Com Hevertton Luna
Lula (PT) tem de 20% a 30% de chance de virar a eleição presidencial, que tem Flávio Bolsonaro (PL) como “franco favorito”. Mas mesmo que o petista consiga se reeleger, teria muita dificuldade de governar com o Congresso conservador eleito no último domingo (4). Se Flávio ganhar, uma reforma constitucional deve ser feita para colocar cada um dos três Poderes da República, sobretudo o Supremo Tribunal Federal (STF), “em sua caixinha”.
Em relação ao governador eleito do RJ, Douglas Ruas (PL), ele chegará ao cargo com pouco apoio popular, apesar de liquidar a fatura no 1º turno após os votos do ex-governador Anthony Garotinho (REP), que concorreu sub judice, serem considerados nulos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Sob a sombra das casuarinas de Chapéu de Sol no início de tarde do último sábado (10), essas foram as observações do próprio Garotinho, ao lado da esposa e como ele ex-governadora e ex-prefeita de Campos Rosinha. Ambos também falaram sobre a relação do pai com o filho Wladimir, ex-prefeito de Campos eleito deputado federal. “O que eu mais aprendi a fazer na minha vida foi defender o meu marido”, disse Rosinha.

Folha da Manhã — Quais são, a seu ver, as chances de Flávio Bolsonaro e Lula na eleição do 2º turno do dia 25?
Anthony Garotinho — Flávio é franco favorito. Tem entre 70% e 80% de chance de ganhar, mas os debates serão decisivos. Os debates terão grande audiências e Lula tem uma experiência muito grande. É lógico que hoje é uma tendência clara do centro para direita. Isso favorece a candidatura de Flávio.
Folha — Os indecisos podem definir?
Garotinho — O número de indecisos foi muito alto no 1º turno. Talvez, no 2º turno, haja uma campanha específica para levar parte desses indecisos, especialmente, os jovens e possa fazer alguma diferença.
Folha — A maioria dos jovens votou em Flávio. Lula só ganhou na faixa etária de 60 anos ou mais.
Garotinho — É, mas esses jovens podem fazer uma diferença se tiver um movimento como está tendo nas universidades. Lula colocou jovens na sua campanha de suas redes sociais
Folha – A governador, como você avalia a eleição de que participou sub judice e definiu, com a nulidade dos seus votos no TSE, para Douglas Ruas ainda no 1º turno?
Garotinho – Houve uma interferência judicial que jamais tinha visto. Eles trabalharam como duas possibilidades: Douglas Ruas ou Eduardo Paes. Eu era um candidato totalmente antissistema. Leia-se por sistema um pedaço apodrecido do tecido do estado do Rio de Janeiro e de todas as instituições. Chamo de podres poderes do Rio que têm infiltração no Ministério Público, nas polícias, no poder judiciário e outros setores. Eles não admitiam possibilidade de eu ser governador porque fiz uma opção. Maquiavel diz que “o cidadão que tenta descumprir as regras do jogo, ele é ingênuo porque ele já perde antes de começar o jogo.” Eu não fui ingênuo. Eu sabia que estava descumprindo acordos que mantém esse sistema do Rio de Janeiro porque é impossível o número de deputados envolvidos com crime, como em outras situações do Rio de Janeiro. E as medidas que precisam ser tomadas não são tomadas. Vou dar um exemplo claro disso. É possível, como ocorreu um fato de 2005, ocorrido no governo Rosinha, que é o programa Saúde em Movimento, que foi usado para me deixar inelegível, ser usado da maneira como foi e um cidadão com (Márcio) Canella (União, ex-prefeito de Belford Roxo e eleito deputado estadual do RJ no domingo), onde o Ministério Público tem todas as denúncias, tem todas as provas, tem registro e eu não tenho. Você deu um registro para (Antonio) Rueda (presidente nacional do União e eleito deputado federal pelo RJ no domingo) com todas as denúncias públicas do envolvimento dele com Vorcaro, onde jantaram para comer bife de ouro. Ou seja, o sistema não me queria. Mas, eles achavam que eu estava inviabilizado por falta de tempo, por falta de recurso, nenhum apoio político. De 70 deputados estaduais, nenhum me apoiando. De 92 prefeitos, só tinha o prefeito de Campos (Frederico Paes, MDB), me apoiando. Dos deputados federais, dos 47, eu só tive o apoio de dois e, assim mesmo, firme mesmo só de um. Então, eles achavam inviável. Quando ocorre o debate da Globo, eu dou um salto de 9 para 19 no tracking interno (pesquisa não registrada) da campanha. O debate foi na terça (29), a pesquisa ficou pronta no final de quarta-feira (30) e a eleição era domingo (4). O que eles entenderam? Ele vai crescer no dia seguinte. Provavelmente, devo ter crescido. Então, na sexta-feira, o ministro (do TSE) Floriano (de Azevedo Marques Neto) volta na decisão que ele tinha dado.
Folha — Ex-colega de turma do ministro do STF Alexandre de Moraes na USP, Floriano teve lobby deste para chegar ao TSE.
Garotinho – Volta na decisão dele (Floriano). Eu passei o sábado (3) e a sexta-feira (2) tendo que explicar que eu era candidato porque de cinco em cinco minutos diziam que o voto não vai valer. Quando chega no domingo, quando eu estou estou votando, às 11h da manhã, no Catete, de uma forma que nunca vi, a fila batia palma para mim. Zona Sul do Rio de Janeiro, todo mundo queria tirar retrato comigo, especialmente os jovens, que não me conheciam, mas diziam: “Poxa, que pena queria tanto votar em você, mas não vou poder”. Quando recebo a notícia que o presidente do TSE (ministro Kassio) Nunes Marques, tinha dado uma decisão para (Deltan) Dallagnol (ex-procurador da Lava Jato que teve a candidatura indeferida por Floriano, depois deferida dor Nunes Marques e acabou eleito senador pelo Paraná), eu ligo para o meu advogado em Brasília e ele entra imediatamente com o mesmo pedido para o Nunes Marques. Nunes Marques só dá a decisão de que os votos seriam validados ou não às 5h da tarde. Já tinha acabado todo mundo de votar. Fechou a urna. As pessoas estavam achando que eu já estava inelegível. Não, meus votos foram considerados inválidos. Mas tenho certeza que isso tudo vai cair porque, quando entrar no mérito da questão através de um recurso que vamos discutir, não tem como sustentar aquela acusação. Eu não fui ordenador da despesa, eu não era secretário, não tem nada contra mim dentro do processo. Assim, apenas, o único ofício que há dentro do processo assinado por mim pedindo, por ordem da governadora, para o Dr. Gilson Cantarino não fazer quarteirização, mas, eles conseguiram desmembrar o processo, o depoimento de quem escreveu o ofício porque nem ofício foi escrito por mim, foi escrito pelo procurador Dr. Francesco Conti. Sou responsabilizado por um ofício que não assinei. Fui eu que assinei, mas não fui eu que redigi.
Rosinha — Mas isso era muito claro porque lá vem dizendo que não era para fazer a quarteirização de mão de obra nem com esta empresa e nem nenhuma outra que pudesse ferir a lei 8.666 na licitação. Estava escrito. Era uma defesa. Mesmo assim ignoraram a defesa.
Garotinho — Você tem muitas maneiras inviabilizar uma candidatura. Eles tentaram primeiro tirando meu vice. Eduardo (Paes, PSD) foi lá e comprou o DC. Depois me deixaram sem fundo partidário. Por cima, acertaram o Marcos Pereira (deputado federal reeleito pelo SP e presidente nacional do Republicanos) para não me dar recurso nenhum para a campanha. Eu tive menos recurso do que os candidato a deputado federal. O teto era R$ 3 milhões, eu recebi R$ 2,3 milhões como candidato a governador. Minha campanha se resumia a duas vans com 15 meninas que rodavam que rodavam o estado comigo.
Folha — O PL fez a maior bancada do Senado e da Câmara Federal. Rogério Marinho é tido como nome certo para presidente do Senado e do Congresso, enquanto Altineu Cortes é cotado a presidente da Câmara.
Garotinho — A informação que eu tenho é que esses são os nomes prováveis. E têm cacife para isso.
Folha — Se Lula conseguir uma virada histórica e se eleger presidente, conseguirá governar com esse novo Congresso?
Garotinho — Não. Com esse atual, já tem dificuldade. Imagina com o próximo. Se o Flávio Bolsonaro, quiser, ganhando a eleição, dar um novo formato ao governo central e os poderes da República, a primeira coisa ele deve fazer é convocar uma nova Assembleia Constituinte para fazer uma nova constituição, porque a Constituição de 1988, a meu ver, ela foi tão desfigurada através das Emendas Constitucionais, as Pecs. Ela hoje é uma Constituição que se diz presidencialista, mas, na prática, é parlamentarista. Que se diz bicameral, Câmara e Senado, mas, na verdade, é tricameral porque quem decide tudo é o Supremo (Tribunal Federal). Ou os Poderes são colocados de novo dentro de suas caixinhas ou nós não vamos ter nunca harmonia entre os poderes.
Folha — Se Flávio for eleito presidente, Moraes continua ministro do Supremo?
Garotinho — Eu achei muito estranho aquele gesto do (ex-presidente) Michel Temer (MDB, que indicou Moraes como ministro do STF) em dar uma declaração que ele vai votar em Flávio Bolsonaro e todo mundo sabe a relação que Michel Temer tem com Alexandre de Moraes. Acho que vai ter um acordo para Moraes renunciar para não ser impichado.
Folha — Que governo espera de Flávio, se ele for eleito?
Garotinho — Eu acho que a necessidade de cumprir as promessas de campanha do PL que foi muito em cima dessa judicialização da política, vai levar um confronto institucional se não houver essa reforma (constitucional). Eu disse a dele (Flávio): “Devolva os Poderes que foram tirados da Câmara, do Senado e do próprio poder Executivo, porque hoje, na verdade, quem manda em tudo, decide em tudo, é o Supremo.”
Folha — O que o senhor espera do governador Douglas Ruas? Tenho informação que a interlocução política dele em Campos teria que ser com o senhor e não com Wladimir. Confirma isso? E como está hoje sua relação com seu filho Wladimir, eleito deputado federal?
Garotinho — Em relação a Douglas Ruas, precisa fazer a leitura correta do resultado da eleição. Ele teve apenas 33% dos votos totais do estado. Isso significa que 67% do estado votou nulo, branco, abstenção ou em outro candidato. Então, ele chega, historicamente, como o governante com o menor apoio popular. Ele teve 50% dos votos válidos, mas 3 milhões de pessoas não foram votar, 650 mil votaram em branco e quase 600 mil anularam o voto. Isso faz com que ele entenda que se ele quiser sobreviver e evitar uma crise, ele tem que ser totalmente diferente de Cláudio Castro (PL, ex-governador que renunciou na véspera de ser cassado pelo TSE), que tem um índice de desaprovação enorme.
Folha — E sua relação política com Wladimir?
Garotinho — Acho que temos visões políticas muito diferentes e comportamentos pessoais bastante diferentes. Então, é natural que ele siga a trajetória dele e eu a minha.
Folha — Mas seu filho está…
Garotinho — É meu filho!
Folha — Ele terá o seu apoio como deputado federal?
Garotinho — Para quê? Para fazer coisa certa, está certo. Para fazer coisa errada, não.
Folha — Ele terá seu apoio nos projetos que apresentar?
Garotinho — Vai depender dos projetos.
Folha — O projeto para classificar clima do Norte e Noroeste Fluminense em semiárido, por exemplo. Que facilitaria acesso a crédito a produtores rurais de 22 municípios das duas regiões.
Garotinho – Esse não é projeto dele. É um projeto que eu já tinha apresentado. Antes disso tudo, foi eu, lá trás, através do trabalho feito por Eduardo Crespo, que era secretário de Agricultura de Rosinha, quando eu era deputado federal. Em 2010, eu apresentei esse projeto.
Folha – Governadora, a última pergunta para a senhora. Como fica nessa relação política e familiar entre por vezes tensa entre o pai, seu marido, e seu filho Wladimir?
Rosinha — É difícil. A gente ter que dividir o coração entre marido e filho, mas eu não passo pano na cabeça.
Folha — Nem do pai e nem do filho?
Rosinha — Nem do pai e nem do filho. Mas o que eu aprendi, o que eu mais aprendi a fazer na minha vida foi defender o meu marido.
