

2026: uma eleição presidencial de favoritismos moderados e divisão moral
Por George Gomes Coutinho
Em entrevista concedida ao jornal Folha da Manhã (confira aqui) após o primeiro turno das eleições de 2026, Anthony Garotinho foi enfático: “Flávio é franco favorito”, referindo-se ao segundo turno da disputa presidencial. Escolho essa declaração de um dos mais relevantes players da história política fluminense como ponto de partida para minha interpretação das eleições presidenciais de 2026.
Confesso, porém, minha perplexidade diante do juízo de Garotinho. No meu nicho, essa percepção não circulou em nenhum momento, nem antes nem depois do primeiro turno. No máximo, falávamos em “favoritismo moderado” em um Brasil moralmente dividido. Explico.
A liderança persistente de Lula em muitas das pesquisas de intenção de voto para o primeiro turno de 2026 pode ser explicada, ao menos em parte, pelo contraste que segmentos do eleitorado estabeleceram entre os resultados concretos do governo Bolsonaro e os do terceiro mandato de Lula. Soma-se a isso a memória da pandemia.
As performances públicas de Jair Bolsonaro, que incluíram imitar pessoas em crise respiratória, banalizar a mortandade e demonstrar ausência de empatia diante do sofrimento humano, estão entre as que podemos adjetivar como repugnantes do ponto de vista moral. Repugnantes, ao menos, na ótica deste que vos escreve e de parte do eleitorado.
Para outra parcela, talvez não passassem de brincadeiras, manifestações de uma personalidade autêntica ou excentricidades. Aprendizados morais distintos explicam essa diferença. De todo modo, tanto os resultados do governo Bolsonaro quanto a atuação do então presidente durante a pandemia constituem heranças políticas que Flávio Bolsonaro, representante do bolsonarismo na disputa de 2026, não pode simplesmente deixar para trás.
Além disso, o presidente Lula se manteve competitivo nas simulações de segundo turno, nas quais figurou em primeiro lugar em diversas sondagens. Nessas simulações, contudo, não foi infrequente que a liderança se alternasse entre Lula e outros representantes do bolsonarismo, fossem eles Tarcísio de Freitas ou Flávio Bolsonaro. Nas pesquisas de segundo turno, portanto, houve maior instabilidade. Lula jamais foi franco favorito e, cabe dizer, Flávio tampouco o é agora. A disputa segue aguerrida, e ela tem raízes profundas.
Permanece válido, consequentemente, o juízo de que não havia espaço para falar em “franco favoritismo”. Alguns classificavam as eleições brasileiras de 2026 como uma “eleição peruana”, em referência a disputas decididas por margens mínimas.
Concretamente, na eleição presidencial brasileira de 2026, a diferença entre Flávio Bolsonaro e Lula no primeiro turno foi de 2,22 milhões de votos, ou 1,87 ponto percentual dos votos válidos. Foi amplamente noticiado que essa foi a menor distância entre os dois primeiros colocados em um primeiro turno de eleição presidencial desde a redemocratização.
Comparando o resultado do segundo turno de 2022 com o primeiro turno deste 2026, há uma espantosa semelhança. Em 2022, a vantagem de Lula, o vencedor, sobre Jair Bolsonaro foi de 2,14 milhões de votos, ou 1,80 ponto percentual dos votos válidos. Concordo com o cientista político Jairo Nicolau: o primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 foi como um terceiro turno de 2022. Só que agora o bolsonarismo ficou em primeiro.
Além dos dados já apresentados, é importante notar que esta é a terceira eleição em que o bolsonarismo se apresenta como força política capaz de organizar a disputa nacional, tendo o petismo como sua nêmese, sua antítese. Se em 2018 havia o elemento surpresa e aquilo que ficou conhecido como “voto antissistema”, agora já não podemos dizer o mesmo.
O PL (Partido Liberal), que se apresenta como abrigo oficial do bolsonarismo, duplicou sua representação no Senado Federal e ampliou sua bancada na Câmara dos Deputados, de 97 para 121 cadeiras. Também passou de dois governadores eleitos em 2022 para seis vitórias nas disputas estaduais já no primeiro turno de 2026. Como se não bastasse, entre as disputas estaduais que seguem para o segundo turno, seis, se incluirmos o Distrito Federal, o PL ainda concorre no Amazonas.
De todo modo, desinformação, manipulação ou desconhecimento, por si sós, talvez sejam insuficientes para explicar as escolhas dos eleitores do 22 e do 13. Eleitores não são dopados morais.
Felipe Nunes e Thomas Traumann mobilizaram a tese da “calcificação” para caracterizar um tipo de intransigência política que marcaria o comportamento de grandes grupos de eleitores brasileiros nos últimos anos. Nesse cenário, a competição se concentraria nos segmentos “não calcificados” ou “independentes”: eleitores potencialmente voláteis, ou pêndulos, suscetíveis tanto a políticas públicas capazes de atender a seus interesses quanto a ondas, discursos, impressões e fatos conjunturais.
Todavia, talvez Nunes e Traumann não tenham explicitado adequadamente os conteúdos morais que podem produzir a “calcificação”. Marcos Nobre, filósofo da Unicamp, parece-me ter explicado, por meio de valores e aprendizados morais, o que está por trás dessa intransigência. Do contrário, os “calcificados” pareceriam apenas fazer birra.
Vou colocar em outros termos o que o professor Marcos Nobre está dizendo: trata-se do que consideramos justo. Vivemos na sociedade pós-Constituição de 1988. Nobre argumenta que os valores que orientam a CF-88 têm por trás um substrato moral que legitima direitos de diferentes naturezas. E essa Constituição, embora seja a nossa base legal, não é propriamente hegemônica em todos os grupos sociais brasileiros.
Há brasileiras e brasileiros que abominam cotas raciais. Consideram-nas injustas, imorais. Há quem considere que amar deva ser determinado pelo sexo biológico. Há aqueles que acham que a natureza está aí para atender a seus desejos de curto prazo. Há outros que consideram que a fé alheia os ofende, e ofende até mesmo o seu próprio Deus.
Enormes frações da população se indignam diante de um Estado de Direito igualitário, inclusivo. Para elas, esse Estado só deve existir para seus iguais. Os diferentes devem ser eliminados, e essas pessoas consideram justo reivindicar esse objetivo. O medo justifica.
Nobre argumenta que não estamos polarizados. Estamos divididos em caminhos moralmente inconciliáveis. E, desde 2018, após três rodadas de eleições gerais, esse é o debate de fundo que organiza os “calcificados”. Um debate surdo, não explicitado e, contraditoriamente, amplamente banalizado na opinião pública.
