Globos de Ouro de “O agente secreto” e Wagner Moura por Campos

 

Kleber Mendonça Filho, sua produtora e esposa, Emilie Lesclaux, e Wagner Moura com seus Globos de Ouro, entre outros integrantes do elenco e produção de “O agente secreto”

 

Em ano de Copa, o Brasil passa a ser conhecido no mundo não pelas conquistas no futebol, mas do seu cinema. Na noite de domingo, na entrega do Globo de Ouro, em Los Angeles, “O agente secreto”, do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, ganhou como melhor filme em língua não inglesa. Pouco depois, seu protagonista, o baiano Wagner Moura, também venceu como melhor ator de drama. Os dois prêmios reforçam indicações ao Oscar, que saem no dia 22.

Os dois prêmios foram comemorados como gols e vitórias do futebol do Brasil em Copa do Mundo, em residências e locais públicos de todo o país em que brasileiros se reuniram para torcer durante a premiação, transmitida ao vivo em canais abertos e fechados de TV. Coube à atriz britânica Minnie Driver abrir o caminho da noite. Ao abrir o envelope do Globo de Ouro de filme em língua não inglesa, ela saudou o vencedor em português: “Parabéns!”

Ao subir ao palco para receber o Globo de Ouro com parte do seu elenco e produção presente, Kleber disse, em inglês, que queria dizer olá a todos que estão assistindo no Brasil. E os saudou em português, sendo muito aplaudido por isso pelos gringos: “Alô Brasil!” E encerrou: “Dedico este prêmio aos jovens cineastas. Este é um momento muito importante no tempo e na história para estar fazendo filmes nos EUA e no Brasil. Jovens cineastas americanos, façam filmes!”

No Globo de Ouro de melhor ator de drama, bisando o que Fernanda Torres conquistou em 2025 por sua atuação em “Ainda estou aqui”, Wagner Moura foi beijado por Julia Roberts e subiu ao palco dando uma sambadinha com o ator estadunidense Colman Domingo, que apresentava o prêmio. No discurso, ressaltou que “‘O agente secreto’ é um filme sobre memória, ou a falta de memória e o trauma geracional” (retrata a ditadura militar do Brasil no Recife de 1977).

Wagner também terminou seu discurso de agradecimento falando em Los Angeles ao seu público principal. Ao qual também se dirigiu em português: “Para todo mundo no Brasil que está assistindo isso agora, viva o Brasil, viva a cultura brasileira”. Depois da cerimônia, o ator voltou à dança. E comemorou, com seu Globo de Ouro enquanto as indicações ao Oscar não vêm, caindo no samba de “Não deixa o samba morrer”.

Para tentar entender o significado desses prêmios internacionais ao cinema e à cultura do Brasil, e o que mais pode vir pela frente, a Folha ouviu, em ordem alfabética, a atriz Adriana Medeiros, o crítico de cinema Arthur Soffiati, os cineastas Carlos Alberto Bisogno, Felipe Fernandes e Fernando Souza, a atriz Katiana Rodrigues e o cinéfilo Lucas Barbosa:

 

 

Adriana Medeiros, atriz e professora

Adriana Medeiros — “Domingo foi uma noite cheia de holofotes para o Brasil. Momento de celebrar a arte e cultura nacional. Wagner Moura fez e faz história. Sua atuação precisa em ‘O agente secreto’ lhe rendeu o prêmio de melhor ator. Isso não consagra apenas seu talento, mas também a força do cinema brasileiro no cenário internacional. O filme foi reconhecido também como o melhor em língua estrangeira, fazendo os nossos corações vibrarem pelo reconhecimento a nossa arte. Essas são conquistas que honram nossa cultura e reafirmam a potência de nossas narrativas no audiovisual. Axé ao cinema brasileiro!”

Arthur Soffiati, historiador, professor, escritor e crítico de cinema

Arthur Soffiati — “Nos quatro filmes de Kleber Mendonça Filho, é possível avaliar a evolução do roteirista e diretor recifense. Até o premiado ‘O agente secreto’ com dois Globo de Ouro, seus roteiros pareciam escritos com mão pesada. É o que notei em ‘O som ao redor’ (2012), ‘Aquarius’ (2016) e ‘Bacurau’ (2019). No ‘O Agente Secreto’ (2025), contudo, a realidade se cola mais ao que conhecemos. A reconstituição de época de Recife dos anos 1970 é primorosa e um dos pontos altos do filme. A interpretação de Wagner Moura está estupenda. Todo elenco segue a batuta agora segura de Kleber. Tânia Maria é a grande revelação do filme. Os Globos de Ouro de filme em língua não inglesa e ator de drama confirmam os troféus recebidos no Festival de Cannes.”

Carlos Alberto Bisogno, cineasta e tutor IA em química e física

Carlos Alberto Bisogno — “O histórico bicampeonato do cinema brasileiro no Globo de Ouro, primeiro com Fernanda Torres em 2025 e agora com Wagner Moura em 2026, revela uma indústria que amadureceu ao aprender a contar suas histórias para além da barreira das línguas. Seja em ‘Ainda estou aqui’ ou em ‘O agente secreto’, vemos a aposta corajosa em atuações que se expressam mais no silêncio dos gestos do que no texto falado. É assim que tornam universal a percepção de tramas brasileiras, conectando o público global aos nossos traumas e afetos. A palavra torna-se acessório nestas narrativas que se contam no olhar, escolha que me agrada esteticamente. É a prova definitiva de que nossa cultura, quando fiel à sua essência, não precisa de tradução.”

Felipe Fernandes, cineasta publicitário e crítico de cinema

Felipe Fernandes — “O sucesso de ‘O agente secreto’, filme do pernambucano Kleber Mendonça Filho, que conquistou os prêmios de melhor diretor e melhor ator em Cannes e, agora, venceu o Globo de Ouro de filme de língua não inglesa e melhor ator, com possíveis indicações ao Oscar, consolida o cinema brasileiro entre os mais relevantes do cenário mundial. Fortalece uma indústria sólida que gerou, no Brasil, em 2024, mais de 608 mil empregos, segundo dados da Oxford Economics. Empregou mais do que a indústria automotiva. Tão importante quanto esse reconhecimento internacional é a consolidação junto ao próprio público brasileiro. Ainda que a polarização política inviabilize grande parte do debate, de ambos os lados.”

Fernando Souza, cineasta, diretor da produtora Quiprocó Filmes e do Festival Internacional Goitacá de Cinema

Fernando Souza — “A conquista do Globo de Ouro pelo filme ‘O agente secreto’ e pelo ator Wagner Moura representa um marco histórico para a cultura brasileira. Esse reconhecimento internacional reafirma a capacidade do Brasil de produzir obras audiovisuais de alto nível artístico e técnico, capazes de dialogar com públicos e mercados globais. Chamou atenção o fato do diretor Kleber Mendonça Filho ter deixado um recado para que os jovens façam cinema. Essa é uma fala que dialoga e fortalece a pauta da retomada do projeto da Escola de Cinema da Uenf. Para que tenhamos mais jovens fazendo cinema precisamos de mais investimentos em formação de mão de obra qualificada em todas as partes do Brasil, incluindo o interior.

Katiana Rodrigues, atriz e jornalista

Katiana Rodrigues — “É a arte do Brasil no topo. No discurso, Wagner Moura falou de memória. As memórias do horror de um tempo sombrio e nem tão distante de agora. A premiação de Moura é um reforço da importância da arte da interpretação, da arte de cantar, da arte que só pode ser produzida por nós, humanos, ora desumanos, ora imensos de criatividade, afetividade e poder de mudanças. Foi emocionante, foi incrível. Entender que a arte é transformação, é saber que a vida é incrível, que ‘a vida presta’ e vale a pena ser vivida. Entre Mouras e Fernandas, vamos impressionando. De cadinho em cadinho, dijahojinha foi o Globo de Ouro, e quem sabe, neste ano teremos duas copas do mundo? Da arte e da bola. Que venha o Oscar!”

Lucas Barbosa, cinéfilo e graduando em letras

Lucas Barbosa — “Considerado o maior número de indicações para ‘Foi apenas um acidente’ (filme iraniano de Jafar Panahi, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes) e ‘Valor Sentimental’ (filme dinamarquês/norueguês de Joachim Trier), o longa brasileiro não era o favorito ao Globo de Ouro. Que produziu uma nova narrativa. E os discursos de Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura contribuem para isso: ‘Um filme sobre memória, ou sobre a falta dela’ atrai atenção. Não acho que o prêmio faça o longa brasileiro favorito ao Oscar de filme em língua não inglesa, mas o põe em nível de igualdade. Quanto a Wagner, o Globo de Ouro o cacifa a uma indicação ao Oscar. Mas o favorito ainda é outro vencedor do Globo de Ouro, Timothée Chalamet.”

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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