novembro, os que aprovam cresceram 4,1 pontos, de 44,0% aos atuais 48,1%, enquanto os que desaprovam oscilaram 0,5 ponto para baixo, de 49,3% aos atuais 48,8%. A desaprovação ainda tem maioria numérica, mas em empate técnico bem próximo com a aprovação.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

William Passos, geógrafo com especialização doutoral em estatística no IBGE

Análise do especialista — “A MDA de novembro de 2025 estimulou quatro cenários de 1º turno a presidente, com Jair Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, Eduardo Bolsonaro e Michelle Bolsonaro na 2ª colocação. E testou oito cenários de 2º turno contra Bolsonaro, Tarcísio, Ratinho Jr., Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Ciro Gomes, Eduardo e Michelle. Em todos os cenários, Lula lidera acima da margem de erro”, resumiu William Passos, geógrafo com especialização doutoral em estatística no IBGE.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

 

Questionável, inquestionável e inédito nas prisões por golpe

 

Bolsonaro flagrado por câmera dentro da sede da Polícia Federal de Brasília no domingo, onde está preso desde sábado, após tentar violar sua tornozeleira eletrônica com um ferro de solda (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Bolsonaro da preventiva ao início da pena

Preso preventivamente no início da manhã de sábado (22), após confessamente tentar violar sua tornozeleira eletrônica, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi transferido no mesmo dia da sua casa à Superintendência da Polícia Federal em Brasília. Onde, desde ontem (25), passou a cumprir sua pena de 27 anos e 3 meses de prisão, por tentativa de golpe de Estado.

 

O questionável e o inquestionável

Há questionamentos legítimos (confira aqui, aqui, aqui e aqui) à condução do julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) que condenou Bolsonaro (confira aqui) em 11 de setembro. Mas nenhum dos réus e advogados negaram no processo que a tentativa de golpe existiu. E a prisão preventiva de um condenado em prisão domiciliar, monitorado por tornozeleira eletrônica e que tenta violá-la, é inquestionável.

 

Histórico golpista do Brasil

Para além da parte jurídica, há questões históricas maiores. A primeira? Do golpe militar de Estado que fundou a República em 15 novembro de 1889 à Invasão da Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro 2023, o Brasil teve sete golpes consumados e 16 tentativas. O que dá ao país, em 134 anos de República, a média de um golpe de Estado ou tentativa a cada 5,8 anos.

 

Inédito à República

Incluído Bolsonaro, capitão da reserva do Exército, 17 militares já foram condenados (confira aqui) na tentativa de golpe de Estado: um almirante da Marinha, três generais, três coronéis, seis tenentes-coronéis, dois majores e um subtenente do Exército. Na primeira vez que militares pagam por seus crimes contra a democracia no Brasil. É um didatismo inédito à República.

 

Generais Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira e o almirante Almir Garnier foram presos ontem

 

Três generais e almirante presos

Ontem, com a conclusão do processo no STF, também foram presos os generais Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira e o almirante Almir Garnier, respectivamente, ex-ministros do GSI, da Defesa e ex-comandante da Marinha. O general Braga Netto já estava preso desde 14 de dezembro. São as mais altas patentes presas por tentativa de golpe na História do Brasil.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Com Bolsonaro, Brasil prendeu quatro presidentes em 7 anos

 

Jair Bolsonaro, Luiz Inácio Lula da Silva, Michel Temer e Fernando Collor de Mello, quatro presidentes do Brasil presos nos últimos 7 anos e meio (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Quatro ex-presidentes presos em 7 anos

Há uma segunda questão histórica que deveria pesar sobre as jurídicas e a torcida política pessoal. Nos últimos 7 anos e meio, desde que Lula (PT) foi preso em 7 de abril de 2018, após ter habeas corpus negado pelo STF, Bolsonaro foi o 4º ex-presidente encarcerado. O que dá uma média de um a cada 1 ano e 8 meses.

 

Além de Bolsonaro e Lula, Temer e Collor

Completam a lista os ex-presidentes Michel Temer (MDB), preso em 21 de março de 2019, pelo hoje compulsoriamente aposentado juiz federal de 1ª instância Marcelo Bretas, e solto 4 dias depois. E Fernando Collor (sem partido), preso em 25 de abril deste ano pelo STF e posto em prisão domiciliar em 1º de maio, na qual se encontra. E sinaliza o rumo futuro a Bolsonaro.

 

Quem elegeu os quatro presidentes presos?

Em qualquer democracia representativa da Terra em que quatro ex-presidentes sejam presos em 7 anos e meio, o problema demanda foco histórico. Está muito mais no conjunto da sociedade que os elegeu por voto popular (incluído o vice, que assumiu após impeachment com apoio das ruas) do que em indivíduos apeados do poder e seus eventuais “mal feitos”.

 

Pedagogia necessária, mas dia triste

Além dos remédios para tentar justificar um alegado surto contra a tornozeleira, o Brasil parece demandar tratamento político à base de lítio e de mudanças no estilo de vida. Sempre recomendáveis a transtorno bipolar. A despeito da necessária pedagogia antigolpista do “quem tem, tem medo”, a prisão de Bolsonaro no sábado foi um dia triste à República.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Democracia e economia: prisão de Bolsonaro é só mais um capítulo

 

 

Da Folha ao Estadão

Reproduzida para abrir hoje a coluna, parte do texto acima foi publicada (confira aqui) segunda (24) no blog Opiniões. No dia seguinte (25), o Estadão trouxe a mesma linha de análise no artigo (confira aqui ou aqui) “A prisão de Bolsonaro é um sintoma de um problema muito maior”, do jornalista Rodrigo da Silva. Em que ele também coloca como nossa instabilidade política custa caro na economia.

 

Rodrigo da Silva, jornalista e articulista do Estadão

O custo econômico de derrubar governantes

“Quando os economistas medem quantas vezes um país troca abruptamente de governo, eles percebem que isso cobra um preço bem alto no crescimento. Se um país derruba governantes com frequência (Collor sofreu impeachment em 1992 e Dilma Rousseff, em 2016), cada troca está associada à queda de 2,4% de crescimento no PIB per capita”, revelou Rodrigo da Silva.

 

Bagunça política vira bagunça econômica

“Isso acontece, em parte, porque quando o país está preso a um clima de tensão, com greves, protestos e ameaças de golpe e impeachment, quem tem dinheiro fica com medo do futuro, e com isso adia os investimentos, cancela projetos e manda o dinheiro para fora do país. A bagunça política vira bagunça econômica”, seguiu o jornalista.

 

Prisão de Bolsonaro é só mais um capítulo

“No fim, é isso que a prisão de Bolsonaro escancara. O nome mais popular da direita brasileira está atrás das grades. E este é só mais um capítulo de uma longa história de instabilidade institucional que atravessa fronteiras, séculos e regimes. Uma história que parece longe de acabar”, concluiu o texto do Rodrigo da Silva no Estadão.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Felipe Fernandes — Frankenstein entre o belo e o grotesco

 

 

Felipe Fernandes, cineasta publicitário e crítico de cinema

Frankenstein — Entre o belo e o grotesco

Por Felipe Fernandes

 

Considerada por muitos como a primeira ficção científica da história, “Frankenstein” foi escrito pela britânica Marry Shelley e publicado no ano de 1818, quando ela tinha apenas 19 anos. O livro se tornou um clássico da literatura mundial, sendo muito influente na literatura e na cultura ocidental, influência que cresceu com o advento do cinema, tendo sua versão mais famosa lançada em 1931, em um filme que consolidou de vez a figura da criatura no imaginário popular. E fez do livro uma das obras mais adaptadas para a sétima arte, além de constantemente referenciada em todo o tipo de situação. É o tipo de história que mesmo que você nunca tenha lido o livro ou assistido algumas das várias adaptações, você vai reconhecer algumas de suas referências.

Eu confesso que adoro o livro e sou aficionado pela história, talvez por isso, sempre eu lia ou via uma entrevista do cineasta mexicano Guillermo Del Toro falando de seus sonho de criança em levar às telas sua versão da obra, eu ficasse tão animado. Além da paixão pelo material original, as características do cinema de Del Toro, que começou no cinema de horror e sempre soube misturar muito bem horror com fantasia, me fizeram acreditar que um filme dirigido por ele, tinha potencial para ser uma das grandes versões do livro lançado a mais de 200 anos.

Escrito pelo próprio cineasta, o longa abre com uma estrutura similar ao material original, mas posteriormente se divide entre dois capítulos, um narrado pelo cientista Victor Frankenstein (Oscar Isaac) e outro pela criatura (Jacob Elordi). Me chamou a atenção como Del Toro reforça a ligação do protagonista ainda criança com seu pai. A ligação afetiva com a mãe é um dos pontos cruciais da obra e está diretamente ligada à obsessão do personagem de lutar contra a morte. Já seu relacionamento com o pai ganha espaço, o pai de Victor é retratado como uma figura rígida, controladora e emocionalmente abusiva, que força o filho a seguir seu caminho na profissão de médico, algo que vai ganhar consequências posteriores na história e na relação de Victor com sua criação.

A criação do monstro é retratada em uma parte considerável da história. Provavelmente na busca por uma espécie de realismo, um mal do cinema mainstream moderno, o filme busca explicar toda a situação. Victor deixa de ter um mentor científico e passa a ter um investidor, um personagem original interpretado por Christopher Waltz, que é um magnata armamentista que vê no experimento de Victor uma oportunidade e passa a financiá-lo. É da interação entre eles que surgem as explicações, buscando uma espécie de validação científica.

Nessa mistura de horror com fantasia, Del Toro deixa de lado o aspecto grotesco da obra e aposta em um visual mais estilizado, ainda que os elementos góticos estejam presentes, todo o processo da criação do monstro acontece em um cenário bonito, com objetos simbólicos, é tudo muito grandioso, com cores intensas, quebrando a sensação degradante do experimento. Estamos falando da construção de uma criatura que é formada pela mistura de diferentes corpos. É uma criatura que deveria ser toda retalhada, em um experimento que desafia as leis naturais, quesitos que ficam em segundo plano em função de uma beleza estética que me pareceu estranha, esvaziando emocionalmente um momento muito marcante da narrativa.

Essas características também estão presentes no visual da criatura. Como mencionei, o monstro é uma criatura assustadora, cuja mera imagem causa desconforto e repulsa a quem o encontra. Ao menos, deveria ser assim. A nova versão do monstro passa longe dessa descrição. O personagem interpretado por Elordi parece um boneco anatômico estilizado. Um personagem de visual muito pobre, vindo de um autor reconhecido por sua criatividade visual, é uma escolha que surpreende negativamente. É um monstro de corpo simétrico, expressivo, sem falar em outras mudanças, que deixam o personagens com características sobre-humanas, que também contribuem para o enfraquecimento dramático do personagem.

Um ponto positivo, é a relação de Victor com a criatura, algo bem explorado pelo filme, que resgata elementos da relação abusiva de Victor com o pai para mais que justificar, mas esclarecer a forma como o personagem lida com sua criação. Todos os cuidados que Victor precisa ter com o monstro, passando pelo processo de aprendizagem, são características de uma relação entre pai e filho e Victor nunca vê a criatura dessa forma. Ela é o resultado de um experimento que foi bem sucedido. Victor queria criar vida através da morte e ele consegue. O que fazer com essa vida depois, não é algo que fazia parte do plano.

Outra personagem que sofre muitas alterações e perde espaço é Elizabeth (Mia Goth). Aqui ela se torna o foco do amor impossível para criador e criatura, mas diferente de Victor, ela não tem interesse pela morte. Ela vê beleza na vida. Por isso seu encantamento com a criatura e com toda sua ingenuidade e pureza. É uma personagem com mais personalidade que no material original, porém, com menos relevância para a trama.

O filme tem um sério problema de ritmo. Se a construção da criatura e até mesmo sua parte de aprendizado na fazenda, que é o grande ponto fraco do livro e de todas as adaptações que eu vi,  aqui não é diferente: após um determinado despertar da criatura, o filme fica corrido. Toda a parte final da história é apressada, o que torna difícil aceitar determinadas decisões narrativas.

Acredito que a decisão de tornar o monstro mais bonito e expressivo, tenha a ver com o fato de Del Toro buscar construir uma versão que busque sentimentos diferentes e eu, particularmente, respeito isso. Ele busca pela construção de uma criatura mais emocionalmente complexa, que busca mais que vingança por seu criador. O horror filosófico dá lugar a um drama existencial que está presente no cerne da história, mas aqui aponta para um lado sentimental que soa contraditório com muito do que acompanhamos até ali.

“Frankenstein” é uma grande tragédia em sua essência e se muito dela vem do sentimento de solidão perante ao mundo. Para Del Toro esse abandono está presente no abandono emocional. O desfecho aqui traz sensações conflitantes, sentimentos de reconciliação e aceitação, de um monstro que insiste em escolher a vida, mesmo após conhecer o pior lado da humanidade. É um final emotivo, de esperança, quase um novo renascimento.

O caminho escolhido por Del Toro é o de um cineasta que escolheu olhar uma história sombria sobre um prisma mais leve. Essa humanização de monstros é recorrente no cinema do diretor, que aqui foi mais fiel às suas convicções que a obra original, uma decisão coerente e admirável, que para o bem ou para o mal, traz um diferencial para a adaptação.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Confira o trailer do filme, disponível na Netflix: