
Já na conta dos dedos para a urna do 1º turno presidencial de 4 de outubro, este texto é escrito após o estudo das centenas de páginas das cinco pesquisas presidenciais da semana: Nexus, Quaest, AtlasIntel, Real Time Big Data e Datafolha. E o resultado, como mais detalhado em números na coluna Ponto Final de hoje (confira aqui e aqui), é absolutamente imprevisível. Ao 1º e ao 2º turno.
Para Lula (PT) vencer o provável 2º turno contra Flávio Bolsonaro (PL), marcado para 25 de outubro, terá que passar no 1º turno não só à frente, mas com gordura. Para ser favorito, teria que levar o 1º turno por 5 pontos de vantagem nos votos válidos. Com 4 pontos, seria cara ou coroa. Por 3 pontos a menos de vantagem, o favorito ao 2º turno final seria Flávio.
Se Flávio ficar à frente de Lula no 1º turno, por um voto que seja, o 2º turno poderá ser só para cumprir tabela. Fundamentalmente porque os demais candidatos a presidente que pontuam são Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo). E, do centro à extrema, estão todos à direita, em espectro próximo a Flávio.
Na média entre as pesquisas, dois entre cada 10 dos eleitores no 1º turno dos candidatos da chamada 3ª via não votarão nem em Lula nem em Flávio no 2º turno. Mas, entre os que fizerem uma opção no turno final, a migração tende a ocorrer, também na média das pesquisas, na proporção de 6,5 para Flávio e 3,5 para Lula entre cada 10 eleitores.
Mesmo que Lula fique à frente por 3 pontos a menos dos votos válidos no 1º turno, e mesmo que nunca um candidato a presidente do Brasil em 2º lugar no 1º turno tenha virado depois a eleição, Flávio poderia repetir aqui o efeito Chile. Onde o ultradireitista José Antonio Kast se elegeu presidente no 2º turno, em 2025, mesmo atrás da comunista Jeanette Jara no 1º turno.
No turno inicial do Chile, Jara liderou com 26,85% dos votos válidos, contra 23,92% de Kast, 2,93 pontos atrás. Ocorre que, na disputa do turno final, ele herdou a maioria dos votos dados a outros candidatos de direita: Franco Parisi (19,71%), Johannes Kaiser (13,94%) e Evelyn Matthei (12,46%).
Diferente do Chile, nenhum presidenciável da 3ª via no Brasil tem dois dígitos nas pesquisas. Por isso Flávio não chegará perto dos 16,32 pontos de vantagem (58,16% a 41,84%) com que Kast varreu Jara no 2º turno. A nascente aqui seria bem menor, mas a direção da afluência seria a mesma. Só uma vantagem mínima de 4 pontos de Lula no 1º turno poderia barrá-la.
Além da afluência natural da direita a Flávio em um 2º turno, Lula tem outra ameaça: a faixa etária e de renda da sua eleitora majoritária. Que, por estar na faixa de 60 anos ou mais e na de renda familiar mensal entre até 1 e até 2 salários mínimos, tende a maior abstenção por dificuldade de locomoção.
“Se a eleição fosse realizada hoje ou amanhã, o favorito seria Flávio Bolsonaro. No agregador, o resultado é de 44% a 44%, mas a abstenção afeta mais os eleitores de baixa renda e baixa escolaridade. E mais de 40% dos eleitores de Lula têm esse perfil”, explicou esta semana o cientista político Antonio Lavareda, entre os maiores especialistas eleitorais do país.
A eleição de governador em estados-chave também deve influir na de presidente. Se Tarcísio de Freitas (REP) se reeleger governador de São Paulo sobre Fernando Haddad (PT) ainda no 1º turno, como as pesquisas indicam, pode sublimar o fato de ter sido preterido pelos Bolsonaro numa candidatura presidencial mais sólida que a de Flávio. E abraçar este ao 2º turno.
Se São Paulo é o maior colégio eleitoral do Brasil, o estado Rio de Janeiro é o 3º. Onde seria muito importante a Lula que Eduardo Paes (PSD) se elegesse governador já no 1º turno. E ficasse livre para abraçar o petista no 2º turno presidencial. O que Paes dificilmente fará se tiver que disputar o seu próprio 2º turno contra o bolsonarista Douglas Ruas (PL).
No 2º colégio eleitoral do Brasil, Minas Gerais, o favorito nas pesquisas a governador é Cleitinho (REP). Ele já disse apoiar Flávio a presidente, mas o PL tem seu candidato a governador, Flávio Roscoe, sem chance real. Porém, em um 2º turno, Cleitinho deve enfrentar Patrus Ananias (PT), o que espelharia nos mineiros a disputa nacional que costumam decidir.
Bastião petista, o Nordeste é, em região, o 2º colégio eleitoral do Brasil, atrás só do Sudeste. As pesquisas não deixam dúvidas: Lula será o mais votado na região. Como nos seus estados eleitoralmente mais densos: Bahia, Pernambuco e Ceará. Só que, nos três, os candidatos do PT ou apoiados por Lula a governador estão numericamente atrás nas pesquisas.
Pode votar em Lula quem votar a governador em ACM Neto (União) na Bahia, contra Jerônimo Rodrigues (PT); em Raquel Lyra (PSD) em Pernambuco, contra João Campos (PSB); ou em Ciro Gomes (PSDB) no Ceará, contra Elmano Reis (PT). Mas se a oposição vencer essas três eleições muito apertadas, Lula pode sair do Nordeste com uma vantagem menor do que teve em 2022.
Mesmo envelhecidos, Lula e o PT têm a máquina na mão e são profissionais em eleições presidenciais. E Flávio é um candidato muito fraco, como reconhece boa parte dos seus eleitores. O 2º turno parece certo nas pesquisas, mas se uma improvável definição em 1º turno houver, ela hoje poderia estar menos distante de Flávio do que de Lula.
“O voto útil já está ocorrendo em boa medida e beneficiando Flávio. Basta comparar o avanço dele com o recuo, no agregador, dos candidatos de menor expressão. A hipótese de a eleição terminar no 1º turno, porém, é remota: a probabilidade é inferior a 2%”, quantificou Lavareda.
Pregar “voto útil” no 1º turno, aos lulopetistas, é um tiro no pé. Porque os demais candidatos que pontuam nas pesquisas são de direita. Que é muito maior que Flávio, como Lula é bem maior que a esquerda brasileira. Em outra batalha de rejeições, como em 2022, o voto popular só elegerá maior em 2026: o antibolsonarismo ou o antipetismo.
Diante da imprevisibilidade das pesquisas ou sobre qual lado recairá o novo vazamento do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, a certeza antecipada: o Brasil sairá das urnas tão ou mais dividido do que entrou. E com um presidente no direito de indicar, ao mínimo, quatro novos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), nu como nunca (confira aqui, aqui e aqui) em 135 anos.
Publicado hoje na Folha da Manhã.
