Com Mbappé, o úlltimo tango de Messi na Copa do Qatar

 

Lionel Messi e Kylian Mbappé (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Na primeira Copa do Mundo de futebol em uma teocracia islâmica do Oriente Médio, a final entre Argentina e França ao meio-dia (de Brasília) deste domingo (18), no estádio Lusail, pode decidir mais que o título. Se Lionel Messi ou Kylian Mbappé reeditarem as atuações de gala com que têm brindado ao mundo no Qatar, onde dividem até aqui a artilharia com cinco gols cada, conduzindo sua seleção à conquista, os parâmetros do futebol serão reescritos. Ao apito final na mesma Península Arábica em que o Arcanjo Gabriel revelou o Corão ao profeta Muhammad, 1.400 anos depois, outros fiéis reverenciarão um ungido pelos deuses do futebol. Feito que, neste primeiro quartel do século 21, só terá algo superior na comparação com todos os craques do século 20: Pelé.

OS CAMISAS 10 — Como o Rei brasileiro do futebol, Messi e Mbappé envergam a mítica camisa 10. Na Argentina, foi a de Diego Maradona, campeão e estrela da Copa de 1986, e vice na de 1990. Na França, foi a de Zinédine Zidane, campeão e astro da Copa de 1998, e vice na de 2006. Com suas camisas, a vantagem até aqui é de Mbappé. Messi disputou e perdeu a final da Copa do Mundo de 2014, dentro do Maracanã, com atuação individual apagada na derrota de 0 a 1 para a Alemanha. Mbappé disputou e ajudou a conquistar a última Copa do Mundo, na Rússia de 2018, na final vencida por 4 a 2 sobre a Croácia. Na qual fez o último gol francês, quando tinha 19 anos. E se tornou o jogador mais jovem a marcar numa decisão de Mundial, desde os dois que Pelé meteu, com apenas 17 anos, nos 5 a 2 em cima da Suécia, dentro da Suécia, na final da Copa de 1958.

 

 

COMO FOI EM 2018? — Com a lembrança da Copa da Rússia, a final de domingo no Qatar traz uma curiosidade. Há quatro anos, a França cruzou com a Argentina nas oitavas de final. E mesmo se classificando na fase de grupos aos trancos e barrancos, com uma vitória, um empate e uma derrota, a seleção sul-americana vendeu caro sua desclassificação à europeia que sairia dali para ser campeã. O França 4 a 3 Argentina foi o melhor jogo do Mundial de 2018. Naquele confronto, a vantagem também foi de Mbappé, que sofreu um pênalti, convertido por Griezmann, e marcou outros dois gols, enquanto Messi ficou nas assistências aos de Mercado e Agüero. Mas, na comparação, fica a dúvida: se deu tanto calor à França com uma seleção que não convencia, o que a Argentina poderá fazer agora, no embalo de uma bela campanha e com um Messi até aqui decisivo?

 

 

QUEM VEM MELHOR EM 2022? — Se a França de 2022 é considerada um time mais consistente que a Argentina, inegável que esta chega ao domingo em melhor momento. Os franceses penaram para passar pela Inglaterra nas quartas de final, que só venceram por 2 a 1 devido ao pênalti desperdiçado pelo centroavante Kane. Assim como tiveram contra o bravo Marrocos do lateral-direito Hakimi, pela semifinal, um jogo muito mais duro que o placar final de 2 a 0 pode fazer supor. Por sua vez, os argentinos bateram na disputa de pênaltis (4 a 3) a Holanda do grandalhão Weghorst, em um jogo épico nas quartas, após o empate de 2 a 2 em tempo normal e prorrogação. E passearam por 3 a 0 contra a Croácia copeira do maestro Modric na semifinal, que vinha de eliminar do Brasil. Se, quatro anos depois, los hermanos devolveram a derrota pelos mesmos 3 a 0 que sofreram dos croatas na fase de grupos em 2018, ficou a mensagem subliminar à França no domingo.

 

 

OBRAS DE ARTE — Em termos de atuação individual nas quartas e semifinais, Messi impressionou mais. Muito bem marcado pelo lateral-direito Walker, Mbappé não teve nenhuma participação decisiva contra a Inglaterra. Contra Marrocos, se os dois gols franceses nasceram de jogadas suas, foram bolas rebatidas. Por sua vez, Messi não só marcou de pênalti um gol na Holanda e outro na Croácia, como apresentou obras de arte ao mundo em assistências a gol nos dois jogos. Contra os holandeses, achou espaço no meio de cinco ao lateral-direito Molina. Para, dentro da área, abrir o placar. Contra os croatas, ao tirar para dançar o zagueiro Gvardiol, de 20 anos e o melhor da Copa, antes do passe ao gol do centroavante Álvarez, Messi não fez menos com a bola do que Michelangelo com o cinzel ou Shakespeare com a pena.

 

 

O MELHOR MBAPPÉ — Até aqui, o melhor Mbappé no Qatar se apresentou na vitória de 3 a 1 pelas oitavas contra a Polônia. Além do belo passe para o centroavante Giroud abrir o placar, os dois que o camisa 10 francês marcou depois revelam um futebol de exceção, muito além da velocidade e da explosão que o tornaram temido por qualquer defesa do mundo. Diante da atônita defesa polaca, na entrada esquerda da área, ele meteu seu primeiro gol num petardo de perna direita no ângulo esquerdo do goleiro Szczęsny, um dos melhores da Copa. E marcou seu segundo, terceiro do França, quase do mesmo lugar e da mesma forma, mas no ângulo oposto. Como se a realidade do esporte bretão pudesse ser transformada em brincadeira de futebol de videogame.

 

 

COADJUVANTES DA ARGENTINA — Futebol é um esporte coletivo. E, dos dois lados, há coadjuvantes que podem se tornar protagonistas. Na Argentina, além do já citado jovem centroavante Álvarez, com 4 gols até aqui no Qatar, há a possibilidade do veterano, mas ainda diferenciado atacante Di Maria voltar ao time, se não no começo, no decorrer da partida. Sem contar o jovem volante Enzo Fernández, que acertou o time ao ganhar a vaga de titular na vitória de 2 a 0 contra o México, na qual marcou um golaço, e os meias De Paul e Mac Allister.

 

 

COADJUVANTES DA FRANÇA — Na França, além do já citado centroavante Giroud, com quatro gols como Álvarez, talvez esteja o grande coadjuvante desta Copa: o atacante Griezmann. Que tem jogado de meia e é tão importante taticamente ao seu time quanto Mbappé é tecnicamente. Além deles, vêm de atuações convincentes o atacante Dembélé, o volante Tchouaméni e o lateral-esquerdo Theo Hernández, melhor da posição no Qatar. Mas que terá trabalho na defesa, já que Messi costuma cair pela direita. Como terá o lateral-direito argentino Molina, para tentar marcar Mbappé avançando como bólido pela esquerda.

 

 

BENZEMA E DÚVIDAS DE SCALONI — Após chegar a ir ao Qatar e ser cortado por contusão, apesar de se manter inscrito pela Fifa e de já estar aparentemente curado, chegando a disputar amistoso pelo Real Madrid na quinta (15), a possibilidade do centroavante Benzema jogar a final pela França, mesmo no decorrer da partida, é remota. Do lado argentino, a dúvida mais real é do treinador Lionel Scaloni, que se caracterizou por usar seis escalações diferentes, para se adaptar aos adversários, nos seis jogos da Copa. A definição, que só se dará neste sábado (17), é se ele escalará três zagueiros, ou um volante a mais no meio de campo, para tentar parar Mbappé e companhia.

O MESSI ESPANHOL — Aos 35 anos, na sua quinta e última Copa do Mundo, Messi faz sem sombra de dúvida a sua melhor temporada com a camisa da Argentina. Após sair aos 13 anos do seu país ao Barcelona, que bancou seu tratamento para o crescimento físico, ele cresceu com o clube catalão. Onde, ao lado dos maestros espanhóis Xavi Hernández e Andrés Iniesta, formou um time histórico nas duas primeiras décadas do milênio. Que conquistou 10 Campeonatos Espanhóis, quatro Champions da Europa e três Mundiais de Clubes. Mas sempre foi cobrado por não reeditar o mesmo protagonismo pela seleção albiceleste.

 

 

O MESSI ARGENTINO — Após se transferir ao Paris Saint-Germain (PSG) em 2021, ao lado de Mbappé e Neymar, a história de Messi com a seleção do seu país começou a mudar com a conquista da Copa América em 10 de julho daquele ano. Seu primeiro título pela Argentina veio na vitória de 1 a 0 sobre o Brasil no Maracanã. De lá para cá, não é incorreto dizer que o menino introvertido e criado na Espanha, onde ganhou sete vezes o título de melhor jogador de futebol da Terra, esperou seu último tango para se “maradonizar”. Não no caráter bem distinto dos dois gênios do futebol. Mas na identificação visceral de cada novo espetáculo da torcida argentina no Qatar com quem conduz a dança de dentro do campo.

 

https://www.youtube.com/watch?v=nRPuDEutrOg

 

LIÇÃO DO TANGO — Em 24 de maio deste ano, ao renovar seu contrato com o PSG até 2025, Mbappé declarou: “Quando chegamos à Copa do Mundo, estamos preparados. Brasil e Argentina não têm esse nível, na América do Sul o futebol não está tão avançado quanto na Europa. Por isso nas últimas Copas, se você olhar, são sempre os europeus que vencem”. Filho de um camaronês e uma argelina, com uma Copa do Mundo já conquistada e mais três ainda pela frente, o jovem gênio francês parece tentar o drible do colonizador. Talvez por ignorar os versos do tango mais conhecido do mundo, “La Cumparsita”, de Carlos Gardel: “Volviendo a tu passado/ Te acordarás de mí” (“Voltando ao seu passado/ Você se lembra de mim”).

 

 

(Página 12 da edição de hoje da Folh da Manhã)

 

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